quinta-feira, agosto 24, 2006

SE MERECEM

Se o Brasil fosse um país sério, Lula não estaria ainda no cargo. Se estivesse, não se recandidataria. E, recandidatando-se, não estaria liderando as pesquisas. É difícil de entender como um governo e um partido que estiveram envolvidos em tantos e tão fantásticos escândalos, que tiveram seus dois homens-fortes apeados do poder e indiciados, que tiveram sua turma chamada de "quadrilha" pelo procurador-geral que eles mesmos indicaram possa passar incólume. É uma chance para profunda introspecção e auto-análise da sociedade brasileira. O que o sucesso eleitoral da quadrilha diz a nosso respeito?

A responsabilidade, porém, não deve ser dividida de forma equânime. A falência mais inacreditável foi a da oposição. Se a inércia da sociedade surpreende, a inação da oposição espanta. Pois se o nosso mutismo vai contra o espírito público que se espera dos cidadãos de uma democracia, o deles vai contra seus próprios ganhos privados, seu próprio interesse político-eleitoral.

Por que tivemos uma oposição tão situacionista?

Por várias razões. Uma parte é certamente inépcia, de acreditar que os escândalos fariam o estrago por si só. Esperar que um governo com um Orçamento de R$ 1,6 trilhão por ano deite em berço esplêndido e resigne-se com sua própria morte é de um otimismo que nem Freud explica. Outra parte é simplesmente fraqueza. "As elite" do Brasil vêm apanhando retoricamente há tanto tempo que parecem não ter tido coragem de aplicar a lei a um governo dito popular. Compraram a tese de que a conspiração da quadrilha era, em realidade, uma conspiração da direita. E nisso esfolaram a democracia. A essência da democracia não é o voto. É a criação de um arranjo institucional que garanta liberdade e isonomia perante a lei a todos. O respeito a essas instituições vem antes do apego ao voto. É fácil ser democrata chutando cachorro morto. A prova de força de um sistema vem justamente quando ele precisa se deparar com um transgressor poderoso -quer seja o seu poder popular, econômico ou midiático.

E, nessa prova, a oposição conduziu a democracia brasileira à derrota. Substituíram a justiça pela vitória nas urnas. Ao que tudo indica, não terão uma coisa nem outra.

E assim o fazem porque seu apreço pela democracia é tático. Subjugam-no ao cálculo político do momento. Suas omissões não são tão graves quanto as comissões dos que estão no poder, mas confirmam no eleitor a impressão de que os políticos só advogam em benefício próprio.

Assim, reforçam a mais nefasta das conclusões que pode se abater sobre uma pólis: a de que todos são iguais e ninguém presta, e que, portanto, o engajamento político de cada cidadão é totalmente irrelevante.

Se os capitães da nau abandonam o barco na tempestade, o que esperar dos marujos?

Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (EUA)

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