segunda-feira, maio 12, 2008

Provocação

A quem interessa a radicalização dos conflitos em Rondônia, na Raposa Serra do Sol? O Supremo Tribunal Federal arrogou para si a decisão final, que deve intervir nas próximas semanas. Decidiu também pela manutenção do status quo. Sustou, portanto, a retirada dos não-índios e dos índios que são seus aliados. O que aconteceu? Um grupo de indígenas invadiu uma das fazendas em litígio, com um discurso de "ocupação", que terminou suscitando uma reação, certamente desmedida, porém reação a uma ação que deveria ter sido impedida pela Polícia Federal lá presente.

O mais surpreendente é que a atuação policial foi rápida na prisão dos que reagiram à invasão e ausente no que diz respeito aos invasores. Afinal, aguarda-se ou não uma decisão do Supremo? Ou se trata de desrespeitar a mais alta Corte do país, sob o manto de uma suposta legalidade? Quando a Polícia Federal chegou à região, cena do confronto com os arrozeiros, efetuou a desobstrução de rodovias que tinham sido ocupadas pelos manifestantes. Agiu de acordo com a lei, pois rodovias públicas não podem ser ocupadas. O que ocorre agora? Os indígenas ocupam rodovias e nada é feito. Num caso é contrário à lei e, noutro, não. Dois pesos e duas medidas são a melhor forma de desrespeito ao estado de direito.

Convém aqui ressaltar o papel desempenhado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), pastoral da Igreja Católica. Observemos que os indígenas têm sido objeto de uma destruição cultural, levada a cabo por grupos religiosos de diferentes proveniências. Refiro-me à destruição das religiosidades nativas. O assunto não é nem tema de discussão, quando, historicamente, se trata - ou pelo menos se tratava - de uma das mais importantes questões antropológicas. Há aqui um completo silêncio, como se este fosse extremamente comprometedor para aqueles que dizem, no entanto, defender a cultura indígena.

Ora, a política desse setor da Igreja é ancorada em posições esquerdizantes, utilizando todo um linguajar, que tem como objeto a implantação do socialismo autoritário entre nós. Em nome da justiça social, as posições cristãs são progressivamente abandonadas, culminando numa outra conversão, a do marxismo como redenção dos povos. O seu vocabulário é revelador. Num documento recente da Cimi Norte I, de 2 de maio, é afirmado, a propósito dos conflitos em Roraima, que o problema central reside na "ditadura do mercado sobre o direito dos cidadãos".

Não deixa de ser curiosa essa mensagem religiosa, simplesmente retirada do arsenal dos dogmas comunistas, totalmente falsos. Lá onde o mercado se desenvolveu, com regras e instituições, a democracia representativa se afirmou, produzindo direitos sociais, civis e políticos. Exemplos não faltam: Inglaterra, países nórdicos, França, Alemanha, EUA. Lá onde o mercado foi abolido, a pobreza foi generalizada, os direitos sindicais e políticos abolidos, e a política se tornou a perseguição e eliminação dos próprios cidadãos. Exemplos não faltam: União Soviética, Camboja, Cuba, entre outros.

Nesta perspectiva, a sua luta precisa de símbolos, símbolos que captem a opinião pública, tendo como objeto infletir a política governamental e influir diretamente junto ao STF. Estranhamente, silvícolas "fotografaram" o acontecido, como se o seu propósito fosse precisamente este: agir sobre a opinião pública. Mártires são necessários para esta concepção teológico-política. O sangue e a morte são os seus instrumentos. O seu objetivo, na invasão, consistia em suscitar uma reação, armada, pois ela viabilizaria o avanço de sua "causa". Os que reagiram com armas de fogo terminaram fortalecendo a política que procuram contestar.

A Comissão Pastoral da Terra, em um livro que é utilizado pelo MST, "Cantos, cantando com a Mãe Terra", de 2003, sustenta claramente essa posição: "Companheiros de jornada/dessa longa caminhada,/vamos falar um pouquinho/dessa história que é formada/com luta, sofrimento/com sangue que é derramado/daqueles que dão as mãos/aos companheiros massacrados". Segue esse outro canto: "Acorda América, chegou a hora de levantar!/O sangue dos mártires/ fez a semente se espalhar". Ou ainda: "Os nossos mártires, irmãos de sangue, são as sementes da caminhada". Para o abismo, certamente!

DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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