domingo, agosto 20, 2006

Chávez pode influir no pós-Fidel

Poucos dias antes de o problema de saúde de Fidel Castro dominar as manchetes, o líder cubano foi o convidado-surpresa do presidente venezuelano, Hugo Chávez, numa cúpula sul-americana na Argentina. Os dois líderes viajaram juntos para visitar a casa de infância do ícone revolucionário Ernesto Che Guevara. Chávez pareceu comovido pela visita: “É uma honra estar aqui, caminhando pela história.” Mas ele já havia se juntado a Che onde isto mais conta - nos outdoors em Havana, onde o governo cubano reverencia seus heróis.

Chávez é de fato um herói em Cuba, especialmente para seu velho líder. Nos últimos sete anos, tornou-se o principal benfeitor econômico e parceiro político de Fidel. Essa relação tem provocado receios entre políticos americanos de que Chávez possa se imiscuir na transição pós-Fidel. Não há dúvida de que ele tem cacife em Cuba para poder influenciar a escolha do próximo líder da ilha - e sua bênção certamente será crucial para o êxito ou o fracasso do próximo governo cubano. Se usará sua influência, ninguém sabe, e Cuba, claro, é uma nação soberana. Mas os EUA temem que ele inverta a sabedoria convencional de poucos anos atrás, quando o líder venezuelano era visto como uma criação de Fidel.

As fontes do cacife potencial de Chávez na transição cubana são múltiplas. A mais importante é o pacto “petróleo por serviços” que ele e Fidel assinaram em outubro de 2000 e continua se expandindo. Cuba recebe mais de 90 mil barris de petróleo por dia da Venezuela com taxas de financiamento favoráveis em troca de deslocar 20 mil médicos para a Venezuela. Embora a presença de médicos cubanos tenha aprofundado o apoio a Chávez entre os pobres de seu país, o arranjo também rendeu benefícios extraordinários a Fidel. Nos últimos seis anos, os preços do petróleo mais do que triplicaram, passando de US$ 20 para US$ 76 por barril. Com isso, Cuba não só evitou o choque da alta do petróleo, como teve um modesto crescimento econômico. Em 2005, o comércio entre os dois países alcançou US$ 2,5 bilhões, incluindo US$ 1,8 bilhão em vendas de petróleo venezuelano a Cuba com planos de financiamento adiados - e o não pagamento por Cuba é a norma.

A profunda cooperação de Cuba e Venezuela em segurança e inteligência nos últimos anos também contribui para a influência de Chávez na ilha. Chávez abraçou a doutrina militar cubana, que inclui o desenvolvimento de uma força reservista venezuelana com 2 milhões de membros para fazer frente a uma suposta ameaça de agressão americana. Novas leis dão a agentes cubanos ampla liberdade para conduzir atividades de segurança na Venezuela, e o pessoal militar venezuelano tem cultivado fortes laços com seus colegas cubanos. No futuro, o espectro de uma intervenção militar venezuelana em Cuba - ainda que improvável - diminui ainda mais o já desprezível entusiasmo de oficiais dos EUA por uma aventura na ilha.

Além dos outdoors, a mídia estatal cubana cobre Chávez como se ele fosse membro do gabinete de Fidel. Bandeiras cubanas e venezuelanas aparecem juntas com freqüência em cerimônias oficiais, e os milhares de venezuelanos que visitam Cuba para tratamento médico ou treinamento ideológico enfatizam a união dos dois líderes. O irmão mais velho de Chávez, Adan, que até este mês era embaixador em Havana, abandonou muitas das funções diplomáticas de que outras embaixadas dependem para se comunicar com o governo cubano porque já tinha acesso direto aos mais altos escalões.

Durante visita a Caracas no fim de 2005, Carlos Lage, vice-presidente de Cuba e eventual sucessor de Fidel, causou espanto ao declarar: “Temos dois presidentes: Fidel e Chávez.” Hipérbole, sim. Mas ele seguramente queria comunicar a gratidão pelo apoio contínuo venezuelano.

Além de mais de um terço dos médicos de Cuba, a Venezuela abriga milhares de educadores, treinadores esportivos e agentes de segurança cubanos. Esses indivíduos são uma porcentagem significativa do bem treinado capital humano que representa a jóia da coroa da revolução socialista de Cuba. Quando Fidel morrer, Chávez terá de decidir sobre como lidar com esses cubanos na Venezuela. Se os enviar para casa, poderá não haver trabalho para eles, o que seria fator de desestabilização social.

Os EUA não têm muitas ferramentas para se contrapor a Chávez em Cuba. Num recente relatório, o governo Bush concluiu que “o atual regime em Havana trabalha com governos ideologicamente afins, em particular com a Venezuela, para construir uma rede de apoio político e financeiro para evitar qualquer pressão externa por mudança”. Depois que a cirurgia de Fidel foi tornada pública, Washington prontamente descartou qualquer diálogo com o novo governo cubano e persistiu na política de sanções que deixou os EUA sem qualquer influência efetiva em assuntos cubanos. Mas a ansiedade dos EUA sobre a influência da Venezuela numa Cuba pós-Fidel ilustra o quanto Chávez ocupa o centro do palco na política americana para a América Latina. Nos últimos anos, os EUA elevaram a estatura de Chávez de fenômeno político estritamente venezuelano a uma ameaça continental cujas manobras são responsáveis - corretamente ou não - por cada fato contrário aos interesses americanos. Ele, e não Fidel, é o presumido bicho-papão hemisférico por trás da ascensão de movimentos de esquerda na América Latina.

O molde de Fidel para uma liderança latino-americana cativou Chávez desde seus primeiros dias no poder. Chávez aprendeu com Fidel como construir uma base de poder virtualmente indestrutível em casa enquanto ganha amigos e admiradores mundo afora. O mais importante, Fidel mostrou que cruzar espadas com os EUA pode ser boa jogada de carreira. Enquanto os EUA detectam a mão de Chávez na escolha do próximo líder de Cuba, o venezuelano pode estar apostando que desafiar os EUA vai beneficiá-lo também.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
*Daniel P. Erikson é especialista do Diálogo Interamericano em política dos EUA. Escreveu para ‘Los Angeles Times’

Nenhum comentário: