Fartamente noticiado e duramente criticado pela imprensa, até mesmo pela Globobrás, chegou ao conhecimento geral o grotesco incidente internacional de expropriação e ocupação militar das instalações da Petrobrás na Bolívia, protagonizado por um índio cocalero, arrogante, demagogo e populista, que mentiu quando veio aqui, antes e depois de eleito, despreparado para o cargo de presidente porque desconhecedor da História – não aquela feita de bravatas e arroubos, mas a que decorre de estudo e de meditação a respeito dos fatos históricos – que, afrontando diretamente um país das dimensões, capacidades e potencialidades do Brasil, deu um tiro no próprio pé e início a mais um processo de deposição de presidente, tão comum naquele infeliz - devido aos seus governos - país andino. Para isso, basta que as conseqüências práticas comecem a se manifestar, com o aumento do desemprego e da fome.
É preciso ressaltar que só o fez levando em consideração o fato de estar sendo o nosso país dirigido por um outro incompetente, comuno-petista fundador do Foro de S.Paulo, discípulo do facínora do Caribe e, agora, subordinado ao venezuelano bolivariano que se julga o inventor da roda e, menos ignorante e com maior personalidade dos que os outros pseudo-líderes sul-americanos, assumiu o comando de muitos deles, pondo-os a trabalhar em proveito de suas tresloucadas idéias, cujo objetivo maior é exercer a liderança continental e levar a um confronto com os Estados Unidos, verdadeiro sonho de um doido de pedra. Além disso, é muito provável que Morales tenha obtido a garantia prévia de apoio dos “amigos íntimos” de Lula, Fidel e Chávez, para a hipótese de uma resposta mais firme do Brasil.
Tradicionalmente conhecido pelos êxitos na política externa, o Brasil do Barão do Rio Branco vive uma de suas piores fases no que respeita à projeção de sua imagem no contexto internacional. Gafes sucessivas, alianças idiotas, tentativas de liderança fracassadas, ligações com ditaduras truculentas, objetivos internacionais expressados e não atingidos e procedimentos ridículos do nosso principal representante são fatos que estão devidamente registrados e, infelizmente, daqui para frente, farão parte da História do Itamaraty.
A ofensa do governo boliviano, que deveria ter sido imediata e energicamente repelida, ao contrário, em decorrência da demagogia esquerdista que conduz a política externa atual do país - de acordo com interesses ideológicos - está sendo justificada como legítima pelos altos escalões governamentais e pelos sabujos de toda ordem que se protegem sob o manto lulista, abrigo de mensaleiros e quadrilheiros.
Mas esse verdadeiro crime de lesa-pátria tem seus responsáveis e todos serão cobrados pelas ações ou omissões praticadas em momento tão grave para a preservação da soberania nacional.
A Nação inteira quer saber QUEM fez – ou não fez – O QUE.
E é dentro desse estado de espírito que algumas indagações se fazem pertinentes.
E agora, Sr. Lula, como fica a sua decantada liderança continental e até mundial (?!!), um factóide inventado por Duda Mendonça e só levada a sério pelos áulicos palacianos mais cínicos? Sem reação diante de um índio atrevido e inconseqüente, cuja ofensa ao nosso país tenta justificar, subordinado, intelectual e ideologicamente, ao chefete bolivariano que agora diz o que tem de ser feito no continente, comporta-se o Sr. como um hipnotizado diante dos fatos e dos personagens. O posicionamento na mesa em que foram dadas as informações à imprensa é bem significativo de seu papel secundário atribuído pelos parceiros de reunião. Sendo Brasil e Bolívia os principais contendores, seus presidentes deveriam ocupar os lugares centrais. Jogaram-no, porém, para a extrema esquerda, como convém ao seu viés ideológico, distanciando-o do boliviano, este, sim, no centro do dispositivo e diretamente assessorado pelo coronel fidelista e pelo montonero peronista. Já prestou atenção que quando praticam aquela hipócrita superposição de mãos, simbolizando uma amizade que inexiste, a do coronel vermelho sempre fica em cima? Pois, é, Sr. Lula, são detalhes que a sua parca inteligência não permite perceber, mas que entristecem o povo brasileiro que se vê tão mal representado. Na hora em que mais necessitávamos de sua ira santa, de seu palavrório inflamado, de suas demonstrações de “cabra da peste”, eis que o Sr. se apequena, se encolhe diante dos presidentes metidos a tiranetes e mergulha no medo e na omissão em favor de uma ideologia ultrapassada. Triste, muito triste, para todos que prezamos nossa soberania.
E agora, Srs. barbudinhos do Itamaraty, como se sentem com os pelos faciais crepitando ao fogo da imprevidência, da incompetência e, sobretudo, da subserviente submissão a um corpo estranho à diplomacia brasileira, mas que, por imposições espúrias, dá as ordens no setor? Quando a onda petista for varrida do cenário nacional e a História for escrita, os Srs. serão os responsabilizados pela lambança. Até porque, o nome do Sr. Garcia – atual ministro de fato – voltará ao anonimato em que esteve antes. Os interesses nacionais sempre prevaleceram sobre partidos, desejos pessoais, impulsos irracionais, etc. Foi preciso um governo petista para que a nossa política externa viesse a ser conduzida de acordo com os sentimentos ideológicos dos governantes de plantão, entre os quais, e, principalmente, os dos Srs. Como se explica a eclosão de uma crise, perfeitamente previsível, encontrar o chanceler (?) passeando no exterior? Falta de informações? Falta de responsabilidade? Ou reconhecimento de sua inutilidade prática?
E agora, Srs. Parlamentares, vociferantes tribunos oposicionistas, principalmente no Senado, onde dão vazas a toda a demagogia que impregna suas manifestações, tão estridentes quanto ridículas e sem quaisquer resultados práticos? Quais as providências efetivas, diante de tantos descalabros dessa política externa desastrosa para o país? Resume-se, o procedimento dos Srs., em aprovar nomes indicados para embaixadas e sinecuras no exterior? O que fizeram, de verdade, para ficar de acordo com os revoltados pronunciamentos em plenário, para que estes não se transformem em palavras vazias cinco minutos após o desligamento dos microfones? Considerando que, até hoje, constatadas tantas patifarias, torpezas e bandalheiras pelos próprios integrantes do Parlamento, nenhuma medida concreta foi tomada pelos Srs., a não ser a absolvição corporativista e afrontosa daqueles que, segundo o Conselho de Ética, prevaricaram, não seria agora que iriam se voltar contra os patrocinadores do mensalão, da casa do lago, das festas, das meninas e de outras benesses que a tantos envolvem e, ao mesmo tempo, imobilizam. Até quando, Srs.?
E agora, Srs. responsáveis pelas Forças Armadas? Como se sentem ao pensarem na necessidade, ditada pelas circunstâncias, do emprego do Poder Militar na defesa da soberania e dos superiores interesses nacionais? Em política externa, só merece respeito quem se faz respeitar. E, respeito, só impõe quem tem força para fazê-lo. Será que o continuado sucateamento das três forças singulares, maquiavelicamente colocado em prática ao longo dos governos FHC e Lula, sob o pretexto cretino, agora claramente desmentido, de que não existem inimigos a combater, com efetivos e treinamento insuficientes, com armamentos e equipamentos obsoletos, com dificuldades enormes para obter um mínimo de operacionalidade não será um motivo de preocupação para os Srs.? Provavelmente, neste fim-de-semana, estarão todos respirando aliviados, sem aquele frio na espinha que o cumprimento de missão impossível causa (remember Falklands), porque o “nosso guia” e comandante-em-chefe das FFAA preferiu defender os interesses da Bolívia a reagir com firmeza em favor do Brasil, o que poderia gerar uma situação de conflito. Mas, inevitavelmente, os Srs. terão de repensar sobre a colocação das conveniências pessoais, o apego aos cargos e mordomias e o excesso de disciplina confundido com subordinação subserviente em primeiro plano e pugnar pelo mínimo indispensável para que as FFAA se coloquem em condições, pelo menos, de evitar que sejamos agredidos por “hermanos amigos, mui amigos”, da América do Sul. Esse é o mínimo desejável: mantê-los à distância, respeitando-nos como sempre respeitaram. O fato concreto de assessores e técnicos venezuelanos estarem a postos para assumirem a operação das refinarias e outras instalações da Petrobrás na Bolívia diz bem das intenções do índio cocalero e é motivo bastante razoável para que os Srs. procurem se fazer ouvir no que respeita à real situação militar do país. A realidade dos fatos indica que algo precisa ser feito, e com urgência. Apesar de todo o ranço revanchista e de tudo de negativo que vem sendo desenvolvido em detrimento das FFAA, com a concordância ou a omissão dos Srs., não podemos e não seremos desmoralizados como Nação. Disso os Srs. podem estar certos.
E agora, Srs. eleitores brasileiros? Estarão todos satisfeitos com a reação pífia (classificação dada pela Globo, vejam só...) do maior responsável pela política externa do país a uma verdadeira agressão de um demagogo barato e sem qualquer base para agredir quem quer que seja? Estarão todos satisfeitos com a subordinação do nosso primeiro mandatário aos caprichos e vontades do seu ídolo venezuelano?Estarão todos satisfeitos com a condução dos nossos interesses no campo internacional por um cidadão cuja única credencial é “ser amigo e conselheiro do chefe”? Estarão todos satisfeitos com o desempenho dos nossos parlamentares no episódio? Reflitam e dêem suas respostas nas urnas. É o que pode e deve ser feito.
Quanto às Forças Armadas, embora colocadas, propositadamente, em difícil situação pelos governos esquerdistas dos últimos quinze anos, não se preocupem. Apesar de tudo, das vilanias contra elas praticadas pelos revanchistas apátridas e da tibieza de alguns poucos que deveriam preservar a dignidade dos cargos que ocupam, se necessário, saberão, como sempre souberam, pela sua grande maioria silenciosa, honrar seu compromisso maior que é a DEFESA DA PÁTRIA, mesmo que isto implique, como diz o nosso juramento, no sacrifício da própria vida.
Ternuma Regional Brasília.
José Alberto Tavares da Silva ( 05/05/2006).
http://www.ternuma.com.br/
domingo, maio 07, 2006
sexta-feira, maio 05, 2006
Muerte a los gringos!
No começo dos anos 1960, Paulo Martins, um sociólogo nacionalista, publicou um libelo que foi um grande sucesso à época. Chamava-se Um Dia na Vida de Brasilino.
Brasilino, um genuíno brasileiro, era um cidadão que acordava pela manhã ao som de um despertador suíço, escovava os dentes com uma pasta Colgate, tomava café com cereais da Kellogg's, ligava seu automóvel Ford e partia rumo ao seu emprego na Phillips. No caminho cruzava com inúmeros outdoors anunciando produtos de consumo os mais diversos, todos também produzidos por marcas de nome estrangeiro. Assim se passava o dia de Brasilino. "O Brasil está tomado pelas multinacionais!", concluía Martins, tomado de ira cívica. O livrinho causou um grande furor. "Lancemos os ianques ao mar!", era essa a grita geral.
Tive a oportunidade de lê-lo quase três décadas depois. E o efeito, em mim, foi o contrário do pretendido pelo autor. Fiquei imaginando com seria o dia do tal Brasilino se nós fôssemos uma Nação absolutamente isenta de produtos e investimentos estrangeiros.
Brasilino acordaria ao canto do galo. Ao observar o sol, ele concluiria serem umas 6 horas da manhã. Tentaria acender o abajur, mas não conseguiria. Afinal, ninguém teria permitido que a Light se instalasse por aqui. Acenderia uma vela e caminharia até o banheiro, onde lavaria a boca com sabão de banha e se barbearia com um legítimo facão brasileiro. Café da manhã não haveria, porque o Brasil ainda não fabricaria garrafas térmicas. Paciência. Brasilino, então, se dirigiria à garagem, ou melhor, ao estábulo, onde uma charrete e dois jegues, brasileiros natos, o esperaria. Após preparar os arreios, já pronto para sair, Brasilino refletiria: "Pressa para quê, se eu não tenho emprego?" Voltaria para a cama, recitaria o Hino Nacional e dormiria o sono dos livres. Nada como viver num país absolutamente soberano e independente!
Tantos e tantos anos se passaram e eis que o tal do livrinho, se relançado na América do Sul, haveria de fazer sucesso outra vez. Ao menos na Venezuela, na Bolívia e, quem sabe, no Peru. A latinidad está na moda. Hugo Chávez e Evo Morales que o digam.
Dos dois, o primeiro, sem dúvida, é o mais esperto. Ao tempo em que lança vitupérios contra os gringos, cuida escrupulosamente de vender todo o seu petróleo para eles. Com isso levanta dólares suficientes para sustentar o país e ainda sobra o bastante para exportar a sua revolução bolivariana. Já o segundo é como o palhaço que, no picadeiro, sucede ao trapezista. Ele tenta imitar o acrobata, mas o resultado nunca é o mesmo...
Evo Morales acaba de nacionalizar toda a produção e o refino de hidrocarbonetos na Bolívia. Expropriar seria o termo mais correto. Segundo ele, isso é apenas o começo. Ele pretende nacionalizar tudo o mais que encontrar. Só não lançará todos os ianques ao mar porque seu país não tem mar. Mas já advertiu: as empresas estrangeiras que não se adequarem às novas regras, ultranacionalistas, terão, forçosamente, de deixar seu país.
A população boliviana, em grande parte analfabeta, vibra. Mal sabe ela as graves conseqüências que advirão da patriotada irresponsável de seu presidente. A Bolívia conquistou o título de país mais pobre da América do Sul, e o fez, em grande parte, por seus próprios méritos. A instabilidade política é uma constante na história nacional. Raros são os presidentes que logram encerrar o mandato. O que se assistiu, de dois séculos para cá, foi a uma sucessão de caudilhos, ditadores militares, ditadores civis e líderes populistas, que chegaram ao poder pelas armas ou pela corrupção eleitoral.
Emblemática é uma anedota que corria alguns anos atrás. Três prisioneiros políticos bolivianos, na mesma cela, conversavam sobre as razões de sua prisão.
"Estoy acá porque hace cuatro años que hablé bien de Banzer."
"Yo estoy acá porque hace dos años que hablé mal de Banzer. Y usted?"
"Yo soy Banzer..."
Tem sido assim através dos séculos. Lembro-me bem da acirrada polêmica que, por mais de 20 anos, cercou a construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Não eram poucos os políticos e diplomatas que alertavam ser uma temeridade depender do gás proveniente de um país tão imprevisível. A obra acabou sendo feita e, agora, estamos vendo os resultados. O US$ 1,5 bilhão investido pela Petrobrás na Bolívia simplesmente virou pó. A situação só não é catastrófica porque os bolivianos, não tendo para quem vender o seu gás, continuarão exportando-o para o Brasil. A que preço, só Deus sabe...
Mas deixemos de lado os bolivianos e seus problemas. Digna de registro, aqui, neste Espaço Aberto, é a reação para lá de esquizofrênica do PT e de seus líderes.
O nacionalismo arrebatado, a satanização das empresas multinacionais e o combate acirrado ao imperialismo norte-americano, durante mais de duas décadas, foram o leitmotiv e a pedra fundamental da ideologia petista. Quando Evo Morales se lançou em campanha empunhando bandeiras semelhantes às suas, a intelectualidade petista mais do que vibrou. O presidente Lula, muito impropriamente, chegou a apoiar publicamente a eleição do companheiro. Qual não terá sido o seu espanto, agora, ao perceber que a multinacional que Morales combatia era a Petrobrás e que, para os bolivianos, os imperialistas não são os americanos, mas, sim, os brasileiros...
"Que se mueram los gringos!", bradam os bolivianos.
"Apoiado, apoiado!", respondem os petistas.
"Pero los gringos son ustedes...!"
João Mellão Neto
E-mail: j.mellao@uol.com.br
Brasilino, um genuíno brasileiro, era um cidadão que acordava pela manhã ao som de um despertador suíço, escovava os dentes com uma pasta Colgate, tomava café com cereais da Kellogg's, ligava seu automóvel Ford e partia rumo ao seu emprego na Phillips. No caminho cruzava com inúmeros outdoors anunciando produtos de consumo os mais diversos, todos também produzidos por marcas de nome estrangeiro. Assim se passava o dia de Brasilino. "O Brasil está tomado pelas multinacionais!", concluía Martins, tomado de ira cívica. O livrinho causou um grande furor. "Lancemos os ianques ao mar!", era essa a grita geral.
Tive a oportunidade de lê-lo quase três décadas depois. E o efeito, em mim, foi o contrário do pretendido pelo autor. Fiquei imaginando com seria o dia do tal Brasilino se nós fôssemos uma Nação absolutamente isenta de produtos e investimentos estrangeiros.
Brasilino acordaria ao canto do galo. Ao observar o sol, ele concluiria serem umas 6 horas da manhã. Tentaria acender o abajur, mas não conseguiria. Afinal, ninguém teria permitido que a Light se instalasse por aqui. Acenderia uma vela e caminharia até o banheiro, onde lavaria a boca com sabão de banha e se barbearia com um legítimo facão brasileiro. Café da manhã não haveria, porque o Brasil ainda não fabricaria garrafas térmicas. Paciência. Brasilino, então, se dirigiria à garagem, ou melhor, ao estábulo, onde uma charrete e dois jegues, brasileiros natos, o esperaria. Após preparar os arreios, já pronto para sair, Brasilino refletiria: "Pressa para quê, se eu não tenho emprego?" Voltaria para a cama, recitaria o Hino Nacional e dormiria o sono dos livres. Nada como viver num país absolutamente soberano e independente!
Tantos e tantos anos se passaram e eis que o tal do livrinho, se relançado na América do Sul, haveria de fazer sucesso outra vez. Ao menos na Venezuela, na Bolívia e, quem sabe, no Peru. A latinidad está na moda. Hugo Chávez e Evo Morales que o digam.
Dos dois, o primeiro, sem dúvida, é o mais esperto. Ao tempo em que lança vitupérios contra os gringos, cuida escrupulosamente de vender todo o seu petróleo para eles. Com isso levanta dólares suficientes para sustentar o país e ainda sobra o bastante para exportar a sua revolução bolivariana. Já o segundo é como o palhaço que, no picadeiro, sucede ao trapezista. Ele tenta imitar o acrobata, mas o resultado nunca é o mesmo...
Evo Morales acaba de nacionalizar toda a produção e o refino de hidrocarbonetos na Bolívia. Expropriar seria o termo mais correto. Segundo ele, isso é apenas o começo. Ele pretende nacionalizar tudo o mais que encontrar. Só não lançará todos os ianques ao mar porque seu país não tem mar. Mas já advertiu: as empresas estrangeiras que não se adequarem às novas regras, ultranacionalistas, terão, forçosamente, de deixar seu país.
A população boliviana, em grande parte analfabeta, vibra. Mal sabe ela as graves conseqüências que advirão da patriotada irresponsável de seu presidente. A Bolívia conquistou o título de país mais pobre da América do Sul, e o fez, em grande parte, por seus próprios méritos. A instabilidade política é uma constante na história nacional. Raros são os presidentes que logram encerrar o mandato. O que se assistiu, de dois séculos para cá, foi a uma sucessão de caudilhos, ditadores militares, ditadores civis e líderes populistas, que chegaram ao poder pelas armas ou pela corrupção eleitoral.
Emblemática é uma anedota que corria alguns anos atrás. Três prisioneiros políticos bolivianos, na mesma cela, conversavam sobre as razões de sua prisão.
"Estoy acá porque hace cuatro años que hablé bien de Banzer."
"Yo estoy acá porque hace dos años que hablé mal de Banzer. Y usted?"
"Yo soy Banzer..."
Tem sido assim através dos séculos. Lembro-me bem da acirrada polêmica que, por mais de 20 anos, cercou a construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Não eram poucos os políticos e diplomatas que alertavam ser uma temeridade depender do gás proveniente de um país tão imprevisível. A obra acabou sendo feita e, agora, estamos vendo os resultados. O US$ 1,5 bilhão investido pela Petrobrás na Bolívia simplesmente virou pó. A situação só não é catastrófica porque os bolivianos, não tendo para quem vender o seu gás, continuarão exportando-o para o Brasil. A que preço, só Deus sabe...
Mas deixemos de lado os bolivianos e seus problemas. Digna de registro, aqui, neste Espaço Aberto, é a reação para lá de esquizofrênica do PT e de seus líderes.
O nacionalismo arrebatado, a satanização das empresas multinacionais e o combate acirrado ao imperialismo norte-americano, durante mais de duas décadas, foram o leitmotiv e a pedra fundamental da ideologia petista. Quando Evo Morales se lançou em campanha empunhando bandeiras semelhantes às suas, a intelectualidade petista mais do que vibrou. O presidente Lula, muito impropriamente, chegou a apoiar publicamente a eleição do companheiro. Qual não terá sido o seu espanto, agora, ao perceber que a multinacional que Morales combatia era a Petrobrás e que, para os bolivianos, os imperialistas não são os americanos, mas, sim, os brasileiros...
"Que se mueram los gringos!", bradam os bolivianos.
"Apoiado, apoiado!", respondem os petistas.
"Pero los gringos son ustedes...!"
João Mellão Neto
E-mail: j.mellao@uol.com.br
quinta-feira, maio 04, 2006
Aguardem o pior
Não faz sentido querer que o Estado, o governo, a classe política tenham um nível de moralidade mais elevado que o de seus fiscais e críticos - os intelectuais e a mídia.
Ninguém jamais refutou a tese de Reinhold Niebuhr, exposta em Moral Man and Immoral Society, de que a sociedade e sua representação estatal se permitem necessariamente condutas que, no indivíduo, seriam condenadas como imorais.
O crítico que se ergue contra a corrupção estatal tem portanto a obrigação de ser mais exigente para consigo próprio do que para com o objeto da sua crítica.
No Brasil, a maior prova da imoralidade geral não é o sucesso da máquina de corrupção petista: é a presunção de impecabilidade angélica com que aqueles que ajudaram a construi-la falam contra ela no tom de vítimas inocentes e não no de cúmplices arrependidos.
O primeiro passo para a institucionalização do gangsterismo estatal neste país foi a destruição da moral tradicional e sua substituição pelo aglomerado turvo de slogans e casuísmos politicamente corretos que, por vazios e amoldáveis às conveniências táticas do momento, só servem mesmo é para concentrar o poder nas mãos dos mais cínicos e despudorados.
Quando as noções simples de veracidade, honestidade e sinceridade são neutralizadas como meras construções ideológicas e em lugar delas se consagram fetiches verbais hipnóticos como “justiça social”, “inclusão”, “diversidade”, que mais se pode esperar senão a confusão geral das consciências e a ascensão irrefreável da vigarice?
E como evitar o embotamento moral, quando duas gerações de estudantes são vampirizados por professores insanos, que, após ter proclamado a total inexistência da verdade, saem no instante seguinte arrogando-se a credibilidade absoluta do discurso veraz e reprimindo como “autoritária” qualquer veleidade de enxergar nisso uma contradição?
Quem, entre os jornalistas e intelectuais, pode honestamente dizer que não contribuiu para essa imbecilização em massa, celebrada ao longo dos anos como um avanço meritório da “consciência crítica”?
Quem, entre eles, reconhece agora no descalabro petista o fruto das suas próprias ações, em vez de ocultar seu passado sob feiúras alheias que já não se pode mesmo camuflar?
Quando no começo dos anos 90 se lançou entre fanfarras triunfais a “Campanha pela Ética na Política”, que fui o único a denunciar como ardil maquiavélico inventado para prostituir a ética no leito da política, o destino do Brasil estava selado: beatificar os piores, erigi-los em modelos de boa conduta, projetar neles todas as esperanças de uma transfiguração redentora da nacionalidade e por fim entregar-lhes uma dose de poder maior que a de qualquer grupo político ao longo de toda a nossa História.
Quem, na época em que os Dirceus e Mercadantes brilhavam como apóstolos da virtude no picadeiro das CPIs, parou para examinar a moralidade intrínseca das suas acusações, não raro alimentadas pelo aparato de espionagem petista cuja mera existência já era então a ilegalidade estabelecida, a usurpação das prerrogativas do Estado pelo Partido-Príncipe auto-incumbido de exercer, nas palavras de seu guru Antonio Gramsci, “a autoridade onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”?
Quem, sabendo das ligações entre esse partido e as Farc, não julgou legítimo e moralmente defensável ocultá-las para não dar força aos Malufs e Magalhães, aos objetos de ódio pré-selecionados para servir de vítimas sacrificiais no grande espetáculo do rito purificador, oficiado entre discretos risisinhos e piscadelas de olho por um clero de espertalhões?
Muitos, hoje, apontam o dedo contra a corrupção governamental. Poucos, entre eles, são menos culpados dela do que o próprio Lula. Mais raros ainda os que têm a hombridade de limpar-se antes de mostrar a sujeira dos outros.
O teor geral da polêmica antipetista hoje em dia não prenuncia nenhuma restauração da moralidade, apenas mais um remake da farsa costumeira. Aguardem o pior, e não serão decepcionados.
Olavo de Carvalho
Ninguém jamais refutou a tese de Reinhold Niebuhr, exposta em Moral Man and Immoral Society, de que a sociedade e sua representação estatal se permitem necessariamente condutas que, no indivíduo, seriam condenadas como imorais.
O crítico que se ergue contra a corrupção estatal tem portanto a obrigação de ser mais exigente para consigo próprio do que para com o objeto da sua crítica.
No Brasil, a maior prova da imoralidade geral não é o sucesso da máquina de corrupção petista: é a presunção de impecabilidade angélica com que aqueles que ajudaram a construi-la falam contra ela no tom de vítimas inocentes e não no de cúmplices arrependidos.
O primeiro passo para a institucionalização do gangsterismo estatal neste país foi a destruição da moral tradicional e sua substituição pelo aglomerado turvo de slogans e casuísmos politicamente corretos que, por vazios e amoldáveis às conveniências táticas do momento, só servem mesmo é para concentrar o poder nas mãos dos mais cínicos e despudorados.
Quando as noções simples de veracidade, honestidade e sinceridade são neutralizadas como meras construções ideológicas e em lugar delas se consagram fetiches verbais hipnóticos como “justiça social”, “inclusão”, “diversidade”, que mais se pode esperar senão a confusão geral das consciências e a ascensão irrefreável da vigarice?
E como evitar o embotamento moral, quando duas gerações de estudantes são vampirizados por professores insanos, que, após ter proclamado a total inexistência da verdade, saem no instante seguinte arrogando-se a credibilidade absoluta do discurso veraz e reprimindo como “autoritária” qualquer veleidade de enxergar nisso uma contradição?
Quem, entre os jornalistas e intelectuais, pode honestamente dizer que não contribuiu para essa imbecilização em massa, celebrada ao longo dos anos como um avanço meritório da “consciência crítica”?
Quem, entre eles, reconhece agora no descalabro petista o fruto das suas próprias ações, em vez de ocultar seu passado sob feiúras alheias que já não se pode mesmo camuflar?
Quando no começo dos anos 90 se lançou entre fanfarras triunfais a “Campanha pela Ética na Política”, que fui o único a denunciar como ardil maquiavélico inventado para prostituir a ética no leito da política, o destino do Brasil estava selado: beatificar os piores, erigi-los em modelos de boa conduta, projetar neles todas as esperanças de uma transfiguração redentora da nacionalidade e por fim entregar-lhes uma dose de poder maior que a de qualquer grupo político ao longo de toda a nossa História.
Quem, na época em que os Dirceus e Mercadantes brilhavam como apóstolos da virtude no picadeiro das CPIs, parou para examinar a moralidade intrínseca das suas acusações, não raro alimentadas pelo aparato de espionagem petista cuja mera existência já era então a ilegalidade estabelecida, a usurpação das prerrogativas do Estado pelo Partido-Príncipe auto-incumbido de exercer, nas palavras de seu guru Antonio Gramsci, “a autoridade onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”?
Quem, sabendo das ligações entre esse partido e as Farc, não julgou legítimo e moralmente defensável ocultá-las para não dar força aos Malufs e Magalhães, aos objetos de ódio pré-selecionados para servir de vítimas sacrificiais no grande espetáculo do rito purificador, oficiado entre discretos risisinhos e piscadelas de olho por um clero de espertalhões?
Muitos, hoje, apontam o dedo contra a corrupção governamental. Poucos, entre eles, são menos culpados dela do que o próprio Lula. Mais raros ainda os que têm a hombridade de limpar-se antes de mostrar a sujeira dos outros.
O teor geral da polêmica antipetista hoje em dia não prenuncia nenhuma restauração da moralidade, apenas mais um remake da farsa costumeira. Aguardem o pior, e não serão decepcionados.
Olavo de Carvalho
Em berço esplêndido
Nacionalização é um termo vago, que acata múltiplas interpretações. Na campanha que o conduziu à Presidência, Evo Morales dançou em torno das labaredas da ambigüidade, sugerindo coisas diferentes para os públicos interno e externo. No governo, seu passo inicial foi regulamentar a lei dos hidrocarbonetos, recuperando para o Estado a propriedade do gás e do petróleo na "boca do poço", cancelando o preço do "gás solidário" oferecido temporariamente à Argentina e impondo negociações destinadas a aumentar os preços de exportação do produto.
Essa "nacionalização" não aplacou o vulcão social que entrou em erupção na Bolívia há três anos, devorando sucessivamente os presidentes Sánchez de Losada e Carlos Mesa. Há semanas, a COB, central sindical do país, ensaiou uma greve geral de advertência, que não chegou a decolar, mas reativou os movimentos sociais de El Alto, a imensa periferia ameríndia de La Paz. Morales, que não quer se juntar à galeria dos defenestrados, produziu então uma segunda interpretação da "nacionalização", na forma do decreto do 1º de Maio. Essa lei representa, de fato, a estatização da produção de gás e petróleo no país.
O decreto de Morales é fruto das circunstâncias internas, mas também de um dado internacional: o respaldo de Hugo Chávez. O presidente boliviano não é um néscio, mas um líder experimentado. Ele não ousaria afrontar as empresas internacionais se lhe faltasse a garantia de que, na hipótese da retirada dessas empresas, a poderosa estatal venezuelana de petróleo injetaria os capitais e a tecnologia para a continuidade da exploração dos hidrocarbonetos.
A decisão final pela estatização, ao que tudo indica, foi adotada às pressas, em consultas bilaterais com Caracas, mas sem qualquer aviso prévio ao Brasil. Na antevéspera do anúncio do decreto, Chávez, Morales e Fidel Castro assinaram um tratado de comércio que formaliza a "geopolítica do petróleo" conduzida pelo primeiro e tem óbvio significado simbólico. Em conjunto, o decreto boliviano e o tratado tripartite selam um alinhamento que exclui o Brasil.
Não é um revés isolado. O tratado de comércio firmado entre o Peru e os EUA somou-se aos acordos bilaterais do Chile, da Colômbia e do Equador com os EUA, provocou a implosão da Comunidade Andina e completou a derrocada da Comunidade Sul-Americana de Nações, proclamada por iniciativa do Brasil na declaração solene e vazia de dezembro de 2004. O próximo passo pode ser a retirada uruguaia do Mercosul, já anunciada pelo presidente Tabaré Vazquez, que acalenta seu próprio acordo comercial com os EUA. O Brasil tem responsabilidade direta, ainda que parcial, no desfecho: a trilha até esses tratados foi aberta pela decisão da "Alca à la carte", articulada entre Washington e Brasília e apresentada pelo chanceler Celso Amorim como retumbante vitória da diplomacia brasileira.
Na sua viagem inaugural ao exterior, em Quito, em janeiro de 2003, Lula ressuscitou o adágio anacrônico da "liderança natural" brasileira na esfera sul-americana. "Vamos desbravar a América do Sul, tão próxima e tão distante", anunciou em êxtase e deslumbramento, negando-se a reconhecer a história que o precedia. O próximo presidente, seja ele quem for, está condenado a recolher os cacos das relações externas do Brasil.
Demétrio Magnoli - magnoli@ajato.com.br
Essa "nacionalização" não aplacou o vulcão social que entrou em erupção na Bolívia há três anos, devorando sucessivamente os presidentes Sánchez de Losada e Carlos Mesa. Há semanas, a COB, central sindical do país, ensaiou uma greve geral de advertência, que não chegou a decolar, mas reativou os movimentos sociais de El Alto, a imensa periferia ameríndia de La Paz. Morales, que não quer se juntar à galeria dos defenestrados, produziu então uma segunda interpretação da "nacionalização", na forma do decreto do 1º de Maio. Essa lei representa, de fato, a estatização da produção de gás e petróleo no país.
O decreto de Morales é fruto das circunstâncias internas, mas também de um dado internacional: o respaldo de Hugo Chávez. O presidente boliviano não é um néscio, mas um líder experimentado. Ele não ousaria afrontar as empresas internacionais se lhe faltasse a garantia de que, na hipótese da retirada dessas empresas, a poderosa estatal venezuelana de petróleo injetaria os capitais e a tecnologia para a continuidade da exploração dos hidrocarbonetos.
A decisão final pela estatização, ao que tudo indica, foi adotada às pressas, em consultas bilaterais com Caracas, mas sem qualquer aviso prévio ao Brasil. Na antevéspera do anúncio do decreto, Chávez, Morales e Fidel Castro assinaram um tratado de comércio que formaliza a "geopolítica do petróleo" conduzida pelo primeiro e tem óbvio significado simbólico. Em conjunto, o decreto boliviano e o tratado tripartite selam um alinhamento que exclui o Brasil.
Não é um revés isolado. O tratado de comércio firmado entre o Peru e os EUA somou-se aos acordos bilaterais do Chile, da Colômbia e do Equador com os EUA, provocou a implosão da Comunidade Andina e completou a derrocada da Comunidade Sul-Americana de Nações, proclamada por iniciativa do Brasil na declaração solene e vazia de dezembro de 2004. O próximo passo pode ser a retirada uruguaia do Mercosul, já anunciada pelo presidente Tabaré Vazquez, que acalenta seu próprio acordo comercial com os EUA. O Brasil tem responsabilidade direta, ainda que parcial, no desfecho: a trilha até esses tratados foi aberta pela decisão da "Alca à la carte", articulada entre Washington e Brasília e apresentada pelo chanceler Celso Amorim como retumbante vitória da diplomacia brasileira.
Na sua viagem inaugural ao exterior, em Quito, em janeiro de 2003, Lula ressuscitou o adágio anacrônico da "liderança natural" brasileira na esfera sul-americana. "Vamos desbravar a América do Sul, tão próxima e tão distante", anunciou em êxtase e deslumbramento, negando-se a reconhecer a história que o precedia. O próximo presidente, seja ele quem for, está condenado a recolher os cacos das relações externas do Brasil.
Demétrio Magnoli - magnoli@ajato.com.br
segunda-feira, maio 01, 2006
Chantagem política
"A crise institucional coloca em cena mais um ingrediente antidemocrático, desta vez por meio do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), João Felício: a chantagem política. Informado de que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) examinará, dia 8 de maio, em Brasília, a viabilidade de pedido de impeachment do presidente da República, saiu-se com uma ameaça: se a OAB optar pelo encaminhamento, haverá retaliação, envolvendo outras entidades ligadas a movimentos sociais.
Citou especificamente o Movimento dos Sem Terra (MST), a União Nacional dos Estudantes (UNE), além de partidos de esquerda — PT, PC do B e PSB. E fez questão de mencionar o poderio das entidades que citou: "Só a CUT tem 3.300 sindicatos filiados. Temos uma base de associados de 7,2 milhões de trabalhadores", disse ele.
O recado é simples: "Se algum tresloucado do neoliberalismo avançar nessa direção (do impeachment), nós vamos reagir". A reação consiste em repetir aqui o procedimento do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, há dois anos: colocar milhares de sindicalistas, estudantes e desempregados nas ruas, em atitude hostil às classes média e alta, pondo em risco a paz pública.
Em suma, a mobilização dividiria ao meio a sociedade brasileira, abrindo uma porta para o imponderável. Na Venezuela, país socialmente bem menos complexo que o nosso, o resultado desse tipo de ação é conhecido: a sociedade dividiu-se, o ambiente político radicalizou-se e a economia do país, mesmo tendo o petróleo como poderoso lastro, fragilizou-se enormemente.
Ninguém quer tal quadro transposto para cá. Já temos problemas demais. O inaceitável, no entanto, é que se faça dos movimentos sociais instrumento de chantagem política. É simplesmente imoral. Mais ainda quando se tenta impingir a uma entidade como a OAB, com densa folha de serviços ao país — e em especial aos movimentos sociais —, a pecha de "tresloucada" e "elitista". Para ficar apenas na gestão em que presidi a OAB, entre 1999 e 2001, recordo que em diversas oportunidades cerramos fileiras ao lado da CUT e do MST, em defesa de direitos sociais, em confronto direto com o poder público, que resistia a reivindicações legítimas — entre as quais, a reforma agrária.
O próprio João Felício, autor das declarações infelizes, há de recordar de nossos contatos e conversações em momentos tensos do governo FHC. Se há uma coisa de que a Ordem não pode ser acusada é a de estar ou ter ficado na contramão de reivindicações sociais, mesmo em momentos, como na ditadura militar, em que a simples enunciação desse termo gerava represálias duríssimas do poder público. Nossa história, que se confunde com a da República, está aí para quem quiser conhecê-la. É história de luta, de afirmações, de resistência ao arbítrio e à truculência, de defesa de ampliação de direitos sociais. A OAB preza — e muito — sua biografia e seus heróis.
A crise política que aí está não foi criada pela Ordem, nem lhe cabe resolvê-la. Nossa instituição, por dever estatutário, decorrente da Lei Federal 8.906/94 (Estatuto da Advocacia e da OAB), está comprometida, entre outras coisas, com a defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do aperfeiçoamento das instituições jurídicas. Daí sua inserção eventual na cena política, sem, no entanto, qualquer contágio político-partidário ou ideológico.
É a sociedade civil que nos convoca. E tanto agora como no passado agiremos com boa-fé, determinação e transparência. Não admitiremos chantagem política, intimidação ou qualquer outro recurso que iniba a livre manifestação democrática. Lamento mais uma vez que tal declaração tenha sido proferida por uma liderança como João Felício. Penso que o fez com emoção partidária.
O Conselho Federal da OAB, composto por 81 membros — três representantes por estado da Federação —, é entidade plural. Expressa a diversidade da sociedade brasileira. E é essa diversidade que dirá, soberanamente, se cabe ou não propor o impedimento do presidente da República. O exame é mais que um direito: é dever cívico. E nada inibirá a livre manifestação do Conselho: nem a pressão dos que querem, nem a dos que não querem. É legítimo que cada lado se manifeste e procure convencer a sociedade de seu ponto de vista. Mas é ilegítimo — repugnante e antidemocrático — que se queira fazê-lo à base de intimidação e chantagem política. O tiro pode sair pela culatra.
Reginaldo Oscar de Castro - advogado
Citou especificamente o Movimento dos Sem Terra (MST), a União Nacional dos Estudantes (UNE), além de partidos de esquerda — PT, PC do B e PSB. E fez questão de mencionar o poderio das entidades que citou: "Só a CUT tem 3.300 sindicatos filiados. Temos uma base de associados de 7,2 milhões de trabalhadores", disse ele.
O recado é simples: "Se algum tresloucado do neoliberalismo avançar nessa direção (do impeachment), nós vamos reagir". A reação consiste em repetir aqui o procedimento do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, há dois anos: colocar milhares de sindicalistas, estudantes e desempregados nas ruas, em atitude hostil às classes média e alta, pondo em risco a paz pública.
Em suma, a mobilização dividiria ao meio a sociedade brasileira, abrindo uma porta para o imponderável. Na Venezuela, país socialmente bem menos complexo que o nosso, o resultado desse tipo de ação é conhecido: a sociedade dividiu-se, o ambiente político radicalizou-se e a economia do país, mesmo tendo o petróleo como poderoso lastro, fragilizou-se enormemente.
Ninguém quer tal quadro transposto para cá. Já temos problemas demais. O inaceitável, no entanto, é que se faça dos movimentos sociais instrumento de chantagem política. É simplesmente imoral. Mais ainda quando se tenta impingir a uma entidade como a OAB, com densa folha de serviços ao país — e em especial aos movimentos sociais —, a pecha de "tresloucada" e "elitista". Para ficar apenas na gestão em que presidi a OAB, entre 1999 e 2001, recordo que em diversas oportunidades cerramos fileiras ao lado da CUT e do MST, em defesa de direitos sociais, em confronto direto com o poder público, que resistia a reivindicações legítimas — entre as quais, a reforma agrária.
O próprio João Felício, autor das declarações infelizes, há de recordar de nossos contatos e conversações em momentos tensos do governo FHC. Se há uma coisa de que a Ordem não pode ser acusada é a de estar ou ter ficado na contramão de reivindicações sociais, mesmo em momentos, como na ditadura militar, em que a simples enunciação desse termo gerava represálias duríssimas do poder público. Nossa história, que se confunde com a da República, está aí para quem quiser conhecê-la. É história de luta, de afirmações, de resistência ao arbítrio e à truculência, de defesa de ampliação de direitos sociais. A OAB preza — e muito — sua biografia e seus heróis.
A crise política que aí está não foi criada pela Ordem, nem lhe cabe resolvê-la. Nossa instituição, por dever estatutário, decorrente da Lei Federal 8.906/94 (Estatuto da Advocacia e da OAB), está comprometida, entre outras coisas, com a defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do aperfeiçoamento das instituições jurídicas. Daí sua inserção eventual na cena política, sem, no entanto, qualquer contágio político-partidário ou ideológico.
É a sociedade civil que nos convoca. E tanto agora como no passado agiremos com boa-fé, determinação e transparência. Não admitiremos chantagem política, intimidação ou qualquer outro recurso que iniba a livre manifestação democrática. Lamento mais uma vez que tal declaração tenha sido proferida por uma liderança como João Felício. Penso que o fez com emoção partidária.
O Conselho Federal da OAB, composto por 81 membros — três representantes por estado da Federação —, é entidade plural. Expressa a diversidade da sociedade brasileira. E é essa diversidade que dirá, soberanamente, se cabe ou não propor o impedimento do presidente da República. O exame é mais que um direito: é dever cívico. E nada inibirá a livre manifestação do Conselho: nem a pressão dos que querem, nem a dos que não querem. É legítimo que cada lado se manifeste e procure convencer a sociedade de seu ponto de vista. Mas é ilegítimo — repugnante e antidemocrático — que se queira fazê-lo à base de intimidação e chantagem política. O tiro pode sair pela culatra.
Reginaldo Oscar de Castro - advogado
domingo, abril 30, 2006
Vamos colaborar
Empenhado em me dedicar à solucionática, em vez da problemática, tenho pensado muito em nós, como povo. É indiscutível que, com a nossa existência, como já tive oportunidade de escrever, atrapalhamos bastante o governo. Dizem que Calígula, o famoso imperador romano que nomeou seu cavalo senador (hoje não fazemos mais isso, desmando de tirano degenerado; hoje elegemos mesmo), expressou o desejo de que seu povo tivesse um só pescoço, para que ele pudesse cortá-lo logo de uma vez e, assim, resolver as chateações que ele lhe causava. Imagino que alguns dos nossos governantes se sintam de forma parecida, porque realmente “este país” ficaria bem melhor sem o povo, que só serve para reclamar e estragar as estatísticas deles.
Contudo, não quis o bom Deus dar-nos um só pescoço, de maneira que persistimos em abusar da paciência de nossos extenuados governantes. Chegamos a comentar, muito caluniosamente, que somos governados por uma quadrilha e os maldosos ainda acrescentam que essa é mais uma manifestação do complexo de inferioridade brasileiro, pois não seria uma quadrilha só, coisa de pobre, mas diversas quadrilhas de escol. É de desanimar qualquer um. Vê-se defeito em tudo e o próprio presidente, em observações notáveis para quem não ouviu nem sabe de nada, já se queixou várias vezes “deste país” ou, melhor dizendo, de características que ele enxerga (sim, carecem de fundamento os boatos de que ele sempre enxergou e ouviu mal, isso é só quando tem corrupto por perto, porque a alergia dele a esses maus elementos é tal que lhe causa surdez, miopia, astigmatismo, vista cansada e catarata) “neste país”.
Agora tem gente se queixando de que os deputados usam notas frias. Antigamente era bandidagem, mas atualmente não. Se fosse, os deputados não estariam fazendo tanto uso delas. Há quem insinue que, além de falsários, são ladrões. Aonde chegaremos com esse moralismo pequeno-burguês? Nós os forçamos a essa situação e, quando eles recorrem ao antigamente reprovável expediente de fajutar notas fiscais, ficamos achando que são ladrões, assim como são seus cúmplices os encarregados de soltar o dinheiro, que não verificam as notas, e os emissores destas, que não hesitam em delinqüir. Tudo errado, tudo errado, nós é que os obrigamos a agir assim. Como em qualquer lugar do mundo, deputado tem assessor de graça, casa de graça, viagem de graça, correio de graça e mais não sei quantas coisas de graça, para segurar a merreca que lhe pagamos, suando numa semana de dois ou três dias e pegando uma grana batalhada em convocações extraordinárias e benefícios que sequer sabemos quais são, porque deputado é assim por natureza, muito discreto.
Proponho, em primeiro lugar, que o imposto de renda seja logo elevado para 50 por cento de tudo o que ganhamos, não compreendidos aí os ricos (dinheiro não traz felicidade, não sei se vocês já ouviram isso, pobre não compreende que o homem feliz é o que não tem camisa), bancos e outros que não pagam imposto de renda. É mais do que justo, meio a meio. Na verdade, eles deviam pegar mais um pouco do que esses míseros cinqüentinha, mas estamos num governo popular, que não vai atacar a bolsa do assalariado e suporta o prejuízo com resignação, ainda tendo de aturar as queixas. Quando a Câmara organizar, o que imagino que já deve estar sendo articulado, uma Comissão Parlamentar de Observação da Copa do Mundo, composta de deputados livremente eleitos por voto secreto e seus familiares, eis que a tensão de passar uma Copa longe da família pode provocar estresse, vamos demonstrar a eles nossa gratidão e nosso reconhecimento. Vamos propor recesso remunerado para a Copa e que não um mas todos os deputados desfrutem do benefício, claro que sem exageros, limitando-se as diárias, por exemplo, a uns dois mil euros, que nem dão para pagar a estada num hotel na Alemanha à altura deles.
Enquanto isso, nosso presidente faz novo sacrifício, ficando por aqui mesmo, até porque tem a campanha a cuidar e poderá observar a Copa nos 1.200 telões de plasma que o Alvorada deverá adquirir após cuidadosa licitação pública. Legislar não será problema com a ausência dos deputados, porque ele já está habituado a exercer essa função com as Medidas Provisórias. Além do mais, já conhece bem a Europa e sua família acaba de obter passaportes italianos, com a conseqüência de que, sendo casado com uma italiana, ele talvez vire italiano, quiçá uma boa para ele, pois poderá candidatar-se lá e ser o melhor governante que a Itália já teve desde Otávio Augusto. Espero apenas que a Primeira Família não tenha votado no Berlusconi e aposto que, se já tem passaporte italiano, o presidente tampouco votou nele.
Quanto a nós, o povo, inventariemos nossas bênçãos, em vez de continuar com as lamúrias de sempre. O melhor presidente que “este país” já teve (atenção: já ensinei aqui, mas ensino de novo, no interesse da brasileirada que vai à Copa: “Nosso Guia”, em alemão, é “Unser Führer” ,
não sei se pega muito bem por lá hoje em dia, é melhor deixar para puxar o saco do Homem em português mesmo) declarou maravilhado que o Brasil está perto da perfeição em matéria de saúde. Como não tínhamos notado isso, a que ponto chega nossa ingratidão, não notando a evidência diante dos olhos dele e desmentida pela mentiralhada do povo e da imprensa inimiga da pátria? E a auto-suficiência do petróleo não nos diz nada? Ela seria atingida de qualquer forma, mas ninguém notou o lance magistral que a antecipou para agora. Crescendo a taxas ridículas, a economia brasileira manteve baixa a demanda de petróleo. Sintam a originalidade. Tivemos um crescimento mixuruca em nome de um ideal mais nobre, a auto-suficiência em petróleo. Não crescemos, mas a saúde pública é exemplar e somos auto-suficientes em petróleo, nunca estaremos satisfeitos?
JOÃO UBALDO RIBEIRO.
Contudo, não quis o bom Deus dar-nos um só pescoço, de maneira que persistimos em abusar da paciência de nossos extenuados governantes. Chegamos a comentar, muito caluniosamente, que somos governados por uma quadrilha e os maldosos ainda acrescentam que essa é mais uma manifestação do complexo de inferioridade brasileiro, pois não seria uma quadrilha só, coisa de pobre, mas diversas quadrilhas de escol. É de desanimar qualquer um. Vê-se defeito em tudo e o próprio presidente, em observações notáveis para quem não ouviu nem sabe de nada, já se queixou várias vezes “deste país” ou, melhor dizendo, de características que ele enxerga (sim, carecem de fundamento os boatos de que ele sempre enxergou e ouviu mal, isso é só quando tem corrupto por perto, porque a alergia dele a esses maus elementos é tal que lhe causa surdez, miopia, astigmatismo, vista cansada e catarata) “neste país”.
Agora tem gente se queixando de que os deputados usam notas frias. Antigamente era bandidagem, mas atualmente não. Se fosse, os deputados não estariam fazendo tanto uso delas. Há quem insinue que, além de falsários, são ladrões. Aonde chegaremos com esse moralismo pequeno-burguês? Nós os forçamos a essa situação e, quando eles recorrem ao antigamente reprovável expediente de fajutar notas fiscais, ficamos achando que são ladrões, assim como são seus cúmplices os encarregados de soltar o dinheiro, que não verificam as notas, e os emissores destas, que não hesitam em delinqüir. Tudo errado, tudo errado, nós é que os obrigamos a agir assim. Como em qualquer lugar do mundo, deputado tem assessor de graça, casa de graça, viagem de graça, correio de graça e mais não sei quantas coisas de graça, para segurar a merreca que lhe pagamos, suando numa semana de dois ou três dias e pegando uma grana batalhada em convocações extraordinárias e benefícios que sequer sabemos quais são, porque deputado é assim por natureza, muito discreto.
Proponho, em primeiro lugar, que o imposto de renda seja logo elevado para 50 por cento de tudo o que ganhamos, não compreendidos aí os ricos (dinheiro não traz felicidade, não sei se vocês já ouviram isso, pobre não compreende que o homem feliz é o que não tem camisa), bancos e outros que não pagam imposto de renda. É mais do que justo, meio a meio. Na verdade, eles deviam pegar mais um pouco do que esses míseros cinqüentinha, mas estamos num governo popular, que não vai atacar a bolsa do assalariado e suporta o prejuízo com resignação, ainda tendo de aturar as queixas. Quando a Câmara organizar, o que imagino que já deve estar sendo articulado, uma Comissão Parlamentar de Observação da Copa do Mundo, composta de deputados livremente eleitos por voto secreto e seus familiares, eis que a tensão de passar uma Copa longe da família pode provocar estresse, vamos demonstrar a eles nossa gratidão e nosso reconhecimento. Vamos propor recesso remunerado para a Copa e que não um mas todos os deputados desfrutem do benefício, claro que sem exageros, limitando-se as diárias, por exemplo, a uns dois mil euros, que nem dão para pagar a estada num hotel na Alemanha à altura deles.
Enquanto isso, nosso presidente faz novo sacrifício, ficando por aqui mesmo, até porque tem a campanha a cuidar e poderá observar a Copa nos 1.200 telões de plasma que o Alvorada deverá adquirir após cuidadosa licitação pública. Legislar não será problema com a ausência dos deputados, porque ele já está habituado a exercer essa função com as Medidas Provisórias. Além do mais, já conhece bem a Europa e sua família acaba de obter passaportes italianos, com a conseqüência de que, sendo casado com uma italiana, ele talvez vire italiano, quiçá uma boa para ele, pois poderá candidatar-se lá e ser o melhor governante que a Itália já teve desde Otávio Augusto. Espero apenas que a Primeira Família não tenha votado no Berlusconi e aposto que, se já tem passaporte italiano, o presidente tampouco votou nele.
Quanto a nós, o povo, inventariemos nossas bênçãos, em vez de continuar com as lamúrias de sempre. O melhor presidente que “este país” já teve (atenção: já ensinei aqui, mas ensino de novo, no interesse da brasileirada que vai à Copa: “Nosso Guia”, em alemão, é “Unser Führer” ,
não sei se pega muito bem por lá hoje em dia, é melhor deixar para puxar o saco do Homem em português mesmo) declarou maravilhado que o Brasil está perto da perfeição em matéria de saúde. Como não tínhamos notado isso, a que ponto chega nossa ingratidão, não notando a evidência diante dos olhos dele e desmentida pela mentiralhada do povo e da imprensa inimiga da pátria? E a auto-suficiência do petróleo não nos diz nada? Ela seria atingida de qualquer forma, mas ninguém notou o lance magistral que a antecipou para agora. Crescendo a taxas ridículas, a economia brasileira manteve baixa a demanda de petróleo. Sintam a originalidade. Tivemos um crescimento mixuruca em nome de um ideal mais nobre, a auto-suficiência em petróleo. Não crescemos, mas a saúde pública é exemplar e somos auto-suficientes em petróleo, nunca estaremos satisfeitos?
JOÃO UBALDO RIBEIRO.
Nos aposentos do príncipe
A frase pode ser vista como efeito de desconhecimento, o que me pareceria uma conclusão exagerada. Não seria de todo irreal debitá-la à perda de senso que é a megalomania do sucesso. Mas também é possível atribuí-la a impulsos paranóicos. Haverá quem a tome por leviandade demagógica, não faltará quem nela identifique apenas um deboche. Faça a seu escolha. Eis a frase, servida como complemento à advertência "tudo o que eu quero na vida é fazer comparação":
"Não queria comparar o meu governo com o governo passado, porque isso seria como um Corinthians e Íbis. Queria comparar o nosso governo com toda a República, com o mundo todo, para ver se em algum momento na história houve um governo com tanta participação dos trabalhadores".
A comparação que Lula faz todos os dias lhe parece, agora, covardia. E é. Se não perdeu de todo o senso e as medidas, e quer mesmo fazer comparações, tem duas bem à mão. Não precisa ir "a toda a República, ao mundo todo". Compare o seu governo aos frutos sociais, econômicos e institucionais dos governos de José Sarney e Itamar Franco. O primeiro foi o mais acusado de ineficiência nos últimos 40 anos, ou desde João Goulart. O outro durou apenas dois anos e teve de improvisar-se, nas urgências do pós-impeachment. Apesar disso, é com eles que Lula pode fazer a comparação esclarecedora.
Não é recomendável que a faça em público. O lugar apropriado é o recôndito dos palácios, um daqueles aposentos onde Fernando Henrique gostava de levar conhecidos para mostrar o que chamava de "os aposentos do príncipe", os seus. A finalidade da comparação não seria submeter a castigo público, como punição para a persistência em iludir platéias. Seria apenas, digamos, ortopédica: fazer o presidente da República pôr os pés no chão, como primeiro passo em direção às responsabilidades que dele o país tem esperado.
Espera que não inclui, é claro, os favorecidos com os juros lulistas, os que ganham fortunas diárias com os títulos da crescente dívida feita pelo governo Lula, os especuladores das Bolsas e os agraciados (a maioria deles ainda irrevelada) pela original política que compôs a "base governista" com a inspiração de Marcos Valério.
JANIO DE FREITAS
"Não queria comparar o meu governo com o governo passado, porque isso seria como um Corinthians e Íbis. Queria comparar o nosso governo com toda a República, com o mundo todo, para ver se em algum momento na história houve um governo com tanta participação dos trabalhadores".
A comparação que Lula faz todos os dias lhe parece, agora, covardia. E é. Se não perdeu de todo o senso e as medidas, e quer mesmo fazer comparações, tem duas bem à mão. Não precisa ir "a toda a República, ao mundo todo". Compare o seu governo aos frutos sociais, econômicos e institucionais dos governos de José Sarney e Itamar Franco. O primeiro foi o mais acusado de ineficiência nos últimos 40 anos, ou desde João Goulart. O outro durou apenas dois anos e teve de improvisar-se, nas urgências do pós-impeachment. Apesar disso, é com eles que Lula pode fazer a comparação esclarecedora.
Não é recomendável que a faça em público. O lugar apropriado é o recôndito dos palácios, um daqueles aposentos onde Fernando Henrique gostava de levar conhecidos para mostrar o que chamava de "os aposentos do príncipe", os seus. A finalidade da comparação não seria submeter a castigo público, como punição para a persistência em iludir platéias. Seria apenas, digamos, ortopédica: fazer o presidente da República pôr os pés no chão, como primeiro passo em direção às responsabilidades que dele o país tem esperado.
Espera que não inclui, é claro, os favorecidos com os juros lulistas, os que ganham fortunas diárias com os títulos da crescente dívida feita pelo governo Lula, os especuladores das Bolsas e os agraciados (a maioria deles ainda irrevelada) pela original política que compôs a "base governista" com a inspiração de Marcos Valério.
JANIO DE FREITAS
sábado, abril 29, 2006
CAMINHANDO RUMO AO ATRASO
Hugo Chávez voltou dia 26 deste ao Brasil. Portanto, com pequeno intervalo entre o encontro promovido pelo governador Roberto Requião em Curitiba (PR).
Naquela ocasião, no Teatro Guaíra, o presidente da Venezuela foi entusiasticamente aplaudido por uma platéia composta pelo MST, pela Via Campesina e por outros grupos de esquerda.
Chávez fez campanha para o companheiro Lula e pregou a unificação do MST a outros movimentos similares existentes em países sul-americanos, num evidente incitamento a desordem e a violência no Brasil.
Seu plano deve naturalmente incluir as Farc, (grupo colombiano narcoguerrilheiro) e o equivalente e sanguinário Sendero Luminoso, a ser ressuscitado no Peru se for eleito presidente Ollanta Humala, outro neocaudilho populista dito de esquerda que tem a campanha presidencial financiada pelo coronel Chávez.
Tal unificação de grupos armados reforçaria ainda mais o poder do pretenso herdeiro de Simón Bolívar, pois ele estaria à frente de um exército sul-americano de guerrilheiros que, na verdade, já o têm como único e incontestável comandante.
No dia 26 a reunião foi feita apenas entre Chávez, Luiz Inácio e Nestor Kirchner.
O tema tratado e acertado anteriormente entre os presidentes venezuelano e Argentino foi a construção de um supergasoduto que saindo da Venezuela atravessaria o Brasil de ponta a ponta, cortando o país desde o Amazonas (rio e florestas) até o sul para chegar à Argentina.
O ambicioso projeto pretende incluir a Bolívia (detentora da segunda maior reserva de gás da América do Sul, atrás apenas da Venezuela) cujo presidente, Evo Morales, ainda é contra a idéia.
É bom lembrar que Morales está nos dando um prejuízo de U$ 1.500 bi com a nacionalização da Petrobrás e expropriando os investimentos já realizados pela EBX na Bolívia.
No caso do Gasoduto Venezuela-Cone Sul caberá ao Brasil bancar a maior parte do financiamento da obra, sem que se tenha dito com clareza em quê os brasileiros serão beneficiados.
Os adeptos do empreendimento faraônico pensam que ele significa a força da liderança de Luiz Inácio na América do Sul, mas, ao contrário, estamos diante do enfraquecimento do presidente brasileiro na medida em que este vai sempre a reboque de Chávez e Kirchner.
Em artigo publicado no O Estado de S. Paulo (27/04/2006), Rolf Kuntz aponta o fracasso da diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio, mostrando que este não tem mais influência sobre o Mercosul (“se é que teve alguma”) onde a figura de Chávez já é a mais poderosa mesmo antes da integração da Venezuela ao bloco.
Além disso, Kirchner tem imposto ao Brasil acordos comerciais aceitos passivamente por nossa diplomacia e prefere Hugo Chávez, que compra os títulos públicos de seu país, a uma bela amizade com o companheiro brasileiro.
Tudo isso significa que Comunidade Sul-americana das Nações, iniciativa do Brasil alardeada com pompas e honras, não passou de um sonho de verão tropical.
Para piorar, como nossos aliados neocaudilhos, não aceitaremos acordos globais que nos abram boas perspectivas comerciais com os Estados Unidos e a União Européia.
Melhor pertencer ao Estado Bolivariano de Chávez do que aceitar o “excremento do diabo” que vem daqueles “porcos capitalistas”.
Enquanto gritamos em coro antiamericanista junto com Hugo Chávez, Fidel Castro, Evo Morales, Nestor kirchner e Ollanta Humala, nossos sonhados parceiros, China, Rússia e Índia cuidam de seus próprios interesses e negociam com os Estados Unidos sem clamar contra a globalização ou o liberalismo.
Estes países não levam em conta a ideologia de um certo marxismo embalsamado e, assim, vão prosperando nos negócios.
Enquanto isso, nós nos fechamos num tribalismo esquerdista obtuso.
Somos fiéis seguidores do comandante Chávez e rumamos alegremente para o atraso.
Tudo indica que fomos contaminados pelos ideais das revoluções megalomaníacas dos caudilhos ambiciosos, que na América Latina sempre condenaram seus povos ao fracasso e a miséria.
Para terminar me valho das palavras do cientista político, Jorge Castañeda, sobre os atuais líderes populistas latino-americanos que tanto amamos.
Nestor Kirchner é “um peronista reacionário, mais interessado em arrancar dinheiro dos credores e do FMI do que promover políticas sociais”.
Hugo Chávez “não é Fidel Castro; é Perón com petróleo, está conduzindo a Venezuela ao colapso”.
Evo Morales “não é um Ché indígena, mas um populista esperto e irresponsável que promete muito e entrega pouco”.
Quanto a nós, creio que num eventual segundo mandato do populista Luiz Inácio saberemos de vez o que é herança maldita, aquela deixada pelo governo do PT cuja incompetência e corrupção manterá o Brasil como um país grande sem jamais chegar a ser um grande país.
Maria Lucia Victor Barbosa
mlucia@sercomtel.com.br
Naquela ocasião, no Teatro Guaíra, o presidente da Venezuela foi entusiasticamente aplaudido por uma platéia composta pelo MST, pela Via Campesina e por outros grupos de esquerda.
Chávez fez campanha para o companheiro Lula e pregou a unificação do MST a outros movimentos similares existentes em países sul-americanos, num evidente incitamento a desordem e a violência no Brasil.
Seu plano deve naturalmente incluir as Farc, (grupo colombiano narcoguerrilheiro) e o equivalente e sanguinário Sendero Luminoso, a ser ressuscitado no Peru se for eleito presidente Ollanta Humala, outro neocaudilho populista dito de esquerda que tem a campanha presidencial financiada pelo coronel Chávez.
Tal unificação de grupos armados reforçaria ainda mais o poder do pretenso herdeiro de Simón Bolívar, pois ele estaria à frente de um exército sul-americano de guerrilheiros que, na verdade, já o têm como único e incontestável comandante.
No dia 26 a reunião foi feita apenas entre Chávez, Luiz Inácio e Nestor Kirchner.
O tema tratado e acertado anteriormente entre os presidentes venezuelano e Argentino foi a construção de um supergasoduto que saindo da Venezuela atravessaria o Brasil de ponta a ponta, cortando o país desde o Amazonas (rio e florestas) até o sul para chegar à Argentina.
O ambicioso projeto pretende incluir a Bolívia (detentora da segunda maior reserva de gás da América do Sul, atrás apenas da Venezuela) cujo presidente, Evo Morales, ainda é contra a idéia.
É bom lembrar que Morales está nos dando um prejuízo de U$ 1.500 bi com a nacionalização da Petrobrás e expropriando os investimentos já realizados pela EBX na Bolívia.
No caso do Gasoduto Venezuela-Cone Sul caberá ao Brasil bancar a maior parte do financiamento da obra, sem que se tenha dito com clareza em quê os brasileiros serão beneficiados.
Os adeptos do empreendimento faraônico pensam que ele significa a força da liderança de Luiz Inácio na América do Sul, mas, ao contrário, estamos diante do enfraquecimento do presidente brasileiro na medida em que este vai sempre a reboque de Chávez e Kirchner.
Em artigo publicado no O Estado de S. Paulo (27/04/2006), Rolf Kuntz aponta o fracasso da diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio, mostrando que este não tem mais influência sobre o Mercosul (“se é que teve alguma”) onde a figura de Chávez já é a mais poderosa mesmo antes da integração da Venezuela ao bloco.
Além disso, Kirchner tem imposto ao Brasil acordos comerciais aceitos passivamente por nossa diplomacia e prefere Hugo Chávez, que compra os títulos públicos de seu país, a uma bela amizade com o companheiro brasileiro.
Tudo isso significa que Comunidade Sul-americana das Nações, iniciativa do Brasil alardeada com pompas e honras, não passou de um sonho de verão tropical.
Para piorar, como nossos aliados neocaudilhos, não aceitaremos acordos globais que nos abram boas perspectivas comerciais com os Estados Unidos e a União Européia.
Melhor pertencer ao Estado Bolivariano de Chávez do que aceitar o “excremento do diabo” que vem daqueles “porcos capitalistas”.
Enquanto gritamos em coro antiamericanista junto com Hugo Chávez, Fidel Castro, Evo Morales, Nestor kirchner e Ollanta Humala, nossos sonhados parceiros, China, Rússia e Índia cuidam de seus próprios interesses e negociam com os Estados Unidos sem clamar contra a globalização ou o liberalismo.
Estes países não levam em conta a ideologia de um certo marxismo embalsamado e, assim, vão prosperando nos negócios.
Enquanto isso, nós nos fechamos num tribalismo esquerdista obtuso.
Somos fiéis seguidores do comandante Chávez e rumamos alegremente para o atraso.
Tudo indica que fomos contaminados pelos ideais das revoluções megalomaníacas dos caudilhos ambiciosos, que na América Latina sempre condenaram seus povos ao fracasso e a miséria.
Para terminar me valho das palavras do cientista político, Jorge Castañeda, sobre os atuais líderes populistas latino-americanos que tanto amamos.
Nestor Kirchner é “um peronista reacionário, mais interessado em arrancar dinheiro dos credores e do FMI do que promover políticas sociais”.
Hugo Chávez “não é Fidel Castro; é Perón com petróleo, está conduzindo a Venezuela ao colapso”.
Evo Morales “não é um Ché indígena, mas um populista esperto e irresponsável que promete muito e entrega pouco”.
Quanto a nós, creio que num eventual segundo mandato do populista Luiz Inácio saberemos de vez o que é herança maldita, aquela deixada pelo governo do PT cuja incompetência e corrupção manterá o Brasil como um país grande sem jamais chegar a ser um grande país.
Maria Lucia Victor Barbosa
mlucia@sercomtel.com.br
sexta-feira, abril 28, 2006
A Insustentável presença de Chávez
A desenvoltura com que o presidente Hugo Chávez circula e atua ostensivamente em território nacional é crescente e ganha contornos cada vez mais surpreendentes e inaceitáveis.
O presidente venezuelano assumiu a condição de interlocutor privilegiado de movimentos sociais brasileiros, notadamente o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra -, se arvorando ao papel de mediador de conflitos internos sob o silêncio das autoridades constituídas do País.
A “última” do coronel Chávez foi protagonizada no Paraná, quando de sua caricata e histriônica visita a Curitiba. Tendo por cenário o belo teatro Guaíra, o MST “protocolou” suas queixas, no tocante ao não-cumprimento das metas da reforma agrária na gestão do presidente Lula, junto ao presidente venezuelano.
Entre os seus adeptos na América do Sul, o presidente Hugo Chávez vem recebendo guarida especial do presidente Lula, em que pese o tratamento e as mesuras que lhe reservam o comandante Fidel Castro e o presidente boliviano Evo Morales.
O neocaudilho, como já foi definido, nas suas repetidas visitas ao Brasil, tem feito questão de se avistar com o comando do MST e interferir em questões e assuntos internos. Os encontros com os representantes do movimento são constantes e, em diversas ocasiões, pautados por manifestações de apoio ao líder venezuelano, retribuídas no mesmo tom. Suas freqüentes visitas de “cortesia” incluem invariavelmente uma escala técnica pelos assentamentos do MST.
Destaco igualmente que o presidente venezuelano tem atuado como cabo eleitoral da reeleição do presidente Lula, bem como tem cabalado votos em favor de Ollanta Humala, concorrente no segundo turno das eleições peruanas. Sem dúvida, o coronel Hugo Chávez é o que podemos chamar de persona grata ao governo do presidente Lula. Não é a toa que ele declara reiteradamente que compartilha de “visões estratégicas” com o seu colega brasileiro.
Durante sua burlesca passagem pelo Paraná, em alguns momentos, o presidente Chávez foi às raias da insensatez. Referindo-se ao furacão katrina, que todos sabemos devastou parte do sul dos EUA no ano passado, com inúmeras vítimas, ele comentou: "estou cada vez mais convencido de que Deus ajuda Chávez e seus amigos".
A liderança exercida pelo senhor Chávez não é paradigma nem para os governantes muito menos para as democracias da América do Sul. Devemos relembrar que o então candidato foi alçado à presidência numa eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votaram. Na Venezuela o seu domínio se amplifica e a prevalência do Executivo se consolida em detrimento dos demais Poderes.
A ingerência desse mandatário em assuntos internos é notória. Até quando vamos aceitar as incursões grotescas do presidente Hugo Chávez? Durante sua peregrinação na capital paranaense, deixou implícito que considera o “chefe nacional” do MST, João Pedro Stédile, seu representante pessoal no Brasil.
O presidente Chávez ainda teoriza e formula teses sobre os mais agudos problemas de nossa conjuntura política. Na sua avaliação, as acusações de corrupção na gestão do presidente Lula devem ser consideradas sob o seguinte ângulo: “querem nos impor a moral que os beneficia” (aludindo aos partidos locais de oposição). Por outro lado, não mede esforços para se fazer presente, inclusive, em manifestações populares. Todos se recordam da “ajuda” financeira oferecida à escola de samba Vila Isabel, campeã do carnaval carioca de 2006.
Estou convencido de que a presença desse mandatário sul-americano em nosso país é insustentável e merece ser examinada sob a ótica diplomática e da soberania nacional.
Senador Alvaro Dias
O presidente venezuelano assumiu a condição de interlocutor privilegiado de movimentos sociais brasileiros, notadamente o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra -, se arvorando ao papel de mediador de conflitos internos sob o silêncio das autoridades constituídas do País.
A “última” do coronel Chávez foi protagonizada no Paraná, quando de sua caricata e histriônica visita a Curitiba. Tendo por cenário o belo teatro Guaíra, o MST “protocolou” suas queixas, no tocante ao não-cumprimento das metas da reforma agrária na gestão do presidente Lula, junto ao presidente venezuelano.
Entre os seus adeptos na América do Sul, o presidente Hugo Chávez vem recebendo guarida especial do presidente Lula, em que pese o tratamento e as mesuras que lhe reservam o comandante Fidel Castro e o presidente boliviano Evo Morales.
O neocaudilho, como já foi definido, nas suas repetidas visitas ao Brasil, tem feito questão de se avistar com o comando do MST e interferir em questões e assuntos internos. Os encontros com os representantes do movimento são constantes e, em diversas ocasiões, pautados por manifestações de apoio ao líder venezuelano, retribuídas no mesmo tom. Suas freqüentes visitas de “cortesia” incluem invariavelmente uma escala técnica pelos assentamentos do MST.
Destaco igualmente que o presidente venezuelano tem atuado como cabo eleitoral da reeleição do presidente Lula, bem como tem cabalado votos em favor de Ollanta Humala, concorrente no segundo turno das eleições peruanas. Sem dúvida, o coronel Hugo Chávez é o que podemos chamar de persona grata ao governo do presidente Lula. Não é a toa que ele declara reiteradamente que compartilha de “visões estratégicas” com o seu colega brasileiro.
Durante sua burlesca passagem pelo Paraná, em alguns momentos, o presidente Chávez foi às raias da insensatez. Referindo-se ao furacão katrina, que todos sabemos devastou parte do sul dos EUA no ano passado, com inúmeras vítimas, ele comentou: "estou cada vez mais convencido de que Deus ajuda Chávez e seus amigos".
A liderança exercida pelo senhor Chávez não é paradigma nem para os governantes muito menos para as democracias da América do Sul. Devemos relembrar que o então candidato foi alçado à presidência numa eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votaram. Na Venezuela o seu domínio se amplifica e a prevalência do Executivo se consolida em detrimento dos demais Poderes.
A ingerência desse mandatário em assuntos internos é notória. Até quando vamos aceitar as incursões grotescas do presidente Hugo Chávez? Durante sua peregrinação na capital paranaense, deixou implícito que considera o “chefe nacional” do MST, João Pedro Stédile, seu representante pessoal no Brasil.
O presidente Chávez ainda teoriza e formula teses sobre os mais agudos problemas de nossa conjuntura política. Na sua avaliação, as acusações de corrupção na gestão do presidente Lula devem ser consideradas sob o seguinte ângulo: “querem nos impor a moral que os beneficia” (aludindo aos partidos locais de oposição). Por outro lado, não mede esforços para se fazer presente, inclusive, em manifestações populares. Todos se recordam da “ajuda” financeira oferecida à escola de samba Vila Isabel, campeã do carnaval carioca de 2006.
Estou convencido de que a presença desse mandatário sul-americano em nosso país é insustentável e merece ser examinada sob a ótica diplomática e da soberania nacional.
Senador Alvaro Dias
quinta-feira, abril 27, 2006
Pobre cidadania
Os cidadãos brasileiros vivem uma pseudodemocracia. Os sem-terra violentam, diariamente, a Constituição, com o beneplácito das autoridades, principalmente do ministro responsável pela reforma agrária. Os deputados, que não declararam nem à Receita Federal, nem à Justiça Eleitoral, fantásticas somas que dizem ter recebido como "Caixa 2" de campanha, são absolvidos por seus pares, tendo-se a impressão de que a absolvição decorreu de serem peixes do mesmo aquário, conivente e convenientemente agraciados, por terem seus julgadores pecados semelhantes, ainda não descobertos.
O presidente da Câmara, pateticamente, informa que a absolvição dos que não declararam fortunas recebidas, nem à Receita nem à Justiça Eleitoral, é "uma tradição da Casa". O presidente da República esclarece que o que a imprensa denominou de "propinoduto", para seu partido e seus aliados são pecadilhos a serem perdoados. A Comissão de Ética do Congresso é desmoralizada, pelo simples fato de defender que parlamentares tenham comportamento digno e opor-se à "tradição" de aeticidade da Casa do Povo.
Os cidadãos-contribuintes, entretanto, estão proibidos de ter Caixa 2 ou de não declarar à Receita o que recebem, apesar de serem eles que sustentam os parlamentares, os burocratas e políticos que, por "tradição", recebem recursos "não contabilizados" e "não declarados". Que malfadada tradição é esta! Quem está no poder jamais é preso, nem sofre qualquer ação da Polícia Federal ou da Receita Federal. Quem é cidadão é detido antes mesmo de qualquer processo, por mera suspeita, e recebe, depois, autos de infração ciclópicos.
Pesquisas científicas de mais de 20 anos são destruídas, assim como 5 milhões de mudas de eucalipto, com a complacência do governo federal. Este não toma qualquer atitude contra o troglodita líder dos sem-terra, que dá bombásticas entrevistas, dizendo que tais pesquisas "são semelhantes àquelas que levaram à produção da bomba atômica", durante a 2ª Guerra Mundial! Se não fosse pela estupidez da declaração (deve haver alguma forma de punir a estupidez festiva), o simples incitamento à violência à Constituição, à guerra civil, ao caos, à desordem, à desobediência, seria motivo mais do que suficiente para deter esse cidadão, pois é um perigo monumental para a democracia. Quem declara que não pretende respeitar lei alguma, porque "ele é a lei" e continuará a invadir terras e destruir propriedades, porque "ele, somente ele, sabe o que é bom para 180 milhões de brasileiros", só por isto teria que ser preso, pois sua conduta é enquadrável no Código Penal.
Continua, entretanto, assim como seu bando de estupradores da Constituição, soltos e a ameaçarem um governo acovardado de tomar as medidas necessárias para repor a ordem e o respeito à lei e à Constituição no país, como, de resto, o presidente prometeu, no juramento que fez à nação, no dia de sua posse.
O que mais impressiona é que tal grupo de violentadores, apesar de as pesquisas populares demonstrarem que não têm o apoio da população, nunca disputaram eleições para, pelo caminho correto na democracia, testar a aprovação de suas idéias. Na verdade, são uma elite ditatorial, tirânica, que pretende ver o Brasil dividido entre eles e, no momento, em que tiverem se apropriado da terra que desejam, não haverá mais terra para os futuros brasileiros e para ninguém.
A reforma agrária que desejam é apenas tirar a terra de quem produz e passá-la para suas mãos. São, pois, assaltantes da propriedade alheia. Esbulhadores, segundo a lei. Como a terra é um bem finito, no momento em que ficarem com toda ela, os "futuros sem-terra" que se danem. Pouco se fala, inclusive, de todo aparato que obtêm das autoridades governamentais, pago com os nossos tributos, ou seja, carros, tratores, celulares, armas, com o que, militarmente, podem organizar todas as invasões - leia-se todas as violações à lei, à Constituição e à ordem. E parcela ponderável dos que obtêm terras do governo, após esta pressão ilegal e injurídica, negociam-na em seguida, conforme os jornais já noticiaram.
É nesta pseudodemocracia, em que as autoridades não defendem a ética, que se autoperdoam das fortunas não-declaradas que transitam por suas contas e que não fazem respeitar os direitos dos cidadãos, nem a lei, nem a ordem, que nós, os comuns mortais fora do poder, vivemos, pobres cidadãos sem direitos e sem proteção, assistindo a este melancólico desenrolar de acontecimentos em um país que vê seus sagrados sonhos de democracia naufragarem pela mediocridade e aeticidade de seus representantes e da violência de uma "nova classe social", que deseja a ruptura completa da ordem. Pobres cidadãos!
Ives Gandra Martins
O presidente da Câmara, pateticamente, informa que a absolvição dos que não declararam fortunas recebidas, nem à Receita nem à Justiça Eleitoral, é "uma tradição da Casa". O presidente da República esclarece que o que a imprensa denominou de "propinoduto", para seu partido e seus aliados são pecadilhos a serem perdoados. A Comissão de Ética do Congresso é desmoralizada, pelo simples fato de defender que parlamentares tenham comportamento digno e opor-se à "tradição" de aeticidade da Casa do Povo.
Os cidadãos-contribuintes, entretanto, estão proibidos de ter Caixa 2 ou de não declarar à Receita o que recebem, apesar de serem eles que sustentam os parlamentares, os burocratas e políticos que, por "tradição", recebem recursos "não contabilizados" e "não declarados". Que malfadada tradição é esta! Quem está no poder jamais é preso, nem sofre qualquer ação da Polícia Federal ou da Receita Federal. Quem é cidadão é detido antes mesmo de qualquer processo, por mera suspeita, e recebe, depois, autos de infração ciclópicos.
Pesquisas científicas de mais de 20 anos são destruídas, assim como 5 milhões de mudas de eucalipto, com a complacência do governo federal. Este não toma qualquer atitude contra o troglodita líder dos sem-terra, que dá bombásticas entrevistas, dizendo que tais pesquisas "são semelhantes àquelas que levaram à produção da bomba atômica", durante a 2ª Guerra Mundial! Se não fosse pela estupidez da declaração (deve haver alguma forma de punir a estupidez festiva), o simples incitamento à violência à Constituição, à guerra civil, ao caos, à desordem, à desobediência, seria motivo mais do que suficiente para deter esse cidadão, pois é um perigo monumental para a democracia. Quem declara que não pretende respeitar lei alguma, porque "ele é a lei" e continuará a invadir terras e destruir propriedades, porque "ele, somente ele, sabe o que é bom para 180 milhões de brasileiros", só por isto teria que ser preso, pois sua conduta é enquadrável no Código Penal.
Continua, entretanto, assim como seu bando de estupradores da Constituição, soltos e a ameaçarem um governo acovardado de tomar as medidas necessárias para repor a ordem e o respeito à lei e à Constituição no país, como, de resto, o presidente prometeu, no juramento que fez à nação, no dia de sua posse.
O que mais impressiona é que tal grupo de violentadores, apesar de as pesquisas populares demonstrarem que não têm o apoio da população, nunca disputaram eleições para, pelo caminho correto na democracia, testar a aprovação de suas idéias. Na verdade, são uma elite ditatorial, tirânica, que pretende ver o Brasil dividido entre eles e, no momento, em que tiverem se apropriado da terra que desejam, não haverá mais terra para os futuros brasileiros e para ninguém.
A reforma agrária que desejam é apenas tirar a terra de quem produz e passá-la para suas mãos. São, pois, assaltantes da propriedade alheia. Esbulhadores, segundo a lei. Como a terra é um bem finito, no momento em que ficarem com toda ela, os "futuros sem-terra" que se danem. Pouco se fala, inclusive, de todo aparato que obtêm das autoridades governamentais, pago com os nossos tributos, ou seja, carros, tratores, celulares, armas, com o que, militarmente, podem organizar todas as invasões - leia-se todas as violações à lei, à Constituição e à ordem. E parcela ponderável dos que obtêm terras do governo, após esta pressão ilegal e injurídica, negociam-na em seguida, conforme os jornais já noticiaram.
É nesta pseudodemocracia, em que as autoridades não defendem a ética, que se autoperdoam das fortunas não-declaradas que transitam por suas contas e que não fazem respeitar os direitos dos cidadãos, nem a lei, nem a ordem, que nós, os comuns mortais fora do poder, vivemos, pobres cidadãos sem direitos e sem proteção, assistindo a este melancólico desenrolar de acontecimentos em um país que vê seus sagrados sonhos de democracia naufragarem pela mediocridade e aeticidade de seus representantes e da violência de uma "nova classe social", que deseja a ruptura completa da ordem. Pobres cidadãos!
Ives Gandra Martins
Impostura
A denúncia apresentada pelo procurador-geral contra a "organização criminosa" articulada à sombra do Planalto para corromper parlamentares, estabilizar uma maioria no Congresso e avançar o "projeto de poder" petista é o retrato acabado do governo. Ao contrário do que sugere Lula, esse retrato não se modificará ao sabor do destino dos processos judiciais individuais abertos pela denúncia, que descreve uma ação coletiva, de "quadrilha". É por isso que o PT, o aparelho político do qual emanou a "organização criminosa", que antes proclamava-se "diferente", hoje difunde o conceito de que "todos são iguais" e a noção de que a corrupção sistêmica no governo é a continuidade de um padrão vigente no "octonato" de FHC.
Muitos anos atrás, Lula cunhou a célebre acusação contra os "300 picaretas" do Congresso, uma frase cuidadosamente genérica, que lhe granjeou aplausos sem gerar a obrigação de formalizar denúncias e arrostar as conseqüências correspondentes nas arenas política e judicial. Aquela foi a senha para a onda de acusações de corrupção lançadas contra o governo FHC, que ganharam aura de verdades incontestáveis, mas, com exceções periféricas, nunca se traduziram em investigações formais. O caso mais notório, pelos valores envolvidos e pela pretensão de atingir a espinha dorsal do governo, foi a alegação de desvios bilionários do dinheiro das privatizações.
Na época, as acusações não prosperaram como inquéritos no âmbito judicial ou parlamentar. Os acusadores, impávidos, atribuíram a culpa à inação do antigo procurador-geral e ao bloqueio promovido pela maioria governista no Congresso. Mas eles se tornaram governo e, mesmo dispondo de todos os meios de investigação, preferiram conservar as antigas acusações no limbo. O expediente, que é uma modalidade de prevaricação, cobre a política brasileira com o pesado manto da suspeita e nutre uma narrativa conveniente da qual se lança mão em conjunturas de necessidade.
A estratégia não se sustentaria sem a colaboração, proposital ou não, de comentaristas políticos que a tomam de empréstimo para certificar a sua própria "independência". No conforto proporcionado pela irresponsabilidade, esses comentaristas flertam com o senso comum e, imaginando-se "neutros", sequer suspeitam que participam de uma impostura dotada de claro sentido político.
O Lula dos "300 picaretas" sem nome é o mesmo que, no poder, abriu caminho para a fabricação pecuniária de uma base parlamentar de picaretas nominalmente identificados pelo procurador-geral. Não há contradição, mas coerência e continuidade, na estratégia de desmoralização das instituições políticas. A acusação genérica, a calúnia, armas do líder oposicionista, transfiguraram-se na corrupção ativa sustentada pela caneta que assina nomeações e edita medidas provisórias.
A doença da corrupção existe no mundo inteiro, em todos os governos. Mas as suas modalidades agudas, sistêmicas, desenvolvem-se no ambiente degenerativo formado pelo confronto de líderes carismáticos e salvacionistas com as instituições da democracia. Os primeiros, cuja força deriva do contato direto com o povo, precisam desvencilhar-se da teia de mediações institucionais que circunscrevem a sua influência. O instrumento para isso, na falta de uma polícia política, é o dinheiro clandestino.
Demétrio Magnoli - magnoli@ajato.com.br
Muitos anos atrás, Lula cunhou a célebre acusação contra os "300 picaretas" do Congresso, uma frase cuidadosamente genérica, que lhe granjeou aplausos sem gerar a obrigação de formalizar denúncias e arrostar as conseqüências correspondentes nas arenas política e judicial. Aquela foi a senha para a onda de acusações de corrupção lançadas contra o governo FHC, que ganharam aura de verdades incontestáveis, mas, com exceções periféricas, nunca se traduziram em investigações formais. O caso mais notório, pelos valores envolvidos e pela pretensão de atingir a espinha dorsal do governo, foi a alegação de desvios bilionários do dinheiro das privatizações.
Na época, as acusações não prosperaram como inquéritos no âmbito judicial ou parlamentar. Os acusadores, impávidos, atribuíram a culpa à inação do antigo procurador-geral e ao bloqueio promovido pela maioria governista no Congresso. Mas eles se tornaram governo e, mesmo dispondo de todos os meios de investigação, preferiram conservar as antigas acusações no limbo. O expediente, que é uma modalidade de prevaricação, cobre a política brasileira com o pesado manto da suspeita e nutre uma narrativa conveniente da qual se lança mão em conjunturas de necessidade.
A estratégia não se sustentaria sem a colaboração, proposital ou não, de comentaristas políticos que a tomam de empréstimo para certificar a sua própria "independência". No conforto proporcionado pela irresponsabilidade, esses comentaristas flertam com o senso comum e, imaginando-se "neutros", sequer suspeitam que participam de uma impostura dotada de claro sentido político.
O Lula dos "300 picaretas" sem nome é o mesmo que, no poder, abriu caminho para a fabricação pecuniária de uma base parlamentar de picaretas nominalmente identificados pelo procurador-geral. Não há contradição, mas coerência e continuidade, na estratégia de desmoralização das instituições políticas. A acusação genérica, a calúnia, armas do líder oposicionista, transfiguraram-se na corrupção ativa sustentada pela caneta que assina nomeações e edita medidas provisórias.
A doença da corrupção existe no mundo inteiro, em todos os governos. Mas as suas modalidades agudas, sistêmicas, desenvolvem-se no ambiente degenerativo formado pelo confronto de líderes carismáticos e salvacionistas com as instituições da democracia. Os primeiros, cuja força deriva do contato direto com o povo, precisam desvencilhar-se da teia de mediações institucionais que circunscrevem a sua influência. O instrumento para isso, na falta de uma polícia política, é o dinheiro clandestino.
Demétrio Magnoli - magnoli@ajato.com.br
O Brasil cabe na sua dívida?
A princípio, a manchete de ontem do caderno Cotidiano desta Folha seria auto-explicativa: "País tem repetência maior que a do Camboja". Nem o genocídio de Pol Pot conseguiu transformar o Camboja em país pior que o Brasil. E atenção: nesse capítulo, o governo Lula não tem culpa, porque o levantamento da Unesco usa dados de 2002, portanto o último do tucanato.
Constatado o desastre, passemos ao ponto seguinte: a Unesco diz, no mesmo estudo, que o Brasil precisará contratar pouco mais de 396 mil professores até 2015, um aumento de 50% em relação ao quadro atual.
Pergunta inevitável: de onde virá o dinheiro para tais contratações (sem mencionar o fato de que é preciso também aumentar o salário dos professores, atuais e futuros)?
Voltemos então à página A2 da mesmíssima Folha de ontem: nela, o deputado Delfim Netto vocaliza o temor dos mercados de que o governo não consiga cumprir a meta de poupar o equivalente a 4,25% do PIB para pagar os juros da dívida.
Bom, se com uma economia já colossal, quase obscena em um país com tantos problemas (lembre-se, educação é apenas um deles), o mercado ainda está insatisfeito, o que acontecerá se e quando o governo resolver gastar mais para contratar professores (de novo sem falar no necessário aumento)?
O governo será fuzilado, qualquer que seja o presidente. Sempre é bom lembrar que só os mercados têm hoje condições de desestabilizar governos -pelo menos no Brasil, em que as ruas, outro fator potencial de ruídos, estão caladas, quase mortas.
Ligando os pontos, tem-se o seguinte: ou se continua a fazer o Brasil caber no tamanho de sua dívida, cortando-lhe asas, pernas e o oxigênio representado pela educação, ou se adapta a divida ao tamanho que se quer para o país.
Simples de expor, difícil de fazer. Tão difícil que nem remotamente aparece no pobre debate eleitoral.
Clovis Rossi - crossi@uol.com.br
Constatado o desastre, passemos ao ponto seguinte: a Unesco diz, no mesmo estudo, que o Brasil precisará contratar pouco mais de 396 mil professores até 2015, um aumento de 50% em relação ao quadro atual.
Pergunta inevitável: de onde virá o dinheiro para tais contratações (sem mencionar o fato de que é preciso também aumentar o salário dos professores, atuais e futuros)?
Voltemos então à página A2 da mesmíssima Folha de ontem: nela, o deputado Delfim Netto vocaliza o temor dos mercados de que o governo não consiga cumprir a meta de poupar o equivalente a 4,25% do PIB para pagar os juros da dívida.
Bom, se com uma economia já colossal, quase obscena em um país com tantos problemas (lembre-se, educação é apenas um deles), o mercado ainda está insatisfeito, o que acontecerá se e quando o governo resolver gastar mais para contratar professores (de novo sem falar no necessário aumento)?
O governo será fuzilado, qualquer que seja o presidente. Sempre é bom lembrar que só os mercados têm hoje condições de desestabilizar governos -pelo menos no Brasil, em que as ruas, outro fator potencial de ruídos, estão caladas, quase mortas.
Ligando os pontos, tem-se o seguinte: ou se continua a fazer o Brasil caber no tamanho de sua dívida, cortando-lhe asas, pernas e o oxigênio representado pela educação, ou se adapta a divida ao tamanho que se quer para o país.
Simples de expor, difícil de fazer. Tão difícil que nem remotamente aparece no pobre debate eleitoral.
Clovis Rossi - crossi@uol.com.br
quarta-feira, abril 26, 2006
PORTADORES DA DIGNIDADE
“Las variaciones de la sensibilidad vital que son decisivas em historia se presentam bajo la forma de generación. Una generacion no es un puñado de hombres egregios, ni simplesmente una masa; es como un nuevo cuerpo social íntegro, con sua minoria selecta y su muchedumbre, que ha sido lanzado sobre el ámbito de la existencia con una trayectoria vital determinada. La generación, compromiso dinámico entre masa e individuo, es el concepto más importante de la historia, y, por decirlo así, el gozne sobre que ésta ejecuta sus movimientos”.
Ortega y Gasset, em EL TEMA DE NUESTRO TEMPO
A sucessão de perdões que o plenário da Câmara de Deputados tem dado aos mensaleiros comprovados, contrariando os pareceres do Conselho de Ética e as provas documentais e testemunhais acumuladas serve para mostrar que as casas do Congresso espelham o aviltamento moral da Nação. O Congresso não é pior nem melhor que o brasileiro médio que lhe deu o voto.
Lembro aqui a idéia de Ortega y Gasset, de que cada geração tem uma certa marca característica diferente da que lhe antecedeu e daquela que lhe sucederá, isso em todos os campos, do religioso aos gostos no falar e no vestir, na estética, na filosofia e também na moral. A geração que está no poder – no poder político, no comando das famílias e das empresas, das universidades, aqueles que decidem – são os nascidos nos anos cinqüenta e sessenta, a geração chamada de 68. Sua juventude foi regada pelo discurso da rebeldia, do amor livre, contra a família, a tradição, a religião, a ordem pública, pela revolução comunista. Foi essa a marca registrada da geração que está no comando. O PT governando é o ápice desse processo, sua expressão de poder.
Temos que levar em conta que o fenômeno do homem-massa chamado a deliberar politicamente pelo voto é um fato recente no Brasil, advindo da urbanização rápida e do processo de alfabetização em massa, que se consolida depois da Segunda Guerra. A emergência da geração 68 no poder se confunde com a delegação ao homem-massa para escolher seus representantes, após a passagem do poder dos militares aos civis. Os eleitos, em sua maioria, são espelhos desses homens-massa, chegados ao poder na miragem de que é possível fazer do Estado um instrumento de igualitarismo e que o distributivismo irracional e antieconômico seria a varinha de condão para a eliminação dos males sociais. Esse é o Congresso que delibera, é o Executivo que toma decisões e governa. Lula é a expressão mais acabada do homem-massa que chegou ao poder, suportado pelas idéias tortas que vigoraram na sua geração.
É essa geração que fez explodir a inflação em nosso País e que fará explodir as finanças públicas por conta da (im)Previdência Social e as muitas bolsas disso e daquilo, que oneram os que trabalham diuturnamente. A quebra do Tesouro será inapelável e a bomba-relógio está ativada. Enquanto a explosão não acontece assitimos a mais cínica, infame, brutal e indecente concentração de renda patrocinada pelo Estado, que tira dos que trabalham para dar aos parasitas de todos os tamanhos, dos esmoleiros das bolsas aos marajás mais aquinhoados.
No Brasil de hoje vivemos tempos parecidos com a Europa dos anos vinte. As conseqüências históricas em escala global são insignificantes em face da desimportância internacional que temos como Nação. Mas os filhos desse solo não têm como escapar das dores e sofrimentos exigidos para a expiação das culpas todas. Cada um carregará o seu quinhão.
Mesmo aquelas pessoas que individualmente se afastaram daquela atmosfera licenciosa e despudorada da geração 68 estão imersos no espírito dos tempos e têm dificuldades de escapar de seus ditames. Apenas uns poucos conseguem, aqueles que carregam os restos de Israel e que entregarão à geração seguinte os bons modos perdidos e os valores morais superiores que precisam ser resgatados. Esse processo já está em marcha. Só espero que não precisemos aqui do que a Europa precisou para a sua expiação: de sangue em profusão e de fornos crematórios, uma guerra inteira.
Quero aqui elogiar as figuras públicas do Senador Delcídio Amaral e do deputado Osmar Serraglio. Muita gente esperava e desejava o indiciamento do presidente Lula pela CPI dos Correios. Mas todos sabemos que a ação políticas é a arte do possível. Esses dois homens dignificaram com a sua ação a função parlamentar, enaltecendo a democracia. Fazem parte dos restos de Israel, aquele esteio moral no qual a novíssima geração precisa se mirar. Do pântano de lama ainda é possível esperar nascer a mais bela flor.
http://www.nivaldocordeiro.org/
Ortega y Gasset, em EL TEMA DE NUESTRO TEMPO
A sucessão de perdões que o plenário da Câmara de Deputados tem dado aos mensaleiros comprovados, contrariando os pareceres do Conselho de Ética e as provas documentais e testemunhais acumuladas serve para mostrar que as casas do Congresso espelham o aviltamento moral da Nação. O Congresso não é pior nem melhor que o brasileiro médio que lhe deu o voto.
Lembro aqui a idéia de Ortega y Gasset, de que cada geração tem uma certa marca característica diferente da que lhe antecedeu e daquela que lhe sucederá, isso em todos os campos, do religioso aos gostos no falar e no vestir, na estética, na filosofia e também na moral. A geração que está no poder – no poder político, no comando das famílias e das empresas, das universidades, aqueles que decidem – são os nascidos nos anos cinqüenta e sessenta, a geração chamada de 68. Sua juventude foi regada pelo discurso da rebeldia, do amor livre, contra a família, a tradição, a religião, a ordem pública, pela revolução comunista. Foi essa a marca registrada da geração que está no comando. O PT governando é o ápice desse processo, sua expressão de poder.
Temos que levar em conta que o fenômeno do homem-massa chamado a deliberar politicamente pelo voto é um fato recente no Brasil, advindo da urbanização rápida e do processo de alfabetização em massa, que se consolida depois da Segunda Guerra. A emergência da geração 68 no poder se confunde com a delegação ao homem-massa para escolher seus representantes, após a passagem do poder dos militares aos civis. Os eleitos, em sua maioria, são espelhos desses homens-massa, chegados ao poder na miragem de que é possível fazer do Estado um instrumento de igualitarismo e que o distributivismo irracional e antieconômico seria a varinha de condão para a eliminação dos males sociais. Esse é o Congresso que delibera, é o Executivo que toma decisões e governa. Lula é a expressão mais acabada do homem-massa que chegou ao poder, suportado pelas idéias tortas que vigoraram na sua geração.
É essa geração que fez explodir a inflação em nosso País e que fará explodir as finanças públicas por conta da (im)Previdência Social e as muitas bolsas disso e daquilo, que oneram os que trabalham diuturnamente. A quebra do Tesouro será inapelável e a bomba-relógio está ativada. Enquanto a explosão não acontece assitimos a mais cínica, infame, brutal e indecente concentração de renda patrocinada pelo Estado, que tira dos que trabalham para dar aos parasitas de todos os tamanhos, dos esmoleiros das bolsas aos marajás mais aquinhoados.
No Brasil de hoje vivemos tempos parecidos com a Europa dos anos vinte. As conseqüências históricas em escala global são insignificantes em face da desimportância internacional que temos como Nação. Mas os filhos desse solo não têm como escapar das dores e sofrimentos exigidos para a expiação das culpas todas. Cada um carregará o seu quinhão.
Mesmo aquelas pessoas que individualmente se afastaram daquela atmosfera licenciosa e despudorada da geração 68 estão imersos no espírito dos tempos e têm dificuldades de escapar de seus ditames. Apenas uns poucos conseguem, aqueles que carregam os restos de Israel e que entregarão à geração seguinte os bons modos perdidos e os valores morais superiores que precisam ser resgatados. Esse processo já está em marcha. Só espero que não precisemos aqui do que a Europa precisou para a sua expiação: de sangue em profusão e de fornos crematórios, uma guerra inteira.
Quero aqui elogiar as figuras públicas do Senador Delcídio Amaral e do deputado Osmar Serraglio. Muita gente esperava e desejava o indiciamento do presidente Lula pela CPI dos Correios. Mas todos sabemos que a ação políticas é a arte do possível. Esses dois homens dignificaram com a sua ação a função parlamentar, enaltecendo a democracia. Fazem parte dos restos de Israel, aquele esteio moral no qual a novíssima geração precisa se mirar. Do pântano de lama ainda é possível esperar nascer a mais bela flor.
http://www.nivaldocordeiro.org/
terça-feira, abril 25, 2006
A culpa é da burguesia?
A educação brasileira vive um tempo curioso, para não dizer exótico. As novidades se sucedem - e o ensino está cada vez pior. Em conversa com o professor Arnaldo Niskier (Acadêmico da ABL e secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro) e dele recolho o espanto com que recebeu a notícia de que algumas escolas do ensino fundamental e médio recomendaram aos seus professores que não tirassem pontos dos alunos que escrevessem errado. Ou seja, ninguém deve dar bola para a gramática e a ortografia.
Segundo uma confortável versão, quem se preocupa com essas coisas "é a burguesia". Particularmente, esgotei a minha capacidade de espanto diante de tais barbaridades. Se o aluno toma conhecimento dessa estranha orientação, de que forma terá estímulo para demonstrar apreço pela língua portuguesa?
Ao mesmo tempo que isso ocorre, especialistas em educação apontam erros mais freqüentes anotados nas provas dos acadêmicos:
1. Falta de adequada ordenação de idéias, o que prova não ter o aluno o hábito de escrever; 2.Falta coerência e coesão nos textos;
3. Inadequação ao tema proposto ( por falta de familiaridade com o tema indicado, o aluno foge para outro mais confortável);
4. Dificuldade em estruturação de parágrafos;
5. Erros de concordância nos tempos verbais, fragmentação da frase, separando sujeito do predicado por vírgula, utilização equivocada de verbos e pronomes, o que em alguns casosleva até a prejudicar a compreensão do texto.
Se isso é verdade no texto das redações, é fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.
Se os alunos têm dificuldades de escrever e expor com clareza suas idéias é porque sua cota de informação e leitura é mínima, para não dizer inexistente. Tenho insistido na vergonha em que se constitui a nossa taxa anual de leitura: menos de dois livros por pessoa, o que nos coloca muito longe das nações mais desenvolvidas.
Volto à escolas de ensino fundamenta e médio para lamentar que os seus professores sejam instados a abandonar a idéia da redação, "porque em geral os temas dados aos alunos são irreais".Além disso, há o desprezo pelas regras gramaticais e ortográficas, como se houvesse um desejo recôndito de prestigiar a ignorância. Não se quer exagerar os cuidados com a norma culta da língua, mas por que valorizar o linguajar sem regras? A educação não existe exatamente para conduzir os alunos ao aprendizado?
Sobre a redação, permito-me discordar frontalmente da tese enunciada. A ser verdade o que foi proclamado por tais escolas, ninguém mais poderia ser escritor, dando asas à imaginação.
Só se poderia escrever sobre vivências claras, com o evidente abandono de tudo o que pudesse privilegiar a criatividade.
Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor
Segundo uma confortável versão, quem se preocupa com essas coisas "é a burguesia". Particularmente, esgotei a minha capacidade de espanto diante de tais barbaridades. Se o aluno toma conhecimento dessa estranha orientação, de que forma terá estímulo para demonstrar apreço pela língua portuguesa?
Ao mesmo tempo que isso ocorre, especialistas em educação apontam erros mais freqüentes anotados nas provas dos acadêmicos:
1. Falta de adequada ordenação de idéias, o que prova não ter o aluno o hábito de escrever; 2.Falta coerência e coesão nos textos;
3. Inadequação ao tema proposto ( por falta de familiaridade com o tema indicado, o aluno foge para outro mais confortável);
4. Dificuldade em estruturação de parágrafos;
5. Erros de concordância nos tempos verbais, fragmentação da frase, separando sujeito do predicado por vírgula, utilização equivocada de verbos e pronomes, o que em alguns casosleva até a prejudicar a compreensão do texto.
Se isso é verdade no texto das redações, é fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.
Se os alunos têm dificuldades de escrever e expor com clareza suas idéias é porque sua cota de informação e leitura é mínima, para não dizer inexistente. Tenho insistido na vergonha em que se constitui a nossa taxa anual de leitura: menos de dois livros por pessoa, o que nos coloca muito longe das nações mais desenvolvidas.
Volto à escolas de ensino fundamenta e médio para lamentar que os seus professores sejam instados a abandonar a idéia da redação, "porque em geral os temas dados aos alunos são irreais".Além disso, há o desprezo pelas regras gramaticais e ortográficas, como se houvesse um desejo recôndito de prestigiar a ignorância. Não se quer exagerar os cuidados com a norma culta da língua, mas por que valorizar o linguajar sem regras? A educação não existe exatamente para conduzir os alunos ao aprendizado?
Sobre a redação, permito-me discordar frontalmente da tese enunciada. A ser verdade o que foi proclamado por tais escolas, ninguém mais poderia ser escritor, dando asas à imaginação.
Só se poderia escrever sobre vivências claras, com o evidente abandono de tudo o que pudesse privilegiar a criatividade.
Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor
domingo, abril 23, 2006
Dando o troco num boteco do Leblon
Acho que você não tem razão. Acho que vai ter o troco, o povo vai dar o troco a esses caras. Outubro vem aí e eu tenho certeza de que esses caras vão dançar. Talvez um ou outro se safe, mas a maioria vai dançar. Dessa vez eles foram longe demais, eles vão dançar nas eleições.
— Eles quem? Eu sei que tu estranhou a pergunta, mas daqui a pouquinho não vai estranhar mais. Eles quem?
— Ué, precisa dizer? Esses caras aí que andam metidos nessas bandalheiras, é só abrir o jornal.
— Você vai me desculpar eu te fazer mais uma perguntinha, mas perguntar não ofende. Tu pode me dizer em quem foi que tu votou pra deputado?
— Pra deputado? Estadual ou federal?
- Não enrola, cara, pode ser qualquer um dos dois. Mas, pra não ter queixa, vamos lá: em quem que tu votou pra deputado federal?
— Pô, me deu um branco agora. É que a Janete tem uma colega de hidroginástica que ela adora e que pediu o nosso voto para um tio dela e tu conhece a Janete, tu sabe como ela fica quando quer alguma coisa. Eu perguntei ao Pachequinho, que manja essas coisas todas, e o Pachequinho me falou que o cara é um vigarista de primeira categoria, bandidão mesmo. Aí eu falei pra Janete que não ia votar num camarada desses, eu tenho consciência da importância do voto. Mas tu conhece a Janete, foi uma batalha dentro de casa, cara.
— E tu acabou votando nele.
— Não, qual é, cara, eu tenho personalidade. A Janete votou, mas eu sou moderno, não interfiro no voto de minha mulher, lá em casa é tudo democrático. E o malandro se elegeu, tu sabe?
— Como é o nome dele?
— Ah, não gravei, criei tanta aversão que não gravei. Aliás, nem a Janete gravou, porque anotou o nome do cara e levou lá, depois jogou fora o papel. Acho que é com P, Pedro, ou senão Paulo, Paulino, Patrício... Se tu quiser eu peço à Janete pra perguntar à colega dela, elas se vêem três vezes por semana.
— Não, pode deixar, vamos voltar ao princípio. Eu perguntei em quem foi que você votou, não a Janete. Em quem foi que tu votou pra deputado?
— Federal ou estadual?
— Não enrola, cara, é a segunda vez que tu fala isso. Eu já disse, qualquer um dos dois, o que você preferir.
— Continua me dando um branco, mas eu me lembro. Se você me der um tempo, eu me lembro. É que, com essa discussão com a Janete, eu tenho certeza de que, na hora em que eu ia sair para votar, ela tirou o papelzinho com os nomes dos meus candidatos que eu tinha guardado no bolso da camisa, tu conhece a Janete, ela é aquela pessoa ótima, mas tem esses negócios, ela joga duro.
— Em quem tu votou pra vereador?
— Ah, esse eu lembro, esse eu lembro. Perdi meu voto, mas perdi satisfeito, tu também deve ter votado nele. Eu sabia que ele não tinha nenhuma chance, mas é uma pessoa distinta, um homem muito educado, todo mundo gosta dele aqui. Tu deve ter votado nele, como é mesmo o nome dele?
— Só sei o apelido, Munheca. O apelido dele é Munheca, não é esse? Mas eu acho que só o pessoal aqui do boteco é que votou nele, acho que nem a mulher dele votou nele. É, eu votei nele também. Me disseram que ele teve menos de 300 votos, mas eu votei por amizade, só pra poder dizer a ele sem mentir, eu já sabia que ele não tinha chance, até porque de fato é muito boa pessoa, mas não deve ter mais que 50 gramas de cérebro. Como diz minha sogra, só que falando de mim, é uma pessoa sem a qual ou com a qual o mundo permanece tal e qual. E o resto dos votos eu anulo, não sei pra quê votar, dá tudo no mesmo.
— Ah, tenha paciência, aí tu tá me decepcionando, eu sempre te achei um cara responsável.
— A gente muda na vida. Depois da urna eletrônica, então, ainda me sinto mais palhaço votando. Aí minha vingança é anular, não voto em sacana nenhum.
— Ah, qual é cara, tu também joga nesse time paranóico, que acha que o voto eletrônico não é de confiança? Isso não tá com nada, cara, isso é de gente que tem saudade até do tempo da caneta-tinteiro, que os meninos de hoje nem sabem o que é. Eu fico muito aporrinhado com essa atitude derrotista do brasileiro. A gente tem a melhor tecnologia do mundo, vem neguinho aqui estudar e tudo, para você falar isso. Aí não, aí tu não tem razão nenhuma.
— É, vêm ver, mas ninguém adota. É porque eles são atrasados. É tudo muito atrasado, Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá, Alemanha, tudo muito atrasado e pobre, de maneira que não há condição de adotar nosso sistema. Deixa de ser otário, cara. Nos Estados Unidos mesmo, a primeira eleição do Bush foi decidida na conferência dos votos. Aqui não dá pra conferir, pergunte a quem entende mesmo se não é um esquema furado. Neguinho entra no sistema do Pentágono, cara, e não pode alterar as urnas aqui? Deixa de ser besta, cara. E, além de tudo, esta discussão não leva a nada, porque não é por nada disso que eu digo que ninguém vai dar troco nenhum nessas eleições.
— Ah, eu acho que vai.
— Não vai. E a razão é simples, não tem troco pra dar. Que troco a gente tem pra dar? A gente vai ter que se conformar é com a originalidade: o Brasil é o único país que não vai pra frente por falta de troco.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.
— Eles quem? Eu sei que tu estranhou a pergunta, mas daqui a pouquinho não vai estranhar mais. Eles quem?
— Ué, precisa dizer? Esses caras aí que andam metidos nessas bandalheiras, é só abrir o jornal.
— Você vai me desculpar eu te fazer mais uma perguntinha, mas perguntar não ofende. Tu pode me dizer em quem foi que tu votou pra deputado?
— Pra deputado? Estadual ou federal?
- Não enrola, cara, pode ser qualquer um dos dois. Mas, pra não ter queixa, vamos lá: em quem que tu votou pra deputado federal?
— Pô, me deu um branco agora. É que a Janete tem uma colega de hidroginástica que ela adora e que pediu o nosso voto para um tio dela e tu conhece a Janete, tu sabe como ela fica quando quer alguma coisa. Eu perguntei ao Pachequinho, que manja essas coisas todas, e o Pachequinho me falou que o cara é um vigarista de primeira categoria, bandidão mesmo. Aí eu falei pra Janete que não ia votar num camarada desses, eu tenho consciência da importância do voto. Mas tu conhece a Janete, foi uma batalha dentro de casa, cara.
— E tu acabou votando nele.
— Não, qual é, cara, eu tenho personalidade. A Janete votou, mas eu sou moderno, não interfiro no voto de minha mulher, lá em casa é tudo democrático. E o malandro se elegeu, tu sabe?
— Como é o nome dele?
— Ah, não gravei, criei tanta aversão que não gravei. Aliás, nem a Janete gravou, porque anotou o nome do cara e levou lá, depois jogou fora o papel. Acho que é com P, Pedro, ou senão Paulo, Paulino, Patrício... Se tu quiser eu peço à Janete pra perguntar à colega dela, elas se vêem três vezes por semana.
— Não, pode deixar, vamos voltar ao princípio. Eu perguntei em quem foi que você votou, não a Janete. Em quem foi que tu votou pra deputado?
— Federal ou estadual?
— Não enrola, cara, é a segunda vez que tu fala isso. Eu já disse, qualquer um dos dois, o que você preferir.
— Continua me dando um branco, mas eu me lembro. Se você me der um tempo, eu me lembro. É que, com essa discussão com a Janete, eu tenho certeza de que, na hora em que eu ia sair para votar, ela tirou o papelzinho com os nomes dos meus candidatos que eu tinha guardado no bolso da camisa, tu conhece a Janete, ela é aquela pessoa ótima, mas tem esses negócios, ela joga duro.
— Em quem tu votou pra vereador?
— Ah, esse eu lembro, esse eu lembro. Perdi meu voto, mas perdi satisfeito, tu também deve ter votado nele. Eu sabia que ele não tinha nenhuma chance, mas é uma pessoa distinta, um homem muito educado, todo mundo gosta dele aqui. Tu deve ter votado nele, como é mesmo o nome dele?
— Só sei o apelido, Munheca. O apelido dele é Munheca, não é esse? Mas eu acho que só o pessoal aqui do boteco é que votou nele, acho que nem a mulher dele votou nele. É, eu votei nele também. Me disseram que ele teve menos de 300 votos, mas eu votei por amizade, só pra poder dizer a ele sem mentir, eu já sabia que ele não tinha chance, até porque de fato é muito boa pessoa, mas não deve ter mais que 50 gramas de cérebro. Como diz minha sogra, só que falando de mim, é uma pessoa sem a qual ou com a qual o mundo permanece tal e qual. E o resto dos votos eu anulo, não sei pra quê votar, dá tudo no mesmo.
— Ah, tenha paciência, aí tu tá me decepcionando, eu sempre te achei um cara responsável.
— A gente muda na vida. Depois da urna eletrônica, então, ainda me sinto mais palhaço votando. Aí minha vingança é anular, não voto em sacana nenhum.
— Ah, qual é cara, tu também joga nesse time paranóico, que acha que o voto eletrônico não é de confiança? Isso não tá com nada, cara, isso é de gente que tem saudade até do tempo da caneta-tinteiro, que os meninos de hoje nem sabem o que é. Eu fico muito aporrinhado com essa atitude derrotista do brasileiro. A gente tem a melhor tecnologia do mundo, vem neguinho aqui estudar e tudo, para você falar isso. Aí não, aí tu não tem razão nenhuma.
— É, vêm ver, mas ninguém adota. É porque eles são atrasados. É tudo muito atrasado, Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá, Alemanha, tudo muito atrasado e pobre, de maneira que não há condição de adotar nosso sistema. Deixa de ser otário, cara. Nos Estados Unidos mesmo, a primeira eleição do Bush foi decidida na conferência dos votos. Aqui não dá pra conferir, pergunte a quem entende mesmo se não é um esquema furado. Neguinho entra no sistema do Pentágono, cara, e não pode alterar as urnas aqui? Deixa de ser besta, cara. E, além de tudo, esta discussão não leva a nada, porque não é por nada disso que eu digo que ninguém vai dar troco nenhum nessas eleições.
— Ah, eu acho que vai.
— Não vai. E a razão é simples, não tem troco pra dar. Que troco a gente tem pra dar? A gente vai ter que se conformar é com a originalidade: o Brasil é o único país que não vai pra frente por falta de troco.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.
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