terça-feira, dezembro 13, 2005

A mentira e suas variantes

Jarbas Passarinho

Montaigne, ao seu tempo, escrevia que os gramáticos faziam uma diferença entre dizer uma mentira e mentir: 'Dizer uma mentira é dizer uma coisa falsa que a gente crê verdadeira, ao passo que mentir é falar contra a própria consciência.' Nos dias atuais há quem identifique o dizer uma mentira com a 'mentirinha carioca', que não causa dano algum.
Responder a um convite que não se quer aceitar, por exemplo, alegando 'compromissos anteriores'. Há, porém, a mentira de quem fala contra a própria consciência pretendendo estar dizendo como verdade o que sabe que não o é. Não faz muito, num elevador, uma senhora respeitável disse que eram tolos os que acreditaram terem os americanos chegado à Lua, pois não passava de montagem de computador. A porta do elevador se fechou sem que eu pudesse retrucar à ilustre senhora que milhões de pessoas viram, na TV, Neil Armstrong andar na superfície deserta da Lua, no tempo em que os computadores não dispunham da tecnologia de hoje.
Semelhante a isso foi o presidente do Irã negar o Holocausto, provado, e os campos de extermínio, filmados quando os Aliados chegaram a eles, após vencerem o nazismo.
Muito mais grave é a mentira dos que falam em desacordo com o que sabem, comprometendo a própria consciência. Uns, porque a memória é fraca. Daí se dizer que consciência tranqüila às vezes é falta de memória. Outros, porque a memória é mais prolixa do que a imaginação. É o que se passa atualmente no Brasil, desde que a TV mostrou Waldomiro Diniz extorquindo modestamente 1% para si mesmo, ao negociar vantagem que envolvia dinheiro público.
Tratava-se do subchefe da Casa Civil, um amigo íntimo do então poderoso ministro José Dirceu, com quem partilhara o apartamento funcional ao tempo em que o ministro era deputado federal. O flagrante mereceu do bondoso Waldomiro a versão de que o modesto 1% não era para si mesmo, mas para socorrer financeiramente um amigo que, como dizia dos moribundos o padre Antonio Vieira, estava 'em artigo de morte'. Generosidade que, morto o amigo, negou a viúva a versão caridosa. O prestígio do assessor fraterno do ministro José Dirceu foi, porém, tão grande que, peculatário, foi demitido honrosamente a pedido, e não a bem do serviço público, como ocorre devidamente com os deserdados do poder.
A mentira veio a ter muitos seguidores, a começar pelo diretor dos Correios flagrado ao receber e embolsar R$ 3 mil, mostrados na TV. A propina, fez crer, dela não se beneficiara, pois pertenceria a uma cota do PTB. Era, apenas, um intermediário, agindo pelo bem da causa nobre de arrecadar dinheiro público para a tesouraria do partido que apoiava o governo. O PT defendia-se dizendo que nem um nem outro pertenciam ao partido da estrela vermelha.
Depois da sucessão de escândalos que abarrotaram a choldra do caixa 2, agora já se tratava de preeminentes próceres petistas, supostos defensores imaculados da ética. A Lula, alçado à Presidência da República, caberia lavar, como Hércules, as sujas cavalariças deixadas pelos antecessores antiéticos. Indignado, o presidente bradou: 'Fui traído!' Pobre presidente, sem nada saber, traído pelo seu entourage associado a Marcos Valério, o rei Midas que transformou em ouro a tesouraria de Delúbio. Meses funestos para o presidente, um líder que veio do segmento mais baixo da população brasileira. Torneiro mecânico, já fora traído pela máquina que lhe roubara um dedo, no acidente de trabalho, culpa da empresa capitalista, no afã de produzir mais lucro, insensível à dignidade da vida humana e à segurança no trabalho. Em seu auxílio, o honesto Tarso Genro assumiu interinamente o espólio disposto a 'refundar o PT'. Brava confissão do síndico da massa falida.
Na política, é regra o criador ser traído pela criatura.
Sem uma palavra de confirmação, Roberto Jefferson identificou na criatura o então ministro José Dirceu. Em defesa de Lula, intimou: 'Sai daí, Zé. Você está comprometendo um homem bom.' A imediata exoneração de Dirceu deu a impressão de que Jefferson acertara na mosca, ainda que o presidente, ao despedir-se do auxiliar, lhe haja dirigido carinhosas palavras seguidas ao vocativo 'querido Zé'. Dava para imaginar a mágoa, pois, como canta Milton Nascimento, 'amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito'. Júlio César, traído e apunhalado no Senado romano, agonizante, ainda exclamou: 'Até tu, Brutus?!' Abandonado pelo Palácio, Dirceu foi cassado. Entrevistado, disse ser Lula uma pessoa difícil e seu governo, acabado. Bem antes dizia que tudo o que fazia era do conhecimento de Lula. Logo, este se obriga a dizêlo inocente. Do contrário, teria sido conivente, como acusam os poucos que falam em impeachment.
Sem poder defender-se da enxurrada de escândalos revelados pelas CPIs, ressuscita a teoria do golpismo. Lula lembra a deposição fugaz de Hugo Chávez pela elite venezuelana. Aqui Lula tem excelentes relações com as elites: o Congresso; quase todos os governadores; o patronato, especialmente os bancos logrando lucros sem igual no passado; a Igreja; a mídia, notadamente a televisão. E conta com o respeito dos militares disciplinados, nos seus quartéis. Decepções são gerais, mas não passam disso.
De onde viriam as forças golpistas que levaram o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) a lembrar que nos últimos 60 anos nenhum presidente chegou ao fim do mandato? Parafraseando Marx, um fantasma ronda o PT: o da invenção do golpismo. Deveria ter, sim, vergonha da série interminável dos escândalos escabrosos que enlameiam este país e nos revoltam há mais de sete meses.?
Golpismo? Deviam é se envergonhar dos escândalos que enlameiam o País

Jarbas Passarinho, ex-presidente da Fundação Milton Campos, foi senador pelo Estado do Pará e ministro de Estado

Por falar em golpismo

Clóvis Rossi para a FSP
HONG KONG - O presidente Lula está certíssimo ao falar de "golpismo". Mas está erradíssimo no timing. O golpe, presidente, foi dado faz pouco mais de três anos e anunciado nesta Folha por um certo George Soros, megainvestidor ou megaespeculador, ao gosto de cada qual.
O golpe veio numa frase de Soros: "É Serra ou o caos". Foi no início de junho do ano eleitoral.
Como não deu Serra, deu o caos ou, ao menos, fortíssima turbulência, registrada neste mesmo espaço graças às preciosas estatísticas que Mauro Zafalon compila: entre a frase de Soros e as imediações da posse de Lula, em janeiro de 2003, o dólar subiu 35%, o risco-país cresceu 20%, os juros tiveram uma elevação de 7 pontos percentuais e a inflação multiplicou-se por 14.
Esse é o tipo de golpe que se dá hoje em dia. Apertando teclinhas de computador nos centros financeiros em vez de botar tanques nas ruas.
José Dirceu, então presidente nacional do PT, reagiu à previsão de Soros com a acusação de que era uma "chantagem". Era. Deu certo.
A vítima, Luiz Inácio Lula da Silva, rendeu-se. Basta recuperar outro texto da época, manchete de "O Globo": "Lula põe banqueiro do PSDB no BC e mercado ainda desconfia".
Esse e tantíssimos outros dados apenas confirmaram a tese que Soros expôs então: "Na Roma antiga, só votavam os romanos. No capitalismo global moderno, só votam os americanos, os brasileiros não votam". Os brasileiros até votaram, contra Soros ou o candidato que Soros preferia, mas o voto acabou anulado, porque o preferido do eleitorado ficou do lado dos golpistas.
Faz a política dos golpistas a tal ponto que todos os indicadores (dólar, risco-país, inflação e até os juros) voltaram aos níveis pré-golpe.
A diferença, pois, com o golpismo convencional é que Lula não foi deposto. Depôs suas bandeiras, na discutível hipótese de que as tivesse de fato, e se tornou um falastrão de irrelevâncias.
@ - crossi@uol.com.br

domingo, dezembro 11, 2005

Elio Gaspari

Mistério companheiro
Acreditando-se em tudo o que dizem o PT e a empresa têxtil Coteminas, de propriedade do vice-presidente José Alencar, os companheiros fizeram uma encomenda de R$ 2,7 milhões de camisetas ao preço de R$ 12 milhões.

Nessa conta, cada camiseta saiu por R$ 4,40. Um veterano de campanhas eleitorais assegura que nunca pagou mais de R$ 3.

Natasha em Brasília
Madame Natasha não recebe seu mensalão nem ganha camisetas, mas trabalha de graça pelo idioma. Concedeu uma de suas bolsas de estudo ao doutor Paulo Bernardo, pelo português rudimentar da placa de seu carro oficial. Ela diz o seguinte:

“Ministro Estado - Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão”.

Natasha acredita ministro não leu placa carro.

Cesta na manga
Lula tem uma carta na manga. Em maio do ano que vem ele poderá propor um sólido aumento do salário-mínimo, coisa de 20%, elevando-o para R$ 360, equivalentes a US$ 160. Será inferior aos R$ 384 aprovados no Senado em agosto pela oposição. O reajuste permitirá que o PT diga: recebemos o governo com um salário-mínimo que comprava 1,2 cestas básicas. Agora ele compra 1,7 cestas.

Se a oposição resolver brigar, terá um péssimo precedente. Aderirá com 52 anos de atraso ao Manifesto dos Coronéis, assinado em 1954 contra o reajuste determinado por Getúlio Vargas.

Fala, Dirceu
Na sua entrevista à “Fórum”, José Dirceu repetiu uma frase da esquerda chilena, trazida para a defesa de Lula pela professora Maria Conceição Tavares:

“É um governo de merda, mas é o meu governo.”

Tudo bem, o governo é deles. E o resto da piada, fica para quem?

(A entrevista, dada aos repórteres Renato Rovai, Frédi Vasconcelos, Glauco Faria e Eduardo Maretti, é a melhor peça produzida por uma cabeça petista desde que a crise começou. Quando não convence, revela.)

Frei Gushiken
Acusado por Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, de manipular verbas de publicidade da empresa, o comissário Luiz Gushiken acusou-o de ser um “confuso por natureza”.

Se o tivesse chamado de mentiroso, teria crédito.

O comissariado petista insiste em se comportar com o recato dos frades sempre que algum companheiro conta o que acontecia no convento renascentista em que transformaram o governo.

O risco Palocci de credibilidade
Antonio Palocci tornou-se um título de baixa credibilidade. Três episódios ocorridos em menos de um mês mostram isso. Relacionam-se com sua credibilidade econômica, política e pessoal.

Começando pela economia. No dia 11 de novembro, falando no Senado, Palocci disse o seguinte:

— Nós estamos entrando neste momento — não tenho nenhuma dúvida de afirmar isto — em um dos mais importantes e longos ciclos de crescimento que a economia brasileira experimentou nas últimas décadas. Ele se iniciou no segundo semestre de 2003, apresenta crescimento do processo de produção há oito trimestres consecutivos.

Dezenove dias depois, o IBGE divulgou que no terceiro trimestre, aquele que terminara em setembro, o PIB contraíra-se em 1,2%. Palocci não mentiu aos senadores, apenas propagou o triunfalismo de “Nosso Guia”.

Na mesma reunião o ministro disse que “não me furtarei, em qualquer instância que for, a prestar o esclarecimento que for necessário”. Repetiu o raciocínio mais duas vezes, recorrendo sempre ao incômodo verbo furtar. Convidado a comparecer à CPI dos Bingos, furtou-se. Em seguida, manobrou o furto de sua convocação. Vale lembrar que, convocado, não poderia furtar-se. Quem acreditou na cleptomania verbal do ministro comprou um mico.

Palocci chutou sua credibilidade pessoal quando desmentiu que tivesse voado num avião-companheiro. Disse assim: “Fala-se também que eu utilizei um avião particular para ir a uma feira na minha cidade (...). Ofereci aos órgãos de imprensa uma comprovação da FAB, (…) mas infelizmente não fui ouvido.” Foi ouvido. Seu desmentido de que tivesse usado o jato Citation do empresário Roberto Colnaghi para ir ao Agrishow em Ribeirão Preto foi publicado na “Folha de S. Paulo”. Nele Palocci dizia que “não pegou carona no avião”. Não pegou naquela ocasião. Colnaghi admitiu que Palocci usou seu avião para fazer o percurso Brasília-Ribeirão Preto-Brasília em companhia de José Genoino, então presidente do PT. Genoino confirmara à repórter Catia Seabra que “fiz essa viagem a convite de Palocci”. O ministro sempre poderá dizer que não foi ao Agrishow no avião que em 2002 fora usado para transportar as misteriosas caixas confiadas a Vladimir Poleto.

Isso não reduz a questão central: como ministro, Palocci usou o avião de Colnaghi para brincar de dono dos ares.

Em nenhum dos três casos Palocci mentiu. O problema não é dele, é das pessoas que nele acreditam. Ficou difícil para Palocci se submeter ao teste universal de credibilidade: uma relação de confiança é iníqua sempre que é melhor não confiar do que confiar.

O fator Rebelo de astúcia

Odeputado Aldo Rebelo assegurou seu lugar na história do Parlamento. Sob sua presidência irá à votação nesta semana a marmota da Emenda Constitucional que reabre o varejão das aliança$ eleitorai$.

O texto vindo do Senado, datado de junho de 2002, diz assim:

“Esta Emenda Constitucional entrará em vigor na data de sua publicação, aplicando-se às eleições que ocorrerão no ano de 2002.”

Ou seja, os doutores legislam sobre um pleito que já ocorreu. Parece apenas uma distração de redator. É uma punga.

O projeto aprovado pelos senadores em 2002 encalhou na Câmara. Virou múmia. Ressuscitaram-na porque, se os deputados corrigissem a data para 2006, a Emenda deveria voltar ao Senado para nova votação. Sob a presidência de Rebelo, finge-se uma absurda vontade de legislar sobre o que já aconteceu para assegurar conveniências que estão acontecendo.

Aprovada a emenda, qualquer deputado poderá pedir um destaque, suprimindo a data.

Fala-se muito do senador Auro de Moura Andrade (1915-1982), que atrasava o relógio do plenário em votações encrencadas. Rebelo se associou a coisa muito mais criativa. E fez isso ocupando a cadeira onde já estiveram Célio Borja e Ulysses Guimarães.

O governo num boteco do Leblon

— Não, isso eu sei. Nós vivemos numa república democrática e temos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Isso eu sei.

—- Tu quer dizer que tu aprendeu isso na escola. Na prova da escola estaria certo, mas a realidade é completamente diferente.

— Como é completamente diferente? Nós temos os três poderes. Tem até a praça deles, lá em Brasília.

— Chute, tudo chute, papo pra otário que nem tu. Metem na cabeça do sujeito certas coisas, ele se acostuma e nem vê que a realidade não é assim.

— Quem não vê é você. Você pode não gostar do governo, mas que tem Executivo, Legislativo e Judiciário você não pode negar. E te explico até mais, eu fui bom aluno de Organização Social e Política do Brasil. São poderes separados e cada um tem sua função. O Executivo executa as leis, o Legislativo faz as leis e o Judiciário aplica a lei aos casos em disputa.

— Bonito, muito bonito. E é assim que funciona?

— É, sim. Qualquer um pode ver. O Executivo...

— Executa as leis que quiser, as que não quiser não executa.

— Não, isso não, executa. Bem ou mal, executa.

— Não executa direito nem o que está na Constituição! Não interessou, não executa nada. Além disso, ele manda lá onde ele pode. Com banqueiro, por exemplo, não manda nada a não ser para pagar juros eternamente.

— Não, isso é sua maneira de ver as coisas, que eu já conheço. Eu repito que você pode não gostar do governo, mas que o Executivo executa as leis, isso para mim ninguém pode contestar.

— Executa, executa. Manda ele executar alguma coisa que desagrade os banqueiros. Ele nem discute. E quem chefia o Executivo?

— Lula, o presidente.

— Lula faz os discursos. Nesse ponto eu entendo até a amizade dele com o Bush, toda vez que se encontram só faltam ficar aos beijos e abraços. Aí, depois dos agrados, eles saem discursando que são isso e são aquilo e que fazem e acontecem. Pode até ser assim lá com o Bush, mas aqui o presidente nem faz nem acontece, a não ser viajando. E, assim mesmo, olhe lá.

— Olhe lá, não, essas viagens podem até ser exageradas, mas muitas delas são importantes para estabelecer ligações, abrir mercados...

— Você não me mostra um tratado, um acordo, uma vantagem, nada, é tudo gogó! Até agora as viagens só renderam viagens mesmo e ele faz qualquer negócio pra sair de Brasília, até a chupeta inaugural de uma creche em Xique-Xique ele é capaz de ir lá para botar na boca do neném e, se deixarem, bota uma chupeta na boca também, como faz com os bonés e as camisetas que enfia a qualquer oportunidade. Está na cara que o Executivo não executa nada e, se executa, não é com ele. Com ele é o discurso. E com o pessoal dele é o Legislativo.

— Como assim, não entendi nada.

— O Legislativo, seu bendito Legislativo. O Legislativo aqui é com o Executivo.

— Tu já deve estar de porre, como é que são feitas as leis, não é no Le-gislativo?

— Absolutamente. É no Executivo, é na medida provisória. Como o presidente não entende nada do que vão fazer, nem quer entender, escrevem uma medida provisória, ele pergunta o que é em poucas palavras e manda ver. Ele disse que nunca iria abusar da medida provisória e desceu a lenha no FH por causa delas, mas agora todo dia tem uma medida provisória ou mais. Por conseguinte, você não está certo. O Legislativo não legisla. E inclusive nem tempo tem, trabalhando do jeito que trabalha e agora se ocupando em investigar a trambicagem e aparecer bem na tevê. O Espetáculo da Trambicagem está rolando que parece que nunca mais vai acabar, todo dia pinta uma novidade.

— Vamos dar de barato que você tenha razão, mas o Judiciário?

— Que é que tem o Judiciário? É a mesma coisa. Agora é que eu vou ver se tu estudou mesmo. Qual é a característica do Judiciário que torna ele diferente dos outros poderes? Essa tu tem que ter aprendido também. Mas tu tá com cara de que não se lembra, então eu te lembro. O Judiciário, de modo geral, só funciona se provocado, sacou? Ou seja, ele fica lá parado, até que alguém não concorda com outro alguém e pede uma decisão. Se for o Zé Dirceu, a decisão sai logo, se for eu, pode chegar ao cinqüentenário de meu neto mais novo. Mas é assim que ele funciona. É assim que ele funciona aqui?

— Bem, que eu saiba é, não é?

— Como é que diziam antigamente? Tu tá mais por fora que umbigo de vedete, cara. Eu te conto um troço que meu sogro me falou. Ele é advogado e advogado sério, nunca andou roubando cliente e defendeu muito pobre, é um homem muito correto. Ele me disse que é verdade consagrada na prática do Direito que o juiz só fala nos autos, sacou? Nos autos! E aqui o presidente do Supremo deita toda hora falação, outro ministro fica confraternizando com advogado de defesa, dizem que, pelo jeito, um deles está fazendo campanha, onde já se viu isso? Por muito menos, nos Estados Unidos, já tinha neguinho pedindo impeachment, aquilo ali era pra ser um lugar sagrado, inatacável. Juiz da Suprema Corte americana nem entrevista dá, eles se compenetram.

— É, pensando bem...

— Pensando bem, mais uma vez a Europa se curva ante o Brasil, foi aqui que nasceu a esculhambocracia.

JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

sábado, dezembro 10, 2005

Observatório da imprensa (2)

Diogo Mainardi
Observatório da imprensa (2)

"Dines é pago para pontificar a respeito
da imprensa. Ele acusa a imprensa de estar
tomada por jornalistas da Opus Dei, mas não
tem coragem de identificá-los. É por isso que
tenho 'horror às esquerdas'. Porque elas
mentem. Porque elas enganam. Todas elas"


Dedurei um punhado de jornalistas lulistas na coluna da semana passada. Um dos citados foi Alberto Dines. Ele respondeu o seguinte:

"O pitoresco caçador de bruxas [eu] tem horror às esquerdas. Mas já que pretende denunciar o comprometimento político dos jornalistas conviria que não perdesse de vista o avanço da Opus Dei na imprensa. Inclusive onde ele próprio atua."

Mandei uma mensagem a Dines. Pedi-lhe uma lista com o nome de todos os jornalistas ligados à Opus Dei. Prometi publicá-la integralmente em minha coluna. Ele me aconselhou a ler seus artigos sobre o tema. Eu li. Num deles, Dines comete a ousadia de associar a Opus Dei ao símbolo da loja Daslu. Mas não cita o nome de nenhum jornalista. Insatisfeito, mandei-lhe outra mensagem, reiterando o pedido de uma lista com nomes. Dines desapareceu. Ele é pago para pontificar a respeito da imprensa na televisão pública, na rádio pública, na internet, nas universidades. Ele acusa a imprensa de estar tomada por jornalistas da Opus Dei, mas não tem coragem de identificá-los. Eu apontei o nome de uns pelegos lulistas na imprensa, e fui considerado um espertalhão leviano em busca de reconhecimento.

É por isso que tenho "horror às esquerdas". Porque elas mentem. Porque elas enganam. Todas elas. Do stalinismo quercista de Fernando Morais ao onguismo endinheirado de Gilberto Dimenstein, do comunismo de batina de Marcelo Beraba ao populismo futebolístico de Juca Kfouri, do desbunde teatral de Nelson de Sá ao lobismo piantellano de Mario Rosa. O lulismo roubou muito mais do que o collorismo. Cláudio Humberto, assessor de imprensa de Collor, até hoje é perseguido por seus colegas. Os jornalistas que se subordinaram a Lula devem receber o mesmo tratamento: André Singer, Ricardo Kotscho, Eugenio Bucci.

Dines se atribuiu o papel de autoridade em matéria de jornalismo, mas usa um critério rasteiro para julgar meu trabalho: o número de cartinhas que recebo semanalmente dos leitores. Como se eu fosse um galã de telenovela. Quando recebo muitas cartinhas, ele me acusa de sensacionalismo. Quando recebo poucas cartinhas, ele comemora, garantindo que minha carreira está acabada. O principal argumento de Dines é que, se eu continuar a falar mal do Lula, cairei no esquecimento. É um jeito malandro de me aconselhar a mudar de assunto. O recado intimidatório não vale só para mim, mas para todo o resto da imprensa. Dines quer demonstrar aos jornalistas que o público não agüenta mais seguir a cobertura do mensalão, ou da propina da Leão & Leão, ou do assassinato de Celso Daniel, ou do pagamento à Coteminas. Claro que é mentira. Claro que é uma manobra desonesta para abafar a crise. O que o público não agüenta mais é o próprio Lula. Os leitores não estão enjoados do noticiário político – estão enojados. Pouco tempo atrás, um artigo de um fanfarrão como eu podia bastar para eles. Já não basta mais. Eles querem os lulistas no tribunal. Eles querem os lulistas na cadeia.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

O Poder da Oração

Plínio Sgarbi

Li num artigo de uma amiga, um episódio narrado no capítulo doze do livro Atos dos Apóstolos que diz que Pedro estava na prisão e os judeus alegravam-se com isso. Esperavam que se desse com ele o mesmo ocorrido a Tiago, irmão de João. A intenção de Herodes era apresenta-lo ao povo depois da Páscoa, entretanto, a Igreja orava continuamente por ele a Deus. E o que aconteceu? Um anjo do Senhor foi enviado com a missão de libertar o apóstolo.
Pois é, isso aconteceu a fim de que Deus pudesse manifestar todo o seu poder, mas ele contou com a oração de muitos intercedendo em favor do apóstolo.
Talvez, imaginamos que isso só acontecia naquela época e que hoje em dia a oração nada pode fazer.
Ledo engano.
Da população carcerária de hoje, 8% são ateus e a maioria absoluta passaram ao longo de um determinado tempo implorando e pedindo a Deus por meio de rezas bravas e orações, uma janelinha para a liberdade.
E não é que as preces desses bandidos foram atendidas !
O "anjo" presidente da República acaba de baixar o Decreto n.° 4.904, datado do dia primeiro do corrente mês, para perdoar ou comutar as penas de milhares de criminosos condenados pelo Brasil afora.
Esses indulto natalino, como os demais, páscoa, dia das mães, dia dos pais e o escambau, são verdadeiros sinônimos de impunidade.
Um facínora quando preso recebe mais amparo e dedicação estatal do que qualquer operário ou camponês e ainda, criam mais e mais benesses para bandidos.
Com mais esse insulto e trágico fardo imposto à sociedade, o indulto de natal contemplará centenas de bandidos com a liberdade, colocando em risco a vida de cidadãos honestos e ordeiros pagadores de impostos.
Aos bons cidadãos ateus e aos que enxergam a vida como a areia da ampulheta que escorre inexoravelmente pela fenda, restam apenas torcer para a boa sorte.
Aos bons cristãos cidadãos que crêem na promessa da vida eterna, restam, a exemplo dos bandidos, a oração, pedindo graças ao céus que seu natal e de toda a sua família seja de muita paz e alegria.
Nesse Natal, com milhares de bandidos soltos e andando por aí, desejo que instinto de sobrevivência que temos, não precise apelar para a violência.
Boas Festas...

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Como crianças, índios e loucos

Por Ricardo Noblat em 07/12/2005

Lula protagonizou, hoje, um inesquecível show de cinismo ao falar sobre o ex-deputado José Dirceu e o escândalo do mensalão em entrevista a emissoras de rádio. Fez afirmações do tipo:

* "O Zé Dirceu acaba de ser cassado. Vocês podem me dizer qual acusação que foi provada contra o Zé Dirceu? Não foi provado";

* "Houve crime eleitoral de caixa dois, já provado na CPI. Ninguém nega isso" (ao negar o mensalão e outros possíveis crimes);

* "Não sei quem sabia. O companheiro Delúbio Soares assumiu a responsabilidade pelo PT. A direção do PT não tinha porque me comunicar" (sobre a origem dos recursos para sua campanha);

* "Quantas mães e pais têm filhos dentro de casa, praticando delitos, usando drogas, e não sabem? No Estado, por que um ministro tem que saber tudo o que ocorre no território nacional?";

Por último, Lula disse ainda que levará Dirceu para seu palanque, caso seja candidato à reeleição. Como se não fosse. E como se Dirceu admitisse subir no palanque dele. Não admite.

O cinismo está no fato de que Lula só decidiu defender o principal responsável por sua eleição depois que ele foi cassado. Antes, tentou forçá-lo a renunciar. E em seguida lavou as mãos.

Na verdade, está com medo do que Dirceu venha a falar daqui para frente. E da influência dele dentro do PT.

Dirceu foi para o matadouro como um cordeiro. Para se defender teria de apontar nosso Delúbio como homem de confiança de Lula. Teria de lembrar das vezes que Delúbio foi hóspede de Lula na Granja do Torto. E teria que repetir a frase que um dia cunhou:

- Nada fiz sem autorização e o conhecimento do presidente da República.

Em seu último discurso como deputado, disse algo que de propósito soou dúbio:

- Todos nesta casa (a Câmara) sabem que eu nunca fui o chefe do mensalão.

A frase se perdeu no meio do discurso. Ninguém se interessou em perguntar a Dirceu sobre a identidade do chefe do mensalão. Ele não também não a revelaria. Quer passar para a História como o homem que garantiu com seu silêncio a sobrevivência do governo que ajudou a fundar.

Lula vai morrer negando que o mensalão existiu - assim como nosso Delúbio nega. E vai morrer se fingindo de idiota por nunca ter tido a curiosidade de perguntar sobre as fontes de financiamento de sua campanha.

A desculpa de que a direção do PT não tinha porque lhe informar sobre onde e como arrecadava dinheiro não passa de desculpa - rota, tosca e falsa.

Diante da Justiça, o candidato é responsável pelas contas de sua campanha. O mínimo que se espera dele, pois, é que esteja a par dos números. E da natureza sadia dos números.

Somente os índios, as crianças e os loucos de todos os gêneros são inimputáveis face ao Código Penal brasileiro. Pelo jeito, Lula quer acrescentar uma nova categoria - a dos candidatos distraídos. E também a dos ministros e presidentes que não têm obrigação de saber "tudo o que ocorre no território nacional".

De Lula, esperava-se que soubesse, pelo menos, o que ocorria a poucos metros do seu gabinete de trabalho.

domingo, dezembro 04, 2005

O Bêbado e os Equilibristas

O Bêbado e os Equilibristas


Ternuma Regional Brasília
pelo Gen Div Murillo Tavares da Silva

No deprimente espetáculo das oitivas nas comissões parlamentares de inquérito, em que estão sendo desnudados os mais variados tipos de corrupção praticados por deputados, assessores, dirigentes partidários, empresários, publicitários, servidores públicos e outras figuras, quem acompanha os depoimentos não se cansa de ouvir novas desculpas, novas esquivas, novas respostas criativas. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém encontrou ninguém. Por ali já passaram esposa, ex-esposa, secretária, diretora financeira, cafetina ou promotora de eventos (conforme a interpretação mais ou menos benevolente de uns ou de outros), carecas, cabeludos, gordos e magros, convictos e inconvictos, preparados e despreparados, os frios e os chorões. E nós pensávamos já ter visto todos os tipos possíveis...

Eis que, de repente, aparece alguém com mais uma excelente novidade, ímpar entre tantas mentiras e negaças, mais do que suficiente para inocentar qualquer um de qualquer crime: “ - Eu estava bêbado”. Sim, meus quase enlouquecidos espectadores das audiências, depois de contar a um repórter uma mirabolante viagem de caixas de bebidas, um ex-assessor do Sr Ministro da Fazenda vai à frente de seus interrogadores e disse que a entrevista foi feita quando ele estava embriagado. Apareceu, então, o mais inusitado dos tipos: o pinguço!!! Estaria completa a excêntrica galeria ou seria lícito esperar, ainda, os que têm olho na testa, os que desmaiam em contacto com a criptonita, os que se dirão primos do Harry Potter (daí as mágicas para fazer surgir ou desaparecer milhões de reais e de dólares) ou, mesmo, o que se identificar como Gepetto, imortal criador do Pinóquio ? Desses depoentes das CPI pode-se esperar tudo, até mesmo a incoerência de nos tentar impingir a incrível estória de que entregaram bebidas à guarda de um beberrão confesso.
Não é possível que alguém medianamente inteligente acredite que os outros também medianos vão aceitar que se monte uma operação de logística complicada, com meios de transporte multifários, somente para fazer chegar às mãos de alguém duas caixas de uísque e uma de rum. O custo de um jatinho e mais o de um automóvel blindado usados na operação daria para comprar uma adega inteira, claro que sem aquele vinho de seis mil reais a garrafa de que nosso Presidente da República é devotado apreciador. Não sei se desde os tempos de sindicalista ou só de 2003 para cá...

Enquanto surgem as versões, as mentiras, os habeas corpus, as chicanas, os recursos e os pedidos de vista, a célebre tática de fazer o tempo correr, para que as pessoas se esqueçam dos detalhes criminosos das maranhas, continua sendo aplicada. E, com isso, preservam-se os equilibristas, sem que se saiba por quanto tempo ainda eles sobreviverão. Do Delúbio e do Valério, em relatório parcial, agora pediram o indiciamento e todos sabemos o quanto separa o indiciamento de uma eventual condenação na nossa justiça brasileira. Do José Dirceu, sempre escorado em medidas judiciais, que não ouso comentar porque não sou experto em legislação, já li até que está sendo disputado por universidades norte-americanas para estagiar ou não sei o quê (quando contarem isso para Fidel Castro, ele vai dizer como aquele comediante: ”Tira o tubo ! O meu Zé nos Estados Unidos ? Voluntariamente e ainda ganhando dinheiro ? Não é possível!!!”). Do ex-assessor Poletto, soube que pediram ao Ministério Público providências para seu indiciamento e sua prisão preventiva, porque mentiu diante dos parlamentares inquisidores (e me lembro daquele macaco do programa humorístico que perguntava : “ E os outros ?”). Do Palocci, apesar de seu nome ter sido mencionado tantas vezes, ouço dizer que está exigindo um pronunciamento público do Sr. Lula a seu favor, porque se seus ex-assessores são traíras, como se diz na gíria futebolística, isso não o afeta, mas entestar a D. Dilma Roussef, que já encarou paradas mais arriscadas, não está nos planos dele. Os outros, de menor expressão, como João Paulo, Mentor, Borba, Duda Mendonça, Professor Luizinho, Valdemar Costa Neto, Severino Cavalcanti, o dos restaurantes, o da cueca, o das malas, etc já não interessam à mídia e isso é bom para eles, que se mantêm submersos. Submersos e procurando equilibrar-se...

O que não devemos esquecer, por sua importância em tudo o que estamos vivendo, é o equilibrista-chefe. Ele agora se afasta da tática de alegar ignorância de todos os episódios sórdidos promovidos por seu partido – o PT. Sua nova postura é a da incredulidade. Se antes não sabia, agora ele não acredita. Importante considerar que ele nunca diz que tal coisa não ocorreu; porque, se disser, parece que ele tem conhecimento de outras que podem ter ocorrido. Pouco se lhe dá que seus companheiros de partido venham a afundar, desde que ele mantenha seu equilíbrio instável entre a ameaça de levar uma surra de um senador e o de fazer churrasco para o mais poderoso homem do mundo. Há, pelo menos no meu círculo de amigos, uma inquietação sobre até quando a corda que o sustenta vai suportar o peso de sua incompetência, de sua inapetência para o trabalho, de sua inabalável vontade de afastar-se da curul governamental, para suas viagens de lazer por países amigos ou pelo interior brasileiro. A inquietação é pela vontade de vê-la arrebentada logo. Ao ler, em jornal daqui de Brasília, que o vice José Alencar foi dormir, logo após o primeiro bloco da entrevista recente que o Sr Lula deu ao programa Roda Viva, passei a considerar que ele também não bota fé na corda. Nem vai segurar aquela rede de proteção!

Brasília-DF, 11 de novembro de 2005.

Observatório da imprensa

por Diogo Mainardi

Os lulistas reclamam da imprensa. Não entendo o motivo. Lula já teria sido deposto se jornais, revistas e redes de televisão não estivessem tomados por seus partidários.

Eu acompanho todo o noticiário político. Minha maior diversão é tentar adivinhar a que corrente do lulismo pertence cada jornalista. Não sou um grande especialista no assunto. Não freqüento o ambiente jornalístico. Tenho apenas quatro ou cinco amigos no ramo. E nunca fui de esquerda. Não sei direito quem é quem dentro do PT. Esses pelegos me parecem todos iguais. Mas tenho um bom olho para reconhecer o jargão lulista. Não preciso de mais de uma frase, perdida no meio de um artigo, para identificar um governista infiltrado.

O Globo tem Tereza Cruvinel. É lulista do PC do B. Repete todos os dias que o mensalão ainda não foi provado. E que, de fato, José Dirceu não deveria ter sido cassado. Cruvinel aparelhou o jornal da mesma maneira que os lulistas aparelharam os órgãos públicos. Quando ela tira férias, seu cunhado, Ilimar Franco, assume sua coluna.

Kennedy Alencar foi assessor de imprensa do PT. Ele continua sendo assessor de imprensa do PT, só que agora de maneira não declarada, em suas matérias para a Folha de S.Paulo. Ele é o taquígrafo oficial de André Singer, secretário de Imprensa de Lula. Singer dita e Kennedy Alencar publica.

Franklin Martins é José Dirceu até a morte. Eliane Cantanhêde é da turma de Aloizio Mercadante. Luiz Garcia é lulista, sem dúvida nenhuma, mas não consigo identificar sua corrente. Vinicius Mota é do grupo de Marta Suplicy. Quem mais? Alberto Dines é seguidor de Dirceu, e só se cerca de seguidores de Dirceu. Alon Feuerwerker, do Correio Braziliense, é do partidão, e apóia quem o partidão mandar. Paulo Markun, da TV Cultura, tem simpatia por qualquer um que seja minimamente de esquerda. Paulo Henrique Amorim é lulista de linha bolivariana. Ricardo Noblat era lulista ligado a Dirceu, mas pulou fora no momento oportuno.

Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, é subordinado a Daniel Dantas. Quando Dantas está satisfeito com o governo, Attuch é governista. Quando Dantas está insatisfeito com o governo, Attuch vira oposicionista. Mino Carta, por outro lado, é subordinado a Carlos Jereissati. Tem a missão de atacar Dantas. E de defender a ala lulista representada por Luiz Gushiken.

Os jornalistas que não pertencem à área de Dirceu, Gushiken, Mercadante, Suplicy ou Rebelo em geral pertencem à área de Antonio Palocci. Nunca houve um político tão protegido pela imprensa quanto ele. Palocci tem defensores influentes em todos os veículos, sobretudo em O Estado de S. Paulo e Valor.

Nem mesmo VEJA escapa do tribunal macartista mainardiano. Os lulistas costumam definir a revista como tucana, mas eu desconfio que ela esteja cheia de lulistas. Não posso revelar seus nomes por puro corporativismo. E porque não quero perder aqueles quatro ou cinco amigos na profissão.

Dirceu: panegíricos vergonhosos

Por Reinaldo Azevedo
Um leitor me acusa de arrogante por causa de um texto da edição anterior, em que afirmo que o mal maior do jornalismo político é a ignorância — especialmente aquela sobre a ciência política. Pode ser. Nunca me orgulhei da minha humildade. Nem mesmo acredito que isso exista. Acho a modéstia uma forma disfarçada de chantagem ou um refinamento da soberba. Como certas celebridades que gostam de usar sandálias de dedo em festas requintadas. É uma suposta nobreza de origem ou conquistada que lhes garante a licença. Trata-se de concupiscência do despojamento. Vão ler Santo Agostinho e não me torrem a paciência. Seu despojamento corresponde a um casaco cheio de brocados. Não é por acaso que, nessas festas, os serviçais estão sempre com roupa impecável. Só trouxa cai nessa conversa.

Por isso, queridos, esse papo de “modéstia”, “humildade” ou “despojamento”, comigo, não cola. Os que baixam os olhos podem estar pensado coisas horríveis. Prefiro gente de nariz empinado. Entre a subserviência instrumental e a arrogância, fico com a segunda. Portanto, não tentem me ofender por aí. Não dou a mínima. Nunca disse que era modesto. Modesto era Lula... Não é, por exemplo, a arrogância de José Dirceu que me faz combatê-lo. Ao contrário. Acho o melhor traço do seu caráter. Melhor ele do que aqueles petistas que gostam de sambar miudinho ou de fazer proselitismo bossa-nova — falando macio e com o autoritarismo sempre no diminutivo ético: Renato Janine Ribeiro, por exemplo. Até me identifico um pouco com o apelo olímpico do ex-superministro. A diferença é que eu só posso fazer mal a mim mesmo. Meu hospício é minha vida privada. O de Dirceu é o Brasil. As coisas se complicam. Por que cheguei aqui?

Eu falava sobre a necessidade de haver certos pressupostos de formação intelectual para que a análise política não degenere em puro impressionismo e para que a mistificação não seja o galardão dos picaretas (com copyright de Lula) ideológicos. Pensei nisso ao ler alguns panegíricos, que se fingiam de análise crítica, dedicados a José Dirceu. Leiam atentamente. A maioria lamenta que aquele jovem romântico e namorador, cheio de ideais, tenha-se tornado essa figura algo cinzenta, com coragem — ah, a fidelidade! — para defender “o companheiro Delúbio Soares”. Vêem nele um desvio, não uma continuidade.

Para Marcelo Coelho, colunista da Folha, “Dirceu não foi cassado por suas relações com Che Guevara e Fidel Castro, e sim por suas relações com Marcos Valério e Valdemar Costa Neto”. Errado. É uma análise, à diferença do que parece, generosa com o ex-ministro. Ele só se meteu com os dois últimos (o que nega) porque é íntimo moral e ideológico dos dois primeiros. É seu apego a uma ideologia finalista que o faz não distinguir os meios. Se o “bem final” existe, então tudo lhe é permitido. E é fácil provar que é assim.

Roberto Jefferson, o nosso traidor virtuoso, foi cassado, e ninguém o chamou para dar uma entrevista na TV ou analisar a conjuntura política. Dirceu, ao que vejo, dois dias depois, já é o “magister dixit” dos programas de debate político. Coelho há de admitir que isso acontece não por causa de suas “relações com Marcos Valério e Valdemar Costa Neto”, e sim por causa de sua proximidade ideológica com Che Guevara e Fidel Castro. Jefferson, que ajudou a nos livrar de uma tentação totalitária, afinal de contas, é só um bode da “direita” ou um monstrengo do fisiologismo. Ah, Dirceu, não! Este tem tutano, a gente lê nas estrelinhas. Ah, esse tem história. Qual história?

A imprensa que Dirceu acusa de tê-lo derrubado, que os seus sequazes chamam de “burguesa”, está coalhada de formas variadas de petistas e petismos — ou de “esquerdismo”, para ser mais genérico. O termo pode assumir significações distintas a depender do que esteja em debate. Sob certo ponto de vista, defender uma distribuição de renda um pouco mais justa já pode significar um alinhamento com essa tal esquerda. Mas não é a isso que estou me referindo, não. Falo mesmo é da ideologia que, de fato e para todos os efeitos, justifica o crime desde que se esteja mirando um futuro redentor.

Ou alguém me explique o que faz Dirceu na TV como uma espécie de ombudsman do processo político e fino analista da conjuntura brasileira. Ora, tenham a santa paciência! Por quê? Voltando a Coelho, creio que não sejam as suas credenciais junto a Marcos Valério ou a Costa Neto a habilitá-lo. Não sendo estas, então são quais? A resposta é tristemente óbvia. Confere-se legitimidade tanto à forma como Dirceu tentou mudar o país no passado — ele queria uma ditadura comunista — como às suas aspirações presentes. A adesão a métodos eventualmente heterodoxos de ação política foi, como dizer?, um “erro”, palavra que ele emprega muito.

Aliás, esse “erro” merecia especial atenção semiológica no discurso do deputado cassado. Eu, até agora, não o vi fazer mea-culpa de nada. Ao contrário. Só o vejo negando que tenha cometido qualquer irregularidade, cada vez mais “convencido” da sua “inocência”. Quando ele recorre ao termo “erro”, parece estar designando tão-somente uma falha de operação, de logística. Não teria sabido fazer a coisa direito; teria se descuidado do modus operandi; teria subestimado os fatores adversos da conjuntura. Mas, na essência, não há um miserável recuo. Age, parece, como alguém que, pego em flagrante, lamente não a derrocada, mas a falta de planejamento para cometer o crime perfeito.

Cada um se divirta e se encante com o que quiser. Rica e rara, para mim, foi a vida de Ulysses Guimarães, por exemplo. Não rende romance. José Dirceu não é uma personagem dos Anos Rebeldes, de Gilberto Braga. A história brasileira, mesmo a dos anos 60, está mais para o naturalismo do que para o romantismo tardio. Até compreendo, num plano puramente psicológico, que se possa suspirar por um jovem idealista, bonitão e quase-guerrilheiro. As pessoas deliram pelos mais estranhos motivos.

Estão olhando para o já bastante redondo José Dirceu e enxergando o Che Guevara da foto de Alberto Korda, com aquele corte maroto, que o faz olhar para o futuro da humanidade. A foto inteira não é nada daquilo. Pesquisem. O comunismo é craque tanto em apagar retratos como em cortá-los. Ocorre que aquele olhar cheio de amanhãs sorridentes resultou na ditadura do decrépito Fidel Castro, hoje amparada por estadistas como Maradona e Hugo Chávez.

É o mito da resistência e da luta contra as injustiças que faz o Dirceu de Marcos Valério e Costa Neto posar de fino pensador e observador privilegiado da cena política. Esperem aí. Esse é o cara que abrigava Waldomiro Diniz no Palácio do Planalto. Esse é o cara que desenhou as alianças. Esse é o verdadeiro titereiro do lulo-petismo, um modelo protototalitário. Por que choram as carpideiras? Por que tanta emoção? Quando é que Chico Buarque vai lhe dedicar um hino? Sugiro algo minimalista assim: “Vai passar/ já passou”.

Pobre imprensa burguesa! Ainda bem que continua a ser salva pelos classificados e pelos anúncios, que não têm ideologia (salvo aqueles a cargo de Luiz Gushiken). Entregue que ficasse aos inocentes úteis, a democracia já teria ido para o brejo há muito tempo. No meu arquivo implacável, tenho lá os boquirrotos atacando FHC porque este dizia “barbaridades” como “a democracia é um processo” ou a “utopia do possível”. Nada! Rapazes, moças e alguns velhos tontos, animados ainda pela foto de Alberto Korda (nem eles sabiam disso; trata-se de uma contaminação do espírito), queriam era ação direta e, pasmem!, aposta no impossível.

Sabem o que senti quando Dirceu foi cassado? Nada. Disse apenas: “Um a menos”. E pensei em Lula e em Rita Lee: “Agora só falta você, iê, iê, iê”.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 2 de dezembro de 2005.

Pizza e polenta e olhe lá!

Barbara Gancia

Há pouco mais de um mês, comentei neste espaço a cidadania italiana obtida pela primeira-dama, dona Marisa Letícia Lula da Silva. Desde então, não paro de receber e-mails indignados de descendentes italianos que estão há anos (literalmente) na fila tentando sem sucesso conseguir o passaporte.
Uma reportagem publicada na última quarta no jornal italiano "Corriere della Sera" revela que o passaporte obtido por dona Marisa não irritou apenas os "oriundi" que acreditam que a mulher do presidente tenha furado a fila dos candidatos à cidadania.
Massimo D'Alema, ex-primeiro-ministro italiano e atual presidente do Partido Democrático da Esquerda, também vociferou contra o direito adquirido pela primeira-dama. Relatou ao jornal que, em recente visita a Lula em Brasília, dona Marisa teria perguntado a ele sobre um "estranho documento" que lhe fora enviado pelo consulado. D'Alema percebeu que dona Marisa nem sequer fala italiano. E deduziu que o documento em questão era a cédula eleitoral para votar no referendo pela utilização das células-tronco.
Segundo o ""Corriere", dona Marisa reagiu com surpresa quando foi informada de que, junto com a cidadania italiana, ganhara direito ao voto. A mulher do presidente afirma que só pediu a cidadania por insistência dos filhos e que nunca fez questão do passaporte. "Ninguém de nós quer ir embora do Brasil", diz ela. "É só uma oportunidade para os meninos."
D'Alema não questiona a oportunidade, mas a conversa com dona Marisa em Brasília chamou sua atenção para outro problema. O ex-primeiro-ministro declarou que gostaria de ver os direitos dos descendentes italianos estendidos aos imigrantes estrangeiros que vivem na Itália. "Por que dona Marisa pode votar, enquanto a babá dos meus filhos, uma imigrante que ajudou a criar as crianças e que paga impostos na Itália, não tem esse direito?", pergunta ele.
O ""Corriere" atesta que a ascendência italiana de dona Marisa "é um tanto remota" e trata sua "italianidade" com ironia, dizendo que a primeira-dama não conhece a língua de Dante. "No nosso idioma, ela só sabe dizer pizza e polenta", afirma a reportagem assinada, do Rio de Janeiro, por Rocco Cotroneo.
Pois, não me importo se dona Marisa nunca ouviu falar em Michelangelo ou Sophia Loren. O que eu quero saber é que oportunidade é essa que os filhos de Lula vêem na Itália. Será que, como nós, eles também estão fartos de viver num país que só escorrega na lama?

Reminiscência e semelhanças

por José Luis Sávio Costa em 28 de janeiro de 2005

Resumo: Cada dia que passa, mais vemos certas características semelhantes ao período antecedente do Movimento Cívico-militar de 1964 aparecerem no atual cenário nacional.

© 2005 MidiaSemMascara.org


Cada dia que passa, mais vemos certas características semelhantes ao período antecedente do Movimento Cívico-militar de 1964 aparecerem no atual cenário nacional.

1º. Como aconteceu naquela época o cordão dos aderentes cada vez aumenta mais, inclusive no campo das forças legais. Lembramos dos grupos dos generais Osvino, Assis Brasil e tantos outros.

2º. O problema dos vencimentos dos militares, tal qual então, torna-se dia a dia mais agudo, para forjar a concessão ou “compra” magnânima, no momento julgado oportuno, pelo nosso Presidente (sic). Como fez o Jango, graças a Deus, sem resultado... Agora, não sei, não!...

3º. A corrente nacionalista impensante, mais uma vez, se alvoroça, se agita e brada os chavões anti-imperialistas, sem raciocinar que remam junto com internacionalistas, marxista-leninistas, ditadores e outras tendências radicais. Xenófobos, pertencem a um gênero de ator que os comunas ou “progressistas”, prazerosamente, designam como “porcos chauvinistas”. Ser nacionalista é um genuíno e natural dever do bom soldado, que não pode e não deve desaguar no caudal da burrice virulenta. Com tristeza recordamos as pugnas, naqueles dias sem aparente sentido lógico para os incautos, entre as chapas azul e amarela nas eleições do Clube Militar, manipuladas por militares estruturados no Setor Militar do PCB, infiltrados na chapa amarela, alguns deles adesistas ao Movimento Cívico-militar de 31 de março, no último momento. Mas isto é outra história...

4º. A contumaz ambigüidade do lulismo, assinalada amiúde na mídia, segue os passos das divagações e dos diz-que-me-diz do Jango et caterva. Para nossa felicidade, havia os que conhecendo as tradições de nosso Exército, orientavam os militares democratas com sábios conselhos:

“Os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de Governo, muito menos a sua propaganda, mas para garantir os poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei”.

“Não estão instituídos para declararem solidariedade a este ou àquele poder. Se lhes fosse permitida a faculdade de solidarizar-se com programas, movimentos políticos ou detentores de altos cargos, haveria, necessariamente, o direito de também se oporem a uns e a outros.”

“Relativamente à doutrina que admite o seu emprego como força de pressão contra um dos poderes, é lógico que também seria admissível voltá-la contra qualquer um deles.”

“Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos anti-democráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e a sua coexistência”. (Trecho da Circular reservada do EMEx, expedida pelo Exmo. Sr General de Exército, Humberto de Alencar Castelo Branco, então Chefe do Estado Maior do Exército, em 20 de março de 1964). E hoje? Também não sei, não...

Aliás, houve um arremedo no caso Herzog, montado, manipulado e vergonhosamente conduzido no mais alto nível deste país e até hoje mantido silente nos desvãos dos poderes constituídos. Isto é uma vergonha!

5º. A pretendida “República Sindicalista” e a violência no campo sob a batuta de Francisco Julião com suas “Ligas Camponesas”, responsáveis pelo primeiro contingente de auto-enganados brasileiros a ter treinamento de guerrilha em Cuba, aqui apresentado como lembrança:

Ligas Camponesas:

Adamastor Francisco Bonilha - Ligas Camponesas, 1961

Adamor Gonçalves – Ligas Camponesas, Mai 63 a Nov 64

Adauto Freire da Cruz - Ligas Camponesas, 1961

Amaro Luiz de Carvalho (“Capivara”), Ligas Camponesas, 1961

Clodomir Santos Moraes - Ligas Camponesas, 1961 (assessor do MST)

Florentino Alcântara de Moraes - Ligas Camponesas, 1961

Joaquim Ferreira Filho (“Nelson”) - Ligas Camponesas, 1961

Mariano Joaquim da Silva – Ligas Camponesas, 1961. Posteriormente, foi dirigente da Var-Palmares

Osias da Costa Ferreira - Ligas Camponesas, 1961

Paulo Góes - Ligas Camponesas , Mai 63 a Nov 64

Pedro Motta Dias - Ligas Camponesas, 1961

Rivadavia Braz de Oliveira - Ligas Camponesas, 1961.

São, na atualidade, ultrapassadas pelas hordas do MST que mesclam necessitados fáceis de influenciar, pobres seduzidos pela cobertura de enganosa religião antropocêntrica, ou se quiserem de um esdrúxulo marxismo-cristão (sic) e militantes profissionais, clericais ou não, de certas “pastorais” e ONGs.

No passado evoluiu ante a complacência de um fraco mandatário, cercado por esquerdistas radicais. Hoje evoluem com o beneplácito de um ladino mandatário que tece loas ao MST “ordeiro” num dia e, no dia seguinte, diz que o Movimento tem que respeitar a lei, apesar dele ser useiro e vezeiro em desrespeitá-la.

6º. O Congresso, ontem como hoje, desanda na frenética defesa de seus próprios interesses e perde-se na mesmice de sempre, esquecendo a sua função constitucional e tornando-se mero caudatário do Executivo. E o governo, ciente deste fato, defende para presidir a Câmara dos Deputados um nome envolvido em casos de contatos com terroristas estrangeiros (inclusive em seqüestros no Brasil) e corrupção (caso Lubeca e o “abafa” do caso Celso Daniel, entre outros).

7º. O Presidente? Bem, chego a julgar que o Jango era melhor e até mais honesto... Mas quem pode responder melhor são os ex-militantes do PT: Paulo de Tarso Venceslau, os irmãos Queiroz Benjamim, a Senadora Heloisa Helena, a Luiza Erundina, os tesoureiros de campanhas e os que estão para sair do partido. Bem, há mais; porém, vamos aguardar...

8º. O processo de neutralização das Forças Armadas pode estar em curso, com alguns passos parecidos com os de épocas pretéritas. O primeiro passo ocorre com o “corporativismo segmentado”, com a criação de associações e propostas de suas sindicalizações (praças, graduados, oficiais e praças temporários, oficiais); o segundo é a concessão de medidas judiciais, do tipo habeas-corpus nos casos de prisões disciplinares (o que contraria o parágrafo 2º do Artigo 142, da Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor, ainda que meio ultrajada Constituição-cidadã), ou mandatos de segurança no âmbito administrativo, ampliando as interferências indevidas no âmbito das forças; o terceiro é o aumento da campanha antimilitar, ampliando a campanha revanchista, instilando o antagonismo entre facções civilistas e militaristas; o quarto é uma sutil e lenta substituição ou interferência nas atribuições constitucionais das Forças Armadas, via criação de Força Nacional de Segurança Pública e outras, cujas atribuições podem ser alteradas fora dos limites da Lei Maior, sem a influência e a fiscalização dos poderes de maior competência; o quinto é conseqüência: a criação e ativação de conflito de interesses entre as forças legais no campo de suas atribuições na área da defesa, sob os mais variados aspectos.

Alguns destes passos já estão em progressão, ora sutil, ora mais aberta.

O futuro a Deus pertence e queira Deus que eles não tenham aprendido a saber a hora e continuem com a mesma tendência histórica em terras brasileiras.

Atentemos para o Fórum Social Mundial e como nele se comportam as forças políticas do Foro de São Paulo, organização castro-lulista, ou lula-castrista, sediada no Brasil e em Cuba.

sábado, dezembro 03, 2005

Aliviando a mão

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Avoz rouca das ruas é fogo. Estou saindo da pastelaria aonde vou neuroticamente toda santa noite e compro uma porcariada que não tem mais tamanho, pego minha sacolinha, uma voz me chama, é uma jovem senhora que decidiu interpelar-me.

— Leio você todo domingo — diz ela.

— Muito obrigado.

— Sempre é bom, mas você está aliviando a mão. No domingo passado, você aliviou a mão. Não pode aliviar a mão, tem que dar cacete!

— Mas logo eu? Eu aliviando a mão? Eu vivo dizendo uma porção de coisas que...

— Eu sei, eu sei, sou leitora assídua. Mas você aliviou a mão.

— Mas o que é que você chama aliviar a mão? Você quer que eu xingue a mãe de alguém?

— Quero, quero! Você teria todo o meu apoio. Você teria o apoio de todo o Brasil!

— Não concordo. Não ia pegar bem eu xingar a mãe de ninguém e muito menos o Brasil inteiro ia me apoiar.

— Ia, ia! Você sabe disso, o Brasil inteiro ia te apoiar. E tem de xingar a mãe mesmo! São todos uns isso e aquilo! São todos uns aquilo e aquilo mais! Isso é o que eles são, tem que dizer com todas as letras!

Ela não usou bem “isso e aquilo”, devo esclarecer, usou umas coisinhas mais fortes, que fico com vergonha de reproduzir. Ponderei que não era correto xingar a mãe de ninguém pelo jornal, que já vinha criticando o governo há muito tempo, que nem gostava disso, mas eram os assuntos impostos pelo dia-a-dia. “Quero o direito de escrever umas amenidades, um domingo ou outro”, disse eu, arrependendo-me imediatamente depois.

— Quer dizer que até você está afrouxando! É o silêncio dos intelectuais, você caiu no silêncio dos intelectuais!

— Silêncio dos intelectuais? Como assim, eu...

— Caiu no silêncio dos intelectuais, e eu que pensava que você era diferente! Mas não, pela crônica deste domingo já se vê uma saída estratégica. Você está planejando uma saída estratégica! Isso não está certo com seus leitores, desculpe, é uma atitude de omissão, se curvando a pressões.

— Que pressão, não sei de nenhuma pressão.

— Sabe, sim, sabe que, se não parar de falar as coisas que vem falando, vai ser retirado do círculo dos intelectuais! E para você não deve ter coisa mais importante do que a vaidade de ser membro do círculo dos intelectuais.

— Que círculo de intelectuais? Existe um círculo de intelectuais, eu não sabia, eu...

— Claro que sabia. Eu posso ter sido enganada como sua leitora, achando que você era uma coisa e agora vendo que é outra.

— Espere aí, eu acho que você deve estar me confundindo. E nunca andei prometendo nada a ninguém.

— Mas agora se curvou ao silêncio dos intelectuais!

— Mas que sil...

— O silêncio dos intelectuais! Depois que os últimos vão tirando o corpo fora, aí é que a gente perde mesmo a esperança. Se já tínhamos perdido a esperança nos políticos, agora também perdemos a esperança nos intelectuais. Bem que sempre me disseram que não se pode confiar em intelectual. É nisso que dá. Mas eu ainda considero você uma exceção. Por enquanto, por enquanto. Vou esperar mais dois domingos.

— Muito obrigado outra vez, mas você vai esperar o quê?

— Cacetada firme, pauleira! Não tem nada de aliviar a mão, tem que descer o porrete! Olha lá, dou dois domingos. Se falhar, perdeu uma leitora. Assídua!

E foi se retirando com uma meia rabanada. Fiquei preocupado. Eu achava que vinha criticando de maneira incisiva a situação a que chegamos e a atuação dos nossos governantes. E que círculo de intelectuais seria aquele, ao qual certamente eu deveria pedir autorização para continuar a expor meus pontos de vista, que acredito serem o de muitos outros brasileiros? Não, bobagem, radicalismo dela. Certo, uma leitora em perfeito estado de funcionamento não se joga fora assim sem mais nem menos. Mas minha consciência estava em paz e eu escreveria crônicas sobre amenidades, chega de reclamar e criticar o tempo todo. Isso mesmo quis dizer ao vizinho que entrou comigo no elevador.

— Belo dia — comecei. — Não foi?

— É, fez uns belos dias aí. Deve ser por isso que você está aliviando a mão, não é?

— Eu, aliviando a mão? Eu...

— Eu compreendo — disse ele, me pondo a mão no ombro.

— Compreende o quê?

— O silêncio dos intelectuais — respondeu ele, antes de a porta por que saiu bater.

Entrei em casa pensativo. Não, eles não tinham razão. Não existe círculo de intelectuais nenhum, nem tem que ficar descendo o cacete coisa nenhuma. Ler os jornais, buscar amenidades. Hum, diz aqui que um ministro do Supremo está fazendo campanha para ser candidato. E diz que outro é o homem de Lula na Augusta Casa. Pensando bem, talvez eu precise me precatar contra esse silêncio dos intelectuais, tenho que parar de aliviar a mão.

JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

O Reich do PT sucumbiria em Nuremberg

por Maria Jandyra Cunha
A história é uma galeria de quadros onde há poucos autênticos e muitas cópias, ensinou-nos o cientista político francês Aléxis Tocqueville (1805-1859). Entre os quadros originais está o conflito vivido por líderes nazistas presos acusados de crimes de guerra perante o tribunal especial de Nuremberg, um marco do direito internacional.

O julgamento de Nuremberg, iniciado formalmente em 20 de novembro de 1945, foi idéia do ministro do Exterior da União Soviética, Vyacheslav Molotov, três anos antes. Os soviéticos temiam que os seus aliados pudessem entrar em acordo com os alemães depois que a Grã-Bretanha se negou a julgar Rudolf Hess, o segundo na hierarquia do III Reich, que havia voado até a Escócia em 1941. A Declaração de Moscou, assinada em novembro de 1943, determinou que os grandes criminosos seriam julgados por um tribunal internacional.

Quando Joseph Stalin, Winston Churchill e Franklin Roosevelt discutiram o assunto durante a Conferência de Teerã, o secretário do PC soviético sugeriu a liquidação de 50 mil líderes alemães. O Primeiro Ministro britânico achou excessivo tal número, pois defendia uma lista restrita de criminosos de guerra específicos para evitar as complicações oriundas de um processo judiciário longo. O presidente estadunidense foi mais caloroso às idéias de Stalin, embora concordasse que era demasiada a quantidade de 50 mil execuções. Sugeriu com ironia um mil a menos, “apenas” quarenta e nove mil penas capitais. Indignado, Churchill retirou-se do recinto, seguido pelo aliado russo, que afirmou estar brincando.

O fato é que, no final da guerra, os Aliados haviam chegado a um consenso em relação à forma e aos procedimentos a serem seguidos em Nuremberg. Entre esses, o interrogatório dos acusados, sob juramento, feito por seus advogados de defesa e pela acusação. A garantia do acusado se recusar a responder perguntas que lhe incriminassem foi outro impedimento acertado entre os Três Grandes.

O principal argumento da acusação foi o de que existia um plano claro que era compartilhado por todos os acusados e que nele havia a intenção, desde o início da guerra, de se cometerem crimes específicos, entre os quais o assassinato em massa de judeus. A defesa, em contrapartida, tentou mostrar que no III Reich desencadeavam-se, no pano de fundo de um caos administrativo, lutas pelo poder que levavam à ausência de uma liderança real. Em alguns casos, insistiram os advogados na tese de que os acusados não acreditavam na ideologia nazista e sequer haviam lido Mein Kampf, a Bíblia do nacional-socialismo escrita na prisão por Adolf Hitler. O major do Exército dos Estados Unidos Leon Nathaniel Goldensohn, que serviu como psiquiatra na prisão de Nuremberg durante sete meses, falou regularmente com 21 prisioneiros da cúpula nazista que ali já estavam quando ele chegou. Aos 34 anos, Goldesohn acreditava que uma patologia explicaria as ações depravadas dos acusados. Os prisioneiros sabiam que, de acordo com os procedimentos de pesquisa científica da época, o psiquiatra os via como objetos de investigação, sem se preocupar que as relações pesquisador-pesquisado estivessem protegidas pela confidencialidade. O que atualmente seria um deslize ético foi bem aproveitado pelos réus que, com inteligência acima da média (sete dos 21 testados atingiram o QI de 130-139 e dois, a faixa de 140-149), faziam declarações que depois poderiam ser usadas em sua defesa no tribunal. Registrado no livro As entrevistas de Nuremberg (Companhia de Letras, 2005), o trabalho de Goldensohn revela o improvável: uma falta da visão do todo por parte dos acusados.

Curiosamente, é também 21 o número de dirigentes que cinicamente alegam o desconhecimento do Caixa 2 e outros crimes cometidos pelo Partido dos Trabalhadores. Nenhum deles tem a favor de si um atestado de insanidade mental. Como os acusados de Nuremberg, vêem-se quase sempre como cidadãos produtivos, bons chefes de família, pais extremados. Como na Alemanha de Hitler, esses cidadãos ilibados alegam ignorar o que se passava no Reich vermelho à sua volta e, em alguns casos, admitiram estar apenas cumprindo ordens. Mesmo sem ter promovido o grave crime da faxina étnica como os companheiros de Nuremberg, a cúpula do PT deve ser julgada pelo crime de ter enganado o povo. O Estado-Maior petista não passaria ileso pelo banco dos réus de Nuremberg.

Maria Jandyra Cunha é lingüista e pesquisadora da Universidade das Índias Ocidentais.

Direito de calar

Testemunha também tem direito de não se incriminar
por Maurício Cardoso

Mais um convocado pela CPI dos Bingos conseguiu Habeas Corpus para não responder a perguntas que possam incriminá-lo. Dessa vez, o beneficiado é o advogado Walter Santos Neto, que depõe na manhã desta quinta-feira (1/12).

O Habeas Corpus foi concedido pelo ministro Sepúlveda Pertence. Ele também garantiu a Santos Neto o direito a ter assistência de advogado durante o depoimento. O ministro afirmou que a jurisprudência do Supremo está no sentido de garantir às testemunhas, e não apenas aos indiciados, que venham a depor em CPIs o direito constitucional contra a auto-incriminação.

O professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo, Pedro Estevam Serrano, sustenta que a condição de investigado ou testemunha não pode ser definida na convocação do depoente, mas apenas pelo tipo de pergunta que lhe é feita. Por isso, o direito de não se incriminar, previsto na Constituição, é um direito tanto do investigado quanto da testemunha.

Para Serrano, o crime de falso testemunho, que é próprio da testemunha, só pode ser imputado ao fim do processo, quando só então é possível julgar se a testemunha mentiu ou não. “Por isso não faz sentido prender o depoente durante a sessão sob a alegação de que ele está mentindo”, diz Serrano. Para o professor, ser obrigado a pedir Habeas Corpus para não ser preso na CPI é um atraso e resultado do autoritarismo dos parlamentares.

HC 87.321

Veja a íntegra do voto do ministro Sepúlveda Pertence

DECISÃO:Trata-se de habeas corpus preventivo — com pedido de liminar —, no qual se imputa coação ao Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito — CPI — dos Bingos, Senador Efraim Moraes, que intimou o paciente para depor no dia 1º de dezembro, às 10h30m.

Aduz o impetrante que, segundo os documentos que instruem o pedido, o paciente deve ser inquirido na condição de investigado, com os direitos daí decorrentes.

Nestes termos, requer a concessão de liminar — a ser confirmada quando do julgamento de mérito — para que seja assegurado ao paciente o direito de "manter-se em silêncio diante de perguntas cujas respostas possam implicar-lhe auto-incriminação; não ser preso em flagrante por exercício dessa prerrogativa constitucional, sob pretexto de prática de crime de desobediência (art. 330 do CP), nem tampouco de falso testemunho (art. 342 do CP) e, por fim, de não ter o seu silêncio interpretado em seu desfavor e entrevistar-se com seu advogado quando assim entender necessário".

Invoca, no ponto, precedentes do Tribunal.

Decido.

Consolidou-se na jurisprudência do Tribunal a oponibilidade às comissões parlamentares de inquérito — ainda por quem formalmente chamado para depor como testemunha e não, como indiciado —, da garantia constitucional contra a auto-incriminação e, conseqüentemente, do direito ao silêncio, ante perguntas de cuja resposta possa resultar prova contra o depoente (v.g., HC 77.704, ml, Celso, DJ 19.08.98; HC 79.244, ml, Pertence, DJ 06.05.99; HC 73.035, Pl., Velloso, RTJ 163/626).

Assim, atento às alegações do impetrante, defiro a liminar, para assegurar ao paciente, perante a CPI referida, (a) o direito de silenciar a respeito de tudo quanto entenda que o possa incriminar, sem que, por isso, seja preso ou ameaçado de prisão, (b) bem como de ser acompanhado por advogado.

Comunique-se, com cópia desta, ao nobre Senador Efraim Moraes, Presidente da CPI requerida, solicitando-se informações.

Brasília, 29 de novembro de 2005.

Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE - Relator

Revista Consultor Jurídico, 30 de novembro de 2005