por Olavo de Carvalho
Peço ao leitor a gentileza de examinar brevemente esta seqüência de fatos:
Em Abril de 2001, o traficante Fernandinho Beira-Mar confessa que compra e injeta no mercado brasileiro, anualmente, duzentas toneladas de cocaína das Farc em troca de armas contrabandeadas do Líbano.
7 de dezembro de 2001: o Foro de São Paulo, coordenação do movimento comunista latino-americano, sob a presidência do sr. Luís Inácio Lula da Silva, lança um manifesto de apoio incondicional às Farc, no qual classifica como "terrorismo de Estado" as ações militares do governo colombiano contra essa organização.
17 de outubro de 2002: O PT, através do assessor para assuntos internacionais da campanha eleitoral de Lula, Giancarlo Summa, afirma em nota oficial que o partido nada tem a ver com as Farc e que o Foro de São Paulo é apenas "um foro de debates, e não uma estrutura de coordenação política internacional".
1º. de março de 2003: O governo petista estende oficialmente seu manto de proteção sobre as Farc, recusando-se a classificá-las como organização terrorista conforme solicitava o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.
24 de agosto de 2003: O comandante das Farc, Raul Reyes, informa que o principal contato da narcoguerrilha no Brasil é o PT e, dentro dele, Lula, Frei Betto e Emir Sader.
15 de março de 2005: Estoura o escândalo dos cinco milhões de dólares das Farc, que um agente dessa organização, o falso padre Olivério Medina, afirma ter trazido para a campanha eleitoral do sr. Luís Inácio Lula da Silva. O assunto é investigado superficialmente e logo desaparece do noticiário.
2 de julho de 2005: Discursando no 15º. aniversário do Foro de São Paulo, o sr. Luís Inácio Lula da Silva entra em contradição com a nota de 17 de outubro de 2002, confessando que o Foro é uma entidade secreta, "construída para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política", que essa entidade interferiu ativamente no plebiscito venezuelano e que ali, em segredo, ele próprio tomou decisões de governo junto com Chávez, Fidel Castro e outros líderes esquerdistas, sem dar ciência disto ao Parlamento ou à opinião pública.
9 de abril de 2006: o chefe da Delegacia de Entorpecentes da PF do Rio, Vítor Santos, informa ao jornal O Dia que "dezoito traficantes da facção criminosa Comando Vermelho - entre eles pelo menos um da Favela do Jacarezinho e outro do Morro da Mangueira - vão periodicamente à fronteira do Brasil com a Colômbia para comprar cocaína diretamente com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os bandidos são alvo de investigação da Polícia Federal. Eles ocuparam o espaço que já foi exclusivo de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar".
12 de maio de 2006: o PCC em São Paulo lança ataques que espalham o terror entre a população. Em 27 de dezembro é a vez do Comando Vermelho fazer o mesmo no Rio de Janeiro.
18 de julho de 2006: o Supremo Tribunal Federal, sob a pressão de um vasto movimento político orquestrado pelo PT, concede asilo político ao falso padre Olivério Medina, agente das Farc.
16 de maio de 2007: o juiz Odilon de Oliveira, de Ponta-Porã, divulga provas de que as Farc atuam no território nacional treinando bandidos do PCC e do Comando Vermelho em técnicas de guerrilha urbana .
12 de fevereiro de 2007: as Farc fazem os maiores elogios ao PT por ter salvo da extinção o movimento comunista latino-americano por meio da fundação do Foro de São Paulo.
Agosto de 2007: Nos vídeos preparatórios ao seu 3º. Congresso, o PT admite que seu objetivo é eliminar o capitalismo e implantar no Brasil um regime socialista; e fornece ainda um segundo desmentido à nota de Giancarlo Summa, ao confessar que o Foro de São Paulo é "um espaço de articulação estratégica" (sic).
19 de setembro de 2007: Lula oferece o território brasileiro como sede para um encontro entre Hugo Chávez e os comandantes das Farc .
Entre esses fatos ocorreram outros inumeráveis cuja data não recordo precisamente no momento, entre os quais o fornecimento maciço de armas às Farc pelo governo Hugo Chávez, uma campanha nacional de mídia para desmoralizar o analista estratégico americano Constantine Menges, que divulgava a existência de um eixo Lula-Castro-Chávez-Farc, os tiroteios entre guerrilheiros das Farc e soldados do Exército brasileiro na Amazônia, as denúncias de que as Farc davam treinamento em guerrilha urbana aos militantes do MST e, é claro, várias assembléias gerais e reuniões de grupos de trabalho do Foro de São Paulo. A existência de uma ligação profunda, constante e solidária entre o PT e as Farc é um fato tão bem comprovado, que quem quer que insista em negá-la só pode ser parte interessada na manutenção do segredo ou então um mentecapto incurável.
Também não me parece possível ocultar a evidência de que essa ligação não é só bilateral, mas envolve, em maior ou menor grau, todas as entidades participantes do Foro de São Paulo , a maior organização política do continente, da qual as Farc e movimentos similares constituem os diversos braços armados, atuando em torno e dentro do território brasileiro sob a proteção do nosso governo federal, chefiado, como se sabe, pelo próprio fundador do Foro .
Não me perguntem como e por que fatos dessa magnitude nunca foram objeto de uma CPI, nem sequer de um breve debate no Congresso, muito menos de algum esforço de reportagem da parte de uma mídia que se gaba de ser tão afeita a investigações perigosas.
As explicações são muitas - espírito de traição, testemunhas que desaparecem, dinheiro que rola, cumplicidade, oportunismo, covardia, estupidez - e nem vale a pena repassá-las. Mas há uma que, pelo pitoresco, deve ser aqui registrada.
O vício dos cursos de auto-ajuda, pagos a peso de ouro e valorizados mais por isso do que por qualquer resultado comprovado, infundiu na classe dominante brasileira uma fé sem limites no poder do pensamento positivo.
Muita gente nas altas rodas acredita piamente que, se você repetir com perseverança o mantra "O comunismo acabou", o movimento comunista terá cessado de existir. Acredita até que, diante de sujeitos que se declaram abertamente comunistas, como os srs. Aldo Rebelo ou Quartim de Moraes, a firme decisão de pensar que eles são outra coisa há de transformá-los nessa outra coisa.
Quanto aos indivíduos que se associam aos comunistas, participam de congressos comunistas, são tidos como comunistas fiéis pelos próprios comunistas e fazem planos para a tomada do poder continental junto com os comunistas, mas não admitem em público que são comunistas, a mera hipótese de que o sejam em segredo é repelida com desprezo ou indignação e alegada como prova de que o autor da sugestão é um perigoso extremista de direita, tão exagerado e fanático que talvez seja ele mesmo, sob camuflagem direitista, um agente provocador a serviço do comunismo internacional.
Chegamos assim à adorável conclusão de que o único comunista - ou pelo menos o único perigoso - sou eu.
Portanto, basta não me dar ouvidos, e pronto: o Brasil está a salvo da ameaça comunista.
Não resta dúvida de que, nesse sentido, o Brasil tem hoje o mais vasto, organizado e poderoso front anticomunista já registrado ao longo de toda a História universal.
terça-feira, março 11, 2008
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Cora Rónai (O Globo 21/02)
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Eu não sou a Petrobras. Eu não tenho nada secreto no notebook. Ainda assim, ele é protegido por um sistema em que a senha é a digital do meu indicador — e não há hipótese, mas não mesmo, de que eu venha a embarcá-lo em qualquer mala despachada, no mesmo avião e sem escalas. Ele vai na bolsa, ali, do meu lado, coladinho. Nunca viajei com disco rígido com dados, mas, caso o fizesse, seria nas mesmas condições.
É bem provável que a proteção do Vaio seja só para inglês ver, e que qualquer um seja capaz de abri-la; mas, para isso, primeiro seria preciso roubá-lo de mim. Também é claro que, se eu tivesse dados que valem ouro no computador, o meu disco inteiro seria muito bem criptografado. E é claro, ainda, que eu teria um sistema de segurança adicional por hardware.
O fato é que, hoje em dia, sem tiroteios, assassinatos ou, no mínimo, um boa-noite-cinderela, só se rouba notebook com dados confidenciais de quem deliberadamente se deixa roubar. O que deixa algumas curiosas possibilidades em aberto: 1) Não havia nada nos notebooks (se é que havia mesmo notebooks), e o “roubo” foi uma cortina de fumaça para distrair a atenção do público do caso dos cartões corporativos; 2) Havia dados nos notebooks, “roubados” de antemão para justificar um vazamento de informações que apenas ainda não foi descoberto pela imprensa; 3) Havia ou não havia dados, tanto faz, e os notebooks foram roubados porque estavam, literalmente, dando sopa, e sendo tratados com a incúria e o descaso com que, neste país, se trata tradicionalmente a coisa pública.
Se as minhas hipóteses estão erradas, e se havia mesmo “segredos de Estado” nos notebooks, como quer fazer crer o presidente que foi para o frio, este governo, e os prepostos com que está aparelhando o país, de alto a baixo, são ainda mais incompetentes do que parecem. Para ficar num exemplo até infantil, qualquer pessoa que vá com razoável freqüência ao cinema já cansou de ver agentes algemados aos seus computadores. Mandar “segredo de Estado” por contêiner é coisa dos Três Patetas. Ou dos 40 ladrões.
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Eu não sou a Petrobras. Eu não tenho nada secreto no notebook. Ainda assim, ele é protegido por um sistema em que a senha é a digital do meu indicador — e não há hipótese, mas não mesmo, de que eu venha a embarcá-lo em qualquer mala despachada, no mesmo avião e sem escalas. Ele vai na bolsa, ali, do meu lado, coladinho. Nunca viajei com disco rígido com dados, mas, caso o fizesse, seria nas mesmas condições.
É bem provável que a proteção do Vaio seja só para inglês ver, e que qualquer um seja capaz de abri-la; mas, para isso, primeiro seria preciso roubá-lo de mim. Também é claro que, se eu tivesse dados que valem ouro no computador, o meu disco inteiro seria muito bem criptografado. E é claro, ainda, que eu teria um sistema de segurança adicional por hardware.
O fato é que, hoje em dia, sem tiroteios, assassinatos ou, no mínimo, um boa-noite-cinderela, só se rouba notebook com dados confidenciais de quem deliberadamente se deixa roubar. O que deixa algumas curiosas possibilidades em aberto: 1) Não havia nada nos notebooks (se é que havia mesmo notebooks), e o “roubo” foi uma cortina de fumaça para distrair a atenção do público do caso dos cartões corporativos; 2) Havia dados nos notebooks, “roubados” de antemão para justificar um vazamento de informações que apenas ainda não foi descoberto pela imprensa; 3) Havia ou não havia dados, tanto faz, e os notebooks foram roubados porque estavam, literalmente, dando sopa, e sendo tratados com a incúria e o descaso com que, neste país, se trata tradicionalmente a coisa pública.
Se as minhas hipóteses estão erradas, e se havia mesmo “segredos de Estado” nos notebooks, como quer fazer crer o presidente que foi para o frio, este governo, e os prepostos com que está aparelhando o país, de alto a baixo, são ainda mais incompetentes do que parecem. Para ficar num exemplo até infantil, qualquer pessoa que vá com razoável freqüência ao cinema já cansou de ver agentes algemados aos seus computadores. Mandar “segredo de Estado” por contêiner é coisa dos Três Patetas. Ou dos 40 ladrões.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Segredo de Estado
Miriam Leitão
O mercadinho La Palma, a casa de carnes Reisman, a loja de vinhos Wine Company, a peixaria Golfinho e a padaria Cirandinha de Brasília são detentoras de informações que, se divulgadas, ameaçam o Brasil. Houve um tempo em que os militares achavam que risco à segurança nacional era tudo que fosse contra o regime. Hoje, segurança nacional é invocada para encobrir extravagâncias da Presidência.
Nunca se saberá no Brasil, pelo visto, o que é realmente segurança nacional. A Amazônia devastada, a violência urbana, a persistência do analfabetismo que ainda hoje flagela três milhões de jovens, a ocupação de parte do território do Rio pelo tráfico de drogas, nada disso ameaça a pátria brasileira. Os que exercem o poder têm interpretações exóticas sobre o tema. No passado, achavam que a ameaça vinha do pensamento divergente. Era uma idéia absurda. Hoje acham que ameaçador é informar os gastos com cartões feitos pelos funcionários que servem ao presidente da República e a seus filhos. E a interpretação é um escárnio.
Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, autor do saudoso "Festival de Besteiras que Assola o País - Febeapá", não teria muito trabalho no Brasil de hoje para encontrar as sandices políticas que alimentavam seu humor. Bastaria conferir, por exemplo, o que disse o Planalto sobre os R$ 205 mil gastos por três funcionários em guloseimas e bebidas caras para alimentar o presidente e seus convidados, nos momentos não previstos nas compras normais da cozinha presidencial. Segundo o Planalto, a divulgação dessas informações "pode facilitar atos de terrorismo".
Pede-se a ministra Marta Suplicy que vá ao Planalto e repita ao Gabinete de Segurança Institucional e à Casa Civil, responsáveis por essa interpretação, o que ela disse na Europa, quando se falou que no Brasil havia muita violência e por isso não era um país seguro. "Pelo menos lá não tem terrorismo", gabou-se. Talvez a ministra tenha relaxado um pouco prematuramente.
A convicção da Presidência é que, se, um ano depois, os gastos com comes e bebes presidenciais forem divulgados, se saberá quantas pessoas estão envolvidas, e isso é que facilitaria atos de terrorismo.
Ameaça também a segurança nacional saber que um dos seguranças de Lurian, a filha do presidente, gastou R$ 55 mil em cartões, uma média de R$ 6 mil por mês.
A Presidência está sob constante risco e ameaça. Dos quase R$ 5 milhões gastos pela Presidência em cartões corporativos em 2006, só R$ 100 mil tinham nota fiscal porque o resto, segundo o Planalto informou ao Tribunal de Contas da União, era de despesas cuja divulgação ameaça a segurança nacional.
Mas podem os brasileiros dormir tranqüilos porque todas essas ameaças estarão conjuradas, em breve, pelos nossos bravos defensores da segurança nacional. O Gabinete de Segurança Institucional já informou que a divulgação dos gastos pelo portal da Transparência foi uma "transgressão" e que os responsáveis pela divulgação responderão a processos administrativos". A assessoria de imprensa do Planalto também já avisou que não comentará os gastos do funcionário de Lurian, porque não comenta nada que ameace a segurança do presidente e sua família.
Quando estourou o escândalo da ex-ministra Matilde Ribeiro, o governou anunciou que, em resposta, aumentaria o uso dos cartões, mas limitando os saques em dinheiro vivo, que, só no ano passado, foram de R$ 4 milhões, feitos pelos que usam o cartão de crédito pago com o dinheiro dos contribuintes. O ministro da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, afirmou que o risco era o uso do cartão para fraudar a Lei de Licitações. Mais uma de suas costumeiras confusões de interpretação.
O pior problema, que, até agora, ninguém do governo deu mostras de ter entendido, é o abusivo desrespeito ao limite entre o público e o privado. O mesmo desrespeito que se viu em outros flagrantes deste governo, como o do episódio em que um filho do presidente convidou os amigos para, a bordo de um avião da FAB, irem para Brasília, onde usaram o Palácio do Alvorada como colônia de férias. Na época, a imprensa perguntou se realmente havia sido usado o avião da Força Aérea Brasileira para transportar os jovens em seus folguedos de férias, e o Planalto se negou a dar a informação. Mas os próprios jovens, ao divulgarem na internet a foto de todos ao lado do avião, deixaram claro o flagrante de uso privado de recursos públicos. Matilde, quando admitiu apenas "um erro administrativo", mostrou também que não entendeu o que há de errado em usar o cartão pago pelos contribuintes até em dias de folga.
Os gastos com cartão corporativo estão tendo um aumento explosivo - 800% nos últimos cinco anos, chegando a R$ 75 milhões - e o governo quer ampliá-los. A divulgação dos gastos feitos por funcionários da Presidência foi considerada um atentado à segurança nacional, e os responsáveis serão punidos. O erro não foi o gasto, o erro foi divulgá-lo. E o Portal da Transparência fica assim avisado de que a máxima Delúbio Soares - "transparência demais é burrice" - impregnou todo o governo.
O mercadinho La Palma, a casa de carnes Reisman, a loja de vinhos Wine Company, a peixaria Golfinho e a padaria Cirandinha de Brasília são detentoras de informações que, se divulgadas, ameaçam o Brasil. Houve um tempo em que os militares achavam que risco à segurança nacional era tudo que fosse contra o regime. Hoje, segurança nacional é invocada para encobrir extravagâncias da Presidência.
Nunca se saberá no Brasil, pelo visto, o que é realmente segurança nacional. A Amazônia devastada, a violência urbana, a persistência do analfabetismo que ainda hoje flagela três milhões de jovens, a ocupação de parte do território do Rio pelo tráfico de drogas, nada disso ameaça a pátria brasileira. Os que exercem o poder têm interpretações exóticas sobre o tema. No passado, achavam que a ameaça vinha do pensamento divergente. Era uma idéia absurda. Hoje acham que ameaçador é informar os gastos com cartões feitos pelos funcionários que servem ao presidente da República e a seus filhos. E a interpretação é um escárnio.
Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, autor do saudoso "Festival de Besteiras que Assola o País - Febeapá", não teria muito trabalho no Brasil de hoje para encontrar as sandices políticas que alimentavam seu humor. Bastaria conferir, por exemplo, o que disse o Planalto sobre os R$ 205 mil gastos por três funcionários em guloseimas e bebidas caras para alimentar o presidente e seus convidados, nos momentos não previstos nas compras normais da cozinha presidencial. Segundo o Planalto, a divulgação dessas informações "pode facilitar atos de terrorismo".
Pede-se a ministra Marta Suplicy que vá ao Planalto e repita ao Gabinete de Segurança Institucional e à Casa Civil, responsáveis por essa interpretação, o que ela disse na Europa, quando se falou que no Brasil havia muita violência e por isso não era um país seguro. "Pelo menos lá não tem terrorismo", gabou-se. Talvez a ministra tenha relaxado um pouco prematuramente.
A convicção da Presidência é que, se, um ano depois, os gastos com comes e bebes presidenciais forem divulgados, se saberá quantas pessoas estão envolvidas, e isso é que facilitaria atos de terrorismo.
Ameaça também a segurança nacional saber que um dos seguranças de Lurian, a filha do presidente, gastou R$ 55 mil em cartões, uma média de R$ 6 mil por mês.
A Presidência está sob constante risco e ameaça. Dos quase R$ 5 milhões gastos pela Presidência em cartões corporativos em 2006, só R$ 100 mil tinham nota fiscal porque o resto, segundo o Planalto informou ao Tribunal de Contas da União, era de despesas cuja divulgação ameaça a segurança nacional.
Mas podem os brasileiros dormir tranqüilos porque todas essas ameaças estarão conjuradas, em breve, pelos nossos bravos defensores da segurança nacional. O Gabinete de Segurança Institucional já informou que a divulgação dos gastos pelo portal da Transparência foi uma "transgressão" e que os responsáveis pela divulgação responderão a processos administrativos". A assessoria de imprensa do Planalto também já avisou que não comentará os gastos do funcionário de Lurian, porque não comenta nada que ameace a segurança do presidente e sua família.
Quando estourou o escândalo da ex-ministra Matilde Ribeiro, o governou anunciou que, em resposta, aumentaria o uso dos cartões, mas limitando os saques em dinheiro vivo, que, só no ano passado, foram de R$ 4 milhões, feitos pelos que usam o cartão de crédito pago com o dinheiro dos contribuintes. O ministro da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, afirmou que o risco era o uso do cartão para fraudar a Lei de Licitações. Mais uma de suas costumeiras confusões de interpretação.
O pior problema, que, até agora, ninguém do governo deu mostras de ter entendido, é o abusivo desrespeito ao limite entre o público e o privado. O mesmo desrespeito que se viu em outros flagrantes deste governo, como o do episódio em que um filho do presidente convidou os amigos para, a bordo de um avião da FAB, irem para Brasília, onde usaram o Palácio do Alvorada como colônia de férias. Na época, a imprensa perguntou se realmente havia sido usado o avião da Força Aérea Brasileira para transportar os jovens em seus folguedos de férias, e o Planalto se negou a dar a informação. Mas os próprios jovens, ao divulgarem na internet a foto de todos ao lado do avião, deixaram claro o flagrante de uso privado de recursos públicos. Matilde, quando admitiu apenas "um erro administrativo", mostrou também que não entendeu o que há de errado em usar o cartão pago pelos contribuintes até em dias de folga.
Os gastos com cartão corporativo estão tendo um aumento explosivo - 800% nos últimos cinco anos, chegando a R$ 75 milhões - e o governo quer ampliá-los. A divulgação dos gastos feitos por funcionários da Presidência foi considerada um atentado à segurança nacional, e os responsáveis serão punidos. O erro não foi o gasto, o erro foi divulgá-lo. E o Portal da Transparência fica assim avisado de que a máxima Delúbio Soares - "transparência demais é burrice" - impregnou todo o governo.
sábado, fevereiro 09, 2008
Psiu. Recebeu Marcos Valério?
Diogo Mainard
"Há algo que caracteriza tanto os encontros secretos
na Granja do Torto quanto as compras na padaria Cirandinha:
a falta de mecanismos de controle sobre os atos do presidente.
Ninguém pode conferir se ele recebeu Valério na Granja do
Torto. A mesma nebulosidade cerca os gastos do Planalto,
sobretudo no que se refere aos saques em dinheiro vivo"
Ninguém perguntou diretamente a Lula se ele recebeu Marcos Valério na Granja do Torto. Eu pergunto:
– Psiu. Recebeu Marcos Valério na Granja do Torto?
Duas semanas atrás, Delúbio Soares foi interrogado. O defensor de Marcos Valério encaminhou-lhe algumas perguntas. Numa delas, ele insinuou que seu cliente teria acompanhado Delúbio Soares à Granja do Torto, para encontrar-se com Lula. De acordo com o Ministério Público, isso só pode ser interpretado como um recado de Marcos Valério à turminha do PT. E o recado é o seguinte: cuidado, porque eu posso entregar o presidente da República.
– Psiu. Como foi o encontro com Delúbio Soares e Marcos Valério na Granja do Torto?
O assunto já ficou caduco. Os mensaleiros fazem parte do passado. Agora a gente quer ser informado sobre as compras na padaria Cirandinha pagas com o Ourocard presidencial, um caso que promete animar a segunda metade do mandato lulista, assim como os mensaleiros animaram a primeira. Entretanto, há algo que caracteriza tanto os encontros secretos na Granja do Torto quanto as compras na padaria Cirandinha: a falta de mecanismos de controle sobre os atos do presidente. Ninguém pode conferir se ele recebeu Marcos Valério na Granja do Torto. Isso significa também que ninguém poderia saber se ele está sendo chantageado ou achacado por causa desse encontro. A mesma nebulosidade cerca os gastos do Palácio do Planalto, sobretudo no que se refere aos saques em dinheiro vivo. A rigor, nada impediria que os membros do governo tivessem sacado dinheiro vivo para financiar atividades da campanha eleitoral, inclusive o dossiê dos sanguessugas.
– Psiu. Psiu. PSIU. Como é o pastel da padaria Cirandinha?
Lula está perto da aposentadoria. Eu já consigo imaginá-lo daqui a alguns anos, em sua cobertura no ABC paulista, num dia qualquer. Acorda. Liga a TV. Desliga a TV. Chega a pedicure. Come dois pratos de estrogonofe. Demite a empregada doméstica. Desmonta o aparelho de ar condicionado. É incapaz de remontá-lo. Dá os retoques finais em seu tratado sobre o atomismo de Demócrito. Compra uma grelha antiaderente por telefone. Come dois pratos de nhoque. Mergulha de trampolim em sua piscina cheia de moedinhas. Demite o motorista. Chega Delúbio Soares. Despede-se de Delúbio Soares. Olha o que acontece nos apartamentos vizinhos com um telescópio. Dorme no sofá.
Apesar de Lula estar chegando ao fim, ainda dá para transformar a última fase de seu mandato em algo proveitoso. Se a imprensa o atazanar e se o Ministério Público perseguir os abusos de seu governo, talvez seu sucessor seja um tantinho mais contido. É uma hipótese remota, mas é uma hipótese. Lula está perto da aposentadoria. E eu estou perto de me aposentar dele. Quando tudo acabar, quero comprar uma grelha antiaderente por telefone.
"Há algo que caracteriza tanto os encontros secretos
na Granja do Torto quanto as compras na padaria Cirandinha:
a falta de mecanismos de controle sobre os atos do presidente.
Ninguém pode conferir se ele recebeu Valério na Granja do
Torto. A mesma nebulosidade cerca os gastos do Planalto,
sobretudo no que se refere aos saques em dinheiro vivo"
Ninguém perguntou diretamente a Lula se ele recebeu Marcos Valério na Granja do Torto. Eu pergunto:
– Psiu. Recebeu Marcos Valério na Granja do Torto?
Duas semanas atrás, Delúbio Soares foi interrogado. O defensor de Marcos Valério encaminhou-lhe algumas perguntas. Numa delas, ele insinuou que seu cliente teria acompanhado Delúbio Soares à Granja do Torto, para encontrar-se com Lula. De acordo com o Ministério Público, isso só pode ser interpretado como um recado de Marcos Valério à turminha do PT. E o recado é o seguinte: cuidado, porque eu posso entregar o presidente da República.
– Psiu. Como foi o encontro com Delúbio Soares e Marcos Valério na Granja do Torto?
O assunto já ficou caduco. Os mensaleiros fazem parte do passado. Agora a gente quer ser informado sobre as compras na padaria Cirandinha pagas com o Ourocard presidencial, um caso que promete animar a segunda metade do mandato lulista, assim como os mensaleiros animaram a primeira. Entretanto, há algo que caracteriza tanto os encontros secretos na Granja do Torto quanto as compras na padaria Cirandinha: a falta de mecanismos de controle sobre os atos do presidente. Ninguém pode conferir se ele recebeu Marcos Valério na Granja do Torto. Isso significa também que ninguém poderia saber se ele está sendo chantageado ou achacado por causa desse encontro. A mesma nebulosidade cerca os gastos do Palácio do Planalto, sobretudo no que se refere aos saques em dinheiro vivo. A rigor, nada impediria que os membros do governo tivessem sacado dinheiro vivo para financiar atividades da campanha eleitoral, inclusive o dossiê dos sanguessugas.
– Psiu. Psiu. PSIU. Como é o pastel da padaria Cirandinha?
Lula está perto da aposentadoria. Eu já consigo imaginá-lo daqui a alguns anos, em sua cobertura no ABC paulista, num dia qualquer. Acorda. Liga a TV. Desliga a TV. Chega a pedicure. Come dois pratos de estrogonofe. Demite a empregada doméstica. Desmonta o aparelho de ar condicionado. É incapaz de remontá-lo. Dá os retoques finais em seu tratado sobre o atomismo de Demócrito. Compra uma grelha antiaderente por telefone. Come dois pratos de nhoque. Mergulha de trampolim em sua piscina cheia de moedinhas. Demite o motorista. Chega Delúbio Soares. Despede-se de Delúbio Soares. Olha o que acontece nos apartamentos vizinhos com um telescópio. Dorme no sofá.
Apesar de Lula estar chegando ao fim, ainda dá para transformar a última fase de seu mandato em algo proveitoso. Se a imprensa o atazanar e se o Ministério Público perseguir os abusos de seu governo, talvez seu sucessor seja um tantinho mais contido. É uma hipótese remota, mas é uma hipótese. Lula está perto da aposentadoria. E eu estou perto de me aposentar dele. Quando tudo acabar, quero comprar uma grelha antiaderente por telefone.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Fantasioso? Sórdido?
Diogo Mainard
No Natal de 2005, recebi documentos sobre um pagamento de 3,25 milhões de reais da Telecom Italia a Naji Nahas. Tudo ali era suspeito. Um: o pagamento fora efetuado em dinheiro vivo. Dois: o carro-forte entregara o dinheiro na sede da Telecom Italia, em vez de entregá-lo diretamente a Naji Nahas. Três: Naji Nahas faturara 263.000 reais a mais do que o previsto em seu contrato de consultoria.
Passei toda a papelada a VEJA, que publicou uma reportagem sobre o assunto, seguindo o rastro daqueles 3,25 milhões de reais. A reportagem, baseada em fontes da própria Telecom Italia, dizia que o dinheiro fora entregue a um diretor da empresa, Ludgero Pattaro. Ele o enfiara numa maleta e, acompanhado por guarda-costas, encaminhara-se ao hotel Renaissance, onde o repassara a um destinatário de identidade desconhecida. Numa coluna publicada ao lado da reportagem, contei os bastidores do acordo secreto entre a Telecom Italia e o lulismo, sugerindo que aquele dinheiro teria sido usado para azeitar o relacionamento da empresa com o poder político.
O presidente da Telecom Italia, Giorgio Della Seta, classificou as denúncias de VEJA como "absurdas, fantasiosas e sórdidas". Ele afirmou ignorar o que Ludgero Pattaro fazia no hotel Renaissance com uma maleta cheia de dinheiro. Naji Nahas também contestou a reportagem, declarando ter recebido regularmente em seu escritório o valor de 3,25 milhões de reais. O caso parecia morto. Eu parecia absurdo, fantasioso e sórdido.
No Natal de 2007, ocorreu uma reviravolta. Recebi de presente mais um documento. Ele consta do inquérito da magistratura milanesa contra a Telecom Italia e confirma integralmente o que VEJA publicou dois anos atrás. Trata-se de um depoimento de Marco Girardi, diretor financeiro da Telecom Italia no Brasil, realizado no dia 11 de novembro passado. Ele confessou o seguinte:
• Giorgio Della Seta, aquele das denúncias "absurdas, fantasiosas e sórdidas", amigo de Lula e de Marta Suplicy, mandou-o preparar um pacote com 1,3 milhão de dólares em dinheiro vivo.
• Um carro-forte fez a entrega de 3,25 milhões de reais na sede da Telecom Italia. Ali mesmo, um cambista trocou os reais por dólares.
• Os dólares foram entregues a Ludgero Pattaro, assessor direto de Giorgio Della Seta. Ele acondicionou o dinheiro em pacotes de diferentes valores, enfiou-o numa maleta e dirigiu-se ao hotel Renaissance, repassando-o a algumas pessoas que Marco Girardi nunca vira.
• Alguns dias depois, Giorgio Della Seta mandou o diretor financeiro entregar mais 406.000 reais a Ludgero Pattaro, para um pagamento análogo.
Mas a história é ainda mais enlameada. Outro diretor da Telecom Italia, Marco Bonera, admitiu em juízo ter transportado 300.000 dólares a Brasília, para recompensar um grupo de deputados federais. A leitura da confissão de Marco Girardi mostra que aqueles 300 000 dólares, adiantados pela Pirelli como "despesas de viagem", fazem parte da transação com Naji Nahas.
Até 2006, a Telecom Italia foi a grande aliada do lulismo na batalha pelo espólio da Brasil Telecom. Um espólio que está para ser cedido à Telemar, por meio de um decreto presidencial. Ludgero Pattaro, o homem da maleta cheia de dólares, é candidato a uma das vagas no conselho consultivo da Anatel, que analisará o negócio. Absurdo? Fantasioso? Sórdido? Sim, tudo isso.
No Natal de 2005, recebi documentos sobre um pagamento de 3,25 milhões de reais da Telecom Italia a Naji Nahas. Tudo ali era suspeito. Um: o pagamento fora efetuado em dinheiro vivo. Dois: o carro-forte entregara o dinheiro na sede da Telecom Italia, em vez de entregá-lo diretamente a Naji Nahas. Três: Naji Nahas faturara 263.000 reais a mais do que o previsto em seu contrato de consultoria.
Passei toda a papelada a VEJA, que publicou uma reportagem sobre o assunto, seguindo o rastro daqueles 3,25 milhões de reais. A reportagem, baseada em fontes da própria Telecom Italia, dizia que o dinheiro fora entregue a um diretor da empresa, Ludgero Pattaro. Ele o enfiara numa maleta e, acompanhado por guarda-costas, encaminhara-se ao hotel Renaissance, onde o repassara a um destinatário de identidade desconhecida. Numa coluna publicada ao lado da reportagem, contei os bastidores do acordo secreto entre a Telecom Italia e o lulismo, sugerindo que aquele dinheiro teria sido usado para azeitar o relacionamento da empresa com o poder político.
O presidente da Telecom Italia, Giorgio Della Seta, classificou as denúncias de VEJA como "absurdas, fantasiosas e sórdidas". Ele afirmou ignorar o que Ludgero Pattaro fazia no hotel Renaissance com uma maleta cheia de dinheiro. Naji Nahas também contestou a reportagem, declarando ter recebido regularmente em seu escritório o valor de 3,25 milhões de reais. O caso parecia morto. Eu parecia absurdo, fantasioso e sórdido.
No Natal de 2007, ocorreu uma reviravolta. Recebi de presente mais um documento. Ele consta do inquérito da magistratura milanesa contra a Telecom Italia e confirma integralmente o que VEJA publicou dois anos atrás. Trata-se de um depoimento de Marco Girardi, diretor financeiro da Telecom Italia no Brasil, realizado no dia 11 de novembro passado. Ele confessou o seguinte:
• Giorgio Della Seta, aquele das denúncias "absurdas, fantasiosas e sórdidas", amigo de Lula e de Marta Suplicy, mandou-o preparar um pacote com 1,3 milhão de dólares em dinheiro vivo.
• Um carro-forte fez a entrega de 3,25 milhões de reais na sede da Telecom Italia. Ali mesmo, um cambista trocou os reais por dólares.
• Os dólares foram entregues a Ludgero Pattaro, assessor direto de Giorgio Della Seta. Ele acondicionou o dinheiro em pacotes de diferentes valores, enfiou-o numa maleta e dirigiu-se ao hotel Renaissance, repassando-o a algumas pessoas que Marco Girardi nunca vira.
• Alguns dias depois, Giorgio Della Seta mandou o diretor financeiro entregar mais 406.000 reais a Ludgero Pattaro, para um pagamento análogo.
Mas a história é ainda mais enlameada. Outro diretor da Telecom Italia, Marco Bonera, admitiu em juízo ter transportado 300.000 dólares a Brasília, para recompensar um grupo de deputados federais. A leitura da confissão de Marco Girardi mostra que aqueles 300 000 dólares, adiantados pela Pirelli como "despesas de viagem", fazem parte da transação com Naji Nahas.
Até 2006, a Telecom Italia foi a grande aliada do lulismo na batalha pelo espólio da Brasil Telecom. Um espólio que está para ser cedido à Telemar, por meio de um decreto presidencial. Ludgero Pattaro, o homem da maleta cheia de dólares, é candidato a uma das vagas no conselho consultivo da Anatel, que analisará o negócio. Absurdo? Fantasioso? Sórdido? Sim, tudo isso.
domingo, janeiro 20, 2008
A selva engole outro ministro!
A que atribuir o longo período de silêncio observado por um campeão da loquacidade, perguntaram-se nos últimos meses os curiosos incontroláveis. Um dia depois de assumir o Ministério do Futuro, Roberto Mangabeira Unger - o único filho da Bahia que sabe falar português com o sotaque de quem nasceu no Mississipi, cresceu em Illinois e acabou de chegar ao Brasil - decidiu espantar o país com uma radical abstinência retórica. Como explicar o mistério? Sobretudo, onde andaria e o que estaria fazendo o Grande Mudo?
Escondido no Retiro dos Ex-Professores de Harvard, ainda convalescendo das escoriações impostas pela duríssima luta para garantir o empregão? Enclausurado num convento da Ordem das Carmelitas Descalças, tentando decifrar o significado do que Lula chama de "ações de longo prazo"? Nada disso, soube-se na terça-feira, quando Mangabeira Unger ressurgiu na Amazônia, à frente da tropa formada por 35 soldados da pátria.
Mais falante que nunca, grávido de idéias como sempre, contou que havia emudecido por meses para pensar na Amazônia. Valera a pena, sugeriu o sorriso que precedeu a caprichada abertura da discurseira - uma frase dividida em dois decassílabos, atados pela rima paupérrima. "Numa região sobra água inutilmente", declamou Mangabeira. "Em outra falta água calamitosamente".
O segundo verso revelou que a reflexão sobre a Amazônia, inspiradora do primeiro, acabara induzindo o incansável pensador a meditar também sobre o Nordeste. Como eliminar tão injusta distribuição das águas fluviais? Simples, ensinou: basta construir um grande aqueduto que transportaria para regiões castigadas pela seca bilhões de litros extraídos do colosso aquático amazonense. Uma espécie de transamazônica fluvial.
Ñão seria mais sensato cuidar primeiro das tantas cidades desprovidas de redes de distribuição de água e sistemas de saneamento básico?, perguntou uma prefeita paraense. Concentrado em ações de longo prazo, Mangabeira não tem tempo de examinar urgências urgentíssimas. Com a cabeça estacionada em 2020, apresentou mais duas idéias singularmente inventivas. Uma envolve o campo do ensino. Outra, a Receita Federal.
Para Mangabeira, em breve só haverá salvação para índios que saibam falar com fluência ao menos dois idiomas. Talvez ignore que, além da língua dos ancestrais, os nativos da selva falam português com mais clareza que Mangabeira. Talvez ignore que, nas aldeias das fronteiras, conversas em espanhol ecoam nas mais modestas malocas. Talvez ache indispensável povoar a Amazônia com professores de inglês. Talvez não saiba o que diz.
Também é necessário criar um imposto destinado a alvejar quem ganha dinheiro com a exploração das incontáveis jazidas semi-ocultas pela mata, comunicou o ministro. E, naturalmente, entregar ao governo o dinheiro sem o qual não será possível levar a região a bom porto. As duas propostas, embora igualmente amalucadas, foram engolidas pelo silêncio coletivo das testemunhas da espetacular reaparição. A platéia perdera a voz depois da história do aqueduto. Por elas falariam os brasileiros que ainda não perderam de vez o juízo.
Alguns sugeriram que se incluísse no PAC, ao lado do aqueduto, a transposição das neves do Rio Grande do Sul para o tórrido Piauí. Outros preferiram presentear Minas Gerais, tão carente de praias, com um bom pedaço da orla cearense. Sem disposição para ironias, o imenso bloco dos indignados reivindicou a imediata devolução de Mangabeira ao campus de Boston, além do enterro sem honras do ministério de araque.
Excelente idéia. O governo federal, que ainda chora o sumiço da dinheirama da CPMF, gastaria na área da saúde o que desperdiça na fantasia forjada para abrigar um maluco de carteirinha apadrinhado pelo vice José Alencar. A Amazônia ficaria livre de um pensador de alta periculosidade. E a sucuri que atuou como figurante na comédia estrelada por Jobim das Selvas escaparia de ser deportada, com as águas do rio que freqüenta, para uma represa no sertão nordestino.
Augusto Nunes
Escondido no Retiro dos Ex-Professores de Harvard, ainda convalescendo das escoriações impostas pela duríssima luta para garantir o empregão? Enclausurado num convento da Ordem das Carmelitas Descalças, tentando decifrar o significado do que Lula chama de "ações de longo prazo"? Nada disso, soube-se na terça-feira, quando Mangabeira Unger ressurgiu na Amazônia, à frente da tropa formada por 35 soldados da pátria.
Mais falante que nunca, grávido de idéias como sempre, contou que havia emudecido por meses para pensar na Amazônia. Valera a pena, sugeriu o sorriso que precedeu a caprichada abertura da discurseira - uma frase dividida em dois decassílabos, atados pela rima paupérrima. "Numa região sobra água inutilmente", declamou Mangabeira. "Em outra falta água calamitosamente".
O segundo verso revelou que a reflexão sobre a Amazônia, inspiradora do primeiro, acabara induzindo o incansável pensador a meditar também sobre o Nordeste. Como eliminar tão injusta distribuição das águas fluviais? Simples, ensinou: basta construir um grande aqueduto que transportaria para regiões castigadas pela seca bilhões de litros extraídos do colosso aquático amazonense. Uma espécie de transamazônica fluvial.
Ñão seria mais sensato cuidar primeiro das tantas cidades desprovidas de redes de distribuição de água e sistemas de saneamento básico?, perguntou uma prefeita paraense. Concentrado em ações de longo prazo, Mangabeira não tem tempo de examinar urgências urgentíssimas. Com a cabeça estacionada em 2020, apresentou mais duas idéias singularmente inventivas. Uma envolve o campo do ensino. Outra, a Receita Federal.
Para Mangabeira, em breve só haverá salvação para índios que saibam falar com fluência ao menos dois idiomas. Talvez ignore que, além da língua dos ancestrais, os nativos da selva falam português com mais clareza que Mangabeira. Talvez ignore que, nas aldeias das fronteiras, conversas em espanhol ecoam nas mais modestas malocas. Talvez ache indispensável povoar a Amazônia com professores de inglês. Talvez não saiba o que diz.
Também é necessário criar um imposto destinado a alvejar quem ganha dinheiro com a exploração das incontáveis jazidas semi-ocultas pela mata, comunicou o ministro. E, naturalmente, entregar ao governo o dinheiro sem o qual não será possível levar a região a bom porto. As duas propostas, embora igualmente amalucadas, foram engolidas pelo silêncio coletivo das testemunhas da espetacular reaparição. A platéia perdera a voz depois da história do aqueduto. Por elas falariam os brasileiros que ainda não perderam de vez o juízo.
Alguns sugeriram que se incluísse no PAC, ao lado do aqueduto, a transposição das neves do Rio Grande do Sul para o tórrido Piauí. Outros preferiram presentear Minas Gerais, tão carente de praias, com um bom pedaço da orla cearense. Sem disposição para ironias, o imenso bloco dos indignados reivindicou a imediata devolução de Mangabeira ao campus de Boston, além do enterro sem honras do ministério de araque.
Excelente idéia. O governo federal, que ainda chora o sumiço da dinheirama da CPMF, gastaria na área da saúde o que desperdiça na fantasia forjada para abrigar um maluco de carteirinha apadrinhado pelo vice José Alencar. A Amazônia ficaria livre de um pensador de alta periculosidade. E a sucuri que atuou como figurante na comédia estrelada por Jobim das Selvas escaparia de ser deportada, com as águas do rio que freqüenta, para uma represa no sertão nordestino.
Augusto Nunes
sexta-feira, janeiro 11, 2008
¿Podemos estar “ante un supremo montaje”?
¿Podemos estar “ante un supremo montaje”?
Aleidy Coll - Noticiero Digital
Viernes, 11 de enero de 2008
“No sé ustedes, amables lectores, pero la imagen de las ¿secuestradas? Doña Consuelo y Clara, no son los rostros y cuerpos de personas que han permanecido sufriendo seis años en cautiverio, en manos de las FARC que han asesinado a tantísimos colombianos”.
Clara Rojas, con moñera y perfecto corte de pelo se despidió hasta con un fuerte beso y apretón de aquellos guerrilleros ¿que la tuvieron como rehén a lo largo de seis calamitosos años? La vimos en mejor estado físico que cuando las FARC dieron la primera y segunda fe de vida.
La ex senadora Consuelo González de Perdomo también con un excelente corte de pelo y hasta arregladita con secador. Bien vestida y de excelente semblante. Maquillada de forma moderada y, en ningún momento dio muestras de preocupación por los seis años alejados de la familia.
De veras, en peor estado estaban los familiares de estas ¿rehenes?, a pesar de que se encuentran hospedadas en el hotel Meliá Caracas. Por ejemplo la madre de Clara Rojas y su hermano Iván le partían el alma al mundo, ¡cuántas lágrimas, cuántos sacrificios!.
También la hija y demás familiares de doña Consuelo, solo se les vio alegría cuando se enteraron por los medios audiovisuales que ya estaban en manos de la Cruz Roja.
Haciendo memoria y revisando los archivos fotográficos de la salida de William Niehous de su cautiverio, mucho más corto por cierto, no entendemos qué tipo de guerrilleros tenían a estas dos orondas damas. El pobre Niehous sin lentes y con un pelo blanco y largo, sin decir de la poblada barba.
Para los más jóvenes les recordamos a Richard Boulton, el esposo de la ex Miss Venezuela, Marena Bencomo. También el joven empresario venezolano estuvo en manos de los irregulares menos tiempo que estas dos damas y salió cual guerrillero barbado y peludo. Flaco y con un semblante que denotaban el hambre, la miseria a que fue sometido por sus captores.
Vamos más acá, ¿se acuerdan del cautiverio de Sergio Omar Calderón, el querido “Cura” Calderon?…bueno salió hablando de todos los Santos, de Dios, de la Virgen y con un rostro que denotaban la mala vida que llevó en un cortísimo tiempo.
Volviendo a las ¿secuestradas? Sentí como si ambas tenían en la espesa selva no solo a un buen peluquero, sino también a un modisto que les permitió cambiar de trajes en varias oportunidades.
Siendo honesta y, al estilo colombiano, siento que estamos ante un supremo montaje de alguien que usó a estas dos damas. Siento que estaban en manos de alguien desde hace algunos meses para robustecerlas (para cambiar la imagen de matones e irregulares de las FARC). Tal vez algunas de las fincas de “los oligarcas bolivarianos” sirvió de reclusión para el parapeteo de estas señoras que, repetimos, distan mucho de aparentar haber estado en manos de las FARC, asesinos de tantos buenos y honestos colombianos.
Que me perdonen, pero de que no tienen aspecto de haber estado secuestradas ¡no lo tienen!. Recuerden los apretones y los besos a la hora de despedirse de sus captores. El tiempo dirá la verdad.
¡Fue un cautiverio 5 estrellas!
http://www.analitica.com/mujeranalitica/lasmujeresopinan/9192295.asp
Aleidy Coll - Noticiero Digital
Viernes, 11 de enero de 2008
“No sé ustedes, amables lectores, pero la imagen de las ¿secuestradas? Doña Consuelo y Clara, no son los rostros y cuerpos de personas que han permanecido sufriendo seis años en cautiverio, en manos de las FARC que han asesinado a tantísimos colombianos”.
Clara Rojas, con moñera y perfecto corte de pelo se despidió hasta con un fuerte beso y apretón de aquellos guerrilleros ¿que la tuvieron como rehén a lo largo de seis calamitosos años? La vimos en mejor estado físico que cuando las FARC dieron la primera y segunda fe de vida.
La ex senadora Consuelo González de Perdomo también con un excelente corte de pelo y hasta arregladita con secador. Bien vestida y de excelente semblante. Maquillada de forma moderada y, en ningún momento dio muestras de preocupación por los seis años alejados de la familia.
De veras, en peor estado estaban los familiares de estas ¿rehenes?, a pesar de que se encuentran hospedadas en el hotel Meliá Caracas. Por ejemplo la madre de Clara Rojas y su hermano Iván le partían el alma al mundo, ¡cuántas lágrimas, cuántos sacrificios!.
También la hija y demás familiares de doña Consuelo, solo se les vio alegría cuando se enteraron por los medios audiovisuales que ya estaban en manos de la Cruz Roja.
Haciendo memoria y revisando los archivos fotográficos de la salida de William Niehous de su cautiverio, mucho más corto por cierto, no entendemos qué tipo de guerrilleros tenían a estas dos orondas damas. El pobre Niehous sin lentes y con un pelo blanco y largo, sin decir de la poblada barba.
Para los más jóvenes les recordamos a Richard Boulton, el esposo de la ex Miss Venezuela, Marena Bencomo. También el joven empresario venezolano estuvo en manos de los irregulares menos tiempo que estas dos damas y salió cual guerrillero barbado y peludo. Flaco y con un semblante que denotaban el hambre, la miseria a que fue sometido por sus captores.
Vamos más acá, ¿se acuerdan del cautiverio de Sergio Omar Calderón, el querido “Cura” Calderon?…bueno salió hablando de todos los Santos, de Dios, de la Virgen y con un rostro que denotaban la mala vida que llevó en un cortísimo tiempo.
Volviendo a las ¿secuestradas? Sentí como si ambas tenían en la espesa selva no solo a un buen peluquero, sino también a un modisto que les permitió cambiar de trajes en varias oportunidades.
Siendo honesta y, al estilo colombiano, siento que estamos ante un supremo montaje de alguien que usó a estas dos damas. Siento que estaban en manos de alguien desde hace algunos meses para robustecerlas (para cambiar la imagen de matones e irregulares de las FARC). Tal vez algunas de las fincas de “los oligarcas bolivarianos” sirvió de reclusión para el parapeteo de estas señoras que, repetimos, distan mucho de aparentar haber estado en manos de las FARC, asesinos de tantos buenos y honestos colombianos.
Que me perdonen, pero de que no tienen aspecto de haber estado secuestradas ¡no lo tienen!. Recuerden los apretones y los besos a la hora de despedirse de sus captores. El tiempo dirá la verdad.
¡Fue un cautiverio 5 estrellas!
http://www.analitica.com/mujeranalitica/lasmujeresopinan/9192295.asp
terça-feira, janeiro 08, 2008
MST 2008
http://www.paznocampo.org.br/
Em pleno Natal, grito de guerra do MST
Uma antiga tradição, observada até nos campos de batalha, nos mostra que no Natal cessa toda beligerância, e os corações se voltam para a Gruta de Belém, na qual nasceu o nosso Salvador, em atitude de oração e ação de graças. As mensagens desse dia são, pois, de paz e esperança.
Contudo, outra é a mentalidade que preside ao MST, aliás coerente com sua doutrina e com os atos ilícitos que ele pratica, acobertado por setores do governo e pela CPT, órgão da CNBB. Basta ver a mensagem que por ocasião do Natal ele dirigiu a seus cúmplices, prometendo para 2008, ao campo e ao agronegócio, não a paz ansiada por todos, mas guerra sem trégua nem quartel!
Curiosamente, a redação original parece ter sido feita por alguém de origem espanhola – quiçá um cubano, ou algum agente das FARCs –, haja vista a utilização do verbo seguir em lugar de continuar.
Os destaques em negrito e os sublinhados são nossos, bem como os comentários entre parêntesis e em itálico.
* * *
Mensagem de Natal do MST aos seus militantesPara o ano que se inicia fica a certeza da continuidade da luta e de que colheremos os frutos das sementes plantadas
21/12/2007
Estimado amigo e amiga do MST,
O ano de 2007 vai chegando ao fim e por isso gostaríamos de socializar com você um balanço político da nossa luta. Queremos prestar contas do que fizemos na nossa trincheira, que é a luta pela Reforma Agrária. Queremos compartilhar com nossos companheiros e companheiras, que militam em outras trincheiras, o que fizemos nesse período, e ao mesmo tempo, reafirmar nosso compromisso na luta pela transformação desta sociedade.
(veja o que diz o MST em seu Documento Básico do MST - aprovado pelo VI Encontro Nacional: 'As ocupações e outras formas massivas de luta pela terra, vão educando as massas para a necessidade da tomada do poder e da implantação de um novo sistema econômico: o socialismo!')
Acreditamos que o ano de 2007 foi importante para a organização da nossa militância, na luta pela Reforma Agrária e também pelas lutas gerais que travamos em alianças com diversos outros movimentos do campo e da cidade. O ano também foi importante para que pudéssemos amadurecer nosso entendimento de que não é possível fazer Reforma Agrária se não derrotarmos o agronegócio. A realização de nosso 5° Congresso Nacional, com mais de 17 mil delegados de todo país, foi fundamental para construirmos a unidade na análise da realidade agrária e na construção de uma nova proposta de Reforma Agrária Popular.
Nos últimos anos houve uma ofensiva das transnacionais sobre a agricultura para controlar terra, sementes, água, solo, enfim, nosso território e nossos recursos naturais. Essa ofensiva ainda é fruto do avanço do neoliberalismo que se instalou no país no início da década de 1990. A correlação de forças mudou. Nossos inimigos ficaram mais fortes. Antes nós estávamos acostumados a brigar contra o latifúndio. Agora nossos inimigos são os latifúndios improdutivos, as empresas transnacionais que querem dominar a agricultura e o agronegócio. Essa avaliação nos levou a compreender que a Reforma Agrária só irá avançar se derrotarmos o neoliberalismo.
(Perfeitamente de acordo com o que diz D.Tomás Balduíno, um dos grandes apoiadores do MST : Pedimos para Deus ajudar o Lula a acabar com as maldições dos transgênicos, do latifúndio, do agronegócio e do trabalho escravo”. Cfr Folha de São Paulo, “Stédile elogia presidente e provoca Palocci 22 de novembro de 2003)
Nossas Lutas
Começamos o ano com uma grande mobilização que marcou o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Em vários estados mulheres trabalhadoras rurais se organizaram em luta por Soberania Alimentar e Contra o Agronegócio. Em São Paulo, as mulheres da Via Campesina ocuparam a Usina Cevasa, agora controlada pela estadunidense Cargill, e em outros estados foram ocupadas áreas da Aracruz Celulose, da Stora Enso e da Boise.
Em abril, realizamos uma grande Jornada de Luta pela Reforma Agrária. Foram feitas marchas, ocupações de latifúndios improdutivos, protestos em prédios públicos, fechamento de praças de pedágios e de estradas em 24 estados, onde estamos organizados. A jornada também cobrou punição aos assassinos dos 19 Sem Terra executados em abril de 1996, em Eldorado dos Carajás (PA). E seguimos em mobilização no mês de maio, quando nos reunimos aos movimentos populares urbanos e centrais sindicais para realizar a jornada unificada do dia 23. 'Nenhum Direito a Menos', contra as reformas neoliberais, a retirada de direitos dos trabalhadores e a política econômica do governo Lula.
No segundo semestre também realizamos atos e ocupações no Dia do Trabalhador Rural, celebrado no dia 25 de julho, quando ocupamos a fazenda Boa Vista, em Alagoas, de propriedade da família Calheiros. Fizemos a Jornada Nacional em Defesa da Educação Pública (realizada em agosto), junto com os estudantes para cobrar acesso às universidades, e participamos da Campanha 'A VALE é Nossa', que teve como ponto alto a realização do plebiscito popular, em setembro. Foram 3.729.538 de brasileiros que participaram, dos quais 94,5% votaram que a VALE não deveria continuar nas mãos do capital privado.
Ocupações e marchas seguiram pelos meses de setembro e outubro, em quase todos os estados, para denunciar o abandono em que se encontra a agricultura familiar e a Reforma Agrária. No Rio Grande do Sul, três colunas de trabalhadores e trabalhadoras marcharam por 62 dias rumo ao grande latifúndio – Fazenda Guerra, em Coqueiros do Sul, para cobrar a desapropriação da área para a Reforma Agrária. E fechamos o ano com as ocupações das sedes da empresa suíça Syngenta Seeds, em vários estados, e com a ocupação da Estrada de Ferro Carajás, da VALE, no estado do Pará.
Não podemos nos calar ao lembrarmos com saudade os companheiros e companheiras que pagaram com a própria vida o direito de lutar. É o caso de Valmir Mota de Oliveira (Keno), executado a sangue frio no dia 21 de outubro, por uma milícia armada contratada pela transnacional Syngenta, em Santa Teresa do Oeste, no Paraná. Perdemos também outros companheiros e companheiras como Maria Salete Ribeiro Moreno (MA), Cirilo de Oliveira Neto (RN), Dênis Santana de Souza (PE), para citar alguns.
(Uma longa lista de crimes, confessados publicamente e apresentados como atos virtuosos que demonstram uma absoluta falta de senso moral ou de justiça. Mostram também que os movimentos ditos sociais são movimentos políticos, que querem a luta de classes e a implantação de um regime socialista em nosso País. Progride e aumenta a união tática desses movimentos que vão minando as instituições nacionais. Pior: vão aproximando os movimentos políticos cada dia mais do que previa Lênin –“ A palavra de ordem da repartição da terra, difusa na massa, serve a nós comunistas para tornar mais próximo o comunismo: quando a vitória da revolução se completar, substituiremos aquela palavra de ordem por outra da ditadura comunista”)
Prioridade na Educação
Em 2007 seguimos investindo em educação e formação. Nossa Campanha Nacional de Solidariedade às Bibliotecas do MST arrecadou mais de 220 mil exemplares de livros! Estamos orgulhosos pelo apoio recebido de muitos parceiros, intelectuais e amigos, que se dispuseram não só a doar os livros, mas também a divulgar nossas idéias. Também temos orgulho dos nossos 2.500 jovens camponeses que estão fazendo graduação em universidades e dos nossos 240 jovens que foram estudar medicina na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Cuba. Também nos orgulhamos do crescimento da Escola Nacional Florestan Fernandes, como um patrimônio, não só para a formação do MST, mas como local de formação de toda a classe trabalhadora.
(Vejamos o que a Revista Época publicou sobre a educação no MST: Há 20 anos eles eram crianças colocadas pelos pais na linha de frente das invasões, para constranger a polícia e suas baionetas. Hoje eles são o comando de ocupações, marchas e saques pelo Brasil afora. A nova geração do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a primeira nascida nos acampamentos e formada nas escolas da organização, chegou ao poder.”
Eis o que pregam alguns desses alunos:
? “Quando boa parte do povo estiver pronta para pegar na enxada, a gente faz uma revolução socialista no Brasil”.
? “Meus pais só queriam um pedaço de terra. Agora queremos mudar a sociedade, mesmo que não seja pela via institucional”.
? “A gente precisa ir para a luta, acampar e viver o desconforto para destruir o capitalista que vive dentro de nós.”
? “Quando 169 milhões de pessoas no País quiserem o socialismo, não vai ter jeito. Nem que seja pela força”.
? “Queremos a socialização dos meios de produção. Vamos adaptar as experiências cubana e soviética ao Brasil”.
Eles querem a revolução! E pela educação vão formar revolucionários para incendiar o campo.e as cidades.”
O ano foi de lutas e se encerra com nosso apoio ao ato do Frei Dom Luiz Cappio, que durante 24 dias permaneceu em greve de fome contra o projeto de transposição do rio São Francisco. Precisamos fortalecer a trincheira da luta contra a transformação de nossos recursos naturais e de nossos bens mais valiosos, como a água, em mercadoria. Apesar da intransigência do governo em abrir o diálogo, concordamos com frei Cappio quando ele diz que 'uma de nossas grandes alegrias neste período foi ter visto o povo se levantando e reacendendo em seu coração a consciência da força da união'.
Sabemos que o próximo ano não será fácil, assim como 2007 não foi. Sabemos que a disputa entre os dois projetos de agricultura vai se acirrar ainda mais. Porque no modelo do agronegócio e das transnacionais não há lugar para os camponeses nem para o povo brasileiro. Eles querem uma agricultura sem agricultores! Por isso seguimos nossa luta contra o agronegócio, pela ampliação da desapropriação de terras para a Reforma Agrária, contra as sementes transgênicas, contra o domínio do capital estrangeiro sobre a agroenergia, contra a expansão da cana e do eucalipto. Lutaremos para impedir o avanço da propriedade estrangeira, que vem dominando nosso território. Em todas essas lutas esperamos encontrar você que sempre nos apoiou.
Um ótimo ano de 2008 para todos (as) nós com muita luta e muitas vitórias! Reforma Agrária: Por Justiça Social e Soberania Popular!
Secretaria Nacional do MST
Em 2008 Seguiremos Lutando e Fazendo Nascer o Impossível !
O que diria nosso Presidente Lula a respeito de tudo isso? Ele já o disse: 'não pensem que eu não acordo de madrugada pensando numa reforma agrária radical..." (cfr. O Estado de São Paulo, 'Apelo por unidade e ameaça de expulsão' 30 de abril de 2003).
sexta-feira, dezembro 28, 2007
Ficamos mais bestiais
Diogo Mainard
Luiz Moyses perdeu a mulher na tragédia da TAM. Na tragédia do Aeroporto de Congonhas. Na tragédia do Airbus. Na tragédia da Anac. Na tragédia da Infraero. Na tragédia de Lula. Chame do jeito que quiser.
Luiz Moyses era de Porto Alegre. Depois do acidente, a TAM o acomodou no Hotel Blue Tree, em Moema, perto de Congonhas. Em 31 de agosto de 2007, à noite, ele estava no bar do hotel, acompanhado por dois outros familiares de vítimas do Airbus. No mesmo dia, ocorrera a abertura do III Congresso Nacional do PT. Mais de 150 delegados do partido também estavam hospedados no Hotel Blue Tree. O PT sempre se deu bem com o Hotel Blue Tree. Um dos delegados petistas foi confraternizar com Luiz Moyses, imaginando que ele fosse um correligionário. Luiz Moyses repeliu-o dizendo que Lula era o culpado pela morte de sua mulher. O delegado petista tentou agredi-lo. Insultou-o. Disse que os parentes dos mortos da TAM estavam chorando demais. O agressor só foi contido pelo deputado baiano Joseph Bandeira e pelos guarda-costas do partido.
O próprio Luiz Moyses relatou-me o episódio alguns meses atrás. Nesta semana, à procura de uma imagem que sintetizasse o ano, lembrei-me dele. Mais do que pelo acidente de Congonhas, 2007 ficará marcado pela bestialidade que deflagrou. Da alegria indecente de Lula na posse de Nelson Jobim ao top, top, top de Marco Aurélio Garcia quando o Jornal Nacional falou sobre o reversor pifado, o Brasil desceu mais uns degrauzinhos na escala de civilidade.
Em 2005 e 2006, o conflito foi entre lulistas e antilulistas, entre achacadores e achacados, entre quadrilheiros de um bando e de outro. 2007 foi pior: o conflito passou a ser mais essencial, mais primário, entre a selvageria e a humanidade. Os fatos do Hotel Blue Tree resumem idealmente o que aconteceu no país nos últimos tempos. Num artigo pomposo como este, em que se analisa o passado em busca de ensinamentos para o futuro, cai bem citar um autor ilustre.
É kitsch, mas cai bem. Pensando em Lula, em Marco Aurélio Garcia e no agressor de Luiz Moyses, cito o autor mais manjado de todos, Samuel Johnson: "A piedade não é natural ao homem. Crianças são sempre cruéis. Selvagens são sempre cruéis. A piedade é adquirida e aperfeiçoada pelo cultivo da razão".
A mulher de Luiz Moyses chamava-se Nádia. Foi sua primeira namorada. Eram casados havia sete anos. Quando Nádia morreu, Luiz Moyses vendeu sua empresa e mudou-se de Porto Alegre. Atualmente, ele tenta reconstruir sua vida em outro lugar, ao mesmo tempo que coordena as atividades do grupo de parentes dos 199 mortos de Congonhas. Chegou a ser recebido por Lula no Palácio do Planalto. Perguntou o motivo do descaso do governo com a segurança nos aeroportos. Lula respondeu, segundo ele, que "o povo brasileiro nunca pediu segurança, pediu que modernizássemos os terminais". Lula teria acrescentado que o Brasil "possui os melhores terminais do mundo, com shopping center e tudo o mais".
O ano acabou. A tragédia da TAM ficou para trás. Menos para Luiz Moyses e todas as pessoas que perderam parentes ou amigos. Eles continuam a buscar respostas para os acontecimentos daquele fim de tarde de julho. Reúnem-se, confortam-se, trocam mensagens. A última suspeita que circula entre eles é que o piloto do Airbus teria pedido autorização para aterrissar no Aeroporto de Guarulhos, mas tivera seu pedido negado pelos controladores. Em 2007, o Brasil pediu para aterrissar numa pista longa e segura, mas acabou numa pista incerta e escorregadia, "com shopping center e tudo o mais".
Luiz Moyses perdeu a mulher na tragédia da TAM. Na tragédia do Aeroporto de Congonhas. Na tragédia do Airbus. Na tragédia da Anac. Na tragédia da Infraero. Na tragédia de Lula. Chame do jeito que quiser.
Luiz Moyses era de Porto Alegre. Depois do acidente, a TAM o acomodou no Hotel Blue Tree, em Moema, perto de Congonhas. Em 31 de agosto de 2007, à noite, ele estava no bar do hotel, acompanhado por dois outros familiares de vítimas do Airbus. No mesmo dia, ocorrera a abertura do III Congresso Nacional do PT. Mais de 150 delegados do partido também estavam hospedados no Hotel Blue Tree. O PT sempre se deu bem com o Hotel Blue Tree. Um dos delegados petistas foi confraternizar com Luiz Moyses, imaginando que ele fosse um correligionário. Luiz Moyses repeliu-o dizendo que Lula era o culpado pela morte de sua mulher. O delegado petista tentou agredi-lo. Insultou-o. Disse que os parentes dos mortos da TAM estavam chorando demais. O agressor só foi contido pelo deputado baiano Joseph Bandeira e pelos guarda-costas do partido.
O próprio Luiz Moyses relatou-me o episódio alguns meses atrás. Nesta semana, à procura de uma imagem que sintetizasse o ano, lembrei-me dele. Mais do que pelo acidente de Congonhas, 2007 ficará marcado pela bestialidade que deflagrou. Da alegria indecente de Lula na posse de Nelson Jobim ao top, top, top de Marco Aurélio Garcia quando o Jornal Nacional falou sobre o reversor pifado, o Brasil desceu mais uns degrauzinhos na escala de civilidade.
Em 2005 e 2006, o conflito foi entre lulistas e antilulistas, entre achacadores e achacados, entre quadrilheiros de um bando e de outro. 2007 foi pior: o conflito passou a ser mais essencial, mais primário, entre a selvageria e a humanidade. Os fatos do Hotel Blue Tree resumem idealmente o que aconteceu no país nos últimos tempos. Num artigo pomposo como este, em que se analisa o passado em busca de ensinamentos para o futuro, cai bem citar um autor ilustre.
É kitsch, mas cai bem. Pensando em Lula, em Marco Aurélio Garcia e no agressor de Luiz Moyses, cito o autor mais manjado de todos, Samuel Johnson: "A piedade não é natural ao homem. Crianças são sempre cruéis. Selvagens são sempre cruéis. A piedade é adquirida e aperfeiçoada pelo cultivo da razão".
A mulher de Luiz Moyses chamava-se Nádia. Foi sua primeira namorada. Eram casados havia sete anos. Quando Nádia morreu, Luiz Moyses vendeu sua empresa e mudou-se de Porto Alegre. Atualmente, ele tenta reconstruir sua vida em outro lugar, ao mesmo tempo que coordena as atividades do grupo de parentes dos 199 mortos de Congonhas. Chegou a ser recebido por Lula no Palácio do Planalto. Perguntou o motivo do descaso do governo com a segurança nos aeroportos. Lula respondeu, segundo ele, que "o povo brasileiro nunca pediu segurança, pediu que modernizássemos os terminais". Lula teria acrescentado que o Brasil "possui os melhores terminais do mundo, com shopping center e tudo o mais".
O ano acabou. A tragédia da TAM ficou para trás. Menos para Luiz Moyses e todas as pessoas que perderam parentes ou amigos. Eles continuam a buscar respostas para os acontecimentos daquele fim de tarde de julho. Reúnem-se, confortam-se, trocam mensagens. A última suspeita que circula entre eles é que o piloto do Airbus teria pedido autorização para aterrissar no Aeroporto de Guarulhos, mas tivera seu pedido negado pelos controladores. Em 2007, o Brasil pediu para aterrissar numa pista longa e segura, mas acabou numa pista incerta e escorregadia, "com shopping center e tudo o mais".
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Fim da metamorfose
Jarbas Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador
O presidente Lula, citando versos do cantor Raul Seixas, disse ser “uma metamorfose ambulante”. Pedro Malan, em artigo em O Estado de S.Paulo, de 8 do corrente, sob o título “Metamorfoses”, começa por salientar que o verso todo é: “Prefiro ser metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pleno de citações que mostram erudição, o autor começa por lembrar a frase de Keynes: “Quando mudam as circunstâncias de forma significativa, eu mudo de opinião. Você o que faz?”
Os políticos mais lidos, para justificar a mudança de partido ou de convicção de doutrina política, servem-se do grande estadista do Segundo Império, o ilustre mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, pilastra do Partido Liberal. Aos que o alcunhavam de trânsfuga, porque se passara para o Partido Conservador, defendeu-se: “Fui liberal; então a liberdade era nova no país, estava na aspiração de todos, mas não nas leis; o poder era tudo. Hoje, é diverso o aspecto da sociedade; os princípios democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade que corria pelo poder, corre agora o risco pela desorganização e anarquia e por isso sou regressista. Não sou trânsfuga”.
O sumo de seu argumento é que se antes lutara contra o despotismo, agora passara a ver o perigo da anarquia. Raul Seixas devia ser o patrono dos que desrespeitam a fidelidade partidária e mudam constantemente de partido por não mais quererem “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Malan adverte que “há riscos em ser a metamorfose excessivamente ambulante”.
O presidente, reiteradamente, disse que não era de esquerda. Decepcionou petistas “históricos”, do sociólogo Francisco de Oliveira à brava senadora Heloísa Helena, passando pelo consultor de empresas José Danon, que usou esta frase, entre ironia e lástima: “Acho que votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou”. A frase engloba os que pensaram que Lula seria o símbolo da virada socialista da América Latina, de par com os burgueses que entendem de socialismo tanto quanto minha velha avó entendia de logaritmo neperiano ou física quântica.
Hábil, fez a primeira de muitas metamorfoses, aderindo aos mandamentos do populismo, tão bem analisados pelo historiador mexicano Enrique Krause, especialmente aquele mandamento que diz: “O populista não só usa da palavra. Ele se apropria dela, veículo específico de seu carisma”. Ele, as pesquisas de opinião consagram. Já a sua aprovação chega a 65%, o que não teria alcançado se os pensadores esquerdistas históricos lhe fizessem prisioneiro das velhas opiniões de Marx e os servos da ética o fizessem Catão, o Antigo, a impedir o assalto aos cofres da viúva chamada República.
Se houvesse pesquisa, não popular, mas entre os parlamentares brasileiros, aposto que mais de 90% não saberiam dizer o que foi — e continua a ser — o Foro de São Paulo, fundado em 1990, espécie de convenção das esquerdas sul-americanas, iniciativa do Partido Comunista de Cuba. A ilustre companhia reunida na capital de São Paulo tinha todas as alternativas revolucionárias da práxis leninista, a partir dos guerrilheiros das Farc, comunistas da Colômbia, que são financiados pelos traficantes de cocaína, fazem milhares de seqüestros para receberem resgates, exceto dos muitos mantidos como moeda de troca pelos 500 guerrilheiros presos, o que não se deu até agora, e há mais de 44 anos não se deixam abater pelos governos democráticos locais.
Comparsas foram também, no Foro de São Paulo, os extremistas comunistas chilenos, que combatem o socialismo democrático, e a caterva dos revolucionários argentinos, venezuelanos e bolivianos que tinham como lema “fazer dar certo o que não deu no Leste Europeu”. Basta isso para definir o Foro no espectro das esquerdas. Dele participou, com destaque, o então líder sindical presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, derrotado candidato à Presidência em 1989. Ele era, por dedução lógica, um homem de esquerda acolitado pelo extremista Marco Aurélio Garcia, hoje seu assessor especial para política externa.
Na comemoração dos 15 anos do Foro, o orador principal foi Lula. Recordou, saudoso e feliz, a criação do Foro e exemplificou as conquistas na Venezuela, Bolívia e Uruguai. Muito aplaudido, exortou os companheiros: “O que nós precisamos é trabalhar para consolidar, para que a gente não permita que haja qualquer retrocesso nessas conquistas”. Recentemente, em Belém do Pará, enlevou-o a reminiscência da fundação e das conquistas do Foro de São Paulo, o que prova que todas as metamorfoses anteriores disfarçaram, camufladas, a verdadeira imagem reiterada no calor do portal da Amazônia, o que por si só desnuda a articulação ideológica com os caribenhos e os andinos, a ocupação militar de nossas refinarias na Bolívia e a leniência com os insultos do caudilho da Venezuela. Tudo subordinadamente aceito, pelo bem da causa do “socialismo do século 21”, a matriz que marca o fim das metamorfoses já desnecessárias.
Foi ministro de Estado, governador e senador
O presidente Lula, citando versos do cantor Raul Seixas, disse ser “uma metamorfose ambulante”. Pedro Malan, em artigo em O Estado de S.Paulo, de 8 do corrente, sob o título “Metamorfoses”, começa por salientar que o verso todo é: “Prefiro ser metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pleno de citações que mostram erudição, o autor começa por lembrar a frase de Keynes: “Quando mudam as circunstâncias de forma significativa, eu mudo de opinião. Você o que faz?”
Os políticos mais lidos, para justificar a mudança de partido ou de convicção de doutrina política, servem-se do grande estadista do Segundo Império, o ilustre mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, pilastra do Partido Liberal. Aos que o alcunhavam de trânsfuga, porque se passara para o Partido Conservador, defendeu-se: “Fui liberal; então a liberdade era nova no país, estava na aspiração de todos, mas não nas leis; o poder era tudo. Hoje, é diverso o aspecto da sociedade; os princípios democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade que corria pelo poder, corre agora o risco pela desorganização e anarquia e por isso sou regressista. Não sou trânsfuga”.
O sumo de seu argumento é que se antes lutara contra o despotismo, agora passara a ver o perigo da anarquia. Raul Seixas devia ser o patrono dos que desrespeitam a fidelidade partidária e mudam constantemente de partido por não mais quererem “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Malan adverte que “há riscos em ser a metamorfose excessivamente ambulante”.
O presidente, reiteradamente, disse que não era de esquerda. Decepcionou petistas “históricos”, do sociólogo Francisco de Oliveira à brava senadora Heloísa Helena, passando pelo consultor de empresas José Danon, que usou esta frase, entre ironia e lástima: “Acho que votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou”. A frase engloba os que pensaram que Lula seria o símbolo da virada socialista da América Latina, de par com os burgueses que entendem de socialismo tanto quanto minha velha avó entendia de logaritmo neperiano ou física quântica.
Hábil, fez a primeira de muitas metamorfoses, aderindo aos mandamentos do populismo, tão bem analisados pelo historiador mexicano Enrique Krause, especialmente aquele mandamento que diz: “O populista não só usa da palavra. Ele se apropria dela, veículo específico de seu carisma”. Ele, as pesquisas de opinião consagram. Já a sua aprovação chega a 65%, o que não teria alcançado se os pensadores esquerdistas históricos lhe fizessem prisioneiro das velhas opiniões de Marx e os servos da ética o fizessem Catão, o Antigo, a impedir o assalto aos cofres da viúva chamada República.
Se houvesse pesquisa, não popular, mas entre os parlamentares brasileiros, aposto que mais de 90% não saberiam dizer o que foi — e continua a ser — o Foro de São Paulo, fundado em 1990, espécie de convenção das esquerdas sul-americanas, iniciativa do Partido Comunista de Cuba. A ilustre companhia reunida na capital de São Paulo tinha todas as alternativas revolucionárias da práxis leninista, a partir dos guerrilheiros das Farc, comunistas da Colômbia, que são financiados pelos traficantes de cocaína, fazem milhares de seqüestros para receberem resgates, exceto dos muitos mantidos como moeda de troca pelos 500 guerrilheiros presos, o que não se deu até agora, e há mais de 44 anos não se deixam abater pelos governos democráticos locais.
Comparsas foram também, no Foro de São Paulo, os extremistas comunistas chilenos, que combatem o socialismo democrático, e a caterva dos revolucionários argentinos, venezuelanos e bolivianos que tinham como lema “fazer dar certo o que não deu no Leste Europeu”. Basta isso para definir o Foro no espectro das esquerdas. Dele participou, com destaque, o então líder sindical presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, derrotado candidato à Presidência em 1989. Ele era, por dedução lógica, um homem de esquerda acolitado pelo extremista Marco Aurélio Garcia, hoje seu assessor especial para política externa.
Na comemoração dos 15 anos do Foro, o orador principal foi Lula. Recordou, saudoso e feliz, a criação do Foro e exemplificou as conquistas na Venezuela, Bolívia e Uruguai. Muito aplaudido, exortou os companheiros: “O que nós precisamos é trabalhar para consolidar, para que a gente não permita que haja qualquer retrocesso nessas conquistas”. Recentemente, em Belém do Pará, enlevou-o a reminiscência da fundação e das conquistas do Foro de São Paulo, o que prova que todas as metamorfoses anteriores disfarçaram, camufladas, a verdadeira imagem reiterada no calor do portal da Amazônia, o que por si só desnuda a articulação ideológica com os caribenhos e os andinos, a ocupação militar de nossas refinarias na Bolívia e a leniência com os insultos do caudilho da Venezuela. Tudo subordinadamente aceito, pelo bem da causa do “socialismo do século 21”, a matriz que marca o fim das metamorfoses já desnecessárias.
domingo, dezembro 16, 2007
O dia em que o PSDB foi PT
Lula e o PT foram contra todos os pactos engendrados para o bem do país: eleição de Tancredo, para sair da ditadura; apoio a Sarney, para consolidar a redemocratização; aval à nova Constituição, em 1988; sustentação de Itamar, na transição pós-Collor
BRASÍLIA - Lula e o PT foram contra todos os pactos engendrados para o bem do país: eleição de Tancredo, para sair da ditadura; apoio a Sarney, para consolidar a redemocratização; aval à nova Constituição, em 1988; sustentação de Itamar, na transição pós-Collor; estabilização da economia na era FHC, velho parceiro antiditadura.
Por quê? Porque o objetivo de Lula e do PT era marcar posição e chegar ao poder. Demorou, mas deu certo. Venceram e se reelegeram.
Foi exatamente essa a lógica dos deputados e senadores tucanos ao derrotar a CPMF. Lula está forte. O Congresso, os partidos e a oposição, em particular, estão frágeis. Dar R$ 40 bi para o Planalto, que já conta com ventos internacionais favoráveis, carga tributária escorchante e arrecadação recorde, seria dar a vitória ao adversário em 2008 e fortalecê-lo para 2010. Não era, pois, da lógica de oposição.
Serra e Aécio têm um governo estadual e a perspectiva de subir a rampa. Ambos tinham interesse em negociar com o Planalto e em salvar a parte que lhes cabe e lhes caberia do latifúndio da CPMF. Mas, para poderem usar a CPMF na Presidência, eles precisam, antes, chegar lá. Não é fortalecendo um Lula já forte que vão conseguir.
E o que o PSDB lucraria recuando de última hora para votar com o Planalto? Seria uma desmoralização. Não ganharia um só voto do eleitorado de Lula e irritaria o seu próprio eleitorado, cansado de uma oposição débil e errática.
Foi a maior derrota política do governo Lula em seis anos -e dói no bolso. Contra a parede, o governo dá tratos à bola para anunciar nesta semana um presente de Natal às avessas. Novos impostos e corte de gastos? Porque o fundamental agora, para todos, é recompor os recursos da saúde, literalmente vital. Interessa a governos criar e manter impostos. Cabe à oposição acabar com eles. A quarta-feira, 12/12, foi o dia em que o PSDB foi PT.
Eliane Catanhede
Lula e o PT foram contra todos os pactos engendrados para o bem do país: eleição de Tancredo, para sair da ditadura; apoio a Sarney, para consolidar a redemocratização; aval à nova Constituição, em 1988; sustentação de Itamar, na transição pós-Collor
BRASÍLIA - Lula e o PT foram contra todos os pactos engendrados para o bem do país: eleição de Tancredo, para sair da ditadura; apoio a Sarney, para consolidar a redemocratização; aval à nova Constituição, em 1988; sustentação de Itamar, na transição pós-Collor; estabilização da economia na era FHC, velho parceiro antiditadura.
Por quê? Porque o objetivo de Lula e do PT era marcar posição e chegar ao poder. Demorou, mas deu certo. Venceram e se reelegeram.
Foi exatamente essa a lógica dos deputados e senadores tucanos ao derrotar a CPMF. Lula está forte. O Congresso, os partidos e a oposição, em particular, estão frágeis. Dar R$ 40 bi para o Planalto, que já conta com ventos internacionais favoráveis, carga tributária escorchante e arrecadação recorde, seria dar a vitória ao adversário em 2008 e fortalecê-lo para 2010. Não era, pois, da lógica de oposição.
Serra e Aécio têm um governo estadual e a perspectiva de subir a rampa. Ambos tinham interesse em negociar com o Planalto e em salvar a parte que lhes cabe e lhes caberia do latifúndio da CPMF. Mas, para poderem usar a CPMF na Presidência, eles precisam, antes, chegar lá. Não é fortalecendo um Lula já forte que vão conseguir.
E o que o PSDB lucraria recuando de última hora para votar com o Planalto? Seria uma desmoralização. Não ganharia um só voto do eleitorado de Lula e irritaria o seu próprio eleitorado, cansado de uma oposição débil e errática.
Foi a maior derrota política do governo Lula em seis anos -e dói no bolso. Contra a parede, o governo dá tratos à bola para anunciar nesta semana um presente de Natal às avessas. Novos impostos e corte de gastos? Porque o fundamental agora, para todos, é recompor os recursos da saúde, literalmente vital. Interessa a governos criar e manter impostos. Cabe à oposição acabar com eles. A quarta-feira, 12/12, foi o dia em que o PSDB foi PT.
Eliane Catanhede
segunda-feira, dezembro 10, 2007
A marcha da insensatez bolivariana!!!
Paulo Guedes - Época
“Não se perde a liberdade de uma só vez”, alerta-nos o filósofo inglês David Hume. Os sintomas da gradual asfixia da democracia venezuelana são claros, e seu diagnóstico é conhecido.
Sintoma número 1
O presidente Hugo Chávez brada diante das câmeras de TV: “Foi uma vitória de m...!”. Referia-se à vitória da oposição no plebiscito que rejeitou sua proposta de reforma constitucional.
Diagnóstico: “Na mais visual de todas as formas, o fascismo se apresenta por imagens vívidas de um demagogo discursando bombasticamente para uma multidão em êxtase. Tendo chegado ao poder na legalidade, líderes fascistas podiam exercê-lo apenas nos termos da Constituição. Seu poder era limitado. O golpe dos fascistas foi transformar um cargo constitucional em autoridade pessoal ilimitada, controlando por completo o Estado. Os Parlamentos perderam o poder, e as eleições foram substituídas por plebiscitos do tipo ‘sim ou não’” (Robert Paxton, A Anatomia do Fascismo, 2005).
Sintoma número 2
Os chefes das Forças Armadas venezuelanas reafirmam seu apoio a Chávez aos gritos de “Pátria, socialismo ou morte!”.
Diagnóstico: “A conciliação do socialismo com os métodos democráticos pertence ao mundo das utopias. O socialismo não é o caminho para a liberdade, e sim para ditaduras a favor e contra. Um caminho para a guerra civil da mais feroz espécie. A ascensão do nazismo e do fascismo não foi apenas uma reação às tendências socialistas do período precedente, e sim uma conseqüência dessas tendências. A transição do socialismo ao nacional-socialismo ou ao fascismo foi inevitável. Representando pólos aparentemente opostos no espectro político, eram apenas as duas faces das mesmas tendências totalitárias” (Friedrich A. Hayek, O Caminho da Servidão, 1944).
Sintoma número 3
O fechamento da RCTV e a ameaça de abertura de processo contra a rede de TV CNN por “incentivar seu assassinato”.
Diagnóstico: “As palavras de ordem e as manifestações de massa foram comuns aos nazistas e fascistas, bem como a gradual interdição da imprensa por um conjunto de leis e decretos, sempre assegurando a legalidade do sistema” (Louis Dupeux, História Cultural da Alemanha, 1989).
Sintoma número 4
A demonização do capitalismo internacional e particularmente da liderança econômica americana.
Diagnóstico: “Os primeiros movimentos fascistas atacaram o capitalismo financeiro internacional com veemência. Prometeram expropriar terras em favor de camponeses. Atraíram as vítimas da globalização e os perdedores da modernização usando as técnicas de propaganda mais modernas” (Paxton).
Sintoma número 5
Líder, povo, identidade, poder e Constituição “bolivarianos”.
Diagnóstico: “Política de massas, o fascismo tentava apelar sobretudo às emoções pelo uso de retórica intensamente carregada. O fascismo ajuda um povo a realizar seu destino. Repousa na união mística do líder com o destino histórico de seu povo, agora consciente de sua identidade e de seu poder” (Paxton).
Sintoma número 6
Militantes chavistas espancando universitários e opositores.
Diagnóstico: “Um artifício usado pelos totalitaristas eram as estruturas paralelas, tanto na ascensão quanto no exercício do poder. O Estado oficial e essas estruturas conferiam ao regime sua bizarra mistura de legalidade e violência arbitrária” (Paxton).
Se “nos tornamos mais sábios quando reconhecemos que muito do que já fizemos foi insensato”, como afirma Hayek, a tentativa de reengenharia de um socialismo “bolivariano” no século XXI revela a completa ausência de sabedoria. Uma insensatez “bolivariana”.
“Não se perde a liberdade de uma só vez”, alerta-nos o filósofo inglês David Hume. Os sintomas da gradual asfixia da democracia venezuelana são claros, e seu diagnóstico é conhecido.
Sintoma número 1
O presidente Hugo Chávez brada diante das câmeras de TV: “Foi uma vitória de m...!”. Referia-se à vitória da oposição no plebiscito que rejeitou sua proposta de reforma constitucional.
Diagnóstico: “Na mais visual de todas as formas, o fascismo se apresenta por imagens vívidas de um demagogo discursando bombasticamente para uma multidão em êxtase. Tendo chegado ao poder na legalidade, líderes fascistas podiam exercê-lo apenas nos termos da Constituição. Seu poder era limitado. O golpe dos fascistas foi transformar um cargo constitucional em autoridade pessoal ilimitada, controlando por completo o Estado. Os Parlamentos perderam o poder, e as eleições foram substituídas por plebiscitos do tipo ‘sim ou não’” (Robert Paxton, A Anatomia do Fascismo, 2005).
Sintoma número 2
Os chefes das Forças Armadas venezuelanas reafirmam seu apoio a Chávez aos gritos de “Pátria, socialismo ou morte!”.
Diagnóstico: “A conciliação do socialismo com os métodos democráticos pertence ao mundo das utopias. O socialismo não é o caminho para a liberdade, e sim para ditaduras a favor e contra. Um caminho para a guerra civil da mais feroz espécie. A ascensão do nazismo e do fascismo não foi apenas uma reação às tendências socialistas do período precedente, e sim uma conseqüência dessas tendências. A transição do socialismo ao nacional-socialismo ou ao fascismo foi inevitável. Representando pólos aparentemente opostos no espectro político, eram apenas as duas faces das mesmas tendências totalitárias” (Friedrich A. Hayek, O Caminho da Servidão, 1944).
Sintoma número 3
O fechamento da RCTV e a ameaça de abertura de processo contra a rede de TV CNN por “incentivar seu assassinato”.
Diagnóstico: “As palavras de ordem e as manifestações de massa foram comuns aos nazistas e fascistas, bem como a gradual interdição da imprensa por um conjunto de leis e decretos, sempre assegurando a legalidade do sistema” (Louis Dupeux, História Cultural da Alemanha, 1989).
Sintoma número 4
A demonização do capitalismo internacional e particularmente da liderança econômica americana.
Diagnóstico: “Os primeiros movimentos fascistas atacaram o capitalismo financeiro internacional com veemência. Prometeram expropriar terras em favor de camponeses. Atraíram as vítimas da globalização e os perdedores da modernização usando as técnicas de propaganda mais modernas” (Paxton).
Sintoma número 5
Líder, povo, identidade, poder e Constituição “bolivarianos”.
Diagnóstico: “Política de massas, o fascismo tentava apelar sobretudo às emoções pelo uso de retórica intensamente carregada. O fascismo ajuda um povo a realizar seu destino. Repousa na união mística do líder com o destino histórico de seu povo, agora consciente de sua identidade e de seu poder” (Paxton).
Sintoma número 6
Militantes chavistas espancando universitários e opositores.
Diagnóstico: “Um artifício usado pelos totalitaristas eram as estruturas paralelas, tanto na ascensão quanto no exercício do poder. O Estado oficial e essas estruturas conferiam ao regime sua bizarra mistura de legalidade e violência arbitrária” (Paxton).
Se “nos tornamos mais sábios quando reconhecemos que muito do que já fizemos foi insensato”, como afirma Hayek, a tentativa de reengenharia de um socialismo “bolivariano” no século XXI revela a completa ausência de sabedoria. Uma insensatez “bolivariana”.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A comédia que virou chanchada
Augusto Nunes
Encenado em 1995 e em 1999, o espetáculo da prorrogação da CPMF nunca chegou a prender a atenção da platéia brasileira. Nas duas apresentações, dirigidas por Fernando Henrique Cardoso, o elenco seguiu burocraticamente o enredo, baseado no combate travado entre o poderoso exército governista, favorável à sobrevida do imposto do cheque, e tropas oposicionistas agarradas ao argumento segundo o qual provisório é provisório. Não é sinônimo de permanente.
Em ambas as temporadas, o que deveria ser um drama acabou virando comédia - e de quinta categoria - minutos depois de descerradas as cortinas. "O Brasil não sobreviverá sem a CPMF", garantia um general governista. A platéia caía na gargalhada: como levar a sério alguém que falava linguagem de vilão com sotaque de mocinho? "O governo que gaste menos", revidava a ordem de um guerreiro oposicionista. A platéia morria de rir: como levar a sério alguém que bancava o herói sem conseguir disfarçar a cara de bandido?
Novamente em cena desde setembro, o drama reduzido a comédia de mau gosto pelo script farsesco, pela escassa imaginação do diretor e pela canastrice do elenco, vai se transformando na mais espantosa chanchada já apresentada no Teatrão do Planalto. Promovido a diretor de elenco em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma radical inversão de papéis: quem era isto agora é aquilo. Os que juravam de morte a CPMF passaram a defendê-la a tiros. Os que lutavam para prolongar-lhe a vida resolveram enterrá-la já. Sem choro nem vela. E em cova rasa.
A confusão decorrente da abrupta reviravolta - não é tão simples decorar falas que não faz muito estavam em outras bocas - foi ampliada consideravelmente quando o diretor resolveu assumir também as funções de roteirista e retocar a história a machadadas. Começou infiltrando cenas em que soldados oposicionistas se viram tentados com mimos e favores a mudar de uniforme.
Não funcionou, e Lula teve outra idéia: abreviar o desfecho com a assinatura de um tratado de paz entre as partes em conflito. Também não funcionou. Louco por um palco, o diretor e roteirista Lula achou que chegara a hora de brilhar como ator. E a coisa desandou de vez. No papel de comandante da turma decidida a explodir a CPMF, não fizera feio nos espetáculos dirigidos por FH. Seria diferente desta vez.
O artista voltou ao palco há uma semana. Não mudaram a voz roufenha, a cara zangada, o olhar feroz e a língua sempre solta. Antes como agora, em cena Lula não fala; vocifera. Mas o avesso do personagem passou a vociferar o contrário do que dizia. Ficou muito estranho. Como um John Wayne no papel de bandidão. Como Jack Palance bancando o mocinho.
"A CPMF é o mais justo dos impostos", grita o ator que, nas versões anteriores, qualificava de "coisa de golpista" a prorrogação do tributo. "Só sonegador é contra esse imposto", acusa a garganta que durante 10 anos até nos ensaios se entusiasmava com textos que comprovavam os estragos impostos à classe média pelo monstrengo inconstitucional. A dedicação do ator só serve para comprovar que, na ficção ou na vida real, Lula não tem compromisso com a coerência.
Nem com a palavra empenhada. Em 1999, fazendo coro com todo o elenco, Lula garantiu que o espetáculo nunca mais seria encenado. Renovou a promessa em 2006. Era mentira.
Encenado em 1995 e em 1999, o espetáculo da prorrogação da CPMF nunca chegou a prender a atenção da platéia brasileira. Nas duas apresentações, dirigidas por Fernando Henrique Cardoso, o elenco seguiu burocraticamente o enredo, baseado no combate travado entre o poderoso exército governista, favorável à sobrevida do imposto do cheque, e tropas oposicionistas agarradas ao argumento segundo o qual provisório é provisório. Não é sinônimo de permanente.
Em ambas as temporadas, o que deveria ser um drama acabou virando comédia - e de quinta categoria - minutos depois de descerradas as cortinas. "O Brasil não sobreviverá sem a CPMF", garantia um general governista. A platéia caía na gargalhada: como levar a sério alguém que falava linguagem de vilão com sotaque de mocinho? "O governo que gaste menos", revidava a ordem de um guerreiro oposicionista. A platéia morria de rir: como levar a sério alguém que bancava o herói sem conseguir disfarçar a cara de bandido?
Novamente em cena desde setembro, o drama reduzido a comédia de mau gosto pelo script farsesco, pela escassa imaginação do diretor e pela canastrice do elenco, vai se transformando na mais espantosa chanchada já apresentada no Teatrão do Planalto. Promovido a diretor de elenco em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma radical inversão de papéis: quem era isto agora é aquilo. Os que juravam de morte a CPMF passaram a defendê-la a tiros. Os que lutavam para prolongar-lhe a vida resolveram enterrá-la já. Sem choro nem vela. E em cova rasa.
A confusão decorrente da abrupta reviravolta - não é tão simples decorar falas que não faz muito estavam em outras bocas - foi ampliada consideravelmente quando o diretor resolveu assumir também as funções de roteirista e retocar a história a machadadas. Começou infiltrando cenas em que soldados oposicionistas se viram tentados com mimos e favores a mudar de uniforme.
Não funcionou, e Lula teve outra idéia: abreviar o desfecho com a assinatura de um tratado de paz entre as partes em conflito. Também não funcionou. Louco por um palco, o diretor e roteirista Lula achou que chegara a hora de brilhar como ator. E a coisa desandou de vez. No papel de comandante da turma decidida a explodir a CPMF, não fizera feio nos espetáculos dirigidos por FH. Seria diferente desta vez.
O artista voltou ao palco há uma semana. Não mudaram a voz roufenha, a cara zangada, o olhar feroz e a língua sempre solta. Antes como agora, em cena Lula não fala; vocifera. Mas o avesso do personagem passou a vociferar o contrário do que dizia. Ficou muito estranho. Como um John Wayne no papel de bandidão. Como Jack Palance bancando o mocinho.
"A CPMF é o mais justo dos impostos", grita o ator que, nas versões anteriores, qualificava de "coisa de golpista" a prorrogação do tributo. "Só sonegador é contra esse imposto", acusa a garganta que durante 10 anos até nos ensaios se entusiasmava com textos que comprovavam os estragos impostos à classe média pelo monstrengo inconstitucional. A dedicação do ator só serve para comprovar que, na ficção ou na vida real, Lula não tem compromisso com a coerência.
Nem com a palavra empenhada. Em 1999, fazendo coro com todo o elenco, Lula garantiu que o espetáculo nunca mais seria encenado. Renovou a promessa em 2006. Era mentira.
terça-feira, dezembro 04, 2007
Democracia
Ali Kamel
A vitória do “não” na Venezuela assanhou os setores antidemocráticos e autoritários aqui do Brasil. Muitos tentaram demonstrar que a derrota de Chávez era a prova de que seus críticos são injustos: a Venezuela seria uma democracia pujante, em que o presidente submete suas idéias ao povo e acata os resultados, tudo muito normal. A vitória do “não” foi sem dúvida uma vitória dos democratas venezuelanos, mas, nem de longe, a evidência de que o regime em vigor naquele país é democrático. O que se evitou ali foi mais um golpe na democracia, o definitivo sem dúvida, mas, para que a liberdade volte a ser uma realidade, o caminho ainda é longo. Já se tornou um chavão, mas é inevitável repetilo: eleições são fundamentais numa democracia, mas, por si só, não atestam que um regime seja democrático.
Depois de eleito em 1998, Chávez, por decreto, decidiu fazer uma consulta popular para que o povo aceitasse ou não a convocação de uma Constituinte, que teria por objetivo implantar a “revolução pacífica bolivariana”. O Congresso, eleito apenas um mês antes (portanto, perfeitamente legítimo), decidiu resistir, alegando que o presidente não tinha o poder de fazer tal consulta. Mas a Suprema Corte do país, para agradar a Chávez, não somente autorizou o plebiscito como deu ao presidente o direito de ditar as regras eleitorais para a eleição dos constituintes. O que fez Chávez? Pra aquela eleição, acabou com o voto proporcional e instituiu o voto majoritário, em que o vencedor de um distrito leva todos os votos. E mais: nas cédulas eleitorais, proibiu a menção a partidos, mas apenas ao nome ou ao número dos candidatos. Assim, os partidários de Chávez tiveram 55% dos votos, mas, dado o sistema majoritário, obtiveram 92% dos assentos na Constituinte. Se o voto proporcional tivesse sido mantido, seus oponentes teriam ficado com 45% das cadeiras e não com apenas 7%.
A Constituinte nasceu com esse vício de origem, o que não a impediu de promover uma escalada autoritária: decretou a extinção do Congresso e procedeu a um expurgo no Judiciário, com mais de um terço dos juízes sendo demitidos sumariamente, sem direito a defesa. O atual Congresso, unicameral, tem 100% de partidários de Chávez, já que a oposição, em protesto contra leis eleitorais que a prejudicavam, boicotou as eleições.
Não é à toa que, em janeiro deste ano, os deputados foram unânimes ao aprovar uma excrescência: deram a Chávez, pela segunda vez desde 1998, o poder de governar por decretos por um ano e meio, a contar de fevereiro.
O Judiciário é outra calamidade. Logo depois da Constituinte, 20 juízes foram indicados para a Suprema Corte, todos, de início, simpáticos ao presidente. Com o tempo, a corte se dividiu, o que levou Chávez a aprovar uma nova lei para o Judiciário, aumentando para 32 o número de juízes, eleitos, por maioria simples, para um mandato de 12 anos. Ou seja, de uma só vez, Chávez poderia indicar juízes em número suficiente para voltar a ter uma maioria folgada. Mas não foi só: a nova lei dava ao Congresso a possibilidade de afastar qualquer juiz que cuja conduta fira a majestade do cargo ou solape o bom funcionamento da Justiça, seja lá o que essas duas coisas venham a significar. Com essa espada sobre suas cabeças, como falar em independência dos juízes? Num ambiente como este, a Venezuela precisará ainda de muitas vitórias dos democratas para que possamos considerar o país uma democracia.
Situação muito diversa da nossa, ainda bem. Aqui, Executivo, Legislativo e Judiciário são realmente autônomos, independentes e se contrabalançam. As provas disto têm sido oferecidas de modo contínuo pelos três poderes. E pelo nosso povo também. Mais e mais fica claro que a democracia é um valor de que não se quer, em nenhuma hipótese, abrir mão. A última pesquisa Datafolha é um belo exemplo de como estamos maduros: o apoio ao presidente Lula continua na estratosfera, mas a possibilidade de um terceiro mandato foi plenamente rejeitada em todas as regiões e em todas as faixas de renda e de escolaridade (uma maioria nunca menor do que 58%). O resultado dessa pesquisa talvez seja suficiente para que o PT siga de fato a palavra do presidente e pare de namorar essa idéia. Somos de fato e de direito uma democracia, e isso é reconfortante. O que não impede de ainda vivermos, aqui e ali, episódios que, apesar de menores, devem merecer o repúdio de todos nós. Por exemplo, a censura à propaganda do livro “Lula é minha anta”, de Diogo Mainardi, um jornalista competente, cuja importância pode ser medida pelos ataques que recebe. A propaganda foi banida das telas que exibem vídeos e informações em nossos aeroportos. A empresa responsável pelo serviço alegou que a Infraero proíbe a veiculação de propaganda política, o que é ofensivo, porque o livro não é propaganda partidária, mas simplesmente jornalismo de opinião, em que, ao lado da revelação de fatos, o autor emite juízos sobre eles, o que é absolutamente legítimo, porque feito com transparência. No livro, Mainardi faz a crônica do escândalo do mensalão, reunindo num volume os artigos que publicou com grande repercussão na revista “Veja”. Pode-se gostar ou não dele, mas jamais censurá-lo.
Como o próprio Mainardi disse, a decisão pode ter sido excesso de zelo de algum funcionário de quinto escalão.
Mas que episódios assim ainda se repitam é sinal de que temos de estar sempre vigilantes.
A vitória do “não” na Venezuela assanhou os setores antidemocráticos e autoritários aqui do Brasil. Muitos tentaram demonstrar que a derrota de Chávez era a prova de que seus críticos são injustos: a Venezuela seria uma democracia pujante, em que o presidente submete suas idéias ao povo e acata os resultados, tudo muito normal. A vitória do “não” foi sem dúvida uma vitória dos democratas venezuelanos, mas, nem de longe, a evidência de que o regime em vigor naquele país é democrático. O que se evitou ali foi mais um golpe na democracia, o definitivo sem dúvida, mas, para que a liberdade volte a ser uma realidade, o caminho ainda é longo. Já se tornou um chavão, mas é inevitável repetilo: eleições são fundamentais numa democracia, mas, por si só, não atestam que um regime seja democrático.
Depois de eleito em 1998, Chávez, por decreto, decidiu fazer uma consulta popular para que o povo aceitasse ou não a convocação de uma Constituinte, que teria por objetivo implantar a “revolução pacífica bolivariana”. O Congresso, eleito apenas um mês antes (portanto, perfeitamente legítimo), decidiu resistir, alegando que o presidente não tinha o poder de fazer tal consulta. Mas a Suprema Corte do país, para agradar a Chávez, não somente autorizou o plebiscito como deu ao presidente o direito de ditar as regras eleitorais para a eleição dos constituintes. O que fez Chávez? Pra aquela eleição, acabou com o voto proporcional e instituiu o voto majoritário, em que o vencedor de um distrito leva todos os votos. E mais: nas cédulas eleitorais, proibiu a menção a partidos, mas apenas ao nome ou ao número dos candidatos. Assim, os partidários de Chávez tiveram 55% dos votos, mas, dado o sistema majoritário, obtiveram 92% dos assentos na Constituinte. Se o voto proporcional tivesse sido mantido, seus oponentes teriam ficado com 45% das cadeiras e não com apenas 7%.
A Constituinte nasceu com esse vício de origem, o que não a impediu de promover uma escalada autoritária: decretou a extinção do Congresso e procedeu a um expurgo no Judiciário, com mais de um terço dos juízes sendo demitidos sumariamente, sem direito a defesa. O atual Congresso, unicameral, tem 100% de partidários de Chávez, já que a oposição, em protesto contra leis eleitorais que a prejudicavam, boicotou as eleições.
Não é à toa que, em janeiro deste ano, os deputados foram unânimes ao aprovar uma excrescência: deram a Chávez, pela segunda vez desde 1998, o poder de governar por decretos por um ano e meio, a contar de fevereiro.
O Judiciário é outra calamidade. Logo depois da Constituinte, 20 juízes foram indicados para a Suprema Corte, todos, de início, simpáticos ao presidente. Com o tempo, a corte se dividiu, o que levou Chávez a aprovar uma nova lei para o Judiciário, aumentando para 32 o número de juízes, eleitos, por maioria simples, para um mandato de 12 anos. Ou seja, de uma só vez, Chávez poderia indicar juízes em número suficiente para voltar a ter uma maioria folgada. Mas não foi só: a nova lei dava ao Congresso a possibilidade de afastar qualquer juiz que cuja conduta fira a majestade do cargo ou solape o bom funcionamento da Justiça, seja lá o que essas duas coisas venham a significar. Com essa espada sobre suas cabeças, como falar em independência dos juízes? Num ambiente como este, a Venezuela precisará ainda de muitas vitórias dos democratas para que possamos considerar o país uma democracia.
Situação muito diversa da nossa, ainda bem. Aqui, Executivo, Legislativo e Judiciário são realmente autônomos, independentes e se contrabalançam. As provas disto têm sido oferecidas de modo contínuo pelos três poderes. E pelo nosso povo também. Mais e mais fica claro que a democracia é um valor de que não se quer, em nenhuma hipótese, abrir mão. A última pesquisa Datafolha é um belo exemplo de como estamos maduros: o apoio ao presidente Lula continua na estratosfera, mas a possibilidade de um terceiro mandato foi plenamente rejeitada em todas as regiões e em todas as faixas de renda e de escolaridade (uma maioria nunca menor do que 58%). O resultado dessa pesquisa talvez seja suficiente para que o PT siga de fato a palavra do presidente e pare de namorar essa idéia. Somos de fato e de direito uma democracia, e isso é reconfortante. O que não impede de ainda vivermos, aqui e ali, episódios que, apesar de menores, devem merecer o repúdio de todos nós. Por exemplo, a censura à propaganda do livro “Lula é minha anta”, de Diogo Mainardi, um jornalista competente, cuja importância pode ser medida pelos ataques que recebe. A propaganda foi banida das telas que exibem vídeos e informações em nossos aeroportos. A empresa responsável pelo serviço alegou que a Infraero proíbe a veiculação de propaganda política, o que é ofensivo, porque o livro não é propaganda partidária, mas simplesmente jornalismo de opinião, em que, ao lado da revelação de fatos, o autor emite juízos sobre eles, o que é absolutamente legítimo, porque feito com transparência. No livro, Mainardi faz a crônica do escândalo do mensalão, reunindo num volume os artigos que publicou com grande repercussão na revista “Veja”. Pode-se gostar ou não dele, mas jamais censurá-lo.
Como o próprio Mainardi disse, a decisão pode ter sido excesso de zelo de algum funcionário de quinto escalão.
Mas que episódios assim ainda se repitam é sinal de que temos de estar sempre vigilantes.
Não ao continuísmo
Merval Pereira
A frase mais emblemática da atual situação da Venezuela, depois que a derrota do governo foi oficializada, é a que Hugo Chávez proferiu ao admitir que fora derrotado nas urnas: “Com o coração lhes digo, passei várias horas me debatendo em um dilema. E saí do dilema, estou tranqüilo, espero que os venezuelanos também”. Ora, qual poderia ser o dilema de Chávez, a não ser o de acatar ou não o resultado do referendo? Essa dedução confirma-se por outras declarações, quando ele diz que “por enquanto, não podemos” aprovar as reformas, mas, no entanto, ressalva que elas continuam “vivas e não morreram”. Mais tarde, Chávez anunciou que pretende fazer as reformas “através de outros mecanismos”, o que deixa em suspenso a definição sobre o que fará.
Tudo indica que, depois de muito tempo, Hugo Chávez sentiu que a sociedade civil que começa a se organizar, especialmente devido aos movimentos estudantis, lhe impôs um limite, derrotando, além da possibilidade de reeleição permanente, a pretensão de poder decretar estado de emergência e retirar os direitos dos cidadãos a seu próprio critério. A abstenção de mais de 40% dos eleitores marca uma rejeição às propostas de Chávez, mesmo que não signifique uma oposição total ao governo.
Embora a reforma chavista contenha vários pontos polêmicos que reforçariam ainda mais o poder do Executivo, a possibilidade de reeleição indefinida parece ser o cerne da questão democrática.
Quando comparou sua pretensão ao sistema que vigora na França, no que foi apoiado pelo presidente Lula, Chávez estava apenas misturando alhos com bugalhos, por ignorância ou má-fé.
De fato, não há limites para a reeleição do presidente francês, o que foi conseguido através de um plebiscito por Charles de Gaulle em 1958.
Em 24 de setembro de 2000, o então presidente Jacques Chirac submeteu a referendo uma nova proposta, que está em vigor: o mandato foi reduzido de sete para cinco anos, mas com a manutenção do direito de reeleição sem limites.
A questão, no entanto, é que o presidente francês não acumula as funções de chefe de Estado e chefe de Governo, como nos sistemas presidencialistas da América Latina.
No sistema parlamentarista da França, a função de chefe de Governo é exercida pelo primeiro-ministro, e esta é uma distinção fundamental.
O cientista político Octavio Amorim Neto, da Fundação Getulio Vargas do Rio, considera que limitar a reeleição, ou até mesmo a proibição de reeleição, é “uma característica” num continente que já foi marcado pelo continuísmo e pela falta de alternância no poder.
Essa marca é tão forte que ele lembra que o PRI mexicano, embora tenha dominado a política do país durante tanto tempo, não permitia a reeleição, e, mesmo na ditadura brasileira, havia o rodízio de generais no poder.
Amorim Neto acha também que Chávez já temia ser derrotado quando se confrontou com o governo espanhol recentemente na Cúpula Latino-americana do Chile, quando o Rei Juan Carlos pronunciou a já famosa frase: “Por que não se cala?”: “Ele deve estar sentindo que a clivagem antiimperialista já está se esgotando e agora está explorando a clivagem étnica”, analisa o cientista político, lembrando a frase de Chávez: “Se eu fosse um indígena, lançaria uma flecha contra o Rei”. A clivagem étnica, no entanto, não é tão forte na Venezuela quanto é na Bolívia e no Equador, ressalta Octavio Amorim Neto.
É um exagero oposicionista comparar a derrota de Chávez no referendo ao resultado da pesquisa de opinião divulgada no domingo pelo Datafolha, que mostrou que mais de 60% do eleitorado contrário à possibilidade de o presidente Lula vir a disputar um terceiro mandato presidencial. A comparação é indevida até porque o próprio presidente Lula, sempre que se pronunciou a respeito, foi para se colocar contrário à idéia.
Mesmo que se considere a possibilidade de Lula estar encenando, enquanto incentiva seus correligionários a trabalharem o projeto, não é possível compararse essa manobra política no estágio em que se encontra com a proposta concreta dos governos de Chávez ou de Morales.
Mas a rejeição venezuelana já está produzindo seus efeitos também na Bolívia, cujo governo acena com a possibilidade de retirar da reforma constitucional a proposta de reeleição indefinida, para discuti-la em outra ocasião.
Nem Chávez nem Morales desistiram da idéia, mas fazem, cada qual dentro de suas circunstâncias políticas, manobras táticas de recuo para reagrupar suas forças. No caso dos petistas, que volta e meia tratam da idéia do terceiro mandato, a pesquisa de opinião do Datafolha foi uma ducha de água fria que provavelmente vai enterrar de vez a tentativa.
Embora o deputado Devanir Ribeiro, compadre de Lula que começou o movimento pelo terceiro mandato, tenha tido uma leitura “otimista”: ele acha “promissor” o fato de cerca de 30% estarem a favor do terceiro mandato, pois “ainda nem fizemos campanha”.
O que é comparável nos três casos é o sentimento generalizado no continente de rejeição à eternização de líderes no poder. Num continente de tradição autoritária, de abuso da máquina pública para permanecer no poder, dar limites à reeleição deve ser uma regra sagrada da democracia.
A frase mais emblemática da atual situação da Venezuela, depois que a derrota do governo foi oficializada, é a que Hugo Chávez proferiu ao admitir que fora derrotado nas urnas: “Com o coração lhes digo, passei várias horas me debatendo em um dilema. E saí do dilema, estou tranqüilo, espero que os venezuelanos também”. Ora, qual poderia ser o dilema de Chávez, a não ser o de acatar ou não o resultado do referendo? Essa dedução confirma-se por outras declarações, quando ele diz que “por enquanto, não podemos” aprovar as reformas, mas, no entanto, ressalva que elas continuam “vivas e não morreram”. Mais tarde, Chávez anunciou que pretende fazer as reformas “através de outros mecanismos”, o que deixa em suspenso a definição sobre o que fará.
Tudo indica que, depois de muito tempo, Hugo Chávez sentiu que a sociedade civil que começa a se organizar, especialmente devido aos movimentos estudantis, lhe impôs um limite, derrotando, além da possibilidade de reeleição permanente, a pretensão de poder decretar estado de emergência e retirar os direitos dos cidadãos a seu próprio critério. A abstenção de mais de 40% dos eleitores marca uma rejeição às propostas de Chávez, mesmo que não signifique uma oposição total ao governo.
Embora a reforma chavista contenha vários pontos polêmicos que reforçariam ainda mais o poder do Executivo, a possibilidade de reeleição indefinida parece ser o cerne da questão democrática.
Quando comparou sua pretensão ao sistema que vigora na França, no que foi apoiado pelo presidente Lula, Chávez estava apenas misturando alhos com bugalhos, por ignorância ou má-fé.
De fato, não há limites para a reeleição do presidente francês, o que foi conseguido através de um plebiscito por Charles de Gaulle em 1958.
Em 24 de setembro de 2000, o então presidente Jacques Chirac submeteu a referendo uma nova proposta, que está em vigor: o mandato foi reduzido de sete para cinco anos, mas com a manutenção do direito de reeleição sem limites.
A questão, no entanto, é que o presidente francês não acumula as funções de chefe de Estado e chefe de Governo, como nos sistemas presidencialistas da América Latina.
No sistema parlamentarista da França, a função de chefe de Governo é exercida pelo primeiro-ministro, e esta é uma distinção fundamental.
O cientista político Octavio Amorim Neto, da Fundação Getulio Vargas do Rio, considera que limitar a reeleição, ou até mesmo a proibição de reeleição, é “uma característica” num continente que já foi marcado pelo continuísmo e pela falta de alternância no poder.
Essa marca é tão forte que ele lembra que o PRI mexicano, embora tenha dominado a política do país durante tanto tempo, não permitia a reeleição, e, mesmo na ditadura brasileira, havia o rodízio de generais no poder.
Amorim Neto acha também que Chávez já temia ser derrotado quando se confrontou com o governo espanhol recentemente na Cúpula Latino-americana do Chile, quando o Rei Juan Carlos pronunciou a já famosa frase: “Por que não se cala?”: “Ele deve estar sentindo que a clivagem antiimperialista já está se esgotando e agora está explorando a clivagem étnica”, analisa o cientista político, lembrando a frase de Chávez: “Se eu fosse um indígena, lançaria uma flecha contra o Rei”. A clivagem étnica, no entanto, não é tão forte na Venezuela quanto é na Bolívia e no Equador, ressalta Octavio Amorim Neto.
É um exagero oposicionista comparar a derrota de Chávez no referendo ao resultado da pesquisa de opinião divulgada no domingo pelo Datafolha, que mostrou que mais de 60% do eleitorado contrário à possibilidade de o presidente Lula vir a disputar um terceiro mandato presidencial. A comparação é indevida até porque o próprio presidente Lula, sempre que se pronunciou a respeito, foi para se colocar contrário à idéia.
Mesmo que se considere a possibilidade de Lula estar encenando, enquanto incentiva seus correligionários a trabalharem o projeto, não é possível compararse essa manobra política no estágio em que se encontra com a proposta concreta dos governos de Chávez ou de Morales.
Mas a rejeição venezuelana já está produzindo seus efeitos também na Bolívia, cujo governo acena com a possibilidade de retirar da reforma constitucional a proposta de reeleição indefinida, para discuti-la em outra ocasião.
Nem Chávez nem Morales desistiram da idéia, mas fazem, cada qual dentro de suas circunstâncias políticas, manobras táticas de recuo para reagrupar suas forças. No caso dos petistas, que volta e meia tratam da idéia do terceiro mandato, a pesquisa de opinião do Datafolha foi uma ducha de água fria que provavelmente vai enterrar de vez a tentativa.
Embora o deputado Devanir Ribeiro, compadre de Lula que começou o movimento pelo terceiro mandato, tenha tido uma leitura “otimista”: ele acha “promissor” o fato de cerca de 30% estarem a favor do terceiro mandato, pois “ainda nem fizemos campanha”.
O que é comparável nos três casos é o sentimento generalizado no continente de rejeição à eternização de líderes no poder. Num continente de tradição autoritária, de abuso da máquina pública para permanecer no poder, dar limites à reeleição deve ser uma regra sagrada da democracia.
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