domingo, maio 31, 2009

Nação Guarani

por Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S. Paulo - 25/05/2009

A demarcação da Raposa-Serra do Sol já aparecia como o prelúdio do que estava por vir. Apesar das ressalvas aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, que tornaram menos aleatórias e arbitrárias as demarcações e homologações de terras indígenas, o processo de relativização da propriedade privada e da soberania nacional segue agora o seu curso. Imediatamente após a decisão do Supremo, as agremiações ditas movimentos sociais, como o MST e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ala esquerdizante da Igreja Católica, deflagraram um processo de fragilização dessas ressalvas, procurando, nos fatos, mostrar que a lei a eles não se aplica. Tornaram ainda mais explícitas suas posições contra a economia de mercado, a propriedade privada, o agronegócio e o Estado de Direito. Vejamos.

O Cimi e os ditos movimentos sociais estão entrando numa nova etapa de formação da opinião pública nacional e internacional, propugnando pela formação de uma nação guarani. As publicações Porantim (Cimi) e Sem Terra (MST) já trazem matéria a esse respeito, pois essas organizações têm plena consciência de que sem o apoio da opinião pública nenhuma transformação política pode ter lugar. As mentes precisam ser conquistadas para que haja um espaço de abertura para mudanças. Eles estão cientes de que a política moderna, a das democracias representativas, está alicerçada na opinião pública. Utilizam-se, nesse sentido, da democracia para subvertê-la, arruinando as suas instituições.

Para que se tenha ideia da enormidade que está sendo tramada, a dita nação guarani abarcaria partes dos seguintes Estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. O foco é o Estado de Mato Grosso do Sul num primeiro momento e, logo após, Santa Catarina e Espírito Santo.

Cabe ressaltar que é em Mato Grosso do Sul que essa luta se vai travar prioritariamente. Eles reconhecem que perderam nesse Estado a primeira batalha política junto à opinião pública pela disputa desses territórios indígenas. Houve forte reação de proprietários rurais, parlamentares e do próprio governador, impedindo uma primeira tentativa de amputação de cerca de um terço de seu território. Naquele então, o discurso apresentado era de que se tratava apenas de uma nova demarcação, que corrigiria uma "injustiça" histórica. Em suma, afetaria apenas alguns proprietários. Ora, já naquela ocasião o que estava em pauta era a formação de uma nação guarani, projeto que ainda não dizia explicitamente o seu nome. Agora estão preparando a segunda batalha, com a bandeira guarani orientando os seus movimentos. Novas portarias da Funai se inscrevem nesse processo em curso.

A nação guarani não está, porém, restrita a esses Estados brasileiros, mas se estende a outros países: Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Segundo eles, a Bolívia já trilha esse caminho político, necessitando apenas ser apoiada no que vem fazendo, destruindo, na verdade, as frágeis instituições daquele país. O foco, aqui, seria o Paraguai, onde o processo se inicia com um presidente simpatizante da "causa" e que, via Teologia da Libertação, compartilha os mesmos pressupostos teóricos do Cimi, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST. Entendem-se, portanto, melhor a sustentação dessas agremiações políticas ao presidente Lugo e a política adotada de apoio às invasões das terras dos brasiguaios. A identidade brasileira não lhes interessa.

Para granjear a simpatia da opinião pública internacional criaram um site global, hospedado nos EUA, assumido por uma ONG holandesa e alimentado pela regional do Cimi de Mato Grosso do Sul. Observe-se que é o próprio Cimi que elabora o conteúdo de um site internacional (www.guarani-campaign.eu), visando a interferir, dessa maneira, nos assuntos brasileiros, escolhendo como alvo o Estado de Mato Grosso do Sul. Aliás, o site é muito bem feito, começando por uma apresentação gráfica da América Latina sem fronteiras, sob o nome de Ameríndia. A verdadeira América Latina seria a pré-colombiana. Provavelmente pensam, no futuro, em expulsar todos os brancos e negros, europeus, africanos e asiáticos, que deram, pela miscigenação, a face deste nosso Brasil!

Como não poderia deixar de ser, o site comporta várias versões: em português, inglês e holandês, estando prevista a sua ampliação para o alemão. Para quem se preocupa com a opinião pública internacional, busca apoio político e financiamento na Europa e nos EUA, uma ferramenta desse tipo é vital. É ela que terminará alimentando as pressões exercidas sobre o Brasil e subsidiará, também, os formadores de opinião nacionais e internacionais.

Consoante com esse trabalho, foi elaborando um mapa da nação guarani, denominado Guarani Retã, que englobaria os Estados brasileiros acima listados e os países latino-americanos vizinhos. Chama a atenção o fato de a América Latina ser apresentada como um território verde, sem fronteiras nacionais, com o lema "terra sem males". Procedimento semelhante foi adotado com o mapa quilombola, elaborado pela Universidade de Brasília, que orienta hoje as ações da Fundação Palmares, do Incra e dos ditos movimentos sociais. A estratégia política é a mesma.

O Cimi, em suas publicações, reconhece ainda a aliança estratégica com o MST, que lhe ofereceu apoio logístico e organizacional em invasões e outras manifestações, como campanhas de abaixo-assinados. Exemplo recente seria Roraima, com "assessores" emessetistas "ajudando" os indígenas em plantações de arroz. Esses "brancos", aliás, podem lá entrar! Reconhecem, inclusive, que tal aliança foi operacional no Espírito Santo, na luta contra a Aracruz, pois, como se sabe, as plantações de eucaliptos e a indústria de papel e celulose são símbolos, a serem destruídos, do agronegócio.

sexta-feira, maio 15, 2009

O capitalismo anticapitalista

A indústria cultural americana é hoje uma central de propaganda comunista mais virulenta do que a KGB dos tempos da Guerra Fria.
Olavo de Carvalho - 13/5/2009 - 20h25 - Diário do Comercio

Quando digo que a democracia capitalista dificilmente pode sobreviver sem uma cultura de valores tradicionais, muitos liberais brasileiros, loucos por economia e devotos da onipotência mágica do mercado, fazem expressão de horror, de escândalo, como se estivessem diante de uma heresia, de uma aberração intolerável, de um pensamento iníquo e mórbido que jamais deveria ocorrer a um membro normal da espécie humana.

Com isso, só demonstram que ignoram tudo e mais alguma coisa do pensamento econômico capitalista. Aquela minha modesta opinião, na verdade, não é minha. Apenas reflete e atualiza preocupações que já atormentam os grandes teóricos do capitalismo desde o começo do século 20.

Um dos primeiros a enunciá-la foi Hillaire Belloc, no seu livro memorável de 1913, The Servile State, reeditado em 1992 pelo Liberty Fund. A tese de Belloc é simples e os fatos não cessam de comprová-la: destravada de controles morais, culturais e religiosos, erigida em dimensão autônoma e suprema da existência, a economia de mercado se destrói a si mesma, entrando em simbiose com o poder político e acabando por transformar o trabalho livre em trabalho servil, a propriedade privada em concessão provisória de um Estado voraz e controlador.

Rastreando as origens do processo, Belloc notava que, desde o assalto dos Tudors aos bens da Igreja, cada novo ataque à religião vinha acompanhado de mais uma onda de atentados estatais contra a propriedade privada e o trabalho livre.

Na época em que ele escrevia The Servile State, as duas fórmulas econômicas de maior sucesso encarnavam essa evolução temível cujo passo seguinte viria a ser a I Guerra Mundial. Quem mais compactamente exprimiu a raiz do conflito foi Henri Massis (que parece jamais ter lido Belloc). Em Défense de l’Occident (1926), ele observava que, numa Europa desespiritualizada, todo o espaço mental disponível fora ocupado pelo conflito "entre o estatismo ou socialismo prussiano e o anti-estatismo ou capitalismo inglês".

O capitalismo venceu a Alemanha no campo militar, mas a longo prazo foi derrotado pelas idéias alemãs, curvando-se cada vez mais às exigências do estatismo, principalmente na guerra seguinte, quando, para enfrentar o socialismo nacional de Hitler, teve de ceder tudo ao socialismo internacional de Stálin.

Hoje, Défense de l’Occident é um livro esquecido, coberto de calúnias por charlatães como Arnold Hauser – que chega ao absurdo de catalogar o autor entre os protofascistas – mas seu diagnóstico das origens da I Guerra continua imbatível, tendo recebido ampla confirmação pelo mais brilhante historiador vivo dos dias atuais, Modris Eksteins, em Rites of Spring: The Great War and the Birth of the Modern Age, publicado em 1990 pela Doubleday (nem comento o acerto profético das advertências de Massis quanto à invasão oriental da Europa, do qual tratarei num artigo próximo).

Segundo Eksteins, a Alemanha do Kaiser, fundada numa economia altamente estatizada e burocrática, encarnava a rebelião modernista contra a estabilidade da democracia parlamentar anglo-francesa baseada no livre mercado. Esta só saiu vitoriosa em aparência: a guerra em si, por cima dos vencedores e perdedores, fez em cacos a ordem européia e varreu do mapa os últimos vestígios da cultura tradicional que subsistiam no quadro liberal-capitalista.

Outro que entendeu perfeitamente o conflito entre a economia de mercado e a cultura sem espírito que ela mesma acabou por fomentar cada vez mais depois da I Guerra foi Joseph Schumpeter. O capitalismo, dizia ele em Capitalism, Socialism and Democracy (1942), seria destruído, mas não pelos proletários, como profetizara Marx, e sim pelos próprios capitalistas: insensibilizados para os valores tradicionais, eles acabariam se deixando seduzir pelos encantos do estatismo protetor, irmão siamês da nova mentalidade modernista e materialista.

Que na era Roosevelt e na década de 50 a proposta estatista fosse personificada por John Maynard Keynes, um requintado bon vivant homossexual e protetor de espiões comunistas, não deixa de ser um símbolo eloqüente da união indissolúvel entre o antiliberalismo em economia e o antitradicionalismo em tudo o mais.

Nos EUA dos anos 60, essa união tornou-se patente na "contracultura" das massas juvenis que substituíram a velha ética protestante de trabalho, moderação e poupança pelo culto dos prazeres – pomposamente camuflado sob o pretexto de libertação espiritual – , investindo ao mesmo tempo, com violência inaudita, contra o capitalismo que lhes fornecia esses prazeres e contra a democracia americana que lhes assegurava o direito de desfrutá-los como jamais poderiam fazer na sua querida Cuba, no seu idolatrado Vietnã do Norte. Mas o reino do mercado é o reino da moda: quando a moda se torna anticapitalista, a única idéia que ocorre aos capitalistas é ganhar dinheiro vendendo anticapitalismo.

A indústria cultural americana, que no último meio século cresceu provavelmente mais que qualquer outro ramo da economia, é hoje uma central de propaganda comunista mais virulenta que a KGB dos tempos da Guerra Fria. A desculpa moral, aí, é que a força do progresso econômico acabará por absorver os enragés, esvaziando-os pouco a pouco de toda presunção ideológica e transfigurando-os em pacatos burgueses.

O hedonismo individualista e consumista que veio a dominar a cultura americana a partir dos anos 70 é o resultado dessa alquimia desastrada; tanto mais desastrada porque o próprio consumismo, em vez de produzir burgueses acomodados, é uma potente alavanca da mudança revolucionária, visceralmente estatista e anticapitalista: uma geração de individualistas vorazes, de sanguessugas carregadinhos de direitos e insensíveis ao apelo de qualquer dever moral não é uma garantia de paz e ordem, mas um barril de pólvora pronto a explodir numa irrupção caótica de exigências impossíveis.

Em 1976 o sociólogo Daniel Bell já se perguntava, em The Cultural Contradictions of Capitalism, quanto tempo poderia sobreviver uma economia capitalista fundada numa cultura louca que odiava o capitalismo ao ponto de cobrar dele a realização de todos os desejos, de todos os sonhos, de todos os caprichos, e, ao mesmo tempo, acusá-lo de todos os crimes e iniqüidades. A resposta veio em 2008 com a crise bancária, resultado do cinismo organizado dos Alinskys e Obamas que conscientemente, friamente, se propunham drenar até ao esgotamento os recursos do sistema, fomentando sob a proteção do Estado-babá as ambições mais impossíveis, as promessas mais irrealizáveis, os gastos mais estapafúrdios, para depois lançar a culpa do desastre sobre o próprio sistema e propor como remédio mais gastos, mais proteção estatal, mais anticapitalismo e mais ódio à nação americana.

Em 1913, as previsões de Hillaire Belloc ainda poderiam parecer prematuras. Era lícito duvidar delas, porque se baseavam em tendências virtuais e nebulosas. Diante do fato consumado em escala mundial, a recusa de enxergar a fraqueza de um capitalismo deixado a si mesmo, sem as defesas da cultura tradicional, torna-se uma obstinação criminosa.

Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

sábado, maio 09, 2009

As armas e os varões!!!

No Políbio Braga:
Conheça melhor a verdadeira história de Dilma Roussef

OPINIÃO DO LEITOR
Piauí não conta a verdadeira história de Dilma

Cansativo o texto, com historinhas para boi dormir. Tirou da reta todos crimes cometidos por esta ex-guerrilheira comunista (VAR-Palmares). Inocentando ela e fazendo com que parecesse somente uma menina desorientada, quando na verdade o perfil dela é bem diferente. Pegou em armas, sim, participou ativamente dos ataques, matou gente, roubou (o cofre do Ademar de Barros foi apenas um dos assaltos) e portanto cometeu crimes comuns. Coisa que deveria ser levada em conta pela OAB e colocar esta senhora no rol dos inimigos jurados da democracia, retirando-a da esfera política.Por fim, faço uma observação: o jornalista, conversou com inúmeras pessoas "amigas" da Dilminha, na atualidade e descreveu os lugares e atividades de todos, hoje. Curioso é que todos estão muito bem de vida, inclusive o ex-maridão de Minas e o irmão, aboletados em carguinhos públicos de livre nomeação... A maioria é morador de lugares nobres, lugares onde suas ideologias não aceitavam. Tornaram-se "burgueses", palavra que esta ralé de esquerda que não suou para ganhar o próprio pão, preferindo chupinhar o dinheiro público, usava como pejorativo.Então, como acreditar nestes caras, hoje? Por que votar numa mulher que sequer renega esse passado de bandidagem política, inclusive do próprio líder da Dilma, o Lamarca, assassino confesso ? Bem, o voto é livre e qualquer imbecil tem o direito de exerc-lo. Eglê Sálvio, Belo Horizonte, MG.

A educação política e sentimental de Dilma Rousseff
LUIZ MAKLOUF CARVALHO para Revista Piauí

“O pon está na mesa.” Pétar Russév não conseguia dizer “pão”. Falava pon. Búlgaro, tinha 1,95 metro de altura, olhos azuis, cabelos quase brancos de tão louros. Era advogado e fora filiado ao Partido Comunista da Bulgária. Quando aportou no Brasil, no final dos anos 30, já era viúvo e deixara um filho em sua terra chamado Luben. Ele desembarcou em Salvador, achou o calor intolerável e logo partiu para Buenos Aires, onde ficou alguns anos. Fez uma segunda incursão no Brasil e se estabeleceu em São Paulo. Veio com algum dinheiro e soube fazê-lo crescer. Era bom de negócios.

Pétar Russév mudou o nome para Pedro e afrancesou o sobrenome para Rousseff. Numa viagem a Uberaba, se encantou com a professora Dilma Jane Silva. Ela tinha 20 anos, nascera em No-va Friburgo, no Rio, e fora criada em Minas, em Uberaba. Casaram-se por lá e depois se mudaram para Belo Horizonte. Igor, o primeiro filho, nasceu no primeiro dia de 1947. Dilma Vana, quase no último: 14 de dezembro. E Zana -Lúcia, a caçula, em 1951. Até hoje a família chama o primogênito à maneira búlgara: Igór. Zana morreu em 1977.

Segundo Igor, sua mãe era “a mulher mais bonita de Uberaba”. Os pais dela criavam gado. Apesar da diferença de idade entre ela e o marido, sempre se deram muito bem.

Rousseff ganhou um bom dinheiro empreitando obras para a siderúrgica Mannesmann e negociando imóveis que ele mesmo fazia construir. “Meu pai era muito bom em cálculos”, disse-me Igor numa entrevista em Belo Horizonte. Na lembrança do filho, o búlgaro amava os prazeres da vida: fumava cinco maços de Cairo por dia, tomava uísque, jogava cartas e se deleitava com uma mesa farta.

Os Rousseff moravam numa casa espaçosa, cuidada por três empregadas. As refeições eram servidas à francesa, com guarnições e talheres específicos. O patriarca era louco por dobradinha – que Igor até hoje odeia, fazendo uma careta ao lembrar o “cheiro insuportável” do cozimento da tripa – e às vezes metia-se ele mesmo a fazer “aqueles queijos bichados” (segundo o filho) que comia na Europa.

No começo, a tradicional família mineira olhou de cima para baixo o estrangeiro bon vivant. “No jardim-da-infância, eu e a Dilminha fomos matriculados numa escola boa, mas não na melhor, porque disseram que não tinha vaga”, disse Igor. Exigente em matéria de notas e estudos, Rousseff se esforçou em dar uma formação de classe média européia aos filhos. As crianças tinham piano em casa e uma professora particular, madame Vincent, os visitava semanalmente para ensinar francês. “O velho cobrava mesmo”, lembrou Igor. “Nunca bateu, mas era um suplício quando começava a reclamar.”

Com o passar do tempo, o crescimento dos filhos e o incremento no padrão familiar, os Rousseff dirimiram preconceitos e foram plenamente aceitos. Ficaram sócios dos clubes mais tradicionais e Igor e Dilma entraram nas melhores escolas – ela no Colégio Sion, de freiras, particular, e depois na Estadual Central, público e renomado. Nas férias, iam de avião para a praia de Guarapari, no Espírito Santo, onde ficavam três semanas no Radium, o hotel-cassino. Pedro Rousseff passava horas jogando, apesar de não ser viciado. Era viciado, isso sim, em cigarro, mas sabia que fazia mal à saúde. “Ele odiava o cigarro e tinha pavor que eu viesse a fumar”, lembrou o filho. Nas vezes em que flagrou Igor fumando, Pedro Rousseff deu-lhe broncas mais do que enfáticas. O filho fuma até hoje.

O pai uma vez o levou de carro ao Rio de Janeiro. Ficaram hospedados no (então) suntuoso Hotel Novo Mundo, no Flamengo, que tinha no saguão um lustre imenso. O búlgaro comentou que vira lustres muitíssimo mais valiosos em hotéis europeus. Levou também o menino para conhecer um dos bancos com o qual fazia negócios. Não exatamente o banco, mas o cofre, com as pesadas portas de metal que Igor nunca esqueceu.

Pedro Rousseff incutiu nos filhos o gosto pela leitura. Deu a eles as obras completas de Monteiro Lobato, livros de Jorge Amado e filósofos gregos. “Dilminha sempre estava com algum livro”, disse Igor. O irmão não lembra se ela era boa aluna. O histórico escolar dela está guardado nos arquivos da Estadual Central, hoje Escola Estadual Governador Milton Campos. “Eu só libero se a ministra autorizar por escrito”, informou-me a diretora Maria José Duarte. A ministra-chefe da Casa Civil não autorizou.

Pedro Rousseff morreu em setembro de 1962. Já era brasileiro naturalizado e planejava para breve uma visita à Bulgária. Igor tinha 15 anos e Dilma um a menos. “A noite em que o pai morreu foi dramática”, recordou o filho. “Ele tinha ido jogar no Clube Campestre, voltou pelas onze da noite e de repente se sentiu mal, passando a respirar com dificuldade. Estávamos todos em casa. O médico foi lá, mas não teve jeito. Morreu em casa e foi velado em casa, de onde saiu o enterro.” O meio-irmão búlgaro, Luben – do qual o pai falava com frequência –, foi informado e entrou como um dos herdeiros no processo do inventário. Ele era engenheiro e faleceu em 2007 *. Segundo Igor, Pedro Rousseff deixou “uns quinze bons imóveis”. Continuou a falar pon em vez de “pão” até morrer.

Em 1965, quando Dilma Rousseff prestou concurso e entrou na Estadual Central, a escola era um centro de agitação do movimento secun-darista, radicalizado pelo golpe militar do ano anterior. Com 17 anos, muitas leituras e intelectualmente inquieta, Dilma deu ali os primeiros passos de sua educação política. Dois anos depois, passou a militar numa organização chamada Política Operária, mais conhecida como Polop. Fundada em 1961, ela teve origem no Partido Socialista Brasileiro. Pouco depois da entrada de Dilma, a Polop atravessou um período de turbulência teórica, polemizando acerca do melhor método para derrubar a ditadura e avançar na luta pelo socialismo. Grosso modo, uma ala defendia a reivindicação de uma Assembléia Constituinte. Outra, a prioridade para a luta armada. Dilma ficou em dúvida, flertou com a primeira posição, mas acabou com o segundo lado, que veio a formar o Comando de Libertação Nacional, o Colina.

Nessa época, ela conheceu Cláudio Galeno Linhares, de 24 anos. “Fiquei encantado com a beleza, a personalidade e a inteligência da Dilma”, disse-me ele no restaurante de um hotel em Belo Horizonte. Galeno, como todos o chamam, tem 67 anos, é baixo e está bem mais gordo do que gostaria. Apesar de ser cinco anos mais velho que a antiga namorada, ele comentou: “Não fui eu quem fez a cabeça da Dilma, ela sabia das coisas, já tinha contato com a organização.” Galeno ficou encabulado quando perguntei detalhes sobre o início do namoro. “Nos apaixonamos mutuamente e tivemos um namoro intenso”, resumiu. Casaram-se no ano seguinte, apenas no civil, com uma pequena festa para os amigos mais próximos, no caso os camaradas de militância.

Em 1967, com 20 anos, o hoje deputado federal tucano José Aníbal conheceu Dilma. “Ela era muito inteligente e tinha bom humor”, lembrou o deputado em seu escritório de São Paulo. Mais inclinado para a constituinte do que para a luta armada, Aníbal não aderiu ao Colina e perdeu a companheira de vista.

Já Galeno defendia a luta armada. “Aprendi a fazer bomba na farmácia do meu pai”, brincou, acendendo o primeiro dos três cigarros que fumou em três horas de conversa, enquanto bebia café e água. Era uma farmácia de manipulação, cheia de pós e líquidos químicos guardados em potes de vidro. Ele nasceu e morou em Ferros, mas estudou em colégio interno na cidade vizinha de Conceição do Mato Dentro. Com 12 anos, a família se mudou para a capital e Galeno foi colocado num colégio público.

Serviu o Exército por três anos e, em 1962, entrou na Polop. O golpe militar o pegou no Rio de Janeiro, enfiado até o pescoço na sublevação dos marinheiros. Foi um dos presos mantido no porta-aviões Minas Gerais e, depois, por cinco meses, no presídio da ilha das Cobras. No final do ano obteve um habeas corpus, foi solto e voltou a Belo Horizonte. Trabalhou como repórter na sucursal do jornal Última Hora. Seu chefe era Guido Rocha, um dos principais líderes da Polop, que conhecera na cadeia. Rocha era contra a luta armada.

O médico Apolo Heringer, de 66 anos, está engajado na luta contra a transposição do rio São Francisco. A causa o apaixona tanto que, uma vez, telefonou para a ex-camarada Dilma Rousseff. Ele atacou a mais não poder a transposição e ela o escutou com paciência, mas no final defendeu o projeto do go-verno Lula. Em 1968, Heringer era dirigente do Comando de Libertação Nacional. “Dei aula de marxismo para a Dilma quando ela ainda era estudante secundarista”, relembrou. “Ela era inteligente, mais simpática do que bonita, e tinha um carisma próprio.”

Na avaliação de Heringer, Dilma era “filha política” de Guido Rocha. “O Guido defendia fortemente que lutássemos por uma Assembléia Nacional Constituinte”, disse o médico. “Ele escreveu uma tese a esse respeito, que a Dilma leu. O problema foi a chegada daquele livrinho.”

O livrinho era Revolução na Revolução, de Régis Debray, jovem intelectual francês que, em 1965, se mudou para Cuba, onde ficou amigo de Fidel Castro e se dedicou a propagandear a teoria do “foco” – a idéia de que a guerrilha seria o estopim que deflagraria a revolução anticolonial, que terminaria por expropriar a burguesia. O livro foi publicado em 1967, o mesmo ano em que, acompanhando a aventura guerrilheira de Che Guevara, Debray foi preso na Bolívia. “O livro incendiou todo mundo, inclusive a Dilma”, disse Apolo Heringer.

Outro incendiado pelo livro de Debray foi o estudante de medicina Jorge Nahas. Ele participou da primeira ação armada do Colina, em agosto de 1968: vestido de policial, assaltou com quatro camaradas um jipe da Secretaria da Fazenda que fazia transporte de valores. “Mas não havia um tostão furado no jipe”, lamentou, sorrindo, Nahas, que é secretário de política social da Prefeitura de Belo Horizonte.

“A Dilma tinha uma grande capacidade de liderança”, continuou. “Ela sabia se impor numa reunião e integrava com naturalidade aquele coletivo de homens mandões.” Maria José de Carvalho, a Zezé, então casada com Jorge Nahas, também se lembrou da ministra: “Ela era bonita e tinha muita desenvoltura.” Segundo Zezé, Dilma não participava dos assaltos porque “ela era conhecida pela sua atuação pública”. As tarefas dela no Colina estavam ligadas à feitura do jornalzinho O Piquete, à preparação de aulas sobre marxismo e a contatos com sindicatos. Teve também aulas sobre armamentos, tiro ao alvo, explosivos e enfrentamentos com a polícia. Boa parte das aulas foi ministrada nos arredores de Belo Horizonte pelo ex-sargento da Aeronáutica João Lucas Alves. “O João Lucas ficava hospedado na nossa casa”, contou Galeno, orgulhoso do risco.

“Eu conheci a Dilma em um desses cursos de revolução”, contou o advogado Gilberto Vasconcelos em seu escritório de Uberaba. “Giba”, como a ministra o chama, tem um filho que é subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil. “Nós aprendíamos a fazer bomba, e a dar tiros, muito precariamente”, lembrou Giba. Ele foi um dos estudantes presos no congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Solto depois de alguns dias, voltou para Uberaba. Sua tarefa, no começo de 1969, era a preparação de um assalto a uma agência do Banco do Brasil. Até janeiro daquele ano, o Colina contabilizava, em Minas, quatro assaltos a bancos, uma meia dúzia de carros roubados e dois atentados a bomba, sem vítimas, a residências de autoridades locais.

A organização tinha um punhado de armas, pouco dinheiro e a disposição de algumas dezenas de militantes jovens e abnegados, embalados não apenas pelas idéias de Debray, mas também pelo Maio francês e pela ofensiva dos vietcongues de dezembro de 1968, na qual os guerrilheiros chegaram aos jardins da embaixada americana em Saigon.

As coisas se complicaram no dia 14 de janeiro de 1969, depois de um assalto ao Banco da Lavoura de Sabará, do qual Zezé Nahas participou. Alguns militantes foram presos, entre eles Ângelo Pezzuti, da direção do Colina. Sete integrantes da organização se reuniram em uma casa alugada no bairro de São Geraldo e discutiram como tirar o dirigente da prisão. “O clima estava tenso desde a prisão do Ângelo, mas o fato é que dormimos todos na casa de São Geraldo sem maiores preocupações”, relembrou Zezé Nahas.

Começava a amanhecer quando policiais civis invadiram a casa atirando. Murilo Pezzuti, irmão de Ângelo, acordou com a barulheira, pegou uma metralhadora Thompson e mandou bala em três policiais, matando dois e ferindo um. A polícia baleou o estudante Maurício Paiva. “Eu também devia ter atirado, como o Murilo, mas faltou coragem”, disse Jorge Nahas.

A cólera dos policiais com a morte dos colegas levou-os a espancar os militantes e a ameaçá-los com um fuzilamento coletivo ali mesmo. Com dificuldade, o delegado que comandava a operação controlou a tropa e levou os sete para o Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. O Inquérito Policial Militar sobre o Colina foi comandado pelo coronel Octavio Aguiar de Medeiros, que no governo de João Figueiredo foi chefe do Serviço Nacional de Informações.

Naquela noite, Dilma e Cláudio Galeno não dormiram no apartamento em que moravam, o 1001 do Condomínio Solar. Estavam apreensivos desde a prisão de Ângelo Pezzuti – frequentador do imóvel – e passaram a tomar alguns cuidados, entre eles o de dormir cada noite num local. Quando souberam das prisões, a primeira providência foi voltar ao apartamento para destruir documentos e tudo que pudesse ligá-los à organização.

O casal entrou pela garagem sem ser visto. “O apartamento tinha até microfilme de uma possível área de treinamento de guerrilha, escondido em uma das tomadas”, contou Galeno. “Ficamos lá dentro, no mais absoluto silêncio. Lá pelas tantas tocaram a campainha. Eu vi coturnos pelo olho mágico e, pela persiana da janela, três carros suspeitos lá embaixo. Continuamos em silêncio e destruímos toda a papelada que pudesse nos comprometer. Como não podia dar a descarga, eu espetava os papéis em um arame de cabide e enfiava pelo ralo, o mais fundo que podia. Limpamos tudo e saímos pelos fundos, no elevador de serviço. Foi um sufoco.” Estavam na clandestinidade.

Dilma, que terminara o segundo ano na faculdade de ciências econômicas, tinha completado 21 anos em dezembro de 1968 – um dia depois da edição do Ato Institucional nº 5. Ela e o marido ficaram em Belo Horizonte mais algumas semanas, tentando reorganizar o que sobrara do Colina, pulando de esconderijo em esconderijo. Souberam que as casas de seus pais e familiares haviam sido visitadas e eram vigiadas por policiais.

“Estiveram lá em casa procurando a Dilma e o Galeno, foi um susto danado”, contou Igor Rousseff. Indiferente à política – “eu não era de esquerda nem de direita” –, em 1966 Igor partiu para uma temporada no Canadá e nos Estados Unidos. Trabalhou como garçom, em hotéis, aproveitou o que pôde, e voltou em 1967, a tempo de assistir ao casamento da irmã. “A gente sabia que ela estava envolvida com política, mas não com aquela gravidade toda”, disse. “Só ficamos sabendo quando ela teve que fugir.”

O risco de prisão agravou-se com a publicação na imprensa de um retrato falado de Galeno – “muito fiel”, reconheceu o retratado –, acusando-o de ter participado do assalto de Sabará. Não era verdade, mas era impossível procurar a polícia para explicar. “Decidimos que eu deveria passar por uma transformação física”, prosseguiu Galeno. “Um casal amigo assumiu a tarefa. Primeiro, separaram, com pinça, a minha marca registrada de sobrancelha contínua. Depois descoloriram o cabelo. A sobrancelha ficou preta e os cabelos, vermelhos. Uma coisa terrível.” Quando não deu mais para ficar em Belo Horizonte, a organização determinou que fossem para o Rio. Primeiro foi Galeno, de ônibus. Uma semana depois Dilma partiu, de ônibus também.

No dia 18 de março de 1969, o coronel Octavio Medeiros mandou invadir o apartamento 1001 do Condomínio Solar. O auto de busca e apreensão relaciona em duas laudas o material que Dilma Rousseff e Galeno abandonaram. Entre os livros há Torturas e Torturados, de Marcio Moreira Alves, A História da Revolução Russa, de Leon Trotsky, Cultura e Revolução Cultural, de Vladimir Lênin, Revolução e Estado, de Fidel Castro, e Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina, de Celso Furtado. Entre as publicações, uma coleção da Revista Civilização Brasileira e alguns números da Monthly Review. O resto são objetos como um binóculo e duas serras portáteis, apostilas de assuntos variados, recibos de contas domésticas e documentos pessoais. E nada daquilo que o coronel queria – material interno sobre a “organização político-militar”, como a denominou no inquérito.

No Rio, o casal fez parte dos “deslocados” – como passaram a ser denominados os militantes transferidos de outras cidades, clandestinos e procurados. Outro “deslocado” era Fernando Pimentel (que veio a ser prefeito de Belo Horizonte). Quando a casa de São Geraldo foi invadida, ele era um garoto de 18 anos. O pai pediu que se entregasse ao Exército, mas ele se recusou e entrou na clandestinidade.

Quando os “deslocados” começaram a chegar ao Rio, Juarez Brito e sua mulher Maria do Carmo faziam parte da direção do Colina. “A enxurrada de mineiros deixou a gente louco, porque simplesmente não havia infra-estrutura para cuidar de todo mundo”, contou Maria do Carmo no terraço de seu apartamento, no bairro carioca de Laranjeiras. Galeno pediu-lhe um lugar para o casal. A resposta foi negativa, mas pegaram algum dinheiro da organização. Acabaram indo para a casa de uma tia de Dilma, que acreditou que a sobrinha e o marido estivessem de férias. Depois moraram num hotelzinho e num apartamento alugado até Galeno ser enviado para Porto Alegre, onde o Colina mantinha contato com uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro, o “Partidão”.

Dilma ficou no Rio ajudando a direção da organização. Levava armas, dinheiro e munição para lá e para cá, participava de reuniões, redigia e discutia documentos. Numa das reuniões, ela conheceu o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, o chefe da dissidência do Partidão, que havia hospedado Galeno em Porto Alegre. Tiveram um coup de foudre simultâneo e recíproco. Em sua primeira viagem a Porto Alegre, Dilma informou Galeno sobre o namoro com Carlos Araújo.

No restaurante do hotel, olhando a piscina deserta, Galeno acendeu o terceiro cigarro e disse: “A Dilma é transparente, não tem meia conversa. Ela chegou e falou: ‘Estou com o Carlos.’ E acabou. Foi uma coisa natural, que eu até esperava. Eu também já tinha uma namorada, a Martinha. O rompimento podia sair de mim ou da Dilma. Naquela situação difícil, nós não tínhamos nenhuma perspectiva de formar um casal normal. E ela foi mais valente de expor aquilo no momento justo. Não ficou nenhuma sequela, nenhuma cicatriz. Continuamos grandes amigos, como somos até hoje, o que envolve as respectivas famílias.” (Perguntei se eram amigos a ponto de ele ter o celular pessoal da ministra. “Mesmo que tivesse, não te diria”, respondeu, um pouco irritado.)

“Foi uma coisa muito bonita”, disse-me Dilma, em 2003, quando era ministra das Minas e Energia, numa entevista publicada em parte pela Folha de S. Paulo. “O Carlos pediu a minha mão para o Juarez”, relembrou emocionada.

O casamento estava desgastado desde Belo Horizonte. Quatro militantes que conheceram bem Galeno e Dilma – Apolo Heringer, Fernando Pimentel, José Aníbal e Maria do Carmo Brito – acham que havia uma diferença intelectual entre os dois, com vantagem para Dilma. Galeno concordou: “Ela tinha uma tendência mais acentuada do que eu à atividade intelectual.”

Antes de conhecer Dilma, Carlos Araújo vivia com a geógrafa Vânia Abrantes. Nas contas de dona Marieta, mãe de Araújo, Vânia já era sua oitava mulher. Ele tinha um filho de 8 anos da primeira. “Que mal há nisso?”, perguntou-me, candidamente. “O Carlos era muito sedutor”, disse Vânia em seu apartamento de cobertura em Copacabana. “Um dia ele me disse que estava com uma nova companheira, e deixamos de morar juntos. Mas nem por isso deixamos de ser amigos.”

Carlos Araújo tinha 31 anos quando conheceu Dilma. Filho do advogado Afrânio Araújo, dono de uma prestigiada banca trabalhista e membro do Partido Comunista Brasileiro, começou a militância ainda rapaz, também no PCB. No início do anos 60, mudou-se para Recife e foi assessor de Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas. Viajou com ele pela América Latina, conheceu Fidel Castro e Che Guevara, e foi preso por alguns meses em 1964. Continuou na ativa, organizando grupos de trabalhadores que o procuravam no escritório, até hoje um dos maiores de Porto Alegre. Em 1968, depois do AI-5, “muito impulsivamente”, como disse, aderiu à luta armada. Convenceu alguns camaradas da justeza da luta, conseguiu contato com Maria do Carmo e Juarez, e fez várias viagens ao Rio para conversar com eles.

No primeiro semestre de 1969, Araújo começou a discutir com eles a possibilidade da fusão de seu grupo com o Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, organização liderada pelo capitão Carlos Lamarca, que desertara do Exército.

A Vanguarda Popular Revolucionária destacou Antonio Roberto Espinosa para conversar com o pessoal do Colina sobre a possível fusão das organizações. Espinosa tinha 23 anos e um currículo de pelo menos meia dúzia de ações armadas, entre elas dois assaltos a banco e um roubo de armas de um quartel do Exército em São Caetano. “A Dilma, que participou de reuniões sobre a fusão, me lembrou um pouco a Mônica dos quadrinhos de Maurício de Souza, com cabelinho, dentinho e óculos que chamavam a atenção”, disse-me Espinosa, durante um almoço num shopping de Osasco, onde mora.

Em duas conferências em Mongaguá, no litoral paulista, foi formalizada a fusão que deu origem a uma nova organização – a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares, ou VAR-Palmares. Dilma e Carlos Araújo estiveram presentes entre os representantes do Colina. Pela VPR, o nome mais ilustre era Carlos Lamarca.

O professor de português Fernando Mesquita mora em Nova Xavantina, no Mato Grosso. Tem 64 anos e uma tese defendida no curso de letras da Universidade de São Paulo, sobre o sol na obra de Caetano Veloso. Esteve nas duas conferências de Mongaguá. “A Dilma era agressiva verbalmente”, ele me disse numa entrevista por telefone. “Mas tinha certa fragilidade, algo como uma adolescência não realizada. Na fusão, ela tinha uma crítica à visão militarista da VPR. Já falava na necessidade de um trabalho político de massas, paralelo às ações armadas.” Espinosa também esteve em Mongaguá. Ficou com a impressão de que o capitão Lamarca achava Dilma “metida a intelectual”.

Carlos Araújo foi eleito um dos seis dirigentes da nova organização. O primeiro artigo do seu estatuto dizia: “A Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares é uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo.”

Nas contas do relatório de um Inquérito Policial Militar, a VAR-Palmares contou no seu início com “312 militantes, 94 fuzis, 18 metralhadoras INA, duas metralhadoras Thompson, quatro pistolas 45, 53 FAL, as armas roubadas à Casa Diana (São Paulo), além de grande quantidade de armas individuais de pequenos calibres, muitas bombas, explosivos, carros adquiridos e cerca de 25 mil cruzeiros novos em dinheiro”.

Em Mongaguá, Juarez expôs parte dos planos para o que chamou de “grande ação”. Ela veio a ser, em 18 de julho de 1969, a mais espetacular e a mais rendosa de toda a luta armada: o roubo de 2,5 milhões de dólares do cofre da casa da amante de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo, em Santa Teresa, no Rio. Nem Dilma nem Araújo participaram da ação, mas ambos estiveram envolvidos na sua preparação.

“A ação do cofre foi fundamental para nos dar estabilidade”, disse Araújo. “Fui eu quem levei, de Porto Alegre, o metalúrgico Delci, que abriu o cofre com maçarico no aparelho para onde ele foi levado, em Jacarepaguá, no Rio. Eu também ajudei a tirar de lá as malas com o dinheiro.”

A fortuna não evitou a desintegração da VAR-Palmares. Entre agosto e setembro de 1969, durante um longo e tenso congresso numa casa de Teresópolis, cinquenta militantes discutiram o que fazer. A divisão era entre os “basistas”, que defendiam o trabalho de “massas”, com as “bases”, e os “militaristas”, que advogavam a prioridade da luta armada. “A Dilma se bateu contra o militarismo, defendendo que também se desse importância ao trabalho político”, contou Espinosa. Maria do Carmo também se lembrou da hoje ministra em Teresópolis: “Ela acreditava que a luta de massas era mais importante que a luta armada.”

Não houve acordo entre as facções e a organização se cindiu – de um lado, a VAR-Palmares “basista” e, de outro, a VPR “militarista” de Lamarca. Começou a disputa pelo botim: o dinheiro do cofre e as armas. Em outubro de 1970, quase dois meses depois da sua prisão, Carlos Araújo deu um depoimento ao Dops de São Paulo. Nele, disse que ficou em seu poder 1,2 milhão de dólares, dividido “em três malas de 400 mil dólares cada uma”, e que o dinheiro ficou cerca de uma semana “em um apartamento situado à rua Saldanha Marinho, onde também morava Dilma Vana Rousseff Linhares”.

Araújo não quis comentar o depoimento ao Dops. E nem outros, como um de Espinosa, que fala em 720 mil dólares terem ficado com a organização, ou um de outro militante, que chega à soma de 972 mil dólares. “É impossível chegar a uma conclusão sobre isso, que não tem mais importância nenhuma”, disse Araújo.

Num dos inquéritos é dito que Dilma Rousseff “manipula grandes quantias da VAR-Palmares. É antiga militante de esquemas subversivo-terroristas. Outrossim, através de seu interrogatório, verifica-se ser uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais. Trata-se de pessoa de dotação intelectual bastante apreciável”. Em outros relatórios do gênero, foi chamada de “Joana D’Arc da subversão”, “papisa da subversão”, “criminosa política” e “figura feminina de expressão tristemente notável”.

Depois do racha, Dilma foi enviada a São Paulo. Ela tinha um problema prático a resolver: esconder em melhores condições de segurança um monte de armas que estavam correndo risco em apartamentos pouco seguros. Dilma mudara-se para uma pensão pre-cária, de banheiro coletivo, na avenida Celso Garcia, Zona Leste. Dividia um quarto com Maria Celeste Martins, hoje sua assessora. Na entrevista de 2003, Dilma contou o que as duas fizeram:

Eu e a Celeste entramos com um balde; eu me lembro bem do balde porque tinha munição. As armas, nós enrolamos em um cobertor. Levamos tudo para a pensão e colocamos embaixo da cama. Era tanta coisa que a cama ficava alta. Era uma dificuldade para nós duas dormirmos ali. Muito desconfortável. Os fuzis automáticos leves, que tinham sobrado para nós, estavam todos lá. Tinha metralhadora, tinha bomba plástica. Contando isso hoje, parece que nem foi comigo.

No primeiro dia do ano de 1970, Galeno e outros seis militantes sequestraram, em Montevidéu, um Caravelle da Cruzeiro do Sul. Três dias depois, conseguiram chegar sãos e salvos em Cuba. Ele recebera a ordem de treinar guerrilha e voltar para o Brasil. Galeno tentou voltar, mas, com a repressão crescente, não conseguiu. Casou-se no exílio com a nicaraguense Maira, com quem teve duas filhas, que moram fora do Brasil e lhe deram quatro netos.

Quinze dias depois do sequestro do Caravelle, Dilma Rousseff foi presa, em São Paulo. Seu destino começou a ser selado quando uma onda de prisões pegou José Olavo Leite Ribeiro, que mantinha com ela três contatos semanais. Ribeiro, professor universitário, mora num prédio nos Jardins, em São Paulo. Numa manhã de fevereiro, ele me disse que, depois de um dia inteiro de tortura, contou aos militares que o interrogavam que tinha um encontro com Antônio de Pádua Perosa num bar da rua Augusta. “Eu até sabia que a Dilma podia aparecer porque era um ponto alternativo entre nós, mas o certo mesmo era que um outro companheiro aparecesse.”

Levado até o bar, onde foi obrigado a sentar-se e a fingir que estava tudo bem, Ribeiro viu que Perosa já o esperava no balcão, como combinado. Ao aproximar-se e falar com ele, foi preso por policiais disfarçados. “Eles já estavam desmontando o cerco quando a Dilma apareceu”, disse Ribeiro. “Ela chegou perto, percebeu que eu sinalizei alguma coisa e foi-se embora, disfarçando. Mas eles desconfiaram, foram em cima, e descobriram que ela estava armada. Se não fosse a arma, é possível que conseguisse escapar.”

Dilma foi torturada dias a fio com palmatória, socos, pau-de-arara e choques elétricos. Em seus depoimentos judiciais, denunciou as torturas e deu o nome de oficiais militares que delas participaram, por ação ou omissão, entre eles o capitão do Exército Benoni de Arruda Albernaz, presença recorrente na lista de torturadores.

Mesmo com a tortura, Dilma não revelou o que sabia de Carlos Araújo, seu companheiro, e de Maria Celeste Martins, sua ajudante no recolhimento das armas. Eles só vieram a ser presos muito tempo depois.

Na luta para ganhar tempo com os torturadores, às vezes enrolando-os, ela levou uma equipe de policiais à praça da República, de manhã cedo, inventando que tinha um encontro. Botaram-na num banco, sentada, e montaram o cerco. Um rapaz, ao passar pelo banco e ver a moça sozinha, interessou-se por ela. Voltou-se, deu mais uma paquerada e resolveu sentar-se. Ele foi preso e levado à sede da Operação Bandeirante, a Oban, na rua Tutóia, no Paraíso. O rapaz era argentino. Apanhou muito até provar que não tinha nada a ver com o terrorismo.

Dilma tinha encontros regulares com Natael Custódio Barbosa, que participara das greves operárias de 1968 em Osasco. “Dilma era uma companheira muito séria e dedicada, que acreditava no que estava fazendo”, disse-me Barbosa na sua casa, em Londrina, onde é caminhoneiro e vive com a mulher e três filhos.

No final de janeiro de 1970, Barbosa foi ao encontro que haviam marcado, às cinco da tarde, na movimentada rua 12 de Outubro, na Lapa. Ele vinha numa calçada, do lado oposto e em sentido contrário ao que ela deveria vir. Quando a viu, de braços cruzados, atravessou a rua, passou por ela sem dizer nada, andou uns vinte passos e, sem desconfiar de nada, voltou. “Voltei, encostei do lado dela e perguntei se estava tudo bem”, contou Barbosa, emocionadíssimo. “Ela fez aquela cara de desespero e eles caíram imediatamente em cima de mim, já me batendo, dando coronhadas e me levando para o camburão, e depois para a Oban.”

E prosseguiu: “Nunca mais a vi. Ela me entregou porque foi muito torturada, e eu entendo isso. Acho que me escolheu porque eu era da base operária, não conhecia liderança nenhuma da organização e não tinha como aumentar o prejuízo.”

Com Dilma presa, Carlos Araújo ainda teve tempo para um romance rápido, mas intenso, com a atriz Bete Mendes, da TV Globo, à época simpatizante da organização. Foi preso em 12 de agosto. “No primeiro dia levei pau-de-arara, choques, pauladas e bofetadas”, disse. “Vi que não ia aguentar o pau e logo no segundo dia resolvi me matar. Decidi que não tinha outra saída. Disse pra eles que eu tinha um ponto com o Lamarca, que era tudo o que eles queriam, em uma rua de bastante movimento na Lapa. Eu não tinha, é claro, mas eles acreditaram. Logo de manhã cedo me levaram para lá, cercaram a área toda, com um espalhafato fantástico. Qualquer um que me olhasse eles prendiam. Eu ali, na calçada, vendo os carros passarem. Era só me atirar, mas bateu uma dúvida. Acabei me atirando embaixo de uma Kombi. Machuquei bastante o joelho e a cabeça, mas não quebrei nada.”

Depois de um dia no hospital, Araújo voltou a ser torturado, mesmo ferido. Ficou setenta dias na Oban e passou por outros centros de tortura, como o comando da Base Aérea do Rio, onde ficou sete meses preso. Nessas idas e vindas entre cadeias, para responder a diferentes processos, cruzou com Dilma num comboio, mas em viaturas diferentes, e em auditorias militares, para audiências ou julgamentos. Quando finalmente estiveram por uns meses no mesmo presídio – o Tiradentes, em São Paulo, com direito a visitas íntimas –, Dilma reclamou do romance com Bete Mendes. E voltaram às boas, dispostos a retomar o casamento depois da prisão.

Vânia Abrantes, a ex-mulher de Carlos Araújo, presa em maio de 70, esteve com Dilma numa mesma viatura policial, durante uma viagem de São Paulo ao Rio. Foram uma na frente, outra atrás e não puderam conversar. Mas um testemunho de Vânia sobre a viagem foi decisivo para que Dilma, já ministra, tivesse aprovada a indenização que requereu ao estado do Rio de Janeiro, no valor de 20 mil reais, que ainda não foram pagos.

A pedagoga Maria Luiza Belloque, coordenadora da Universidade Corporativa do Metrô de São Paulo, fez amizade com Dilma numa cela da Operação Bandeirante, e depois em outras, no Dops e no Presídio Tiradentes. “Me jogaram na mesma cela que ela”, contou. “A Dilma levou choque até com fiação de carro. Fora cadeira do dragão, pau-de-arara e choque pra todo lado. Ela levantava o meu astral quando eu chegava arrebentada da tortura.”

Leslie Beloque, cunhada de Maria Luiza, fica sem jeito quando conta a única ação armada que praticou: o roubo de um salão de cabeleireiro chique, com um revólver 38 na mão. “Nós também levamos as jóias e os relógios dos clientes, mas, moralistas, preservamos as alianças”, disse. Dilma foi sua colega de Dops e de Tiradentes. “Ficar presa com a Dilma foi uma coisa de doido. Ela não era nada chorona. Falávamos como se não tivesse tortura. A Dilma é um tenente, é muito forte.”

Condenada em alguns processos e absolvida em outros, Dilma saiu do presídio Tiradentes no final de 1973. Sua mãe, tias e irmãos a receberam depois de quase quatro anos de cadeia e a levaram para uma temporada de recuperação em Minas. Depois, mudou-se para Porto Alegre, onde Carlos Araújo estava cumprindo seus últimos meses de quase quatro anos de pena. Ela o visitava sempre, muitas vezes com o pai do marido, o dr. Afrânio. Ajudava o marido nos trabalhos que ele fazia na cadeia, como a criação de uma biblioteca e de um curso supletivo, no qual Dilma deu aulas. Afrânio morreu em 8 de junho de 1974, com o filho ainda preso. Dois dias depois, Araújo foi solto.

“Foi uma cadeia longa, mas não foi tão ruim assim, porque eu aproveitei para estudar”, disse Araújo. De más lembranças, além da fase da tortura, ficaram os muitos atritos que comprou “com aquele pessoal que queria continuar a fazer a revolução dentro do presídio”.

Carlos Araújo mora hoje sozinho, com os vira-latas Amarelo e Negrão, numa casa às margens do rio Guaíba *, em Porto Alegre. A diarista Eliete cuida das tarefas domésticas. No meio da tarde, Araújo a dispensou. “Não precisa deixar nada para o jantar”, disse. Vestia bermuda azul-marinho, camisa pólo branca e chinelos. Com 71 anos, e apesar de um enfisema do qual não cuida com a atenção devida – e que ultimamente o tem levado ao hospital –, tem energia de sobra. “Sou uma pessoa muito feliz”, isse. “Vivo do meu trabalho, não dependo de ninguém, tive a sorte de ter filhos que não vivem me incomodando e tenho muitos amigos.” Está na varanda, com duas televisões enormes, uma ao lado da outra – onde assiste simultaneamente, pela tevê a cabo, a jogos de futebol. É um ambiente aberto, de onde se vê, numa ilha, o presídio, há muito desativado, em que cumpriu parte da pena. “É ali”, apontou. “Quantas vezes a Dilma foi lá me visitar...”

quarta-feira, abril 29, 2009

O Brasil de todos nós: Raposa Serra do Sol

O tom de hoje contém uma única nota. O ritmo embala as profecias do sertanista Orlando Villas Boas. Talvez a crônica de uma só frase demonstre o retrato dos conflitos criados no Território de Roraima. Ou, quem sabe, nossa “pátria amada” esteja transformando os seus filhos, que há décadas habitam na reserva Raposa Serra do Sol, em grileiros e estrangeiros dentro de sua própria casa. O sertanista, pouco antes de sua morte em 2002, previu que, dentro de alguns anos, o país entenderia o significado da presença de milhares de ONGs (Organizações

não-Governamentais) espalhadas em ermas terras indígenas. Ele alertou que o Brasil seria ridicularizado por Estados estrangeiros, grandes empresas, igrejas, ambientalistas e cientistas, todos na ânsia da internacionalização da Amazônia. Na sua linha de pensamento, disse que a orquestra seria regida no tom da incompetência do Brasil para cuidar da nossa Amazônia. Villas Boas foi além disso, em seus discursos foi categórico ao afirmar que um “tsunami” estava por vir, quando alguns índios de destaque, de diversas etnias da região, fossem para América, voltassem falando inglês e tomados pela política. O estopim, apontado pelo sertanista, era o conflito nas terras de Roraima (localizada nas fronteiras com a Venezuela e a Guiana) e também um pedido dos Ianomâmis para se desmembrarem do Brasil, tendo a Organização das Nações Unidas (ONU) como tutora.

A complexidade do caso está na escolha de um único lado e também da divisão em castas privilegiadas. Como definir quem é brasileiro de verdade? Como alegar a legitimidade dos índios e dos não-índios? Não se trata apenas de mais um conflito entre índios e arrozeiros; estamos falando de um assunto de interesse nacional. O governo ofereceu aos 17 mil índios da Raposa Serra do Sol, de etnias diferentes, uma área contínua de 1,7 milhão de hectares. Hoje o Brasil tem aproximadamente 600 terras indígenas, 227 povos, chegando ao total de 480 mil habitantes. Os indígenas ocupam 27% da Amazônia Legal, que inclui os Estados de Tocantins, Mato Grosso, Roraima, Rondônia, Pará, Amapá, Acre e Amazonas. De acordo com o general do exército Augusto Heleno de Freitas, especialista em Amazônia, a cobiça internacional não se manifesta em ações claras, mas dissimuladas e pouco transparentes. “Fica difícil entender por que pouquíssimas ONGs dedicam-se a socorrer a população nordestina enquanto centenas delas trabalham junto às populações indígenas”, afirmou o general Heleno em entrevista ao programa “Canal Livre”, da Band - em abril de 2008. Declarações de especialistas em Amazônia, como o general Heleno, demonstram que o formato definido na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no último dia 18 de março, em manter a demarcação em faixa contínua da reserva Raposa Serra do Sol, evidencia a vulnerabilidade do Brasil, diante de interesses externos, embora, tenho a absoluta certeza, o julgamento não tenha tido esse propósito.

O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, disse que o resultado do julgamento servirá como parâmetro para outras demarcações em fronteiras com a participação do Estado. “O desenho sobre o novo estatuto para a terra indígena valerá para o caso Raposa Serra do Sol e também balizará as questões em andamento". Por 10 votos a um, o Supremo manteve a demarcação da reserva. Apenas o ministro Marco Aurélio de Mello foi contra a decisão, por acreditar que o processo de demarcação presume a participação de diversos interessados. Durante as seis horas de leitura das 120 páginas do seu voto, o ministro sugeriu que o processo fosse extinto. Apontou falhas na ação, alegando omissões de averiguação pelo STF no processo da demarcação. O ministro foi além, dizendo que foi desobedecida a legislação, ao não serem ouvidas todas as partes envolvidas. Compreendo o voto do ministro como a tradução de um olhar humano diante da situação caótica provocada pela demarcação. O ministro foi leal aos seus princípios e desafiou os interesses envolvidos no caso. Ele fez sua parte, mas o fogo na floresta não foi contido; mesmo assim, sua ideologia permaneceu no seu voto, com fundamentos jurídicos e humanistas.

O artigo de Aldo Rabelo, deputado federal pelo PCdoB-SP, intitulado “O erro em Roraima”, ironiza, dizendo que até as pedras sabiam que o Supremo iria agredir a formação social brasileira, ao expulsar os não-índios: “{...} a decisão correta a tomar era acomodar os direitos de índios (incluindo os que são contra a demarcação da reserva em área contínua e apoiam a presença de arrozeiros) e de outros brasileiros que lá se estabeleceram, no modelo secular de ocupação do território. É um truísmo reconhecer que os nordestinos, goianos e gaúchos que arribam para a Amazônia repetem a epopeia dos bandeirantes, e sua presença não significa um esbulho dos direitos indígenas. Até as pedras sabiam que nesses conflitos intestinos não pode haver derrotados, e só se admite um vencedor: a Nação e os interesses permanentes de seu povo”.

Quando falamos da retirada dos não-índios, falamos de pessoas que ali nasceram e construíram os seus sonhos, sua vida e depositaram um mar de esperanças em dias melhores. Esses brasileiros são vítimas da ausência do Estado e da falta de projetos sustentáveis. São pessoas com mais de 90 anos, brasileiros que desbravaram a Amazônia e hoje são expulsos das suas casas sem explicação concreta. Tal atitude reflete gritante dualismo, pois, se de um lado emergimos de um conceito de independência e imparcialidade em face dos índios, de outro imergimos na conclusão de que não sabemos gerenciar a situação dos não-índios que habitam naquelas terras e sempre conviveram de forma fraternal com os povos indígenas. A disputa por uma fatia farta da Amazônia faz com que os interesses externos estrangulem o potencial brasileiro e causem desunião entre o seu povo multiétnico. Vivemos num país democrático, mas acabamos surpreendidos com armadilhas provocadas por interesses escusos. Para o sociólogo Demétrio Magnoli, no artigo “Roraima é aqui”, o caminho traçado pela demarcação será maculado por recurso de violência entre os índios e os não-índios. Ele salienta que a criação de uma nação indígena em Roraima levanta questões importantes quanto à demarcação na reserva e à permanência, do lado de dentro, das ONGs internacionais, missionários e índios: “há ‘nações indígenas’ distintas da nação brasileira? A pergunta carece sentido, pois nações não existem na natureza, como rio e montanhas, mas são inventadas na esfera da política. Os índios ‘originais’ não podem ser restaurados, mas sempre é possível inventar, debaixo dos escombros da idéia da nação única, ‘nações indígenas’ pós-modernas, financiadas por instituições multilaterais e lideradas por coalizões de ativistas bem conectados e índios globalizados”.

Não precisamos ir muito longe para enxergar o caos provocado por interesses internacionais. Como presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia, pude conhecer a realidade da reserva indígena Karitiana, localizada a 100 quilômetros de Porto Velho. Fiquei convencida dos estragos causados por ONGs que usufruíram da influência internacional para abrir o cerco para a biopirataria, entre outros crimes. Também pude ver que os índios estão sendo beneficiados com a modernidade do nosso século. Na aldeia, existem geladeira, televisão, rádio e inúmeros aparelhos eletrônicos. Hoje os índios estão aculturados e usufruem dos benefícios da cultura dos não-índios. Em algumas horas de conversas com o cacique da aldeia central, Antônio Karitiana, ouvi relato de que inúmeras organizações estiveram lá e colheram sangue dos indígenas, sob a condição de trazer remédios para a tribo. Enfurecido, o cacique alega que a promessa nunca foi cumprida, e, por isso, nenhuma ONG tem permissão para entrar na reserva Karitiana. No dia 21 de junho de 2007, o jornal “New York Times” publicou uma reportagem denunciando a venda de sangue e DNA dos Karitianas por uma empresa americana. Logo após a minha primeira visita à aldeia, os índios fizeram um pedido de doação de computadores para a comunidade. No dia da entrega da doação, o administrador da Associação Karitiana, Renato Karitiana, ressaltou que os computadores doados pelo Judiciário de Rondônia vão levar a inclusão digital para a comunidade: “Os computadores chegaram em boa hora. Vamos utilizá-los para organizar os documentos que contam nossa história e também fazer com que os nossos índios se tornem globalizados". A doação ganhou repercussão nacional e me fez refletir sobre a visão e a missão do Judiciário em oferecer à sociedade acesso de qualidade à Justiça, solucionando conflitos com rapidez e garantindo a paz social. Estou convencida da dívida com a nossa história indígena, mas não posso calar-me diante da violência que está sendo articulada contra brasileiros dentro do seu território. Sinto a mesma indignação causada pelo crime contra os índios Karitianas. Posso afirmar que os não-índios da Raposa Serra do Sol são tão brasileiros quanto os índios Karitianas.

Posso dizer que os moradores de Roraima atingidos pela decisão judiciária estão marcados por toda vida. Sou roraimense nascida na região do rio Cotingo, hoje Raposa Serra do Sol, e lá construí os meus sonhos, constituí família e idealizei um Estado promissor. Amo minha terra, minha gente e demonstro, neste momento, minha indignação diante dos fatos ocorridos. Não seria necessário um provimento judicial, mas um gerenciamento oportuno, imparcial e preventivo. Nossos índios são aculturados. Sinto saudade daquela época em que índios e não-índios dividiam, em plena harmonia, o mesmo espaço, o mesmo ar e a mesma terra. Muitas famílias já deixaram o local e hoje estão na cidade perdidas em tristeza. O STF é guardião da Constituição Federal. Sua decisão deve ser respeitada, e a ela nos curvamos, embora com o coração destruído. Termina no dia 30 de abril o prazo final para a retirada dos arrozeiros e fazendeiros da Raposa Serra do Sol.

O cerco está fechado!

O arroz não está pronto para colheita. Seria oportuno um prazo maior do que o estipulado na decisão. Todos os investimentos serão perdidos? São mais de 15 mil cabeças de gado pelos pastos da reserva! E a pergunta crucial é: Para onde vão todas as pessoas?

São questões que atormentam os proprietários e todos os cidadãos brasileiros. É justo?

Zelite Andrade Carneiro
Cidadã brasileira

quinta-feira, abril 23, 2009

Transcrição do bate-boca no STF

Direito – O tema é exatamente igual.

Peluso – Mas as conseqüências são de uma gravidade... é a anulação de todos os processos criminais já julgados, cumprimento de penas, etc.

Carmen – A questão da modulação é que é a mesma, mas a matéria.

Direito – Se vossa excelência quiser tirar de pauta.

Cármen – Talvez fosse de conveniência que esse aqui não fosse julgada agora, presidente.

Mendes – É a prova que é preciso embargos de declaração nesse tipo de matéria.

Barbosa – No caso anterior era embargos de declaração para dar aposentadoria a notários. Aqui, embargos de declaração para impedir o desfazimento...

Mendes – Não se trata disso.

Barbosa – Se trata disso, ministro Gilmar.

Mendes – Não, nada disso, desculpa.

Barbosa – A lei fala expressamente ...

Mendes – ... de aposentadoria de pessoas, vossa excelência que está colocando... não é nada disso. O parâmetro ideológico é vossa excelência que está dando. Porque senão aí o causuísmo fica por conta dos eventuais interessados.

Barbosa - Pois é. Nós deveríamos ter discutido quem seriam os beneficiados.

Mendes – A doutrina responsável defende essa possibilidade de que, cito Rui Medeiros e outros, de que se houver omissão, porque é dever do tribunal, ele próprio perquirir, não se trata de fazer defesa de A ou B, esse discurso de classe não cola.

JB – Porque a decisão era uma decisão de classe.

GM – Não, não era decisão de classe.

JB – Era sim.

GM – Não.

(espera)

CP – Agora. O tribunal tem a sua exigência de coerência.

GM – O tribunal pode aceitar ou rejeitar, mas não com o argumento de classe. Isso faz parte de impopulismo judicial.

JB – Eu acho que o segundo caso prova muito bem a justeza da sua tese. Mas a sua tese ela deveria ter sido exposta em pratos limpos. Nós deveríamos estar discutindo ...

GM – Ela foi exposta em pratos limpos. Eu não sonego informação. Vossa Excelência me respeite. Foi apontada em pratos limpos.

JB – Não se discutiu a lei...

GM – Se discutiu claramente.

JB – Não se discutiu

GM – Se discutiu claramente e eu trouxe razão. Vossa Excelência... Talvez Vossa Excelência esteja faltando às sessões.

JB – Eu não estou...

GM – Tanto é que Vossa Excelência não tinha votado. Vossa Excelência faltou a sessão.

JB – Eu estava de licença, ministro.

GM – Vossa Excelência falta a sessão e depois vem...

JB – Eu estava de licença. Vossa Excelência não leu aí. Eu estava de licença do tribunal.

GM – Portanto...

CB – Senhor presidente, eu vou pedir vista do processo.

GM – Ministro Direito rejeita...

MD – Estou mantendo a coerência. Para mim não existe distinção. Nós estávamos discutindo a tese, que foi posta claramente, de saber se, havendo não decisão alguma, nem constando do pedido, a questão dos efeitos modulados se caberia ou não caberia embargo de declaração. Eu já estou com esse processo em pauta há muito tempo, mas como havia um outro que já estava em curso, eu aguardei julgar o outro que estava em curso. A tese é exatamente a mesma e eu estou rejeitando os embargos com esse fundamento.

CP – Se Vossa Excelência me permite, eu acho que há uma distinção aqui. No caso anterior, nós discutimos e conhecemos dos embargos. Os embargos foram rejeitados. Em outras palavras, o tribunal considerou admissíveis os embargos de declaração e rejeitou. Neste caso nós podemos considerar conhecer dos embargos e agora temos de discutir se nós vamos ou não vamos conceder esse efeito limitado.

MD – Ministro Peluso, se vossa excelência me permite, eu compreendo perfeitamente a tese que vossa excelência está sustentando. Só que é exatamente o caso, eu estou conhecendo dos embargos e estou rejeitando pelo menos fundamento que nós adotamos como foi claramente discutido aqui. A única diferença que pode existir é quanto à matéria substantiva. Mas quanto à tese que está sendo observada nos embargos de declaração ela é absolutamente idêntica. É prudente, claro, diante das advertências que foram feitas – e essa corte faz isso com absoluta tranqüilidade sempre, com absoluta transparência, sempre – que se examine e se reexamine a jurisprudência. Não é uma coisa santificada.

GM – E não teve outro caso, se não me engano do Rio Grande do Sul, em que o tribunal – não sei se era matéria de concurso ou coisa assemelhada – em que se discutiu também em embargos de declaração porque o próprio tribunal do Rio Grande do Sul fazia advertência das conseqüências, e o tribunal houve por bem rejeitar os embargos, mas não os disse inadimissíveis.

MD – Eu não estou entendendo que é inadimissível também. Estou conhecendo dos embargos, porque os embargos podem ser conhecidos. Como é uma tese que estava em controvérsia eu estou rejeitando os embargos pela mesma fundamentação. Mas o ministro Carlos Britto vai pedir vista do processo. Quem sabe Sua Excelência, examinando o processo, encontre uma omissão que eu não encontrei e nessa omissão (densa essa corte de supri-la) e, suprindo-a, acolher os embargos também com a extensão dos efeitos modulativos, não em função da omissão dos efeitos modulativos, mas sim em razão de uma outra eventual omissão que possa ter existido.

CP – Essa matéria é de uma delicadeza extrema.

CB – Vai ser muito difícil divergir de Sua Excelência.

CP – Significa a anulação de todos os processos julgados em execução desde 2005.

CL – De 2002 a 2005.

GM – Portanto, após o voto do relator que rejeitava os embargos, pediu vista o ministro Carlos Britto. Eu só gostaria de lembrar em relação a esses embargos de declaração que esse julgamento iniciou-se em 17/03/2008 e os pressupostos todos foram explicitados, inclusive a fundamentação teórica. Não houve, portanto, sonegação de informação.

CB – Tá bem claro.

JB – Eu não falei em sonegação de informação, ministro Gilmar. O que eu disse: nós discutimos naquele caso anterior sem nos inteirarmos totalmente das conseqüências da decisão, quem seriam os beneficiários. E é um absurdo, eu acho um absurdo.

Mendes – Quem votou sabia exatamente que se trata de pessoas...

Barbosa – Eu chamei a atenção de vossa excelência.

Peluso – Não, mas eu já tinha votado porque compreendia uma classe toda de serventuários não remunerados.

Barbosa – Só que a lei, ela tinha duas categorias.

Peluso – Não apenas notários.

Barbosa – Tinha uma vírgula e, logo em seguida, a situação de uma lei. Qual era essa lei? A lei dos notários. Qual era a conseqüência disso? Incluir notários nos regimes de aposentadorias de servidores ...

Mendes – porque pagaram por isso durante todo o período e vincularam...

Barbosa – ora, porque pagaram...

Mendes – se vossa excelência julga por classe, esse é um argumento...

Barbosa – eu sou atento às conseqüências da minha decisão, das minhas decisões. Só isso.

Mendes – vossa excelência não tem condições de dar lição a ninguém.

Barbosa – e nem vossa excelência. Vossa excelência me respeite, vossa excelência não tem condição alguma. Vossa excelência está destruindo a justiça desse país e vem agora dar lição de moral em mim? Saia a rua, ministro Gilmar. Saia a rua, faz o que eu faço.

Britto – ministro Joaquim, nós já superamos essa discussão com o meu pedido de vista.

Barbosa – Vossa excelência não nenhuma condição.

Mendes – eu estou na rua, ministro Joaquim.

Barbosa – vossa excelência não está na rua não, vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso.

Britto – ministro Joaquim, vamos ponderar.

Barbosa – vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite.

Mendes – ministro Joaquim, vossa excelência me respeite.

Marco Aurélio – presidente, vamos encerrar a sessão?

Barbosa – Digo a mesma coisa.

Marco Aurélio – eu creio que a discussão está descambando para um campo que não se coaduna com a liturgia do Supremo.

Barbosa – Também acho. Falei. Fiz uma intervenção normal, regular. Reação brutal, como sempre, veio de vossa excelência.

Mendes – não. Vossa excelência disse que eu faltei aos fatos e não é verdade.

Barbosa – não disse, não disse isso.

Mendes – Vossa excelência sabe bem que não se faz aqui nenhum relatório distorcido.

Barbosa – não disse. O áudio está aí. Eu simplesmente chamei a atenção da Corte para as consequências da decisão e vossa excelência veio com a sua tradicional gentileza e lhaneza.

Mendes – é vossa excelência que dá lição de lhaneza ao Tribunal. Está encerrada a sessão.

sábado, abril 04, 2009

A Operação Royalties

por Diogo Mainard

"Victor Martins está sendo investigado pela PF.Ele é diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP). É também irmão do ministro da Propaganda de Lula, Franklin Martins"

Victor Martins está sendo investigado pela Polícia Federal. Num relatório interno, sigiloso, ele é tratado como suspeito de comandar um esquema de desvio de 1,3 bilhão de reais da Petrobras.

Quem é Victor Martins? Já tratei dele alguns anos atrás. Talvez alguém ainda se lembre. Ele é diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP). É também irmão do ministro da Propaganda de Lula, Franklin Martins.

Vamos lá. Ponto por ponto. Em meados de 2007, a PF prendeu treze pessoas na Operação Águas Profundas. Elas eram acusadas de fraudar e superfaturar contratos com a Petrobras. Durante as investigações, os agentes da polícia fazendária do Rio de Janeiro descobriram outro esquema fraudulento, envolvendo empresas de consultoria, prefeituras e a ANP. Segundo a denúncia, tratava-se de um esquema de desvio de dinheiro de royalties do petróleo. A PF abriu uma nova investigação, batizada de Operação Royalties.

Nos primeiros meses de 2008, o delegado responsável pela Operação Royalties preparou um relatório sobre o resultado de suas investigações. O que tenho na minha frente, no computador, é justamente isto: a cópia integral desse relatório.

De acordo com os dados recolhidos pelos agentes da PF, Victor Martins, apesar de ser diretor da ANP, continuaria a se ocupar dos interesses da Análise Consultoria e Desenvolvimento, empresa da qual ele seria sócio com sua mulher, Josenia Bourguignon Seabra. Victor Martins se valeria de seu cargo para direcionar os pareceres da ANP sobre a concessão de royalties do petróleo, favorecendo as prefeituras que aceitassem contratar os préstimos de sua empresa de consultoria. Num episódio descrito pela PF – e reproduzo o trecho mais escandaloso do relatório –, Victor Martins "estaria ajeitando uma cobrança de royalties da Petrobras, no valor de R$ 1 300 000 000,00 (um bilhão e trezentos milhões de reais), através da Análise Consultoria, e teria uma comissão de R$ 260 000 000,00 (duzentos e sessenta milhões de reais), a título de honorários".

O relatório da PF, com todos os detalhes sobre o esquema e o nome dos supostos cúmplices de Victor Martins na ANP, foi apresentado a Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da PF. O que aconteceu depois disso? Primeiro: a Operação Royalties, que estava a um passo de ser deflagrada, com as primeiras prisões, foi posta de molho. Segundo: o delegado que dirigia as investigações foi transferido. Terceiro: o chefe da polícia fazendária do Rio de Janeiro foi trocado. Quarto: o superintendente da PF carioca, Valdinho Jacinto Caetano, foi promovido ao cargo de corregedor-geral, em Brasília.

É bom lembrar: Victor Martins só está sendo investigado pela PF. Ninguém o acusou judicialmente. Ninguém o condenou. Mas os parlamentares do PSDB e do DEM passaram a semana fazendo de conta que instituiriam uma CPI da Petrobras. O motivo: segundo eles, a PF abafaria as denúncias contra petistas e membros do governo, como na Operação Castelo de Areia. Se é assim, a Operação Royalties parece confirmar essa tese. CPI da Petrobras. Já.

quinta-feira, março 26, 2009

A Metafísica de Botequim de Tom Waits

Por Martim Vasques da Cunha

"Don't you know there ain't no devil, there's just God when he's drunk?"
(Você não sabe que não existe demônio, somente Deus quando está bêbado?)
Tom Waits, "Heartattack and Vine"

(Nota: Devido à tese que quero apresentar neste texto, tive que traduzir as letras das canções de Tom Waits. Como em minhas tentativas anteriores, tive algumas críticas - todas construtivas - sobre a minha (im)perícia como tradutor, aviso que fiz o possível para não estragar a linguagem de Waits, sempre baseada em trocadilhos, gírias e imagens etéreas, desde que preservasse o sentido para melhor compreensão do leitor. Qualquer erro, a culpa é exclusivamente minha e espero que o leitor me avise de qualquer correção urgente)

Nem Immanuel Kant, nem Kierkergaard, e muito menos Jean-Paul Sartre e Martin Heiddeger conseguiram ganhar de Thomas Alan Waits no quesito de "metafísica de botequim". Perdoem-me os puristas e os tradicionalistas, mas qualquer frase de "Heartattack and Vine" ou de "Foreign Affairs" valem mais do que qualquer linha de "Ser e Tempo", "O Ser e o Nada", "O Desespero Humano" e até os "Fundamentos para uma Metafísica dos Costumes", de Kant. Somente conseguem ser páreo para Waits, Aristóteles e Santo Tomás, e talvez estes últimos só perderiam porque Waits venceria os dois, na hora de verter uma boa garrafa de uísque.

Parece brincadeira, mas o fato é que Tom Waits, com sua voz rascante, instrumentação desafinada e letras sem nenhum nexo aparente, é um sujeito que nos leva a refletir sobre que raios estamos fazendo aqui, neste mundo repleto de imbecilidades e desgraça, pergunta pertinente a qualquer metafísica que se preze. Se, para um Aristóteles todo homem busca conhecer e, para um Santo Tomás, todo homem deve unir a razão e a fé, para Tom Waits, todo homem fica feliz com um copo de bourbon, uma mulher com cabelos oxigenados e uma lata de feijões nos momentos em que a solidão bate fundo. É um alvo baixo, devemos confessar, mas quem disse que não é verdade? Às vezes, o ser humano deixa a baixeza se disseminar nas suas atitudes. Mas isso não significa que Tom Waits seja um artista de quinta categoria, com objetivos de décima. Ele retrata um mundo muito particular, um mundo em que perder é sempre uma constante e, por isso mesmo, o Diabo apronta as suas. No entanto, como bem descreve a epígrafe deste texto, o Diabo não existe - foi Deus mesmo quem aprontou toda essa bagunça, quando estava curtindo uma bela birita.

O leitor que achar que eu e Tom Waits somos dois hereges, por pensarmos tão desrespeitosamente do Todo-Poderoso, pode fechar esta página e denunciar-nos ao Vaticano. Contudo, Waits pode ser tudo, menos um herege ou um ateu. O que ele possui é uma visão peculiar da vida do espírito, uma visão que não descarta algo que anda em falta nos cleros e nas pessoas que se dizem religiosas: bom humor. Claro que não é um humor besteirol, típico de retardados mentais: há um toque de lirismo, de amargura e de nostalgia, que deixa o ouvinte comovido ao escutar canções sobre losers, pachucos e pallukas, seres tão estranhos à nossa realidade que só mesmo um artista de muito talento para nos deixar ver a vida desses infelizes e sofrer com eles. E este artista único e impagável é Tom Waits.

Apesar de toda a sua esquisitice, Waits faz parte da mesma linhagem de "frágeis senhores da guerra" em que se incluem compositores como Bob Dylan, Lou Reed, David Bowie, Elvis Costello, Leonard Cohen, Neil Young e Nick Cave. Além disso, é um poeta de mão cheia e um compositor sofisticado, capaz de fazer melodia até mesmo com o barulho de uma cadeira, como prova a canção "Shore Leave", do álbum "Swordfishtrombones" (Comprova-se este fato quando Elvis Costello, um dos sujeitos com o melhor bom gosto musical no mundo, faz três covers de clássicos de Waits para o álbum com Anne Sofie Von Otter, "For The Stars"). No entanto, para chegar ao seu estilo único, Waits teve de criar uma persona anterior: a de melhor cantor de botecos que já existiu.

Seu primeiro álbum, "Closing Time", é uma das grandes estréias em vinil, ao lado de "Are You Experienced", de Jimi Hendrix e "Boy", do U2 e mostra um compositor com linguagem própria - melodias delicadas, uma voz semi-bêbada e letras que retratam a desilusão do perdedor americano. Para quem vivia de pileques, queria dormir num Landau com luvas de couro e abraçado a uma pá retrátil, "Closing Time" parecia ser um belo início de carreira - uma carreira de respeito, em que pessoas como Bruce Springsteen, The Eagles e até Bette Midler (?!) regravariam suas canções, devido ao tom único que inspiravam ao ouvinte um mundo completamente diferente.

Uma das grandes sacadas de Waits como compositor é justamente esta sensação de estarmos dentro de um mundo, apenas pelo poder de sugestão da canção. Em "Closing Time" (1973), pensamos que estamos numa boate no final do expediente, escutando as lamúrias do pianista ou do bar-man que tenta arranhar umas notas no instrumento. Esta atmosfera de bar continuaria nos álbuns seguintes, como "Small Change" (1974) e "Nighthawks from the Diner" (1975), este gravado dentro de um bar de verdade, em que Waits mostra sua versatilidade como "stand-up comedian", até chegar ao ápice na pérola das pérolas, "A Sight for Sore Eyes", do álbum "Foreign Affairs" (1976), um conto patético de um grupo de amigos que se separaram conforme o passar dos tempos, narrado por um bêbado que só sabe xingar alguns pallukas que se encontram no bar (para quem não sabe, um palluka é, na língua particular de Waits, um perdedor de marca maior).

É também nesta fase que Waits começa a desenvolver a sua metafísica de botequim a partir de discos que contassem histórias completas, como se fossem mini-óperas. O postulado de que ele parte para a sua "ciência a qual queremos chegar", é que o homem é um bicho solitário - algo evidente para quem escutou "Closing Time", mas que fica cristalino na canção "Blue Valentine" (1978), em que o narrador conta que mandou um cartão de Dia dos Namorados para si mesmo, tamanha a sua solidão. Nesse aspecto, Waits é como se fosse um Edward Hopper alcoólatra, e cada canção é um daqueles quadros em que as pessoas estão em busca de um olhar, de um gesto significado, mas tudo está embebido num grau máximo de incomunicabilidade. Num mundo em que a solidão impera, o Mal é apenas uma banalidade porque, afinal de contas, todos estão bêbados demais para perceber isso.

Mas é claro que Waits não queria ficar somente no mundo do botequim. Como todo bom metafísico, ele queria expandir seus limites. Os primeiros álbuns de Waits faziam uma sátira melancólica de Los Angeles, com seus anjos perdidos em busca de companhia e alguma sorte, mas só encontrando isso em algum barzinho da esquina. Agora, estava na hora de ir para outras regiões de La America. Que tal o país inteiro? Foi aí que surgiu "Swordfishtrombones", o primeiro álbum em que Waits criou sua persona definitiva, inclassificável, o bêbado filósofo com voz raspando a garganta de forma aflitiva, misturando rock, polka, jazz e até mesmo música de vaudeville.
"Swordfishtrombones" (1983) contava a história de Frank, um ex-marinheiro que, devido ao tédio que sua esposa e o cachorro dela impunham, resolveu queimá-los colocando gasolina na casa e ateando fogo. O álbum era a primeira parte de uma trilogia informal, que seria completada com "Rain Dogs" e "Frank Wild´s Years". O que diferenciava este disco dos anteriores não era somente a instrumentação inventiva, mas o modo como Waits usava a voz, desta vez parecendo Martin Sheen em "Apocalypse Now", narrando fatos bizarros que aconteciam na sua frente como se fossem a coisa mais normal do mundo. Não é à toa que o próprio Waits fez a trilha-sonora de "One From The Heart", dirigido por Francis Ford Coppola, e depois seria ator em "Drácula de Bram Stoker" - se Coppola foi um dos poucos artistas que foram no fundo do coração das trevas americanas, Waits faria o mesmo, contanto que sua escuridão fosse divertida. Não sabemos se isso é possível, mas não podemos negar que Waits mostra um inferno que, se não tem os seus prazeres, mostra um humor incomum. "Swordfishtrombones", contudo, é apenas um bom disco: Waits ainda está muito tímido nas suas experimentações, e mesmo com delicadas canções de amor como "Johanesburg, Illinois" (dedicada à sua mulher e musa, Kathleen Brennan, que se tornaria co-compositora e co-produtora em álbuns futuros) ou então obras-primas de concisão narrativa e musical como "Shore Leave" e "In the neighbourhood", estava claro que o nosso metafísico de botequim precisava esculpir mais suas idéias e erguer sua "Crítica da Razão Alcoólica", para criar sua nova persona e solidificar o estilo que acabara de encontrar, após anos e anos de procura nos balcões da vida boêmia.

"Rain Dogs" (1985) foi a resposta. Uma coletânea de histórias sobre marinheiros (diz a lenda que seria o Frank de "Swordfishtrombones" cruzando o oceano e chegando em New York - fato que nunca foi comprovado), um compêndio de sabedoria do submundo, um tratado de loucura escrito pelos próprios loucos - tudo isso é "Rain Dogs" e muito mais. Neste álbum, Tom Waits incorpora de vez a sua persona de cicerone do absurdo e faz a pedra de toque da sua metafísica. Sim, o mundo é um hospício (o título "Rain Dogs" é uma gíria para os doentes que ficam girando em torno de um mesmo lugar, como os cachorros que rondam suas poças de urina em dias de chuva), mas capaz de uma poesia assustadora, uma poesia que também pode ser dolorida, repleta da incomunicabilidade que só os amantes proibidos possuem. Há também espaço para o humor negro, como mostra "Cemetery Polka":

"Auntie Mame
Has gone
Insane
She lives in
The doorway of an old hotel
And the
Radio's playing opera and
All she ever says
Is go to Hell.
Uncle Violet
Flew as pilot
He said there
Ain't no pretty
Girls in France
Now he runs a
Tiny little
Bookie joint they say
He never
Keeps it in his pants
Uncle Bill
Will never leave a will
And the tumour is as
Big as an egg
He has a mistress
She's a Puerto Rican
And I heard she has
A wooden leg".

(Tia Mame
Ficou
Maluca
Ela vive numa
No corredor de um velho hotel
E o
Rádio está tocando ópera
E tudo o que ela diz é
Vá para o Inferno.
Tio Violeta
Voou como piloto
Ele disse que não há
Garotas Bonitas
Na França
Agora ele tem
Uma espelunca que dizem
Que nunca para nas suas calças
Tio Bill
Nunca fará um testamento
E seu tumor está
do tamanho de um ovo
Ele tem uma amante
Uma porto-riquenha
E ouvi que ela usa
Uma perna de madeira)

Aqui também percebe-se que Waits está cada vez mais preocupado com uma pergunta básica, à la Sartre: Os infernos são outros ou somos nós que construímos o nosso próprio Inferno? Ainda assim, "Rain Dogs" é uma obra bastante esperançosa, já que Waits consegue refletir sobre a passagem do tempo no ser humano com uma serenidade indistinguível, mesmo que aceite o fato tristemente, como sussurra (com um tom próximo de uma voz normal) em "Time" (regravada por Tori Amos): "The shadow boys are breaking all the laws/ And you're east of East St. Louis/ And the wind is making speeches/ And the rain sounds like a round of applause (...)And they all pretend they're Orphans/ And their memory's like a train/ You can see it getting smaller as it pulls away/ And the things you can't remember/ Tell the things you can't forget that/ History puts a saint in every dream/ And it's Time Time Time/ And it's Time Time Time/ And it's Time Time Time/ That you love" (Os garotos da sombra quebram as leis/ E você está a oeste de East St Louis/ E o vento está fazendo discursos/ E a chuva soa como aplausos (...)/ E todos fingem serem órfãos/ E a memória deles é como um trem/ Você pode vê-la diminuir enquanto ela vai embora/ E as coisas que você não se lembra/ Contam as coisas que você não quer esquecer que/ a História põe um santo em cada sonho/ E é o Tempo o Tempo o Tempo/ Que você ama).

Uma metafísica começa quando o sujeito aprende a amar o Tempo, independente da sua crueldade nas pessoas. Além do Tempo, deve-se aprender a cultivar a solidão como uma amiga. E isso Tom Waits nos ensina como ninguém. Contudo, ele retrata um mundo em que a única fuga decente parece ser a resignação de "já ter visto tudo" e, por isso, nada mais o impressiona. "9th and Hennepin" pode ser considerada o hino do frágil senhor da guerra, com sua ironia alucinatória em estilo beatnik:

"Well it's 9th and Hennepin
And all the donuts have
Names that sound like prostitutes
And the moon's teeth marks are
On the sky like a tarp thrown over all this
And the broken umbrellas like
Dead birds and the steam
Comes out of the grill like
The whole goddamned town is ready to blow.
And the bricks are all scarred with jailhouse tattoos
And everyone is behaving like dogs.
And the horses are coming down Violin Road
And Dutch is dead on his feet
And the rooms all smell like diesel
And you take on the
Dreams of the ones who have slept here.
And I'm lost in the window
I hide on the stairway
I hang in the curtain
I sleep in your hat
And no one brings anything
Small into a bar around here.
They all started out with bad directions
And the girls behind the counter has a tattooed tear,
One for every year he's away she said, such
A crumbling beauty, but there's
Nothing wrong with her that
$100 won't fix, she has that razor sadness
That only gets worse
With the clang and the thunder of the
Southern Pacific going by
As the clock ticks out like a dripping faucet
Till you're full of rag water and bitters and blue ruin
And you spill out
Over the side to anyone who'll listen
And I've seen it
All through the yellow windows
Of the evening train".

(Bem, estamos na 9th e Hennepin
E todos os donuts
têm nomes que soam como prostitutas
E os dentes da lua fazem marcas e estão no
céu como uma panela jogada sobre tudo isso
E os guarda-chuvas quebrados como
pássaros mortos e o vapor
sai da frigideira como
se toda a maldita cidade estivesse pronta para explodir.
E os tijolos estão repletos de tatuagens de cadeia
E todos se comportam como cachorros.
E os cavalos descem a Rua do Violino
E o Holandês está morto de cansaço
E os quartos cheiram a oléo diesel
E você pega
os sonhos de cada um que dormiram aqui.
E estou perdido na janela
Escondo-me na escada
Penduro-me na cortina
Durmo dentro do seu chapéu
E ninguém traz
algo pequeno em um bar aqui perto
Eles começaram todos com más intenções
E as garotas atrás dos balcões têm lágrimas tatuadas
Cada uma para cada ano que ele está fora, ela diz,
Que beleza degradante, mas não há
Nada que nenhuma nota de cem dólares
não possa resolver, ela tem aquela tristeza afiada
Que só piora
com o barulho e o trovão do Oceano Pacífico
enquanto o relógio pinga como uma torneira
Até você estiver cheio de água suja e amargura e tristeza
E você cuspir
ao lado de alguém que lhe escute
E eu vi de tudo
Eu vi de tudo atrás das janelas amarelas
Do trem noturno.)

A solidão de estar separado da amada é talvez a única coisa que o mantém são, mesmo quando quer se "comportar como um cachorro". Escute "Downtown Train", a canção mais pop que Waits já escreveu, tão pop que até Rod Stewart fez uma versão radiofônica, não percebendo a desilusão afiada ao cantar: "The downtown trains are full/ With all those Brooklyn girls/ They try so hard to break out of their little worlds/ You wave your hand and they scatter like crows/ They have nothing that will ever capture your heart/ They're just thorns without the rose/ Be careful of them in the dark/ Oh if I was the one/ You chose to be your only one" (O trem central estão lotados/ De garotas do Brooklyn/ Elas tentam sair daqueles mundos pequeninhos/ Você faz um aceno e elas respondem como corvos/ Elas não tem nada que vá agarrar o seu coração/ São apenas espinhos sem rosa/ Tome cuidado com elas no escuro/ Se eu fosse o único/ O único que você escolheria). Mas a mensagem de Waits não é algo explicíta. Seu humor do absurdo ainda mostra alguma resistência contra as ilusões da vida quando berra na última canção de "Rain Dogs", "Anywhere I Lay My Head" - "Well I see that/ The world is upside down/ My pockets were filled up with gold.// Now the clouds have covered o'er/ And the wind is blowing cold/ I don't need anybody/ Because I learned to be alone/ And anywhere/ I lay my head, boys/ I will call my home" (Bem, eu vejo que/ O mundo está de cabeça para baixo/ Meus bolsos estão cheios de ouro// Agora as nuvens me cobriram/ E o vento sopra gelado/ Eu não preciso de ninguém/ Porque aprendi a ficar sozinho/ E em qualquer lugar/ que eu deitar a minha cabeça/ Será a minha casa).

Sua alma é sua casa porque ninguém mais pode tê-la - exceto o Diabo, para quem o personagem de Waits está prontinho para fazer um pacto. No caso, um pacto patético, como fez no álbum seguinte, a parte final de sua trilogia, "Frank´s Wild Years", que mostra o velho Frank se envolvendo com o tinhoso. A tentação sempre foi algo que interessou Waits e ele desenvolveria este assunto na sua metafísica de botequim, fazendo uma contraposição com o tema da inocência - que só é possível quando sonha, e geralmente o sonho é um pesadelo grotesco.

"Frank Wild´s Years" foi a primeira opereta que Waits escreveu com sua esposa, Kathleen Brennan. Ele iria além em sua carreira como ator, fazendo papéis típicos de sua persona em filmes como "Down By Law", de Jim Jarmush, "Short Cuts", de Robert Altman e "Brincando nos Campos do Senhor", de Hector Babenco, mas a semente de seu lado mascarado sempre esteve em seus discos. Contudo, nunca sabemos quem é o verdadeiro Tom Waits - e é provável que ele nem se importe com isso. Ele se esconde atrás de sua metafísica que deixaria qualquer filósofo ou teólogo arrepiado, uma metafísica que, como o próprio intitulou no seu álbum "Bone Machine", é uma máquina de moer ossos. Ele despe a música e a melodia de qualquer espécie de ornamento desnecessário, concentrando apenas em percussão ou então em um banjo mal afinado. Mas ele não perde a ternura ao analisar a loucura de uma suicida em "Who Are You" ao perguntar: "How do your pistol and your Bible and your/ Sleeping pills go?/ Are you still jumping out of windows in expensive clothes?" (Como vão sua pistola e sua Bíblia e suas/ pílulas para dormir?/ Você continua a pular de janelas com roupas caras?). E por incrível que pareça, neste mundo de loucura e satanismo, há espaço para o surgimento de um Jesus, que, segundo ele, chegará logo, mas só na hora da morte: "Well I've been faithful/ And I've been so good/ Except for drinking/ But He knew that I would/ I'm gonna leave this place better/ Than the way I found it was/ And Jesus gonna be here/ Be here soon" (Bem, eu fui fiel/ E eu fui bom/ Exceto pela bebida/ Mas Ele sabia que eu? iria deixar este lugar para algo melhor/ Muito melhor do que encontrei/ E Jesus estará aqui logo/ Estará aqui logo).

Isso não muda, claro, a nossa verdadeira situação nesta terra - seremos apenas "sujeira no solo" ("Dirt on the Ground"). O pessimismo de Waits - se pode se chamar assim - fica cada vez mais evidente, por exemplo, quando se une com um outro pessimista de carterinha, William Burroughs, e ambos fazem, com ajuda de Robert Wilson, o esteta dos palcos que não tem nada a dizer, só a mostrar, o assustador "The Black Rider" (1992). Este talvez seja o projeto mais radical de Tom Waits, só tendo páreo com o lírico "Alice", também feito em parceria com Wilson. O tema da tentação diabólica é levado às últimas conseqüências, transformado num espetáculo de circo que se passa na Rússia e que mostra o Cão como um cavaleiro negro que, muito educadamente, "beberá seu sangue como se fosse vinho". Paralelamente, conta a história de um triângulo amoroso que termina em tragédia, ainda que tenha seus momentos de poesia, como retrata a linda (e macabra) "I Shoot the Moon": "A vulture circles/ Over your head/ For you baby/ I'll be the flowers/ After you're dead/ For you baby" (Um abutre circula/ Sobre sua cabeça/ Para você, minha querida/ Serei as flores? Depois que você morrer/ Para você, minha querida).

Esta proximidade entre o amor e a morte - às vezes os dois se tornando unidos com os amantes dormindo na mesma tumba - é atenuada em "Mule Variations" (1999), lançado seis anos após "The Black Rider". Parece que Waits ficou um pouco mais calmo com a demência do mundo, mas veremos que isso é passageiro. Ele se mostra capaz de cantar de forma lírica sobre as moças que conhecemos nas cafeterias da vida ("Hold On"), fazer odes à paranóia ("What´s He Building"), continuar a narrar suas peregrinações com a maior paciência do mundo ("Pony"), sem deixar de escapar farpas às religiões que transformam Jesus em marcas de chocolates ("Chocolate Jesus"), ou então criar a canção de amor mais ambígua dos últimos anos, em que o ouvinte não sabe se é uma despedida ou um louvor melancólico ao adultério ("Take With It Me"). Mesmo assim, Waits alcança uma serenidade aparente na última canção do disco, "Come on up to the house", quando afirma que nossa existência na Terra pode ser passageira, mas é carregada de sentido: "Does life seem nasty, brutish and short/ Come on up to the house/ The seas are stormy/ And you can't find no port/ Come on up to the house (...)The world is not my home/ I'm just a passin thru" (A vida lhe parece nojenta, cruel e curta/ Venha para a Casa/ Os mares são tempestuosos/ E você não encontrará nenhum porto/ Venha para a Casa/ O mundo não é meu lar/ Estou apenas de passagem). O sentido do mundo está na Casa, mas o problema é que a Casa não é deste mundo.

E este mundo, definitivamente, é dominado pelo rio da miséria ou então pela fuga do sonho. Em "Alice" e "Blood Money", seus álbuns lançados em maio deste ano, Tom Waits faz a maturação de toda a sua obra. São dois discos complementares, mas "Alice" é o mais acessível. Repleto de baladas e valsas desconstruídas, as canções escondem um profundo descontentamento - algo lógico se percebemos que os personagens principais dos discos ("Alice" e "Blood Money" são trilhas para dois espetáculos teatrais que Waits fez em parceria com Robert Wilson) são, respectivamente, um pedófilo (Lewis Carroll obcecado pela menina que daria origem ao seu livro mais famoso) e um homicida (no caso, Woyzeck, que assassinou a esposa por suspeitar de sua traição, o mesmo que inspirou o romance homônimo de Georg Büchner, já filmado por Werner Herzog, com Klaus Kinski). Se em "Mule Variations", Waits dizia que o sentido da vida era transcendente a ela, agora ele mostrava o que acontece quando se perde qualquer sentido e cai no niilismo ou na ilusão.

"Alice" era considerada a obra-prima escondida de Waits e é bem capaz dessa afirmação ser verdade. Composta na mesma época que "The Black Rider", o disco tem um lirismo raro, que pode ser sentido na canção-título, repleta de imagens insólitas ("It's dreamy weather we're on/ You waved your crooked wand/ Along an icy pond with a frozen moon/ A murder of silhouette crows/ I saw in the tears on my face/ In the skates on the pond/ They spell Alice" - É um tempo de sonho em que estamos/ Você acena com sua mão deformada/ Pelo lago gelado com uma lua congelada/ O assassinato de uma silhueta de corvos/ Eu vi nas lágrimas da minha face/ Nos skates do lado/ Sussurram Alice) e nas melancólicas ao cubo, como "Flower´s Grave", "No One Knows I´m Gone" (um verdadeiro hino para os desprezados do mundo), "I´m Still Here" e "Fish & Bird", esta uma pérola do amor impossível, que conta a história entre um pássaro e uma baleia (?!) com tamanha simplicidade, que quem não se emocionar com ela, simplesmente não é um ser humano: "They bought a round for the sailor/ And they heard his tale/ Of a world that was so far away/ And a song that we'd never heard/ A song of a little bird/ That fell in love with a whale/ He said, 'You cannot live in the ocean'/ And she said to him/ 'You never can live in the sky'/ But the ocean is filled with tears/ And the sea turns into a mirror/ There's a whale in the moon when it's clear/ And a bird on the tide/ Please don't cry/ Let me dry your eyes/ So tell me that you will wait for me/ Hold me in your arms/ I promise we never will part" (Compraram uma rodada para o marinheiro/ E escutaram esta história/ De um mundo muito distante/ De uma canção que nunca ouviram/ A canção de um passarinho/ Que se apaixonou por uma baleia/ Ele disse, 'Você não pode viver no oceano'/ E ela disse para ele/ "Você não pode viver no céu'/ Mas o oceano está cheio de lágrimas/ E o mar vira um espelho/ Há uma baleia na lua quando está cristalino e limpo/ E um pássaro na maré/ Por favor não chore/ Deixe-me secar seus olhos/ Para que você diga que esperará por mim/ Segure-me em seus braços/ Eu prometo que nunca iremos nos separaremos).

Contudo, Waits não deixa de apimentar as coisas com seu humor esquisito. Ouçam "Poor Edward", que conta um suícidio incomum: "Did you hear the news about Edward?/ On the back of his head he had another face/ Was it a woman's face or a young girl?/ They said to remove it would kill him/ So poor Edward was doomed/ The face could laugh and cry/ It was his devil twin/ And at night she spoke to him/ Things heard only in hell/ But they were impossible to separate/ Chained together for life" (Você ouviu as notícias sobre Edward?/ Atrás de sua cabeça ele tinha outra face/ Era a face de uma mulher ou de uma menina/ Disseram que se removessem o mataria/ Então o pobre Edward estava condenado/ A face podia rir e chorar/ Era o seu lado demoníaco/ E á noite ela falava para ele/ Coisas que só se ouviam no inferno/ Mas eles eram impossíveis de se separarem/ Aprisionados pela vida inteira). E como não poderia faltar num conto de pedofilia, há espaço para um erotismo típico de pedófilos, em que a perversão parece ser ingênua, mas se revela como a dissolução daquele que seria o ser amado - algo que Waits capta com perfeição em "Watch Her Dissapear":

"Last night I dreamed that I was dreaming of you
And from a window across the lawn I watched you undress
Wearing your sunset of purple tightly woven around your hair
That rose in strangled ebony curls
Moving in a yellow bedroom light
The air is wet with sound
The faraway yelping of a wounded dog
And the ground is drinking a slow faucet leak
Your house is so soft and fading as it soaks the black summer heat
A light goes on and the door opens
And a yellow cat runs out on the stream of hall light and into the yard
A wooden cherry scent is faintly breathing the air
I hear your champagne laugh
You wear two lavender orchids
One in your hair and one on your hip
A string of yellow carnival lights comes on with the dusk
Circling the lake with a slowly dipping halo
And I hear a banjo tango
And you dance into the shadow of a black poplar tree
And I watched you as you disappeared
I watched you as you disappeared
I watched you as you disappeared
I watched you as you disappeared"

(Eu sonhei que estava sonhando contigo
E de uma janela eu vi você se despir no terraço
Vestindo seu crepúsculo de púrpura preso em torno do seu cabelo
Que subia em cachos de ébano
Movendo-se num quarto de luz amarela
O ar está molhado de som
O latido distante de um cachorro ferido
E o solo bebe como uma torneira pingando
Sua casa é tão suave e some enquanto engole o calor do verão escuro
Uma luz se esvai e uma porta se abre
E um gato amarelo corre até o pátio
Um cheiro de framboesa amadeirada está respirando com calma pelo ar
Escuto sua risada de champagne
Você veste sua lavanda de orquídea
Uma em seus cabelos e outro em sua cintura
Uma corda de luzes de carnaval aparecem na aurora
Circulando o lago com um halo lento
E eu escuto um banjo tocando tango
E você dança à sombra da árvore escura
E eu observo-a enquanto desaparece
Eu a observo enquanto desaparece
Eu a observo enquanto desaparece)

Na verdade, "Alice" é uma reflexão de como um sujeito, para escapar da realidade do mundo, foge para um mundo de sonhos - e ainda assim este mundo não é muito bonito. Mas é o único em que ele consegue viver. Entretanto, a realidade não pode ser evitada - o que acontece em "Blood Money". Neste álbum, o que domina é a miséria, a dureza dos ritmos, a crueza da voz, a rispidez das letras, emolduradas por um humor amargo. Ouçam o aforismo que Waits criou em "Misery is the river of the world" (A Miséria é o rio do mundo):

"If there's one thing you can say about Mankind
There's nothing kind about man
You can drive out nature with a pitch fork
But it always comes roaring back again".

(Se há existe uma certeza sobre a Humanidade
É que não existe nada de bom no homem
Você pode mudar a natureza com um arpão
Mas sempre irá voltar violentamente)

Aqui, a metafísica de botequim de Tom Waits se revela como uma pergunta muito simples e feita por muitas pessoas: Quem é o responsável pelo Mal do mundo? Deus pode ter saído a negócios, mas a culpa cai sobre o próprio homem. Somos como Jonas, sofrendo no ventre de uma baleia e, nos últimos tempos, está sendo díficil saber onde está um único bom homem. Em "Blood Money", Waits se mostra como uma voz do fim dos tempos (como bem definiu o crítico de música do Estado de São Paulo, Mauro Dias), mas é a voz que sabe que o absurdo da existência surge daquele que quer dar um sentido pronto e acabado. Infelizmente, não é assim: "Time is memory mixed with desire" (Tempo é memória misturado com desejo), sussurra Waits em "The Part You Throw Away". Como já dissemos, uma metafísica começa realmente quando aprendemos a respeitar o tempo, pois este não respeita nada que é feito sem o seu consentimento. O mundo da morte e o mundo do sonho simplesmente paralisam o tempo e não deixam o ser humano se desenvolver e encontrar o seu sentido. Não devemos culpar Deus e muito menos o Diabo, especialmente quando este não existe e o primeiro ficou mal com uma ressaca. Tudo bem, isso parece papo de botequim; mas lembre-se que, às vezes, a vida tem um ar de botequim e, são nesses momentos que Tom Waits nos dá uma dica de escolher a bebida certa - e, o melhor, nos ensina a bebê-la com cautela.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista