segunda-feira, julho 27, 2009
Todo o poder aos ladrões
No tempo dos militares, centenas de políticos passaram pela Comissão Geral de Investigações (CGI) e tiveram suas carreiras encerradas com desonra, por delitos de corrupção. Ao mesmo tempo, dos generais e coronéis que ocuparam altos postos na República, nenhum saiu milionário. O patrimônio que lhes sobrou é o que teriam adquirido normalmente com seus soldos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Com a Nova República, tudo mudou. Primeiro, o combate à corrupção deixou de ser um empreendimento discreto, levado a cabo por investigadores profissionais: tornou-se ocupação da mídia. Nos momentos mais intensos das CPIs nos anos 90, deputados e senadores confessavam que os jornais passavam por cima deles, investigando e descobrindo tudo antes que Suas Excelências tivessem acabado de tomar seu café da manhã. Tudo o que os parlamentares tinham a fazer era dar cunho oficial às sentenças condenatórias lavradas nas redações de jornais.
Segunda diferença: o partido que mais devotadamente se empenhou em denunciar corruptos, destruindo as carreiras de todos aqueles que pudessem se atravessar no seu caminho, e assim tornando viável, por falta de adversários, a candidatura presidencial de uma nulidade que de tanto sofrer derrotas já levava o título de “candidato eterno”, foi também aquele que, ao chegar ao poder, construiu a máquina de corrupção mais majestosa de todos os tempos, elevando o roubo a sistema de governo e provando que só conhecia tão bem as vidas e obras dos ladrões que denunciara por ser muito mais ladrão do que eles.
Essa transformação foi acompanhada de outra ainda mais temível: o crescimento endêmico do banditismo e da violência, que hoje atingem a taxa hedionda de 50 mil brasileiros assassinados por ano.
Completando o quadro, a classe política mais canalha que já se viu investiu-se da autoridade de educadora da pátria, impondo por toda a parte suas crenças e valores e destruindo os últimos resíduos de moralidade tradicional que pudessem subsistir na sociedade brasileira.
Definitivamente, há algo de errado no “combate à corrupção” tal como empreendido desde o retorno da democracia. Hoje em dia, espetáculos degradantes em que senhores de meia-idade, seminus, balançam suas banhas na Parada Gay são tidos como o auge da moralidade, o símbolo de direitos sacrossantos ante os quais a população, genuflexa, deve baixar a cabeça e dizer “amém”. O suprassumo da criminalidade reside em empresários que falharam em cumprir algum artigo de códigos labirínticos propositadamente calculados para ser de cumprimento impossível, criminalizando todo mundo de modo que os donos do poder possam selecionar, da massa universal de culpados, aqueles que politicamente lhes convém destruir, com a certeza de sempre encontrar algum delito escondido.
Ao mesmo tempo, juízes bem adestrados no espírito militante invertem a seu belprazer o sentido das leis, promovendo assassinos e narcotraficantes ao estatuto de credores morais da sociedade, e impõem como único princípio jurídico em vigor a “luta de classes”. Nesse quadro, qualquer acusação de corrupção, vinda da mídia ou do governo, é suspeita. Não que sempre os fatos alegados sejam falsos. Mas, por trás do aparente zelo pela moralidade, esconde-se, invariavelmente, alguma operação mais ilegal e sinistra do que os medíocres delitos denunciados.
A noção de “corrupção” implica, por definição, a existência de um quadro jurídico e moral estabelecido, de um consenso claro entre povo, autoridades e mídia quanto ao que é certo e errado, lícito e ilícito, decente e indecente. Esse consenso não existe mais. Quando uma elite de intelectuais iluminados sobe ao poder imbuída de crenças nefastas que aprenderam de mestres tarados e sadomasoquistas como Michel Foucault, Alfred Kinsey e Louis Althusser, é claro que essa elite, fingindo cortejar os valores morais da população, tratará, ao mesmo tempo, de subvertê-los pouco a pouco de modo que, em breve tempo, haverá dois sistemas jurídico-morais superpostos: aquele que a população ingênua acredita ainda estar em vigor, e o novo, revolucionário e perverso que vai sendo imposto desde cima com astúcia maquiavélica e sob pretextos enganosos.
Nesse quadro, continuar falando em “corrupção”, dando à palavra o mesmo sentido que tinha nos tempos da CGI, é colaborar com o crime organizado em que se transformou o governo da República.
Isso não aconteceria se, junto com a inversão geral dos critérios, não viesse também um sistemático embotamento moral da população, manipulada por uma geração inteira de jornalistas que aprenderam na faculdade a “transformar o mundo” em vez de ater-se ao seu modesto dever de noticiar os fatos. Quando um país se confia às mãos de uma elite revolucionária, sem saber que é revolucionária e imaginando que ela vai simplesmente governá-lo em vez de subvertê-lo de alto a baixo, a subversão torna-se o novo nome da ordem, e a linguagem dupla torna-se institucionalizada. Já não se pode combater a corrupção, porque ela se tornou a alma do sistema, consagrando a inversão de tudo como norma fundamental do edifício jurídico, ocultando e protegendo os maiores crimes enquanto se empenha, para camuflá-los, na busca obsessiva de bodes expiatórios. Sempre que o governo se sente ameaçado por denúncias escabrosas ou por uma queda nas pesquisas de opinião, logo aparece algum empresário que não pagou imposto, algum fazendeiro que reagiu a invasores, algum padre que expulsou um traveco do altar – e estes são apontados à população como exemplos máximos do crime e da maldade. Enquanto isso, o Estado protege terroristas e narcotraficantes, acoberta as atividades sinistras do Foro de São Paulo e lentamente, obstinadamente, sem descanso, vai impondo à população o respeito devoto a tudo o que não presta.
O mais abjeto de tudo, no entanto, é a presteza com que as próprias classes mais vitimizadas nesse processo – os empresários, as Forças Armadas, os proprietários rurais, as igrejas cristãs – se acomodam servilmente à nova situação, inventando os pretextos mais delirantes para fingir que acreditam nas boas intenções de seus perseguidores. Quando se torna institucional, a corrupção é ainda algo mais do que isso: é um veneno que se espalha pelas almas e as induz à cumplicidade passiva ou à adesão subserviente.
quinta-feira, julho 23, 2009
Teúdos e manteúdos
O novo presidente da União Nacional dos Estudantes, Augusto Chagas, acha legítimo o governo federal patrocinar o movimento estudantil e não vê, portanto, fundamento nas críticas ao fato de a UNE receber milhares de reais dos cofres públicos para realizar o seu congresso nacional e muitos milhões para reconstruir sua sede.
É uma maneira de ver a vida. Bem como é uma opção da entidade apoiar o grupo político que bem entender. Se o movimento estudantil se sente representado, confortável, ou não, nessa posição, é uma questão a ser resolvida entre os estudantes, a direção da UNE e os saudosos do velho espírito combativo retratado no lema a UNE somos nós, nossa força, nossa voz.
Há algum tempo, a voz passou a ter um dono só. E, por isso mesmo, o público - ou parte dele - tem todo o direito de reclamar o destino do dinheiro coletivo. Bem como não tem mais condições de vislumbrar a mais tênue diferença entre um político que recebe favores do Estado para integrar a maioria do governo no Congresso e uma entidade que se curva a qualquer descalabro em troca de dinheiro em espécie.
O novo presidente da UNE, um estudante profissional de 27 anos de idade, eleito por pouco mais de 2 mil estudantes em pleito indireto e há anos devidamente manipulado pelo aparelho do PC do B, acha que protestar contra a CPI da Petrobrás sob o gentil patrocínio do acionista majoritário da empresa é exercer o sagrado direito à liberdade de expressão.
Não vejo problema no fato de a UNE ter opinião, diz, aproveitando o ensejo para se associar a quem lhe paga (com o dinheiro alheio) no repúdio aos reparos - gerais, não só da oposição como quer fazer crer em seu sofisma - à presença na presidência do Senado e conduta moral e legal do senador José Sarney.
A mera saída de Sarney não resolve nada, afirma como quem adere à campanha eu também me lixo para a opinião pública. Realmente, a mera saída não resolve e pode até mesmo servir como lenitivo para aplacar consciências.
Por isso mesmo, o que se defende não é a mera saída por conta das irregularidades gerais cometidas na Casa, mas o afastamento por causa das denúncias de malversação do poder político que pesam contra o senador e a escolha de um presidente que possa conduzir o Senado para fora do mar de lama.
Mas tal providência não mobiliza a UNE, assim como aos estudantes do Brasil não parece causar desconforto esse tipo de posição por parte de alguém que diz representá-los. Há duas possibilidades de explicação para a indiferença, uma ruim e outra péssima.
A ruim, a ausência de legitimidade real da entidade. A péssima, o desinteresse da estudantada em tratar as questões nacionais com mais seriedade que protestos carnavalescos movidos ao horroroso simbolismo da pizza.
O novo presidente da UNE não estabelece relação de causa e efeito entre a dinheirama ganha do governo federal e o protesto contra a CPI da Petrobrás. Não acreditamos que a CPI tenha o objetivo de apurar irregularidades.
Não seria, então, o caso de esperar o início dos trabalhos e, uma vez configurada como verdadeira essa desconfiança, protestar contra a falta de empenho na investigação?
Talvez o novo presidente da UNE não tenha se dado conta, mas defende a mesma posição da tropa de choque comandada por Renan Calheiros, certamente alvo de zombaria e indignação nas rodas de sua convivência social, política e familiar.
O novo presidente da UNE ficaria chocado se comparado ao suplente Wellington Salgado? Pois não deveria.
Ter opinião é uma coisa. Isso o novo presidente da UNE faz quando revela sua preferência pela candidatura da ministra Dilma Rousseff. Quanto a isso, é como ele diz, não há nenhum problema.
A história muda de figura quando essa opinião é vendida como mercadoria. Repetindo: ter opinião é uma coisa.
Vendê-la é outra bem diferente. Implica uma decisão consciente, no mínimo, de abrir mão da moral para criticar o fisiologismo reinante na casa do vizinho.
Isso vale para a UNE, mas vale também para sindicatos e entidades ditas representativas de movimentos sociais, cuja função não é atacar ou defender governos, mas lutar pelas demandas de seus representados e, quando acham que devem, se engajar nas melhores causas. Sem prejuízo da opinião, mas também sem benefícios financeiros. Estadão
terça-feira, julho 21, 2009
Kerenskismo obamista, Honduras y abismo chavista
Kerenskismo obamista, Honduras y abismo chavista
Así como el presidente Eduardo Frei Montalva pasó a la historia como el Kerensky chileno, por pavimentar el camino al socialista Allende, el presidente Obama corre el riesgo de pasar a la historia como el Kerensky de las Américas si empuja a Honduras al abismo chavista
Por Armando Valladares. 21 de julio de 2009, 10:50 AM
Cuando se produjo la destitución del presidente hondureño Zelaya, por orden de la Suprema Corte de ese país, y con el respaldo mayoritario del Congreso, Honduras caminaba a pasos rápidos hacia una dictadura chavista, pasando por encima de la Constitución y las leyes. Además del más alto órgano judicial de Honduras, estaban advirtiendo sobre el riesgo chavista las más importantes figuras políticas y religiosas de destaque en Honduras.
No obstante, ni el presidente Obama; ni el secretario general de la OEA, el socialista chileno Insulza; ni el "moderado" presidente del Brasil, Lula da Silva; y ni siquiera, que nos conste, ningún otro presidente latinomericano, dijo una palabra al respecto. Se alegaba la autodeterminación, la necesidad del diálogo, del respeto de los procesos políticos internos, etc.
Todas esas personalidades políticas, tuvieron oportunidades de hablar en favor de la libertad de Honduras, y muy recientes por cierto, pero prefirieron lavarse las manos, como Pilatos. Menciono las dos más notorias.
La primera de ellas fue la Cumbre de las Américas, en Trinidad y Tobago, cerca de Honduras, en la cual el presidente Obama, con su estilo neokerenskista, se deshizo en sonrisas con el presidente-dictador Chávez, flirteó con el propio Zelaya y con otros presidentes populistas-indigenistas como el ecuatoriano Correa y el boliviano Morales, prestigió al "moderado" Lula y anunció que estaba dispuesto a dialogar y a establecer un "nuevo comienzo" con la sanguinaria dictadura castrista.
La segunda de ellas fue la Asamblea General de la OEA, por una ironía de la Historia realizada en la propia Honduras, en la cual, con la aprobación del gobierno Obama, se absolvió a la dictadura castrista y se le abrieron las puertas para poder retornar al referido organismo internacional.
En sus propias narices, y delante de sus propios ojos, los cancilleres de los gobiernos de las Américas pudieron sentir y ver la grave situación interna de Honduras, pero prefirieron lavarse las manos como Pilatos.
Cuando se produjo la destitución del presidente Zelaya, ordenada por la Suprema Corte, con base en preceptos constitucionales que impiden que un presidente intente reelegirse, ahí sí rasgaron sus vestiduras, y comenzó una de las mayores griterías de izquierdistas y "moderados útiles" de la Historia contemporánea, con un verdadero ensañamiento contra un pequeño país que decidió resistir a esas presiones. Un pequeño país que se agigantó espiritualmente, inspirado en la expresión de San Pablo, esperando "contra toda esperanza" humana, pero aguardando todo de parte de la Providencia, y haciendo recordar, a quienes ven aprensivos el drama hondureño, a la figura bíblica de David contra Goliat.
En momentos en que escribo estas líneas, el destituido presidente Zelaya amenaza con retornar a Honduras, con lo cual, según advertencia del Cardenal de ese país, se tornará reponsable por la sangre fratricida que pueda correr. Delante de la resistencia hondureña, hasta el presidente-dictador Chávez mira hacia el presidente Obama y espera que éste quiebre las resistencias hondureñas. También en momentos en que escribo estas líneas, sale la noticia de que la secretaria de Estado Hillary Clinton acaba de llamar al presidente interino de Honduras, y corren versiones que le habría dado un ultimátum. La misma secretaria Clinton que en Honduras, en la reciente reunión de la OEA, aprobó la absolución de la sanguinaria dictadura castrista; la misma que, junto con el presidente Obama, está dispuesta a dialogar con el gobierno pro-terrorista iraní, abre sus brazos a los comunistas cubanos, se reúne y ríe con el presidente-dictador Chavez, dio un portazo a la delgacion civil hondurena que llegó a Washington simplemente a explicar su version de los hechos.
Como ya fue recordado, el Cardenal de Honduras advirtió al depuesto presidente Zelaya que será responsable por el baño de sangre que pueda ocurrir si fuerza su regreso a su país.
Por mi parte, en cuanto ex preso político cubano durante 22 años en las mazmorras castristas, embajador estadounidense ante la Comisión de Derechos Humanos de la ONU durante varios años, y en cuanto simple ciudadano de las Américas, tengo la certeza de que así como el presidente Eduardo Frei Montalva pasó a la historia como el Kerensky chileno, por pavimentar el camino al socialista Allende, el presidente Obama corre el riesgo de pasar a la historia como el Kerensky de las Américas si contribuye a empujar a Honduras al abismo chavista.
Armando Valladares, ex preso político cubano, fue embajador de Estados Unidos ante la Comisión de Derechos Humanos de la ONU, en Ginebra, durante las administraciones Reagan y Bush. Acaba de recibir en Roma un importante premio de periodismo por sus artículos en favor de la libertad en Cuba y en el mundo entero. E-mail: armandovalladares2005 @ yahoo.es
segunda-feira, julho 20, 2009
Caras-pintadas-de-branco
Passados quase quatro anos, o comportamento da UNE em seu congresso encerrado ontem deu nova dimensão à observação.
Bancados pela Petrobras, os "estudantes" protestaram contra a CPI que visa investigar a estatal. Na palavra de seus dirigentes, uma coisa nada tem a ver com a outra, o "petróleo é nosso" e afins. Hoje as verbas federais se igualam à receita das carteirinhas de estudante na composição do cofre da UNE.
Em 2005, disse que a entidade "jogava sua história no lixo" ao apoiar cegamente Lula no mensalão. Talvez tenha sido generoso. Se merece análise o seu papel na ditadura, geralmente a UNE é mais associada à campanha pelo impeachment de Fernando Collor em 1992. O jornal britânico "The Observer" publicou uma ótima reportagem ontem sobre a mitificação ocidental da "revolução" que derrubou o comunismo na Romênia 20 anos atrás. Nem em Timisoara alguém acredita hoje ter havido tal coisa.
Ceaucescu caiu em um golpe palaciano, e a vida seguiu. Mas a "revolução" ainda é comemorada.
Da mesma forma, a UNE até hoje diz ter derrubado o presidente em 1992. Com esse aval, digamos, defende sua importância e a necessidade de ter atendidas demandas, entre um "Fora Yeda" e outro, como a volta de algum controle sobre emissão das carteirinhas. Sintomaticamente, propostas efetivas para o ensino inexistem.
Collor foi a razão de ser do ressurgimento da UNE depois da ditadura. Agora, em sinal trocado, Lula assume o posto e consolida o peleguismo da entidade. Faz mais do que um sentido que os dois antigos adversários se abracem por aí.
igor.gielow@grupofolha.com.br
quarta-feira, julho 15, 2009
Onipresentes
De volta à labuta, vejo que o presidente da República está em todas e... falando bobagens, depois que o novo recorde de popularidade lhe subiu à cabeça.
Lula defende: 1) o indefensável Sarney, que não pode ser tratado como "cidadão comum" porque tem, ou tinha, força incomum para empurrar o PMDB para Dilma; 2) o indefensável desmatamento, porque não quer confusão com Blairo Maggi e desmatadores em geral, que costumam ter bons argumentos ($) em eleições. E condena o "denuncismo", como se ele, Lula, e o PT jamais tivessem usado denuncismo nenhum contra ninguém.
Mas Lula não ficou por aí. Atacou também no front externo, ao defender o indefensável regime do aiatolá Ali Khamenei e desqualificar em solo internacional a legítima, aflita e corajosa resistência iraniana como "chororô" de derrotados.
Se defender Sarney e madeireiros tem pelo menos a lógica oportunista da política interna, defender Khamenei e Ahmadinejad não tem lógica, nem graça, nenhuma. E não foi só uma gafe, foi uma agressão gratuita contra a oposição, como se ele, Lula, e o PT jamais tivessem sofrido as dores de ser oposição.
Também vejo que o presidente do Senado está em todas, e a cada dia fica mais claro o quanto ele mandava em Agaciel Maia e em outros burocratas que vendiam atos secretos a peso de ouro, salários ilegais e casas milionárias. O senador Arthur Virgílio decidiu implodir tudo isso.
Sarney já está na história como ex-presidente da República, tri-presidente do Senado, dono do Maranhão e arrendatário do Amapá.
Poderia no final da carreira sacudir o patrimonialismo e arejar a alma oligarca, aliviando o erário do peso de cunhadas, sobrinhos, primos, apadrinhados e mordomos particulares, fora os que nunca vai se saber.
E, como são dois senadores Sarney (um de volta a São Luís), a prática é ao quadrado. Custa caro. Senado, Maranhão e Amapá pagam. E você entra pelo cano.
elianec@uol.com.br
terça-feira, julho 07, 2009
ROBERT MCNAMARA
1. Tenha empatia com o inimigo.
2. Proporcionalidade deve ser uma regra na guerra
3. Existe algo além de nós mesmos.
4. Acreditar e ver: frequentemente ambos estão errados.
5. Esteja preparado para reexaminar as suas razões.
6. Consiga dados.
7. A racionalidade não nos salvará.
8. Não se pode mudar a natureza humana.
9. Maximize a eficiência.
10. Para fazer o bem talvez você precise se aproximar do mal.
11. Nunca diga nunca.
sábado, julho 04, 2009
Golpe em Honduras? Que golpe?
Às vezes, o mundo todo prefere uma mentira à verdade. A Casa Branca, a ONU, a Organização dos Estados Americanos (OEA), e grande parte da mídia condenaram a deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, no domingo, como um golpe de Estado.
Isso é um absurdo. Na realidade, o que aconteceu aqui é simplesmente o triunfo da lei.
Para compreender os acontecimentos recentes, é preciso conhecer um pouco a história constitucional de Honduras. Em 1982, meu país adotou uma nova Constituição que permitiu nosso retorno à democracia após anos de governo militar. Depois de mais de uma dezena de Constituições anteriores, a atual, em vigor há 27 anos, é a que mais está resistindo.
E resiste porque responde e se adapta à mudança das condições políticas. Dos seus 379 artigos originais, 7 foram completa ou parcialmente revogados, 18 foram interpretados e 121 modificados.
Ela inclui também sete artigos que não podem ser revogados ou emendados, pois tratam de questões cruciais para nós. Os artigos que não podem ser alterados incluem a forma de governo, a extensão de nossas fronteiras, a duração do mandato presidencial, duas proibições - uma com relação à reeleição dos presidentes, a outra referente à elegibilidade para a função presidencial -, e um artigo que pune a tentativa de alterar a Constituição.
Nestes 27 anos, Honduras resolveu seus problemas ao amparo da lei.
Todos os países democráticos bem-sucedidos viveram períodos semelhantes de tentativa e erro até elaborar arcabouços jurídicos que se adaptassem à sua realidade. A França redigiu mais de dez constituições entre 1789 e a adoção da atual, em 1958. A Constituição americana foi emendada 27 vezes, desde 1789.
Segundo nossa Constituição, o que aconteceu em Honduras no domingo? Os soldados prenderam e mandaram para fora do país um cidadão hondurenho que, no dia anterior, por seus próprios atos perdera a presidência.
Estes são os fatos: no dia 26, o presidente Zelaya emitiu um decreto ordenando que todos os funcionários públicos participassem da "pesquisa de opinião sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte".
Ao fazer isto, Zelaya desencadeou um dispositivo constitucional que automaticamente o tirou do cargo.
As assembleias constitucionais são convocadas para a redação de novas constituições. Quando Zelaya publicou o decreto para dar início a uma pesquisa de opinião sobre a possibilidade de convocar uma assembleia nacional, infringiu os artigos da Constituição que não são passíveis de alteração, relativos à proibição da reeleição de um presidente e à prorrogação de seu mandato. Seus atos mostraram o seu intento.
Nossa Constituição leva a sério este intento. Segundo o Artigo 239: "Nenhum cidadão que já tenha ocupado o cargo de chefe do Executivo poderá ser presidente ou vice-presidente. Quem violar esta lei ou propuser sua reforma, bem como quem apoiar direta ou indiretamente tal violação, cessará imediatamente de desempenhar suas funções e estará impossibilitado de ocupar qualquer cargo público por um período de dez anos."
Observe-se que o artigo fala em intento e também diz "imediatamente" - ou "no mesmo instante", ou "sem necessidade de abertura de processo", ou de "impeachment".
Continuísmo - a tendência dos chefes de Estado de estenderem seu governo indefinidamente - tem sido a característica fundamental da tradição autoritária latino-americana. O dispositivo da Constituição que prevê uma sanção instantânea pode parecer draconiano, mas todo democrata latino-americano sabe a ameaça para nossas frágeis democracias que o continuísmo representa.
Na América Latina, os chefes de Estado mostraram-se frequentemente acima da lei. A sanção instantânea da lei suprema impediu com sucesso a possibilidade de um novo continuísmo hondurenho. A Suprema Corte e o ministro da Justiça ordenaram a prisão de Zelaya, pois ele desobedeceu a várias ordens do tribunal, obrigando-o a obedecer à Constituição. Foi preso e levado para a Costa Rica. Por quê? O Congresso precisava de tempo para reunir-se e tirá-lo da presidência.
Com ele no país, isto teria sido impossível. A decisão foi tomada por 123 (dos 128) membros do Congresso presentes naquele dia.
Não acreditem no mito do golpe. Os militares hondurenhos agiram inteiramente dentro da Constituição. Eles nada ganharam, senão o respeito da nação por seus atos.
Estou extremamente orgulhoso de meus compatriotas. Finalmente, decidimos nos levantar e nos tornar um país de leis, e não de homens. A partir deste momento, aqui em Honduras, ninguém estará acima da lei. Estadão
segunda-feira, junho 29, 2009
Tratamento do Linfoma no SUS: não podemos deixar esse assunto morrer!!!
Até abril desse ano, quando a Ministra Dilma Rouseff foi diagnosticada
portadora de Linfoma, um tipo de câncer muito mais comum do que se
imagina, as pessoas sabiam pouco ou quase nada sobre o assunto.
Uma pesquisa do DataFolha, realizada em 2008, revela que 66% dos
brasileiros nunca sequer ouviu falar nisso, e dados obtidos pela Abrale só
confirmam as estatísticas: de 895 pacientes em tratamento, 87% não faziam
a menor idéia do que era o Linfoma antes de contrairem a doença.
Apesar do burburinho que se formou em volta do assunto, provocado pelo
diagnóstico da Ministra (e, atualmente, da autora da TV Globo, Glória
Perez), pouca gente faz idéia, por exemplo, que o Linfoma mata mais que 3
mil pessoas por ano, o que corresponde a uma média de 8 pessoas por dia.
Outra informação curiosa, que só quem sofre com a doença sabe, é que o SUS
não possui tratamento adequado para o Linfoma e que a lista de
medicamentos para esse tipo de câncer não é atualizada há mais de 10 anos
pelo gorverno. Além disso, muitos médicos da rede pública desconhecem como
diagnosticar e tratar os pacientes, o que diminui substancialmente as
chances de descobrir a doença a tempo de curá-la.
Em poucas palavras, quem não tem dinheiro para arcar com um tratamento em
hospital particular como, felizmente, está fazendo a Ministra Dilma, acaba
por não ter acesso aos medicamentos mais modernos - como o MabThera - que,
combinados com a quimioterapia, garantem índices muito maiores de
recuperação.
Quando diagnosticado a tempo e tratado com os medicamentos certos, os
pacientes com Linfoma tem 95% de chance de cura.
A esperança é que, quem sabe agora, o governo comece a olhar para esse
assunto com outros olhos e recupere os 10 anos de atraso no tratamento da
doença.
COMO CADA UM DE NÓS PODE AJUDAR
A única forma de ajudar quem não tem como bancar um tratamento particular
a se curar do Linfoma, é divulgando o assunto e ajudando a mobilizar a
população para que ela exija que o tratamento adequado esteja disponível
para toda a população.
A problema é que o assunto, de um mês para cá, começou a cair no
esquecimento. E para que haja uma resposta do governo, precisamos
mobilizar a opinião pública.
segunda-feira, junho 22, 2009
A moral dos imorais
O comerciante que quando pega um freguês distraído lhe vende cem gramas dizendo que são duzentos é sem dúvida um vigarista, mas não tão perverso quanto aquele que altera a balança para que sempre os cem gramas pareçam duzentos.
Do mesmo modo, os crimes e pecados, em qualquer quantidade que seja, nunca são tão graves quanto a deformação do próprio senso moral. Nenhuma anormalidade é tão temível quanto corrupção da norma.
A alma honesta odeia o mal por amor ao bem. A mente estragada odeia determinados males em nome de outros ainda maiores. A diferença aparece no julgamento escalar da relatividade dos males, que no primeiro caso é baseada na hierarquia objetiva dos valores ameaçados, no segundo é irracional, dependente de interesses egoístas e voltado, em última análise, à dissolução da própria hierarquia de valores.
O Brasil espuma de ódio ao mal, mas em nome de um senso moral corrompido que fomenta a proliferação de males cada vez maiores.
O sintoma mais evidente dessa perversão é que o povo odeia mais os ladrões e trapaceiros vulgares do que os assassinos e narcotraficantes, colocando o dinheiro acima da vida humana.
Um país onde ocorrem cinqüenta mil homicídios por ano não tem nenhum problema mais grave e urgente do que a violência criminosa. A mortalidade equivalente a uma guerra do Iraque por ano, em tempo de paz, é uma anomalia recente que brada aos céus, enquanto a corrupção dos políticos é doença crônica que remonta aos tempos do Brasil-Colônia.
Pode-se tolerar um governo que roube, mas não um governo que, diante do morticínio crescente, atenua as penas para os crimes hediondos, zela pelos direitos humanos dos bandidos mais que pelos das suas vítimas, premia velhos atos de terrorismo e, para cúmulo, mantém boas relações com a mais perigosa quadrilha de narcotraficantes do continente.
O sr. Lula gaba-se de haver mandado prender tais ou quais quadrilheiros. Ora, o que seu governo faz é perseguir traficantes menores, ao mesmo tempo que representantes da alta administração federal e outros membros importantes do seu partido publicam uma revista em parceria com as Farc (América Libre), defendendo objetivos comuns.
A oposição, por sua vez, denuncia mensalões e valdomiragens diversas, mas não diz uma palavra contra essa amizade macabra. A única vez que alguém reclamou quanto a esse ponto foi quando surgiu uma suspeita de financiamento ilegal da narcoguerrilha colombiana à campanha do PT.
Ora, as Farc matam, seqüestram, distribuem cocaína até na porta das escolas e adestram os bandidos locais para que espalhem o terror nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Mas, no consenso geral da oposição e da mídia, o PT viver aos beijinhos com essa gente não é grave, enquanto nenhum petista levar dinheiro por isso.
O critério moral subjacente é claro: matar brasileiros é banalidade, mas brincar com dinheiro é crime hediondo. Cinqüenta mil vidas ceifadas por ano são apenas uma incomodidade rotineira, mas cinco milhões de dólares por baixo do pano são um escândalo insuportável.
Entendem por que a oposição está tão desmoralizada? O discurso dela é tão falso quanto o do governo. Entre dois engodos, o eleitorado simplesmente prefere, como diria o próprio sr. Lula, não trocar o certo pelo duvidoso.
A própria mídia, quando seus representantes apanham de militantes do PT, só colhe o que plantou. Quem aceita tratar o confronto entre a lei e o crime como se fosse apenas uma disputa eleitoral já deu, só com isso, toda autoridade e dignidade ao criminoso. Não pode querer que, em seguida, ele o trate com respeito e deferência. Quem pede tapa na cara não pode esperar afagos.
O pior é que esse julgamento viciado já corrompeu a mente do próprio povo. Em todos os ambientes, em todas as conversas o morticínio anual de brasileiros suscita menos escândalo, menos indignação do que qualquer mordida mais forte dos políticos vorazes no “nosso dinheiro”. Dize-me o que mais prezas, e eu te direi quem és.
www.olavodecarvalho.org
domingo, junho 21, 2009
Sangue novo na imprensa
Sou do tempo em que se falava na "imprensa escrita, falada e televisionada" e, para ser sincero, implico com a palavra "mídia", embora saiba que não adianta.
Mas é que essa palavra entrou em meu vocabulário através do inglês, onde ela ainda é como em latim: singular "medium", plural "media". Entre nós, ganhou um acento e virou coletivo.
Não tenho nenhum argumento realmente defensável contra esse fato, é a velha rabugice mesmo, acho que com a idade ela vai piorando.
Mas deve haver algum dispositivo no Estatuto do Idoso que me dê direito a isto, de forma que apenas aviso que, quando escrevo sobre imprensa, penso na escrita, na falada e na televisionada.
A semana que passou trouxe novidades para a imprensa. Não me refiro à extinção da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, até porque acho que nada vai mudar muito. A imprensa certamente procurará contratar profissionais de áreas diversas da comunicação para atender a algumas necessidades, notadamente de jornalismo analítico e especializado, mas deverá continuar a dar preferência genérica a profissionais formalmente habilitados, e um diploma de jornalista ainda pesará no currículo.
Grande novidade mesmo foi o anúncio de que o presidente terá uma coluna nos jornais. Ainda não sei direito como é que vai ser, mas fico maravilhado mais uma vez.
Aqui acontece de tudo, até mesmo um jornalista militante que, segundo ele mesmo, nunca leu um jornal e sabe apenas que é um papel dobrado, que solta tinta e estaria melhor embrulhando peixe ou reciclado como papel higiênico. Eu ia mencionando também a necessidade de saber escrever, mas me lembrei de um ou dois coleguinhas no passado e manda a honestidade reconhecer que, em certos casos, saber escrever não tem a menor importância.
Além disso, os presidentes costumam contar com auxiliares que escrevem para eles, é uma prática universal.
Está certo, mas fico pensando como, se a notícia sobre a coluna for verdadeira, estamos mais uma vez conseguindo feitos sem precedentes.
Leremos nos jornais a coluna de alguém que não sabe redigir e que nunca lerá o que escreveram por ele. Que é que é para fazer — fingir que é ele quem escreve e que ele sabe do que se trata? Deve ser.
Por outro lado, considerando a inescapável função crítica da boa imprensa, ele vai criticar quem? Assim como a imprensa costuma vigiar e criticar os governantes, talvez ele critique os governados, quem sabe. Talvez a coluna pegue um nome como "Pito à Nação", ou coisa assim. Creio que estamos até precisando, embora talvez não do teor que ele pensa.
Como daqui a pouco não haverá mais países para ele visitar e assim evitar trabalhar onde devia, imagino que apenas a coluna e o programa de rádio que ele já tem não serão suficientes para distraí-lo. Claro, resta a televisão e não há por que rejeitar a idéia de um Domingão do Lulão apresentado por ele, com quadros como "Topa Tudo por um Cargo", "Você Leva e Eu não Vejo", "Se Faça sem Força", "A Maracutaia da Semana" e outros, em que serão sorteadas bolsas, cestas básicas, sinecuras na Petrobras e similares.
O novo colega, também se comenta muito, virá junto com um pretendido enfraquecimento da imprensa, através principalmente da manipulação da distribuição de notícias e respostas a perguntas de repórteres ou noticiaristas. De novo, não sei bem o que se pretende, mas, já que a imprensa é responsável por tudo o que de mau acontece, da ladroagem geral ao tratamento imoral da coisa pública, calase a imprensa e os problemas nacionais acabam.
Bem, isso tudo seria engraçado e poderia gerar piadinhas infinitamente, mas o fato é que não é engraçado e não se pode tratar o cerceamento da liberdade de imprensa com leviandade. Hoje, num país em crise ética e moral sem precedentes, onde a sensação que se tem, diante do aluvião avassalador de escândalos e ladroagem impunes, é que isto aqui virou um carnaval ensandecido de larápios, vigaristas e aproveitadores por tudo quanto é canto, a imprensa, com todos os seus defeitos, permanece o único "poder" realmente democrático, em contraste com a situação a que chegaram os poderes oficialmente constituídos. Ao contrário deles, a imprensa está sujeita à permanente fiscalização e ao julgamento, frequentemente severo, de seu público. Deve — e presta — satisfação a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não pode se lixar para a opinião de seu público e, se um órgão de imprensa trai seu público, a sanção, em forma de queda talvez fatal na circulação ou credibilidade, é pesada e inevitável, novamente ao contrário do que ocorre na esfera oficial.
E esse tiro, que talvez pareça fácil, mas não é, pode sair pela culatra, mesmo que de início bem-sucedido. Vai ver, os interessados acham que a imprensa é parecida com eles. Não é. O que vai acontecer com a imprensa, se privada das fontes oficiais, é que ela irá buscar a informação onde quer que esta puder ser obtida. Multiplicar-seão, inevitavelmente, vazamentos de informação, e as consequências, para quem queria estancar as denúncias, poderão ser opostas, ou seja uma chuva de escândalos ainda mais estonteante.
O problema, naturalmente, não é nem nunca foi a imprensa, nem existe o tal denuncismo de que o presidente falou. O que existe é safadeza mesmo em todos os setores do governo e do Estado e aqueles que sabem um pouquinho do que se passa em torno não aguentam mais ter sua inteligência e seus valores insultados, geralmente de forma grosseira e cínica. Mas talvez o novo coleguinha resolva o problema.
Antigamente se ensinava que a notícia bem feita diz na abertura o quê, quem, quando e como. Ele bem que podia fazer isso na primeira coluna dele, ia ficar com assunto para muito tempo.
segunda-feira, junho 08, 2009

Armando Matielli
No dia 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea que extinguiu a escravidão negra no Brasil. Possuíam escravos os fazendeiros, mas era predominante a escravidão nas fazendas dos Barões de Café e da cana-de-açúcar.
No dia 2 de setembro daquele mesmo ano de 1888, desembarcava no Brasil, em Santos, no navio Buenos Aires, meu nono (avô), Sr. Ângelo Arcangelo Mattiello, com quatro filhos, que partiu de Gênova, Itália, com cinco filhos, mas uma filha morreu em alto mar e foi jogada na água, que era a única maneira de se desfazer dos mortos naquelas embarcações.
Chegando ao Brasil, com a finalidade de substituir os escravos nas culturas de café e/ou cana-de-açúcar, ele dirigiu-se para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, e daí partiu com a família para a região da Mogiana, especificadamente para São João da Boa Vista, e depois de fazer todos os passos de um imigrante italiano, como trabalhador rural, meeiro e depois sitiante de café, criou sua família e deixou gerações de homens trabalhadores em prol do desenvolvimento do Brasil.
Ele cumpriu sua missão, pois foi um homem de coragem, luta e empreendedorismo, deixando sua terra natal e aventurando-se por terras desconhecidas em busca de dias melhores. Mal ele sabia que deixaria em sua geração homens que enfrentariam injustiças com as quais estamos enfrentando hoje, em um país que se diz moderno e promissor.
Ele não sabia que aquela cafeicultura que ele ajudou a implantar geraria tantas riquezas e abriria regiões promissoras e sedimentaria uma sociedade com bases econômicas e expansivas e que o Brasil seria uma potência econômica, grande parte graças ao café, e que se firmaria como o grande produtor mundial de café com evoluções técnicas alcançando excelentes produtividades, que venceria uma doença endêmica como a ferrugem (Hemileia vastratrix), que o nosso café produzido alcançaria excelente qualidade e que teríamos os mais diversos tipos de sabores de café para agradar a todos os mercados e paladares, mas ele não sabia que chegaríamos a tal ponto de um desastre comercial, deixando os produtores à mercê de uma “rapinagem comercial carterizada” e inescrupulosa com posições extremadas, como podemos demonstrar:
- A saca de café de 60 kg beneficiada = 48 kg de café torrado e moído.
- 1 dose / xícara de café = 6 a 7 gramas de café torrado e moído
- 1 kg de café torrado e moído = mais ou menos 150 doses de café
- 1 xícara de café na Europa = 3,5 Euros ou mais ou menos R$ 10,00
- 1 kg de café torrado e moído = R$ 1.500,00
- 48 kg de café torrado e moído = R$ 72.000,00 / saca de café
- Preço de venda do café (atual) = R$ 240,00 / saca
- R$ 240,00 em R$ 72.000,00 = 0,3%
Portanto, o comércio fica com 99,7% e o produtor com 0,3% - INACREDITÁVEL e INACEITÁVEL.
Alguns analistas poderão contestar esse demonstrativo. Existem muitos métodos de cálculo, mas esse é real, basta viajar pela Europa (e países de primeiro mundo em geral) e procurar as cafeterias, que são infindáveis e constatar tal fato. Essa maneira de calcular o resultado econômico foi para criar justamente contestações e discutir essa aberração, que há muito tempo não se discute.
Enquanto estamos “brigando” com alguns teóricos ignorantes e insensíveis, para conseguir R$ 20,00 a R$ 30,00 a mais por saco para o preço mínimo, o mercado está à mercê de uma libertinagem e o cafeicultor continua trabalhando assegurando o emprego de muitos milhões de brasileiros e ainda pagando os pesados impostos e encargos sociais para assegurar o empreguismo governamental, em que esses ignorantes e incapacitados mamam nas belíssimas tetas do governo.
Está faltando patriotismo e inteligência e esses teóricos e ignorantes deveriam sair de seus escritórios e abaixar o topete e o nariz empinado e visitar o campo e ver a real situação. É revoltante e isso tem nos causado repugnância e vamos chegando a tal ponto que deixamos os nossos pensamentos correr indisciplinadamente, pois, quando os argumentos reais, racionais e inteligentes não convencem os burocratas e “bezerrões gordos” das tetas governamentais, teremos que passar a usar argumentos apelativos para tentar sensibilizá-los e angariar adeptos às injustiças impostas. Com esses 0,3% bruto temos que pagar:
- Adubo;
- defensivos;
- óleo diesel e derivados;
- peças e acessórios para maquinários;
- oficinas;
- alimentação dos trabalhadores;
- encargos sociais (INSS, FGTS e outros;
- multas do ministério do trabalho (mas isso caberá um outro artigo);
- energia elétrica;
- salário dos colaboradores;
- reposição dos maquinários;
- renovação periódica dos cafezais;
- conservação de cercas e estradas;
- conservação de imobilizado da fazenda;
- contribuições sindicais;
- assessorias jurídicas;
- assessorias ambientais;
- assessorias trabalhistas;
- materiais para colheita (rastelos, peneiras, panos e sacarias);
- transporte do café para Cooperativas e transporte de insumos;
- corretivos de solo ( calcáreo e gesso;
- esterco;
- uniformes e EPIs (equipamento de proteção individual);
- cursos e treinamentos para os colaboradores;
- juros e encargos financeiros;
- serviços de topografia e mapas para as devidas licenças ambientais;
- serviços cartorários;
- medicamentos para os colaboradores;
- exame de colinesterase, audiometria, e outros exames médicos;
- material de escritório;
- internet;
- telefone;
- contribuição para educação dos filhos dos colaboradores;
- cuidar do lado social (como campo de futebol e outros para os colaboradores);
- manutenção de alojamento com camas, colchões e outros;
- rações e medicamentos para os animais da fazenda para consumo dos colaboradores;
- despesas com laboratórios para análise de solo, água, adubos etc;
- despesas com a certificadora (certificado UTZ Certified);
- despesas com a assessoria técnica da certificação;
- despesa com transporte para os trabalhadores (na zona urbana, o transporte dos trabalhadores é realizado através de metrô, ônibus e muito vezes calcados em subsídios, na zona rural não temos nenhum apoio e ainda somos obrigados a comprar ônibus para tal. Concordamos com tal fato, mas precisamos dos mesmos direitos da zona urbana).
Deixamos de citar tantas outras despesas as quais temos que pagar com os míseros 0,3% do agronegócio café. Aqui não citei a retirada pró-labore, pois ela não existe e explicarei o por que.
Portanto, como explicamos quando o meu “nono” chegou ao Brasil, em 1888, para substituir os escravos e conseguiu tal feito, supomos que ele não sabia que após 121 anos de sua chegada, a escravidão não acabou e que estou numa posição inferior a situação que ele se encontrava há 121 anos, pois veio como substituto de escravos e eu, após tantos anos, tornei-me um ESCRAVO DO SISTEMA, por isso não tenho retirada pró-labore nem salários de TETA governamental, pois escravo não tem retirada pró-labore como os demais da cadeia do agronegócio café e muito menos “rendimentos” das tetas do governo.
Tenho dívidas, alongamentos, hipotecas, repactuações e tantas bengalas para manter o escravo de pé. Não observamos em outros segmentos da cadeia do agronegócio café, tantos subterfúgios para continuar trabalhando, pois são segmentos rentáveis e não precisam hipotecar até a alma para conseguir sobreviver, isso demonstra claramente que os cafeicultores são os mais prejudicados pela escravidão imposta.
Vamos lutar pelo abolicionismo da cafeicultura e o “nono”, com certeza, lá junto a Deus, está torcendo para que eu, e os demais cafeicultores do Brasil, tenhamos forças para continuar na luta e se libertar da escravidão como tantos outros cafeicultores descendentes de italianos, alemães, japoneses, portugueses, negros, sírio-libaneses. ABAIXO A ESCRAVIDÃO E VIVA O ABOLICIONISMO!
Armando Matielli
Engenheiro Agrônomo e Cafeicultor
São João da Boa Vista
http://www.
domingo, maio 31, 2009
Nação Guarani
A demarcação da Raposa-Serra do Sol já aparecia como o prelúdio do que estava por vir. Apesar das ressalvas aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, que tornaram menos aleatórias e arbitrárias as demarcações e homologações de terras indígenas, o processo de relativização da propriedade privada e da soberania nacional segue agora o seu curso. Imediatamente após a decisão do Supremo, as agremiações ditas movimentos sociais, como o MST e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ala esquerdizante da Igreja Católica, deflagraram um processo de fragilização dessas ressalvas, procurando, nos fatos, mostrar que a lei a eles não se aplica. Tornaram ainda mais explícitas suas posições contra a economia de mercado, a propriedade privada, o agronegócio e o Estado de Direito. Vejamos.
O Cimi e os ditos movimentos sociais estão entrando numa nova etapa de formação da opinião pública nacional e internacional, propugnando pela formação de uma nação guarani. As publicações Porantim (Cimi) e Sem Terra (MST) já trazem matéria a esse respeito, pois essas organizações têm plena consciência de que sem o apoio da opinião pública nenhuma transformação política pode ter lugar. As mentes precisam ser conquistadas para que haja um espaço de abertura para mudanças. Eles estão cientes de que a política moderna, a das democracias representativas, está alicerçada na opinião pública. Utilizam-se, nesse sentido, da democracia para subvertê-la, arruinando as suas instituições.
Para que se tenha ideia da enormidade que está sendo tramada, a dita nação guarani abarcaria partes dos seguintes Estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. O foco é o Estado de Mato Grosso do Sul num primeiro momento e, logo após, Santa Catarina e Espírito Santo.
Cabe ressaltar que é em Mato Grosso do Sul que essa luta se vai travar prioritariamente. Eles reconhecem que perderam nesse Estado a primeira batalha política junto à opinião pública pela disputa desses territórios indígenas. Houve forte reação de proprietários rurais, parlamentares e do próprio governador, impedindo uma primeira tentativa de amputação de cerca de um terço de seu território. Naquele então, o discurso apresentado era de que se tratava apenas de uma nova demarcação, que corrigiria uma "injustiça" histórica. Em suma, afetaria apenas alguns proprietários. Ora, já naquela ocasião o que estava em pauta era a formação de uma nação guarani, projeto que ainda não dizia explicitamente o seu nome. Agora estão preparando a segunda batalha, com a bandeira guarani orientando os seus movimentos. Novas portarias da Funai se inscrevem nesse processo em curso.
A nação guarani não está, porém, restrita a esses Estados brasileiros, mas se estende a outros países: Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Segundo eles, a Bolívia já trilha esse caminho político, necessitando apenas ser apoiada no que vem fazendo, destruindo, na verdade, as frágeis instituições daquele país. O foco, aqui, seria o Paraguai, onde o processo se inicia com um presidente simpatizante da "causa" e que, via Teologia da Libertação, compartilha os mesmos pressupostos teóricos do Cimi, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST. Entendem-se, portanto, melhor a sustentação dessas agremiações políticas ao presidente Lugo e a política adotada de apoio às invasões das terras dos brasiguaios. A identidade brasileira não lhes interessa.
Para granjear a simpatia da opinião pública internacional criaram um site global, hospedado nos EUA, assumido por uma ONG holandesa e alimentado pela regional do Cimi de Mato Grosso do Sul. Observe-se que é o próprio Cimi que elabora o conteúdo de um site internacional (www.guarani-campaign.eu), visando a interferir, dessa maneira, nos assuntos brasileiros, escolhendo como alvo o Estado de Mato Grosso do Sul. Aliás, o site é muito bem feito, começando por uma apresentação gráfica da América Latina sem fronteiras, sob o nome de Ameríndia. A verdadeira América Latina seria a pré-colombiana. Provavelmente pensam, no futuro, em expulsar todos os brancos e negros, europeus, africanos e asiáticos, que deram, pela miscigenação, a face deste nosso Brasil!
Como não poderia deixar de ser, o site comporta várias versões: em português, inglês e holandês, estando prevista a sua ampliação para o alemão. Para quem se preocupa com a opinião pública internacional, busca apoio político e financiamento na Europa e nos EUA, uma ferramenta desse tipo é vital. É ela que terminará alimentando as pressões exercidas sobre o Brasil e subsidiará, também, os formadores de opinião nacionais e internacionais.
Consoante com esse trabalho, foi elaborando um mapa da nação guarani, denominado Guarani Retã, que englobaria os Estados brasileiros acima listados e os países latino-americanos vizinhos. Chama a atenção o fato de a América Latina ser apresentada como um território verde, sem fronteiras nacionais, com o lema "terra sem males". Procedimento semelhante foi adotado com o mapa quilombola, elaborado pela Universidade de Brasília, que orienta hoje as ações da Fundação Palmares, do Incra e dos ditos movimentos sociais. A estratégia política é a mesma.
O Cimi, em suas publicações, reconhece ainda a aliança estratégica com o MST, que lhe ofereceu apoio logístico e organizacional em invasões e outras manifestações, como campanhas de abaixo-assinados. Exemplo recente seria Roraima, com "assessores" emessetistas "ajudando" os indígenas em plantações de arroz. Esses "brancos", aliás, podem lá entrar! Reconhecem, inclusive, que tal aliança foi operacional no Espírito Santo, na luta contra a Aracruz, pois, como se sabe, as plantações de eucaliptos e a indústria de papel e celulose são símbolos, a serem destruídos, do agronegócio.
sexta-feira, maio 15, 2009
O capitalismo anticapitalista
Olavo de Carvalho - 13/5/2009 - 20h25 - Diário do Comercio
Quando digo que a democracia capitalista dificilmente pode sobreviver sem uma cultura de valores tradicionais, muitos liberais brasileiros, loucos por economia e devotos da onipotência mágica do mercado, fazem expressão de horror, de escândalo, como se estivessem diante de uma heresia, de uma aberração intolerável, de um pensamento iníquo e mórbido que jamais deveria ocorrer a um membro normal da espécie humana.
Com isso, só demonstram que ignoram tudo e mais alguma coisa do pensamento econômico capitalista. Aquela minha modesta opinião, na verdade, não é minha. Apenas reflete e atualiza preocupações que já atormentam os grandes teóricos do capitalismo desde o começo do século 20.
Um dos primeiros a enunciá-la foi Hillaire Belloc, no seu livro memorável de 1913, The Servile State, reeditado em 1992 pelo Liberty Fund. A tese de Belloc é simples e os fatos não cessam de comprová-la: destravada de controles morais, culturais e religiosos, erigida em dimensão autônoma e suprema da existência, a economia de mercado se destrói a si mesma, entrando em simbiose com o poder político e acabando por transformar o trabalho livre em trabalho servil, a propriedade privada em concessão provisória de um Estado voraz e controlador.
Rastreando as origens do processo, Belloc notava que, desde o assalto dos Tudors aos bens da Igreja, cada novo ataque à religião vinha acompanhado de mais uma onda de atentados estatais contra a propriedade privada e o trabalho livre.
Na época em que ele escrevia The Servile State, as duas fórmulas econômicas de maior sucesso encarnavam essa evolução temível cujo passo seguinte viria a ser a I Guerra Mundial. Quem mais compactamente exprimiu a raiz do conflito foi Henri Massis (que parece jamais ter lido Belloc). Em Défense de l’Occident (1926), ele observava que, numa Europa desespiritualizada, todo o espaço mental disponível fora ocupado pelo conflito "entre o estatismo ou socialismo prussiano e o anti-estatismo ou capitalismo inglês".
O capitalismo venceu a Alemanha no campo militar, mas a longo prazo foi derrotado pelas idéias alemãs, curvando-se cada vez mais às exigências do estatismo, principalmente na guerra seguinte, quando, para enfrentar o socialismo nacional de Hitler, teve de ceder tudo ao socialismo internacional de Stálin.
Hoje, Défense de l’Occident é um livro esquecido, coberto de calúnias por charlatães como Arnold Hauser – que chega ao absurdo de catalogar o autor entre os protofascistas – mas seu diagnóstico das origens da I Guerra continua imbatível, tendo recebido ampla confirmação pelo mais brilhante historiador vivo dos dias atuais, Modris Eksteins, em Rites of Spring: The Great War and the Birth of the Modern Age, publicado em 1990 pela Doubleday (nem comento o acerto profético das advertências de Massis quanto à invasão oriental da Europa, do qual tratarei num artigo próximo).
Segundo Eksteins, a Alemanha do Kaiser, fundada numa economia altamente estatizada e burocrática, encarnava a rebelião modernista contra a estabilidade da democracia parlamentar anglo-francesa baseada no livre mercado. Esta só saiu vitoriosa em aparência: a guerra em si, por cima dos vencedores e perdedores, fez em cacos a ordem européia e varreu do mapa os últimos vestígios da cultura tradicional que subsistiam no quadro liberal-capitalista.
Outro que entendeu perfeitamente o conflito entre a economia de mercado e a cultura sem espírito que ela mesma acabou por fomentar cada vez mais depois da I Guerra foi Joseph Schumpeter. O capitalismo, dizia ele em Capitalism, Socialism and Democracy (1942), seria destruído, mas não pelos proletários, como profetizara Marx, e sim pelos próprios capitalistas: insensibilizados para os valores tradicionais, eles acabariam se deixando seduzir pelos encantos do estatismo protetor, irmão siamês da nova mentalidade modernista e materialista.
Que na era Roosevelt e na década de 50 a proposta estatista fosse personificada por John Maynard Keynes, um requintado bon vivant homossexual e protetor de espiões comunistas, não deixa de ser um símbolo eloqüente da união indissolúvel entre o antiliberalismo em economia e o antitradicionalismo em tudo o mais.
Nos EUA dos anos 60, essa união tornou-se patente na "contracultura" das massas juvenis que substituíram a velha ética protestante de trabalho, moderação e poupança pelo culto dos prazeres – pomposamente camuflado sob o pretexto de libertação espiritual – , investindo ao mesmo tempo, com violência inaudita, contra o capitalismo que lhes fornecia esses prazeres e contra a democracia americana que lhes assegurava o direito de desfrutá-los como jamais poderiam fazer na sua querida Cuba, no seu idolatrado Vietnã do Norte. Mas o reino do mercado é o reino da moda: quando a moda se torna anticapitalista, a única idéia que ocorre aos capitalistas é ganhar dinheiro vendendo anticapitalismo.
A indústria cultural americana, que no último meio século cresceu provavelmente mais que qualquer outro ramo da economia, é hoje uma central de propaganda comunista mais virulenta que a KGB dos tempos da Guerra Fria. A desculpa moral, aí, é que a força do progresso econômico acabará por absorver os enragés, esvaziando-os pouco a pouco de toda presunção ideológica e transfigurando-os em pacatos burgueses.
O hedonismo individualista e consumista que veio a dominar a cultura americana a partir dos anos 70 é o resultado dessa alquimia desastrada; tanto mais desastrada porque o próprio consumismo, em vez de produzir burgueses acomodados, é uma potente alavanca da mudança revolucionária, visceralmente estatista e anticapitalista: uma geração de individualistas vorazes, de sanguessugas carregadinhos de direitos e insensíveis ao apelo de qualquer dever moral não é uma garantia de paz e ordem, mas um barril de pólvora pronto a explodir numa irrupção caótica de exigências impossíveis.
Em 1976 o sociólogo Daniel Bell já se perguntava, em The Cultural Contradictions of Capitalism, quanto tempo poderia sobreviver uma economia capitalista fundada numa cultura louca que odiava o capitalismo ao ponto de cobrar dele a realização de todos os desejos, de todos os sonhos, de todos os caprichos, e, ao mesmo tempo, acusá-lo de todos os crimes e iniqüidades. A resposta veio em 2008 com a crise bancária, resultado do cinismo organizado dos Alinskys e Obamas que conscientemente, friamente, se propunham drenar até ao esgotamento os recursos do sistema, fomentando sob a proteção do Estado-babá as ambições mais impossíveis, as promessas mais irrealizáveis, os gastos mais estapafúrdios, para depois lançar a culpa do desastre sobre o próprio sistema e propor como remédio mais gastos, mais proteção estatal, mais anticapitalismo e mais ódio à nação americana.
Em 1913, as previsões de Hillaire Belloc ainda poderiam parecer prematuras. Era lícito duvidar delas, porque se baseavam em tendências virtuais e nebulosas. Diante do fato consumado em escala mundial, a recusa de enxergar a fraqueza de um capitalismo deixado a si mesmo, sem as defesas da cultura tradicional, torna-se uma obstinação criminosa.
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia
sábado, maio 09, 2009
As armas e os varões!!!
Conheça melhor a verdadeira história de Dilma Roussef
OPINIÃO DO LEITOR
Piauí não conta a verdadeira história de Dilma
Cansativo o texto, com historinhas para boi dormir. Tirou da reta todos crimes cometidos por esta ex-guerrilheira comunista (VAR-Palmares). Inocentando ela e fazendo com que parecesse somente uma menina desorientada, quando na verdade o perfil dela é bem diferente. Pegou em armas, sim, participou ativamente dos ataques, matou gente, roubou (o cofre do Ademar de Barros foi apenas um dos assaltos) e portanto cometeu crimes comuns. Coisa que deveria ser levada em conta pela OAB e colocar esta senhora no rol dos inimigos jurados da democracia, retirando-a da esfera política.Por fim, faço uma observação: o jornalista, conversou com inúmeras pessoas "amigas" da Dilminha, na atualidade e descreveu os lugares e atividades de todos, hoje. Curioso é que todos estão muito bem de vida, inclusive o ex-maridão de Minas e o irmão, aboletados em carguinhos públicos de livre nomeação... A maioria é morador de lugares nobres, lugares onde suas ideologias não aceitavam. Tornaram-se "burgueses", palavra que esta ralé de esquerda que não suou para ganhar o próprio pão, preferindo chupinhar o dinheiro público, usava como pejorativo.Então, como acreditar nestes caras, hoje? Por que votar numa mulher que sequer renega esse passado de bandidagem política, inclusive do próprio líder da Dilma, o Lamarca, assassino confesso ? Bem, o voto é livre e qualquer imbecil tem o direito de exerc-lo. Eglê Sálvio, Belo Horizonte, MG.
A educação política e sentimental de Dilma Rousseff
LUIZ MAKLOUF CARVALHO para Revista Piauí
“O pon está na mesa.” Pétar Russév não conseguia dizer “pão”. Falava pon. Búlgaro, tinha 1,95 metro de altura, olhos azuis, cabelos quase brancos de tão louros. Era advogado e fora filiado ao Partido Comunista da Bulgária. Quando aportou no Brasil, no final dos anos 30, já era viúvo e deixara um filho em sua terra chamado Luben. Ele desembarcou em Salvador, achou o calor intolerável e logo partiu para Buenos Aires, onde ficou alguns anos. Fez uma segunda incursão no Brasil e se estabeleceu em São Paulo. Veio com algum dinheiro e soube fazê-lo crescer. Era bom de negócios.
Pétar Russév mudou o nome para Pedro e afrancesou o sobrenome para Rousseff. Numa viagem a Uberaba, se encantou com a professora Dilma Jane Silva. Ela tinha 20 anos, nascera em No-va Friburgo, no Rio, e fora criada em Minas, em Uberaba. Casaram-se por lá e depois se mudaram para Belo Horizonte. Igor, o primeiro filho, nasceu no primeiro dia de 1947. Dilma Vana, quase no último: 14 de dezembro. E Zana -Lúcia, a caçula, em 1951. Até hoje a família chama o primogênito à maneira búlgara: Igór. Zana morreu em 1977.
Segundo Igor, sua mãe era “a mulher mais bonita de Uberaba”. Os pais dela criavam gado. Apesar da diferença de idade entre ela e o marido, sempre se deram muito bem.
Rousseff ganhou um bom dinheiro empreitando obras para a siderúrgica Mannesmann e negociando imóveis que ele mesmo fazia construir. “Meu pai era muito bom em cálculos”, disse-me Igor numa entrevista em Belo Horizonte. Na lembrança do filho, o búlgaro amava os prazeres da vida: fumava cinco maços de Cairo por dia, tomava uísque, jogava cartas e se deleitava com uma mesa farta.
Os Rousseff moravam numa casa espaçosa, cuidada por três empregadas. As refeições eram servidas à francesa, com guarnições e talheres específicos. O patriarca era louco por dobradinha – que Igor até hoje odeia, fazendo uma careta ao lembrar o “cheiro insuportável” do cozimento da tripa – e às vezes metia-se ele mesmo a fazer “aqueles queijos bichados” (segundo o filho) que comia na Europa.
No começo, a tradicional família mineira olhou de cima para baixo o estrangeiro bon vivant. “No jardim-da-infância, eu e a Dilminha fomos matriculados numa escola boa, mas não na melhor, porque disseram que não tinha vaga”, disse Igor. Exigente em matéria de notas e estudos, Rousseff se esforçou em dar uma formação de classe média européia aos filhos. As crianças tinham piano em casa e uma professora particular, madame Vincent, os visitava semanalmente para ensinar francês. “O velho cobrava mesmo”, lembrou Igor. “Nunca bateu, mas era um suplício quando começava a reclamar.”
Com o passar do tempo, o crescimento dos filhos e o incremento no padrão familiar, os Rousseff dirimiram preconceitos e foram plenamente aceitos. Ficaram sócios dos clubes mais tradicionais e Igor e Dilma entraram nas melhores escolas – ela no Colégio Sion, de freiras, particular, e depois na Estadual Central, público e renomado. Nas férias, iam de avião para a praia de Guarapari, no Espírito Santo, onde ficavam três semanas no Radium, o hotel-cassino. Pedro Rousseff passava horas jogando, apesar de não ser viciado. Era viciado, isso sim, em cigarro, mas sabia que fazia mal à saúde. “Ele odiava o cigarro e tinha pavor que eu viesse a fumar”, lembrou o filho. Nas vezes em que flagrou Igor fumando, Pedro Rousseff deu-lhe broncas mais do que enfáticas. O filho fuma até hoje.
O pai uma vez o levou de carro ao Rio de Janeiro. Ficaram hospedados no (então) suntuoso Hotel Novo Mundo, no Flamengo, que tinha no saguão um lustre imenso. O búlgaro comentou que vira lustres muitíssimo mais valiosos em hotéis europeus. Levou também o menino para conhecer um dos bancos com o qual fazia negócios. Não exatamente o banco, mas o cofre, com as pesadas portas de metal que Igor nunca esqueceu.
Pedro Rousseff incutiu nos filhos o gosto pela leitura. Deu a eles as obras completas de Monteiro Lobato, livros de Jorge Amado e filósofos gregos. “Dilminha sempre estava com algum livro”, disse Igor. O irmão não lembra se ela era boa aluna. O histórico escolar dela está guardado nos arquivos da Estadual Central, hoje Escola Estadual Governador Milton Campos. “Eu só libero se a ministra autorizar por escrito”, informou-me a diretora Maria José Duarte. A ministra-chefe da Casa Civil não autorizou.
Pedro Rousseff morreu em setembro de 1962. Já era brasileiro naturalizado e planejava para breve uma visita à Bulgária. Igor tinha 15 anos e Dilma um a menos. “A noite em que o pai morreu foi dramática”, recordou o filho. “Ele tinha ido jogar no Clube Campestre, voltou pelas onze da noite e de repente se sentiu mal, passando a respirar com dificuldade. Estávamos todos em casa. O médico foi lá, mas não teve jeito. Morreu em casa e foi velado em casa, de onde saiu o enterro.” O meio-irmão búlgaro, Luben – do qual o pai falava com frequência –, foi informado e entrou como um dos herdeiros no processo do inventário. Ele era engenheiro e faleceu em 2007 *. Segundo Igor, Pedro Rousseff deixou “uns quinze bons imóveis”. Continuou a falar pon em vez de “pão” até morrer.
Em 1965, quando Dilma Rousseff prestou concurso e entrou na Estadual Central, a escola era um centro de agitação do movimento secun-darista, radicalizado pelo golpe militar do ano anterior. Com 17 anos, muitas leituras e intelectualmente inquieta, Dilma deu ali os primeiros passos de sua educação política. Dois anos depois, passou a militar numa organização chamada Política Operária, mais conhecida como Polop. Fundada em 1961, ela teve origem no Partido Socialista Brasileiro. Pouco depois da entrada de Dilma, a Polop atravessou um período de turbulência teórica, polemizando acerca do melhor método para derrubar a ditadura e avançar na luta pelo socialismo. Grosso modo, uma ala defendia a reivindicação de uma Assembléia Constituinte. Outra, a prioridade para a luta armada. Dilma ficou em dúvida, flertou com a primeira posição, mas acabou com o segundo lado, que veio a formar o Comando de Libertação Nacional, o Colina.
Nessa época, ela conheceu Cláudio Galeno Linhares, de 24 anos. “Fiquei encantado com a beleza, a personalidade e a inteligência da Dilma”, disse-me ele no restaurante de um hotel em Belo Horizonte. Galeno, como todos o chamam, tem 67 anos, é baixo e está bem mais gordo do que gostaria. Apesar de ser cinco anos mais velho que a antiga namorada, ele comentou: “Não fui eu quem fez a cabeça da Dilma, ela sabia das coisas, já tinha contato com a organização.” Galeno ficou encabulado quando perguntei detalhes sobre o início do namoro. “Nos apaixonamos mutuamente e tivemos um namoro intenso”, resumiu. Casaram-se no ano seguinte, apenas no civil, com uma pequena festa para os amigos mais próximos, no caso os camaradas de militância.
Em 1967, com 20 anos, o hoje deputado federal tucano José Aníbal conheceu Dilma. “Ela era muito inteligente e tinha bom humor”, lembrou o deputado em seu escritório de São Paulo. Mais inclinado para a constituinte do que para a luta armada, Aníbal não aderiu ao Colina e perdeu a companheira de vista.
Já Galeno defendia a luta armada. “Aprendi a fazer bomba na farmácia do meu pai”, brincou, acendendo o primeiro dos três cigarros que fumou em três horas de conversa, enquanto bebia café e água. Era uma farmácia de manipulação, cheia de pós e líquidos químicos guardados em potes de vidro. Ele nasceu e morou em Ferros, mas estudou em colégio interno na cidade vizinha de Conceição do Mato Dentro. Com 12 anos, a família se mudou para a capital e Galeno foi colocado num colégio público.
Serviu o Exército por três anos e, em 1962, entrou na Polop. O golpe militar o pegou no Rio de Janeiro, enfiado até o pescoço na sublevação dos marinheiros. Foi um dos presos mantido no porta-aviões Minas Gerais e, depois, por cinco meses, no presídio da ilha das Cobras. No final do ano obteve um habeas corpus, foi solto e voltou a Belo Horizonte. Trabalhou como repórter na sucursal do jornal Última Hora. Seu chefe era Guido Rocha, um dos principais líderes da Polop, que conhecera na cadeia. Rocha era contra a luta armada.
O médico Apolo Heringer, de 66 anos, está engajado na luta contra a transposição do rio São Francisco. A causa o apaixona tanto que, uma vez, telefonou para a ex-camarada Dilma Rousseff. Ele atacou a mais não poder a transposição e ela o escutou com paciência, mas no final defendeu o projeto do go-verno Lula. Em 1968, Heringer era dirigente do Comando de Libertação Nacional. “Dei aula de marxismo para a Dilma quando ela ainda era estudante secundarista”, relembrou. “Ela era inteligente, mais simpática do que bonita, e tinha um carisma próprio.”
Na avaliação de Heringer, Dilma era “filha política” de Guido Rocha. “O Guido defendia fortemente que lutássemos por uma Assembléia Nacional Constituinte”, disse o médico. “Ele escreveu uma tese a esse respeito, que a Dilma leu. O problema foi a chegada daquele livrinho.”
O livrinho era Revolução na Revolução, de Régis Debray, jovem intelectual francês que, em 1965, se mudou para Cuba, onde ficou amigo de Fidel Castro e se dedicou a propagandear a teoria do “foco” – a idéia de que a guerrilha seria o estopim que deflagraria a revolução anticolonial, que terminaria por expropriar a burguesia. O livro foi publicado em 1967, o mesmo ano em que, acompanhando a aventura guerrilheira de Che Guevara, Debray foi preso na Bolívia. “O livro incendiou todo mundo, inclusive a Dilma”, disse Apolo Heringer.
Outro incendiado pelo livro de Debray foi o estudante de medicina Jorge Nahas. Ele participou da primeira ação armada do Colina, em agosto de 1968: vestido de policial, assaltou com quatro camaradas um jipe da Secretaria da Fazenda que fazia transporte de valores. “Mas não havia um tostão furado no jipe”, lamentou, sorrindo, Nahas, que é secretário de política social da Prefeitura de Belo Horizonte.
“A Dilma tinha uma grande capacidade de liderança”, continuou. “Ela sabia se impor numa reunião e integrava com naturalidade aquele coletivo de homens mandões.” Maria José de Carvalho, a Zezé, então casada com Jorge Nahas, também se lembrou da ministra: “Ela era bonita e tinha muita desenvoltura.” Segundo Zezé, Dilma não participava dos assaltos porque “ela era conhecida pela sua atuação pública”. As tarefas dela no Colina estavam ligadas à feitura do jornalzinho O Piquete, à preparação de aulas sobre marxismo e a contatos com sindicatos. Teve também aulas sobre armamentos, tiro ao alvo, explosivos e enfrentamentos com a polícia. Boa parte das aulas foi ministrada nos arredores de Belo Horizonte pelo ex-sargento da Aeronáutica João Lucas Alves. “O João Lucas ficava hospedado na nossa casa”, contou Galeno, orgulhoso do risco.
“Eu conheci a Dilma em um desses cursos de revolução”, contou o advogado Gilberto Vasconcelos em seu escritório de Uberaba. “Giba”, como a ministra o chama, tem um filho que é subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil. “Nós aprendíamos a fazer bomba, e a dar tiros, muito precariamente”, lembrou Giba. Ele foi um dos estudantes presos no congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Solto depois de alguns dias, voltou para Uberaba. Sua tarefa, no começo de 1969, era a preparação de um assalto a uma agência do Banco do Brasil. Até janeiro daquele ano, o Colina contabilizava, em Minas, quatro assaltos a bancos, uma meia dúzia de carros roubados e dois atentados a bomba, sem vítimas, a residências de autoridades locais.
A organização tinha um punhado de armas, pouco dinheiro e a disposição de algumas dezenas de militantes jovens e abnegados, embalados não apenas pelas idéias de Debray, mas também pelo Maio francês e pela ofensiva dos vietcongues de dezembro de 1968, na qual os guerrilheiros chegaram aos jardins da embaixada americana em Saigon.
As coisas se complicaram no dia 14 de janeiro de 1969, depois de um assalto ao Banco da Lavoura de Sabará, do qual Zezé Nahas participou. Alguns militantes foram presos, entre eles Ângelo Pezzuti, da direção do Colina. Sete integrantes da organização se reuniram em uma casa alugada no bairro de São Geraldo e discutiram como tirar o dirigente da prisão. “O clima estava tenso desde a prisão do Ângelo, mas o fato é que dormimos todos na casa de São Geraldo sem maiores preocupações”, relembrou Zezé Nahas.
Começava a amanhecer quando policiais civis invadiram a casa atirando. Murilo Pezzuti, irmão de Ângelo, acordou com a barulheira, pegou uma metralhadora Thompson e mandou bala em três policiais, matando dois e ferindo um. A polícia baleou o estudante Maurício Paiva. “Eu também devia ter atirado, como o Murilo, mas faltou coragem”, disse Jorge Nahas.
A cólera dos policiais com a morte dos colegas levou-os a espancar os militantes e a ameaçá-los com um fuzilamento coletivo ali mesmo. Com dificuldade, o delegado que comandava a operação controlou a tropa e levou os sete para o Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. O Inquérito Policial Militar sobre o Colina foi comandado pelo coronel Octavio Aguiar de Medeiros, que no governo de João Figueiredo foi chefe do Serviço Nacional de Informações.
Naquela noite, Dilma e Cláudio Galeno não dormiram no apartamento em que moravam, o 1001 do Condomínio Solar. Estavam apreensivos desde a prisão de Ângelo Pezzuti – frequentador do imóvel – e passaram a tomar alguns cuidados, entre eles o de dormir cada noite num local. Quando souberam das prisões, a primeira providência foi voltar ao apartamento para destruir documentos e tudo que pudesse ligá-los à organização.
O casal entrou pela garagem sem ser visto. “O apartamento tinha até microfilme de uma possível área de treinamento de guerrilha, escondido em uma das tomadas”, contou Galeno. “Ficamos lá dentro, no mais absoluto silêncio. Lá pelas tantas tocaram a campainha. Eu vi coturnos pelo olho mágico e, pela persiana da janela, três carros suspeitos lá embaixo. Continuamos em silêncio e destruímos toda a papelada que pudesse nos comprometer. Como não podia dar a descarga, eu espetava os papéis em um arame de cabide e enfiava pelo ralo, o mais fundo que podia. Limpamos tudo e saímos pelos fundos, no elevador de serviço. Foi um sufoco.” Estavam na clandestinidade.
Dilma, que terminara o segundo ano na faculdade de ciências econômicas, tinha completado 21 anos em dezembro de 1968 – um dia depois da edição do Ato Institucional nº 5. Ela e o marido ficaram em Belo Horizonte mais algumas semanas, tentando reorganizar o que sobrara do Colina, pulando de esconderijo em esconderijo. Souberam que as casas de seus pais e familiares haviam sido visitadas e eram vigiadas por policiais.
“Estiveram lá em casa procurando a Dilma e o Galeno, foi um susto danado”, contou Igor Rousseff. Indiferente à política – “eu não era de esquerda nem de direita” –, em 1966 Igor partiu para uma temporada no Canadá e nos Estados Unidos. Trabalhou como garçom, em hotéis, aproveitou o que pôde, e voltou em 1967, a tempo de assistir ao casamento da irmã. “A gente sabia que ela estava envolvida com política, mas não com aquela gravidade toda”, disse. “Só ficamos sabendo quando ela teve que fugir.”
O risco de prisão agravou-se com a publicação na imprensa de um retrato falado de Galeno – “muito fiel”, reconheceu o retratado –, acusando-o de ter participado do assalto de Sabará. Não era verdade, mas era impossível procurar a polícia para explicar. “Decidimos que eu deveria passar por uma transformação física”, prosseguiu Galeno. “Um casal amigo assumiu a tarefa. Primeiro, separaram, com pinça, a minha marca registrada de sobrancelha contínua. Depois descoloriram o cabelo. A sobrancelha ficou preta e os cabelos, vermelhos. Uma coisa terrível.” Quando não deu mais para ficar em Belo Horizonte, a organização determinou que fossem para o Rio. Primeiro foi Galeno, de ônibus. Uma semana depois Dilma partiu, de ônibus também.
No dia 18 de março de 1969, o coronel Octavio Medeiros mandou invadir o apartamento 1001 do Condomínio Solar. O auto de busca e apreensão relaciona em duas laudas o material que Dilma Rousseff e Galeno abandonaram. Entre os livros há Torturas e Torturados, de Marcio Moreira Alves, A História da Revolução Russa, de Leon Trotsky, Cultura e Revolução Cultural, de Vladimir Lênin, Revolução e Estado, de Fidel Castro, e Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina, de Celso Furtado. Entre as publicações, uma coleção da Revista Civilização Brasileira e alguns números da Monthly Review. O resto são objetos como um binóculo e duas serras portáteis, apostilas de assuntos variados, recibos de contas domésticas e documentos pessoais. E nada daquilo que o coronel queria – material interno sobre a “organização político-militar”, como a denominou no inquérito.
No Rio, o casal fez parte dos “deslocados” – como passaram a ser denominados os militantes transferidos de outras cidades, clandestinos e procurados. Outro “deslocado” era Fernando Pimentel (que veio a ser prefeito de Belo Horizonte). Quando a casa de São Geraldo foi invadida, ele era um garoto de 18 anos. O pai pediu que se entregasse ao Exército, mas ele se recusou e entrou na clandestinidade.
Quando os “deslocados” começaram a chegar ao Rio, Juarez Brito e sua mulher Maria do Carmo faziam parte da direção do Colina. “A enxurrada de mineiros deixou a gente louco, porque simplesmente não havia infra-estrutura para cuidar de todo mundo”, contou Maria do Carmo no terraço de seu apartamento, no bairro carioca de Laranjeiras. Galeno pediu-lhe um lugar para o casal. A resposta foi negativa, mas pegaram algum dinheiro da organização. Acabaram indo para a casa de uma tia de Dilma, que acreditou que a sobrinha e o marido estivessem de férias. Depois moraram num hotelzinho e num apartamento alugado até Galeno ser enviado para Porto Alegre, onde o Colina mantinha contato com uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro, o “Partidão”.
Dilma ficou no Rio ajudando a direção da organização. Levava armas, dinheiro e munição para lá e para cá, participava de reuniões, redigia e discutia documentos. Numa das reuniões, ela conheceu o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, o chefe da dissidência do Partidão, que havia hospedado Galeno em Porto Alegre. Tiveram um coup de foudre simultâneo e recíproco. Em sua primeira viagem a Porto Alegre, Dilma informou Galeno sobre o namoro com Carlos Araújo.
No restaurante do hotel, olhando a piscina deserta, Galeno acendeu o terceiro cigarro e disse: “A Dilma é transparente, não tem meia conversa. Ela chegou e falou: ‘Estou com o Carlos.’ E acabou. Foi uma coisa natural, que eu até esperava. Eu também já tinha uma namorada, a Martinha. O rompimento podia sair de mim ou da Dilma. Naquela situação difícil, nós não tínhamos nenhuma perspectiva de formar um casal normal. E ela foi mais valente de expor aquilo no momento justo. Não ficou nenhuma sequela, nenhuma cicatriz. Continuamos grandes amigos, como somos até hoje, o que envolve as respectivas famílias.” (Perguntei se eram amigos a ponto de ele ter o celular pessoal da ministra. “Mesmo que tivesse, não te diria”, respondeu, um pouco irritado.)
“Foi uma coisa muito bonita”, disse-me Dilma, em 2003, quando era ministra das Minas e Energia, numa entevista publicada em parte pela Folha de S. Paulo. “O Carlos pediu a minha mão para o Juarez”, relembrou emocionada.
O casamento estava desgastado desde Belo Horizonte. Quatro militantes que conheceram bem Galeno e Dilma – Apolo Heringer, Fernando Pimentel, José Aníbal e Maria do Carmo Brito – acham que havia uma diferença intelectual entre os dois, com vantagem para Dilma. Galeno concordou: “Ela tinha uma tendência mais acentuada do que eu à atividade intelectual.”
Antes de conhecer Dilma, Carlos Araújo vivia com a geógrafa Vânia Abrantes. Nas contas de dona Marieta, mãe de Araújo, Vânia já era sua oitava mulher. Ele tinha um filho de 8 anos da primeira. “Que mal há nisso?”, perguntou-me, candidamente. “O Carlos era muito sedutor”, disse Vânia em seu apartamento de cobertura em Copacabana. “Um dia ele me disse que estava com uma nova companheira, e deixamos de morar juntos. Mas nem por isso deixamos de ser amigos.”
Carlos Araújo tinha 31 anos quando conheceu Dilma. Filho do advogado Afrânio Araújo, dono de uma prestigiada banca trabalhista e membro do Partido Comunista Brasileiro, começou a militância ainda rapaz, também no PCB. No início do anos 60, mudou-se para Recife e foi assessor de Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas. Viajou com ele pela América Latina, conheceu Fidel Castro e Che Guevara, e foi preso por alguns meses em 1964. Continuou na ativa, organizando grupos de trabalhadores que o procuravam no escritório, até hoje um dos maiores de Porto Alegre. Em 1968, depois do AI-5, “muito impulsivamente”, como disse, aderiu à luta armada. Convenceu alguns camaradas da justeza da luta, conseguiu contato com Maria do Carmo e Juarez, e fez várias viagens ao Rio para conversar com eles.
No primeiro semestre de 1969, Araújo começou a discutir com eles a possibilidade da fusão de seu grupo com o Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, organização liderada pelo capitão Carlos Lamarca, que desertara do Exército.
A Vanguarda Popular Revolucionária destacou Antonio Roberto Espinosa para conversar com o pessoal do Colina sobre a possível fusão das organizações. Espinosa tinha 23 anos e um currículo de pelo menos meia dúzia de ações armadas, entre elas dois assaltos a banco e um roubo de armas de um quartel do Exército em São Caetano. “A Dilma, que participou de reuniões sobre a fusão, me lembrou um pouco a Mônica dos quadrinhos de Maurício de Souza, com cabelinho, dentinho e óculos que chamavam a atenção”, disse-me Espinosa, durante um almoço num shopping de Osasco, onde mora.
Em duas conferências em Mongaguá, no litoral paulista, foi formalizada a fusão que deu origem a uma nova organização – a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares, ou VAR-Palmares. Dilma e Carlos Araújo estiveram presentes entre os representantes do Colina. Pela VPR, o nome mais ilustre era Carlos Lamarca.
O professor de português Fernando Mesquita mora em Nova Xavantina, no Mato Grosso. Tem 64 anos e uma tese defendida no curso de letras da Universidade de São Paulo, sobre o sol na obra de Caetano Veloso. Esteve nas duas conferências de Mongaguá. “A Dilma era agressiva verbalmente”, ele me disse numa entrevista por telefone. “Mas tinha certa fragilidade, algo como uma adolescência não realizada. Na fusão, ela tinha uma crítica à visão militarista da VPR. Já falava na necessidade de um trabalho político de massas, paralelo às ações armadas.” Espinosa também esteve em Mongaguá. Ficou com a impressão de que o capitão Lamarca achava Dilma “metida a intelectual”.
Carlos Araújo foi eleito um dos seis dirigentes da nova organização. O primeiro artigo do seu estatuto dizia: “A Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares é uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo.”
Nas contas do relatório de um Inquérito Policial Militar, a VAR-Palmares contou no seu início com “312 militantes, 94 fuzis, 18 metralhadoras INA, duas metralhadoras Thompson, quatro pistolas 45, 53 FAL, as armas roubadas à Casa Diana (São Paulo), além de grande quantidade de armas individuais de pequenos calibres, muitas bombas, explosivos, carros adquiridos e cerca de 25 mil cruzeiros novos em dinheiro”.
Em Mongaguá, Juarez expôs parte dos planos para o que chamou de “grande ação”. Ela veio a ser, em 18 de julho de 1969, a mais espetacular e a mais rendosa de toda a luta armada: o roubo de 2,5 milhões de dólares do cofre da casa da amante de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo, em Santa Teresa, no Rio. Nem Dilma nem Araújo participaram da ação, mas ambos estiveram envolvidos na sua preparação.
“A ação do cofre foi fundamental para nos dar estabilidade”, disse Araújo. “Fui eu quem levei, de Porto Alegre, o metalúrgico Delci, que abriu o cofre com maçarico no aparelho para onde ele foi levado, em Jacarepaguá, no Rio. Eu também ajudei a tirar de lá as malas com o dinheiro.”
A fortuna não evitou a desintegração da VAR-Palmares. Entre agosto e setembro de 1969, durante um longo e tenso congresso numa casa de Teresópolis, cinquenta militantes discutiram o que fazer. A divisão era entre os “basistas”, que defendiam o trabalho de “massas”, com as “bases”, e os “militaristas”, que advogavam a prioridade da luta armada. “A Dilma se bateu contra o militarismo, defendendo que também se desse importância ao trabalho político”, contou Espinosa. Maria do Carmo também se lembrou da hoje ministra em Teresópolis: “Ela acreditava que a luta de massas era mais importante que a luta armada.”
Não houve acordo entre as facções e a organização se cindiu – de um lado, a VAR-Palmares “basista” e, de outro, a VPR “militarista” de Lamarca. Começou a disputa pelo botim: o dinheiro do cofre e as armas. Em outubro de 1970, quase dois meses depois da sua prisão, Carlos Araújo deu um depoimento ao Dops de São Paulo. Nele, disse que ficou em seu poder 1,2 milhão de dólares, dividido “em três malas de 400 mil dólares cada uma”, e que o dinheiro ficou cerca de uma semana “em um apartamento situado à rua Saldanha Marinho, onde também morava Dilma Vana Rousseff Linhares”.
Araújo não quis comentar o depoimento ao Dops. E nem outros, como um de Espinosa, que fala em 720 mil dólares terem ficado com a organização, ou um de outro militante, que chega à soma de 972 mil dólares. “É impossível chegar a uma conclusão sobre isso, que não tem mais importância nenhuma”, disse Araújo.
Num dos inquéritos é dito que Dilma Rousseff “manipula grandes quantias da VAR-Palmares. É antiga militante de esquemas subversivo-terroristas. Outrossim, através de seu interrogatório, verifica-se ser uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais. Trata-se de pessoa de dotação intelectual bastante apreciável”. Em outros relatórios do gênero, foi chamada de “Joana D’Arc da subversão”, “papisa da subversão”, “criminosa política” e “figura feminina de expressão tristemente notável”.
Depois do racha, Dilma foi enviada a São Paulo. Ela tinha um problema prático a resolver: esconder em melhores condições de segurança um monte de armas que estavam correndo risco em apartamentos pouco seguros. Dilma mudara-se para uma pensão pre-cária, de banheiro coletivo, na avenida Celso Garcia, Zona Leste. Dividia um quarto com Maria Celeste Martins, hoje sua assessora. Na entrevista de 2003, Dilma contou o que as duas fizeram:
Eu e a Celeste entramos com um balde; eu me lembro bem do balde porque tinha munição. As armas, nós enrolamos em um cobertor. Levamos tudo para a pensão e colocamos embaixo da cama. Era tanta coisa que a cama ficava alta. Era uma dificuldade para nós duas dormirmos ali. Muito desconfortável. Os fuzis automáticos leves, que tinham sobrado para nós, estavam todos lá. Tinha metralhadora, tinha bomba plástica. Contando isso hoje, parece que nem foi comigo.
No primeiro dia do ano de 1970, Galeno e outros seis militantes sequestraram, em Montevidéu, um Caravelle da Cruzeiro do Sul. Três dias depois, conseguiram chegar sãos e salvos em Cuba. Ele recebera a ordem de treinar guerrilha e voltar para o Brasil. Galeno tentou voltar, mas, com a repressão crescente, não conseguiu. Casou-se no exílio com a nicaraguense Maira, com quem teve duas filhas, que moram fora do Brasil e lhe deram quatro netos.
Quinze dias depois do sequestro do Caravelle, Dilma Rousseff foi presa, em São Paulo. Seu destino começou a ser selado quando uma onda de prisões pegou José Olavo Leite Ribeiro, que mantinha com ela três contatos semanais. Ribeiro, professor universitário, mora num prédio nos Jardins, em São Paulo. Numa manhã de fevereiro, ele me disse que, depois de um dia inteiro de tortura, contou aos militares que o interrogavam que tinha um encontro com Antônio de Pádua Perosa num bar da rua Augusta. “Eu até sabia que a Dilma podia aparecer porque era um ponto alternativo entre nós, mas o certo mesmo era que um outro companheiro aparecesse.”
Levado até o bar, onde foi obrigado a sentar-se e a fingir que estava tudo bem, Ribeiro viu que Perosa já o esperava no balcão, como combinado. Ao aproximar-se e falar com ele, foi preso por policiais disfarçados. “Eles já estavam desmontando o cerco quando a Dilma apareceu”, disse Ribeiro. “Ela chegou perto, percebeu que eu sinalizei alguma coisa e foi-se embora, disfarçando. Mas eles desconfiaram, foram em cima, e descobriram que ela estava armada. Se não fosse a arma, é possível que conseguisse escapar.”
Dilma foi torturada dias a fio com palmatória, socos, pau-de-arara e choques elétricos. Em seus depoimentos judiciais, denunciou as torturas e deu o nome de oficiais militares que delas participaram, por ação ou omissão, entre eles o capitão do Exército Benoni de Arruda Albernaz, presença recorrente na lista de torturadores.
Mesmo com a tortura, Dilma não revelou o que sabia de Carlos Araújo, seu companheiro, e de Maria Celeste Martins, sua ajudante no recolhimento das armas. Eles só vieram a ser presos muito tempo depois.
Na luta para ganhar tempo com os torturadores, às vezes enrolando-os, ela levou uma equipe de policiais à praça da República, de manhã cedo, inventando que tinha um encontro. Botaram-na num banco, sentada, e montaram o cerco. Um rapaz, ao passar pelo banco e ver a moça sozinha, interessou-se por ela. Voltou-se, deu mais uma paquerada e resolveu sentar-se. Ele foi preso e levado à sede da Operação Bandeirante, a Oban, na rua Tutóia, no Paraíso. O rapaz era argentino. Apanhou muito até provar que não tinha nada a ver com o terrorismo.
Dilma tinha encontros regulares com Natael Custódio Barbosa, que participara das greves operárias de 1968 em Osasco. “Dilma era uma companheira muito séria e dedicada, que acreditava no que estava fazendo”, disse-me Barbosa na sua casa, em Londrina, onde é caminhoneiro e vive com a mulher e três filhos.
No final de janeiro de 1970, Barbosa foi ao encontro que haviam marcado, às cinco da tarde, na movimentada rua 12 de Outubro, na Lapa. Ele vinha numa calçada, do lado oposto e em sentido contrário ao que ela deveria vir. Quando a viu, de braços cruzados, atravessou a rua, passou por ela sem dizer nada, andou uns vinte passos e, sem desconfiar de nada, voltou. “Voltei, encostei do lado dela e perguntei se estava tudo bem”, contou Barbosa, emocionadíssimo. “Ela fez aquela cara de desespero e eles caíram imediatamente em cima de mim, já me batendo, dando coronhadas e me levando para o camburão, e depois para a Oban.”
E prosseguiu: “Nunca mais a vi. Ela me entregou porque foi muito torturada, e eu entendo isso. Acho que me escolheu porque eu era da base operária, não conhecia liderança nenhuma da organização e não tinha como aumentar o prejuízo.”
Com Dilma presa, Carlos Araújo ainda teve tempo para um romance rápido, mas intenso, com a atriz Bete Mendes, da TV Globo, à época simpatizante da organização. Foi preso em 12 de agosto. “No primeiro dia levei pau-de-arara, choques, pauladas e bofetadas”, disse. “Vi que não ia aguentar o pau e logo no segundo dia resolvi me matar. Decidi que não tinha outra saída. Disse pra eles que eu tinha um ponto com o Lamarca, que era tudo o que eles queriam, em uma rua de bastante movimento na Lapa. Eu não tinha, é claro, mas eles acreditaram. Logo de manhã cedo me levaram para lá, cercaram a área toda, com um espalhafato fantástico. Qualquer um que me olhasse eles prendiam. Eu ali, na calçada, vendo os carros passarem. Era só me atirar, mas bateu uma dúvida. Acabei me atirando embaixo de uma Kombi. Machuquei bastante o joelho e a cabeça, mas não quebrei nada.”
Depois de um dia no hospital, Araújo voltou a ser torturado, mesmo ferido. Ficou setenta dias na Oban e passou por outros centros de tortura, como o comando da Base Aérea do Rio, onde ficou sete meses preso. Nessas idas e vindas entre cadeias, para responder a diferentes processos, cruzou com Dilma num comboio, mas em viaturas diferentes, e em auditorias militares, para audiências ou julgamentos. Quando finalmente estiveram por uns meses no mesmo presídio – o Tiradentes, em São Paulo, com direito a visitas íntimas –, Dilma reclamou do romance com Bete Mendes. E voltaram às boas, dispostos a retomar o casamento depois da prisão.
Vânia Abrantes, a ex-mulher de Carlos Araújo, presa em maio de 70, esteve com Dilma numa mesma viatura policial, durante uma viagem de São Paulo ao Rio. Foram uma na frente, outra atrás e não puderam conversar. Mas um testemunho de Vânia sobre a viagem foi decisivo para que Dilma, já ministra, tivesse aprovada a indenização que requereu ao estado do Rio de Janeiro, no valor de 20 mil reais, que ainda não foram pagos.
A pedagoga Maria Luiza Belloque, coordenadora da Universidade Corporativa do Metrô de São Paulo, fez amizade com Dilma numa cela da Operação Bandeirante, e depois em outras, no Dops e no Presídio Tiradentes. “Me jogaram na mesma cela que ela”, contou. “A Dilma levou choque até com fiação de carro. Fora cadeira do dragão, pau-de-arara e choque pra todo lado. Ela levantava o meu astral quando eu chegava arrebentada da tortura.”
Leslie Beloque, cunhada de Maria Luiza, fica sem jeito quando conta a única ação armada que praticou: o roubo de um salão de cabeleireiro chique, com um revólver 38 na mão. “Nós também levamos as jóias e os relógios dos clientes, mas, moralistas, preservamos as alianças”, disse. Dilma foi sua colega de Dops e de Tiradentes. “Ficar presa com a Dilma foi uma coisa de doido. Ela não era nada chorona. Falávamos como se não tivesse tortura. A Dilma é um tenente, é muito forte.”
Condenada em alguns processos e absolvida em outros, Dilma saiu do presídio Tiradentes no final de 1973. Sua mãe, tias e irmãos a receberam depois de quase quatro anos de cadeia e a levaram para uma temporada de recuperação em Minas. Depois, mudou-se para Porto Alegre, onde Carlos Araújo estava cumprindo seus últimos meses de quase quatro anos de pena. Ela o visitava sempre, muitas vezes com o pai do marido, o dr. Afrânio. Ajudava o marido nos trabalhos que ele fazia na cadeia, como a criação de uma biblioteca e de um curso supletivo, no qual Dilma deu aulas. Afrânio morreu em 8 de junho de 1974, com o filho ainda preso. Dois dias depois, Araújo foi solto.
“Foi uma cadeia longa, mas não foi tão ruim assim, porque eu aproveitei para estudar”, disse Araújo. De más lembranças, além da fase da tortura, ficaram os muitos atritos que comprou “com aquele pessoal que queria continuar a fazer a revolução dentro do presídio”.
Carlos Araújo mora hoje sozinho, com os vira-latas Amarelo e Negrão, numa casa às margens do rio Guaíba *, em Porto Alegre. A diarista Eliete cuida das tarefas domésticas. No meio da tarde, Araújo a dispensou. “Não precisa deixar nada para o jantar”, disse. Vestia bermuda azul-marinho, camisa pólo branca e chinelos. Com 71 anos, e apesar de um enfisema do qual não cuida com a atenção devida – e que ultimamente o tem levado ao hospital –, tem energia de sobra. “Sou uma pessoa muito feliz”, isse. “Vivo do meu trabalho, não dependo de ninguém, tive a sorte de ter filhos que não vivem me incomodando e tenho muitos amigos.” Está na varanda, com duas televisões enormes, uma ao lado da outra – onde assiste simultaneamente, pela tevê a cabo, a jogos de futebol. É um ambiente aberto, de onde se vê, numa ilha, o presídio, há muito desativado, em que cumpriu parte da pena. “É ali”, apontou. “Quantas vezes a Dilma foi lá me visitar...”