terça-feira, janeiro 17, 2006

O coro tem medo do antigo regente

O documentário Entreatos, de João Moreira Salles, é um esplêndido resumo da campanha de Lula em 2002. É também a mais perfeita tradução de um esforço eleitoral concebido e comandado por Duda Mendonça. O marqueteiro baiano aparece em poucas cenas. Bastam para escancarar o estilo do artista.
Revisitada neste verão de 2006, é insuperável a que mostra Duda como regente do coro do PT. Aglomerado na platéia, o grupo escalado para cantar ''Lula-lá'' inclui governadores, senadores, deputados, chefões do partido, atores, cantores e intelectuais. Sorriem o sorriso dos vencedores.

Sozinho no palco, Duda comanda o espetáculo. Ora emite ordens em tom enérgico, ora afaga o distinto público com palavras de estímulo. Parece o melhor aluno de Silvio Santos. A turma faz tudo o que o mestre manda com a disciplina das ''colegas de trabalho'' de Silvio. É uma contrafação eleitoral do programa do veterano apresentador de TV.

Começa a cantoria, Duda logo a interrompe. ''O que é isso, gente?'', repreende. ''Vamos soltar a voz''. Exige mais entusiasmo, muita alegria, decibéis no limite do berro. O coro atende. O regente gosta. Agora ensina o que o auditório deve fazer quando entrarem no palco os dois astros convidados. O braço direito precisa erguer-se, na diagonal da cabeça, e mover-se de trás para a frente, simulando o convite: vem com a gente.

O gesto vai sublinhar a gloriosa introdução na ribalta de Ciro Gomes e Anthony Garotinho. Derrotados no primeiro turno da eleição, viraram aliados de Lula. Merecem tratamento vip. A platéia faz bonito. Satisfeito, Duda decide que a cena não será repetida. Todos aplaudem, felizes como colegiais na Disneyworld. ''Esse cara é um gênio'', dizem integrantes do coro. Alguns chamam Duda de ''companheiro''. Desde a assinatura do contrato com o PT, tornara-se um lulista feroz.

Pouco mais de três anos depois daquele outubro, os disciplinados cantores fingem conhecer o regente só de nome. Entre os amnésicos figuram até mesmo os que desfrutaram dos confortos da capitania litorânea de Duda na Bahia. Os visitantes são acomodados em quatro chalés a poucos metros da mansão do hospedeiro. Sobra comida. Sobra bebida.

Mesmo velhos comparsas negam qualquer intimidade com o antigo parceiro. No PT, a ordem é fazer de conta que o publicitário continua encarregado das campanhas de Paulo Maluf. Faz sentido, esclarece a reportagem de capa da revista Veja desta semana. O publicitário Duda Mendonça é apenas bom de bola. Craque é o rio especialista em maracutaias camufladas por contratos espertos.

A fortuna declarada do ex-amigo do rei soma R$ 13 milhões. Descobertas recentes sugerem que a quantia real é extraordinariamente maior. Para juntar tamanha bolada, Duda se valeu de um vasto repertório de truques e ilegalidades: movimentações suspeitíssimas em contas no exterior, lavagem de dinheiro, caixa dois, propinas, tráfico de influência e outras malandragens. Uma folha corrida e tanto.

A enxurrada de denúncias é suficiente para inquietar tarimbados criminosos. Duda exibe a tranqüilidade de quem será aplaudido por todos os santos no dia do Juízo Final. Decerto guarda seus trunfos.

Quando algum caso envolve Duda, o Ministério da Justiça, a Polícia Federal e o Fisco trabalham com exasperante lentidão. Os alegres cantores de 2002 temem que o regente acabe abrindo o bico.

AUGUSTO NUNES