sexta-feira, março 31, 2006

De vis, boçais e cínicos

Se não existisse a oposição, o governo Lula já teria acabado há muito tempo. Os companheiros e neocompanheiros se matam entre eles e, no processo, revelam ao distinto público o caráter que eles próprios acham que o governo tem.
Para ficar só nas contendas mais recentes, há o affaire Antonio Palocci x Jorge Mattoso. O público só ficou sabendo detalhes quase completos do crime do governo contra o caseiro Francenildo graças à pendência entre eles. Um, ministro da Fazenda, o outro, presidente da Caixa Econômica Federal. Reúnem-se em pleno Palácio do Planalto, mas não discutem economia. Discutem um crime. Diz tudo a respeito do caráter de um governo. É claro que o presidente da República não sabia de nada, de novo. Também diz muito sobre o caráter do governo.
Mal as brasas começam a adormecer sobre mais esse crime do lulo-petismo, ficamos sabendo que o governo inclui um "empresário boçal", ainda por cima favorável ao monopólio, e um ministro "vil".
O "empresário boçal" seria o ministro das Comunicações, Hélio Costa, na versão vil, ops, na versão Gilberto Gil, que não teve o menor pejo de ler em público texto em que assim era qualificado seu, digamos, colega de gabinete. O "vil" é o Gil -ou o Gil é o "vil", sei lá-, na versão do "empresário boçal" em declarações aos jornalistas.
Com um ministério assim, o governo não precisa de oposição.
Só num governo assim é possível existir uma líder (no Senado) como Ideli Salvatti, que, sobre a violação do sigilo bancário do caseiro, teve o seguinte "insight": "Qualquer pessoa pode esquecer um extrato em algum lugar e alguém ler".
Poderia ter acrescentado que Francenildo teve o azar de "esquecer" seu extrato justamente na mesa da casa do ministro Palocci.
Cinismo, tudo bem. Já estamos habituados. Mas, pelo amor de Deus, com um mínimo de cérebro.
Clovis Rossi - @ - crossi@uol.com.br

quarta-feira, março 29, 2006

Algumas sobras

"A intromissão de uma verdade onde nenhuma fora prevista, por princípio e por necessidade, destruiu o plano articulado para a permanência de Antonio Palocci no ministério, mas o que sobrou de inverdades e de aparências enganosas continua adulterando os fatos.
Sobre Lula, por exemplo, consta que só veio a saber do depoimento de Jorge Mattoso ao voltar de Curitiba a Brasília no fim da tarde de segunda-feira, e decidiu demitir Palocci. Irritado, teria até emitido um "Palloci, venha cá".

Pois bem, ao embarcar para Curitiba, ainda na parte da manhã, Lula já recebera duas informações dadas pessoalmente por Jorge Mattoso: o pedido de demissão do presidente da Caixa, apresentado ali mesmo; e sua decisão de dizer, ao depor na Polícia Federal à tarde, que entregara a Palocci o extrato da conta de Francenildo Costa na Caixa, e daí em diante só o ministro da Fazenda poderia explicar.
Lula não se decidiu pela saída de Palocci ao voltar a Brasília. Disso, por sinal, deixou várias pistas. Uma, no discurso em que, contrariando a conduta de sempre, não fez nem a mais leve referência ao cenário político, às críticas a seu governo ou à oposição. Seu abatimento era tão perceptível, que foi mencionado nos relatos imediatos de repórteres de TV e rádio. E Lula já deixara convocados os ministros do chamado conselho político, para a reunião em que, de volta a Brasília, depressa selou formalmente a saída de Palocci.

Se nem Lula foi surpreendido pelo depoimento de Jorge Mattoso, Palocci é que não poderia sê-lo. Mattoso forjou a necessidade de 15 dias para desvendar a quebra de sigilo do caseiro na Caixa, criou uma comissão de sindicância para descobrir a autoria de um ato de que ele mesmo era o autor, lançou o falso desaparecimento do laptop usado na quebra do sigilo, faltou à primeira convocação da PF -e depois de tudo isso, ao voltar de breve ida a São Paulo, estava convencido a dizer a verdade sobre o seu papel na trama para desmoralizar Francenildo. A partir desse ponto, e não de "avaliações de Lula", o episódio mudaria o seu rumo.

O desaparecimento de Palocci por algumas horas, quando repórteres o viram sair de casa no domingo, teve diferentes explicações, iguais na sua falsidade. Palloci conversou por cerca de duas horas com Jorge Mattoso. Em vão. Não conseguiu demovê-lo da nova disposição, que implicaria a saída de ambos do governo e várias outras conseqüências, inclusive policiais e judiciais.

É improvável que Palocci não tenha informado Lula ainda no domingo. Tanto que Lula quis a conversa com Mattoso ainda antes de sair para Curitiba na manhã de segunda. Mesmo que só no domingo ou na segunda Lula tenha sabido a maneira como foi conhecida a conta de Francenildo, há indicações de que já conhecia os depósitos altos na conta desde a quinta-feira 16.

Alguns petistas tiveram também a informação, revelando-se ao se gabarem de esperadas reversões da situação em futuro próximo. A senadora Ideli Salvatti, então feliz com a revelação de depósitos na conta de Francenildo, chegou a narrar sua dedução, na sexta-feira, 17, de que Lula já sabia da descoberta.

A dedução viera do sorriso, apenas um sorriso, com que Lula respondeu à referência da senadora à grave revelação, que o site da "Época" estava fazendo, dos tais depósitos incriminadores. (Desmoralizada a incriminação, a senadora quer outras investigações contra Francenildo: a vingança tem vida própria).

Palloci não precisou escrever às carreiras a carta de "pedido de demissão" que distribuiu aos jornais, pouco depois de selada no Planalto a sua saída. Pôde preparar o longo texto desde que, na véspera, Jorge Mattoso não retrocedeu quanto ao depoimento. O tempo, porém, não foi bastante para impedir Palocci de dizer que não divulgou nem autorizou "nenhuma divulgação sobre informações sigilosas da Caixa".

O extrato foi entregue por Jorge Mattoso a Palocci na noite da quinta-feira e, na sexta, estava no site de uma revista. Na qual trabalha um parente direto do assessor de comunicação de Palocci, Marcelo Netto, assessor de Zélia Cardoso de Mello nos tempos de PC Farias/Collor. É razoável que a Marcelo Netto esteja atribuída a artimanha da entrega à revista e é certo que o extrato saiu das mãos Palocci. Mas não faz diferença uma mentira sua a mais ou a menos."
Janio de Freitas

terça-feira, março 28, 2006

É uma vergonha!

Jamais o Brasil assistiu a tamanho descalabro de um governo. Quem se der ao trabalho de esmiuçar a história do país certamente constatará que nada semelhante havia ocorrido até a gestão do atual ocupante do Palácio do Planalto. Há, desde o tempo do Brasil colônia, um sem número de episódios graves de corrupção e de incompetência. Mas o nível alcançado pelo governo Lula é insuperável.
Não se trata de um ou de alguns focos de corrupção. Vai muito além. Exibe notável desprezo pelas liberdades e pela democracia. Manipula a máquina administrativa a seu bel-prazer, de modo a colocar o Estado a favor de sua inesgotável sanha de poder. Um exemplo mais recente é a ação grotesca contra um simples caseiro, transformado em investigado por dizer a verdade depois de ser submetido a uma ação de provocar náuseas em qualquer stalinista.
Não se investiga o ministro Palocci, acusado de freqüentar um "bunker" destinado a operar negócios escusos em Brasília e de ter mentido a respeito ao Congresso. Tenta-se, a qualquer preço, desqualificar a testemunha para encobrir o óbvio. E o desespero da empreitada conduziu a uma canhestra operação que agora o governo pretende encobrir, inclusive intimidando o caseiro.
Do presidente da República, sob a escusa pueril de dever muito a Palocci (talvez pela conquista do troféu dos juros mais altos do mundo e pelo crescimento ridículo do PIB), só se ouve a defesa pífia dos que não conseguem dissimular a culpa. A única providência das autoridades federais foi um simulacro de investigação, com a cumplicidade da Caixa Econômica Federal.
Todos os limites foram ultrapassados; não há como o Congresso postergar um processo de impeachment contra Lula. Ou melhor, a favor do Brasil.

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Lula seria o primeiro a sofrer impeachment não apenas pelos crimes de responsabilidade mas também por toda a obra.
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O argumento para não afastar Lula, de que sua gestão vive os últimos meses, é um auto-engano! A proximidade das eleições faz com que o governo use e abuse ainda mais do poder. Desde o início, este governo é envolvido na compra de consciências, na lubrificação da alma de órgãos de comunicação por meio de gigantescas verbas publicitárias e de perseguir os que lhe negam aplauso.
Outro argumento usado para não afastar Luiz Inácio Lula da Silva é a sua biografia, a saga do trabalhador, do sindicalista que chegou a presidente. Ora, aquele metalúrgico já não existe há muito tempo. Sua legenda enferrujou. Foi tragado por sua verdadeira figura, submetido a uma metamorfose às avessas.
As razões legais para o processo de impeachment gritam no artigo 85 da Constituição, que versa sobre os crimes de responsabilidade do presidente. Basta ler os seguintes motivos constantes da Carta Magna para que o Congresso promova o processo de impeachment de Lula: atentar contra o livre exercício do Poder Legislativo, contra o livre exercício dos direitos individuais ou contra a probidade da administração. Seguem alguns exemplos ilustrativos.
No "mensalão", fato que Lula tentou transformar em um pecadilho cultural da política brasileira, reside um grave atentado contra o livre funcionamento do Congresso Nacional. A compra de consciências não só interferiu na vida do Poder Legislativo como também demonstrou a disposição petista de romper a barreira entre a democracia e o autoritarismo, utilizando a máxima de que os fins justificam os meios.
Jamais as instituições bancárias estatais foram tão agredidas. O Banco do Brasil teve seu dinheiro colocado a serviço de interesse escusos; a Caixa Econômica Federal também, demonstrando que o sigilo bancário de seus depositantes foi posto à mercê da pilantragem política.
No escândalo dos Correios, mais que corrupção, foi posto a nu, além do assalto aos cofres públicos, um cuidadosamente urdido esquema de satrapias destinado a alimentar as necessidades pecuniárias de participantes da mesma viagem. Como costuma acontecer nesses casos, o escândalo veio à tona na divisão do botim.
Causa perplexidade, também, a maneira cínica com que o governo tenta se defender, usando todos os truques jurídicos para criar uma carapaça que evite investigações de suspeitas gravíssimas em torno do presidente do Sebrae, o generoso Paulo Okamotto, pródigo em cobrir gastos do amigo Lula -sem que ele saiba. Aliás, ele nunca sabe de nada...
Lula passará à história, além de tudo, como alguém que procurou amordaçar a imprensa com a tentativa da criação de um orwelliano "conselho" nacional de jornalismo e com uma legislação para o audiovisual, que tentou calar o Ministério Público pela Lei da Mordaça e que protagonizou uma pueril tentativa de expulsar do país um correspondente estrangeiro que lhe havia agredido a honra.
Neste momento grave, o Congresso Nacional não pode abdicar de suas responsabilidades, sob o perigo de passar à história como cúmplice do comprometimento irreversível do futuro do país. As determinantes legais invocadas para o processo de impeachment encontram, todas elas, respaldo nos fatos.
Mas, infelizmente, na Constituição brasileira falta uma razão que bem melhor poderia resumir o que estamos assistindo: Lula seria o primeiro presidente a sofrer impeachment não apenas pela prática de crimes de responsabilidade mas também pelo ímpar conjunto de sua obra.



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Boris Casoy, 65, é jornalista. Foi editor-responsável da Folha de 1974 a 76 e de 1977 a 84. Na televisão, foi âncora do TJ Brasil (SBT) e do Jornal da Record (Rede Record).

segunda-feira, março 27, 2006

Já não podemos dizer nada!

Em 14 de de abril de 1930, aos 36 anos, Vladimir Maiakóvski, o maior poeta russo da era contemporânea, deu um fim trágico à sua atormentada vida. Matou-se porque perdeu toda a esperança e se viu diante de uma estrada sem saída.

Sua obra é absolutamente revolucionária, como revolucionárias eram as suas idéias. Mas o poeta, dizia ele, por mais revolucionário que seja, não pode perder a alma!

Ele acreditou piamente na Revolução Russa e pensou que um mundo melhor surgiria de toda aquela brusca e violenta transformação. Aos poucos, porém, foi percebendo que seus líderes haviam perdido a alma.

A brutalidade crescia. A impunidade era a regra. O desrespeito às criaturas era a norma geral. Toda e qualquer reação resultava em mais iniqüidades, em mais violência. Um stalinismo brutal assolou a pátria russa. Uma onda avassaladora de horror e impotência tomou conta de seu espírito, embora ainda tentasse protestar. Mas foi em vão. Rendeu-se e saiu de cena.

Em 1936, escreveu Eduardo Alves da Costa o poema No caminho com Maiakóvski, que resume sua desoladora tragédia.

"... Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada."

Nestes tristes tempos, muitos estão vivendo as angústias desabafadas neste poema. Também acreditaram em líderes milagrosos, tiveram esperanças em dias mais serenos, esperaram por oportunidades melhores e sonharam com paz e alegria. Nunca imaginaram que, em seu lugar, viriam a impunidade, a violência, o rancor e a cobiça. Os que chegaram ao poder, sem nenhuma noção de servir ao povo, logo revelaram a sua verdadeira face.

O País está vivendo uma fase de completo e total desrespeito às leis. A Lei Maior, aquela que o País aprovou por meio de seus representantes, não existe. Para uns, todas as leniências. Para outros, todos as violências. Nas grandes cidades, dois governos, duas autoridades: a tradicional e a dos marginais. No campo, ausência de direitos e deveres. Uma malta de desocupados, chefiados por líderes atrevidos e até debochados, está conseguindo levar o desassossego e a insegurança aos milhões de trabalhadores rurais que ali se esforçam para sobreviver. Isso já vem acontecendo há muito tempo e não há sinal de que alguma autoridade pretenda submetê-los às penas da lei. Ao contrário. Eles gozam de imenso prestígio junto ao presidente, que não se acanha em lhes dar cobertura e agir com a maior cumplicidade.

A ausência das autoridades tem sido o grande estímulo para que esses grupos, e outros que vão surgindo, venham conseguindo, num crescendo de audácia e desrespeito, levar o pânico aos que vivem do trabalho no campo. A mesma audácia impune garante também a expansão das quadrilhas de narcotraficantes em todo o País. A cada dia que passa eles chegam mais perto de nós. Se examinarmos com atenção os acontecimentos destes últimos dois anos, dá para entender o nosso medo.

Quando explodiu o caso do Waldomiro Diniz, as autoridades estavam na obrigação de investigar tudo e dar uma punição exemplar. O que se viu? Uma porção de manobras para encobrir os fatos e manter os esquemas intocáveis. E qual foi a reação do povo? Nenhuma.

Roubaram uma flor de nosso jardim, a flor da decência, da dignidade, da ética, e nós não dissemos nada!

Quando, da noite para o dia, dezenas de deputados largaram suas legendas e se bandearam para as hostes do governo, era preciso explicar tão misteriosa adesão. O que se viu? Uma descarada e desafiadora alegria no alto comando do País! E qual foi a reação do povo? Nenhuma.

Eles nem se esconderam. Pisaram em nossas flores, mataram o cão que nos podia defender. E nós não dissemos nada!

Quando um parlamentar, que integrava a tal maioria, veio denunciar o uso de recursos públicos, desviados de forma indecente, com a conivência dos altos ocupantes do governo, provando que a direção do PT e do governo sabiam de tudo e de tudo se haviam aproveitado, qual foi a reação do povo? Nenhuma.

Eles nem se importaram com o fato de terem sido descobertos. O mais frágil deles entrou em nossa vida, roubou a luz de nossas esperanças e, conhecendo o nosso medo, ainda se deu ao luxo de arrancar a nossa voz da garganta!

Será que vamos aceitar? Não vamos dizer nada? Será que o povo brasileiro perdeu de vez a sua capacidade de se indignar? A sua capacidade de discernir? A sua capacidade de punir?

Acho que não. Torço para que isso não esteja acontecendo. Sinto, por onde ando e por onde vou, que lá no mar alto uma onda de nojo está crescendo, avolumando-se, preparando-se para chegar e afogar esses aventureiros. Não se trata, simplesmente, de uma questão eleitoral. Não se cuida apenas de ganhar uma eleição. O importante é não perder a alma. O direito de sonhar. A vontade de viver melhor.

Colocar este momento como uma simples luta entre governo e oposição é muito pouco. E derrotá-los, simplesmente, também é muito pouco, diante do crime que eles praticaram contra as esperanças de um povo de boa-fé.

O que vai hoje na alma das pessoas é o corajoso sentimento de que é preciso vencer o pavor e o pânico diante da audácia dessa gente, não permitindo que eles nos calem para sempre. Se não forem enfrentados, se não forem punidos, se seus métodos e processos não forem repudiados, nosso futuro terá sido roubado. Nossa voz terá sido arrancada de nossa garganta.

E já não poderemos dizer nada.

Sandra Cavalcanti, professora, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Lacerda, fundadora e presidente do BNH
E-mail: sandra_c@ig.com.br

O fim da vergonha!!

Estou convencido de que o Estado é essencialmente uma quadrilha de bandidos.

É uma conclusão analiticamente demonstrável. É um fato empiricamente comprovável. É assim em toda parte. Foi assim em todas as épocas. Nenhuma vilania estatal, portanto, deveria surpreender-me. Mas eu confesso: estou espantado com a situação atual do país. Nunca se viu tanta bandalheira, tanta desfaçatez.

Segundo um artigo recente do antropólogo Roberto DaMatta, o que está acontecendo relaciona-se com o declínio da culpa e a vergonha. A culpa, neste contexto, é a consciência de uma conduta imoral ou ilegal, a admissão de alguém para si mesmo que fez algo reprovável. A vergonha é o sentimento de desonra perante a comunidade por ter sido apanhado fazendo algo de errado. São dois poderosos fatores de inibição da prática de condutas anti-sociais. A vida em comunidade é impossível sem a culpa e a vergonha.

De modo geral, tendo em vista o crescente relativismo moral reinante, a culpa há tempos deixou de ser obstáculo à perpetração de ignomínias. O sentimento que ainda mantinha funcionando a sociedade era a vergonha. Todos têm os seus “esquemas”, mas ninguém queria ser flagrado e passar o vexame de ser censurado moralmente diante do público, mesmo que não sofresse punições concretas. O PT mudou isso simplesmente abolindo a vergonha.

A culpa sempre foi um sentimento estranho aos petistas. Mentir, trair, roubar e matar em nome da “causa” são atos normais, e até meritórios, no universo mental formado no marxismo. Para um petista, não existe uma ordem moral objetiva. Logo, também não existem atos imorais. Como não são atormentados pela culpa, eles nunca tiveram vergonha de fazer o que quer que fosse em nome da causa, ou seja, da tomada do poder político.

Uma vez eleito Lula, a supressão da vergonha, já uma realidade difusa em função da hegemonia intelectual do petismo, oficializou-se e difundiu-se rapidamente em todo o organismo estatal. De agora em diante, a mera aparência de honestidade e decência é desnecessária, uma relíquia histórica. Se o presidente da república não tem vergonha de ser apanhado comprando deputados, favorecendo parentes, fazendo caixa 2, humilhando um humilde caseiro e absolutamente nada lhe acontece – ao contrário, sua popularidade se mantém alta -, o que se pode esperar dos demais agentes estatais?

Os parlamentares do Congresso Nacional perderam a vergonha de alugar seus votos no atacado e no varejo. Magistrados dos mais altos tribunais perderam a vergonha de proferir decisões claramente encomendadas pelo PT. O eleitorado de todas as classes sociais perdeu a vergonha de apoiar um presidente incapaz e corrupto em troca das migalhas do bolsa-família, do dólar barato do “bolsa-miami”, dos juros altos para os banqueiros etc.

A extinção da vergonha é uma estratégia de conquista do poder, pois ao mesmo tempo em que iguala todas as facções políticas, beneficia o grupo mais aguerrido e amoral, isto é, o PT. Trata-se de nada menos do que uma revolução que será ratificada em outubro, com a reeleição do presidente. O país jamais será o mesmo.
Alceu Garcia

domingo, março 26, 2006

ABUSO DE PODER

A desfaçatez, o uso sistemático da mentira, o empenho em desqualificar qualquer denúncia, nada disso constitui novidade no comportamento do governo Lula. Chegou-se nos últimos dias, entretanto, a níveis inéditos de degradação ética, de violência institucional e de afronta às normas da convivência democrática.
Na tentativa inútil de salvar a credibilidade em farrapos de um ministro, viola-se o sigilo bancário de um cidadão comum, o caseiro Francenildo Costa _enquanto toda sorte de malabarismos jurídicos e parlamentares protege as contas de Paulo Okamotto, celebrizado pelos nebulosos favores que prestou ao presidente. Fato ainda mais grave, o caseiro se torna alvo de investigação por parte da Polícia Federal, num ato indisfarçável de ameaça e abuso de poder. A iniciativa _tomada em tempo recorde_ não tem paralelo na história recente do país, infelizmente pródiga em situações nas quais representantes do poder público se viram às voltas com denúncias sérias de corrupção.
Seria o caso de qualificá-la como um crime de Estado, não fosse, talvez, excessiva indulgência chamar de "Estado" o esquema de intimidação oficial que assume o proscênio no momento. Com arrogância e desenvoltura típicas de uma organização habituada à impunidade e aos acertos inconfessáveis, representantes do lulismo já faziam saber, antes mesmo que as contas do caseiro viessem ao conhecimento público, que dispunham de dados supostamente capazes de incriminá-lo.
Posteriormente, a demora em chegar aos responsáveis pelo abuso não fez mais do que intensificar as convicções de que terá partido dos altos escalões governamentais a orientação para que fosse levado a efeito.
Da "lei da mordaça" contra o Ministério Público ao abortado projeto de um Conselho Nacional de Jornalismo, da tentativa de expulsar do país o correspondente do jornal "The New York Times" aos sucessivos embaraços antepostos à ação das CPIs, o governo Lula já deu mostras de que convive mal com a liberdade de imprensa e com a procura da verdade. Ultrapassou, contudo, o terreno das propostas legislativas desastrosas, como ultrapassou também o terreno das bazófias, das chicanas e do cinismo militante, para se aventurar na prática da chantagem e do abuso de poder.
Editorial FSP - 26/03

República de "pelegos"

No momento em que Lula busca um novo período para seu governo, fica a impressão de que o ex-sindicalista, mais do que a integração da classe operária à democracia, dedicou-se a construir um governo de “pelegos”. Tradição do sindicalismo brasileiro, os “pelegos” eram criticados, há algum tempo, porque cumpriam a função de amaciar o cavalo para maior comodidade do cavaleiro.

Líder de um sindicalismo então combativo, Lula usou a palavra contra seus adversários, como antes dele muitos na esquerda. Em filme-documentário recente, chamou de “pelegão” até Lech Walesa, importante líder sindical polonês que se elegeu presidente da Republica e fracassou no governo.

Típico do “pelego” é viver de dinheiro público, fazer demagogia social e cuidar dos próprios interesses pessoais e corporativos, mesmo a despeito da lei. Dentre os muitos exemplos, o mais recente é a devassa do sigilo bancário do caseiro Francenildo, por ordem de um gerente da Caixa Econômica Federal. Como sabemos que o governo vem tomando como prática usual o loteamento político de cargos, é bem provável que esse gerente da CEF seja um “pelego” a serviço de algum outro.

Vale lembrar, a propósito, a confissão pública do Lula que, desrespeitando a lei, mandou se calar um “alto companheiro” que sabia de irregularidades na instituição em que trabalhava. No caso de Francenildo o procedimento foi inverso. Nada de irregular foi encontrado na conta do caseiro. Mas foi igual o desrespeito à lei pelos “pelegos” da CEF. O “pelego” faz o que o cavaleiro manda, em especial quando este é um “companheiro” de alta hierarquia.

A partir do “núcleo duro” do governo, criou-se um estilo que contamina muita gente na administração federal. Atento ao marketing e às pesquisas eleitorais, Lula joga para a arquibancada, promete investigação, punições etc., assim transmitindo a imagem de que não tem nada a ver com isso.

Os ministros, por seu lado, tratam de amaciar as coisas, deslocar o foco, dilatar prazos etc. Foi na preocupação de deslocar o foco que o ministro do Trabalho, um ex-sindicalista, usou palavras de desprezo a propósito do caseiro, segundo ele, manipulado pela oposição. Quanto ao ministro da Justiça, seu papel é o de amaciar, buscar atenuantes. Conhecido criminalista, reconheceu que o assunto “é grave e será apurado”, mas, logo a seguir, disse que isso é prática usual, tratando o crime como se fosse um “vazamento”. Não tem algo de semelhante sua intervenção nas patranhas do “mensalão” do Delúbio e do Marcos Valério? Quanto ao presidente da CEF, que dirige um banco altamente informatizado, ninguém acreditou quando ele disse à imprensa que precisava de “quinze dias” para descobrir quem cometeu o crime contra os direitos de Francenildo. E, agora, o COAF se dedica a investigar a vida financeira do caseiro.

A propósito, que dizer do delegado da Polícia Federal que, ao ser indagado pela imprensa por que ainda não abrira inquérito depois de vários dias do crime, teve o desplante de responder: “Como demorando? Você está no Brasil, pelo amor de Deus!” Como a COAF, a PF se dedica agora a investigar Francenildo, na evidente tentativa de intimidação do governo contra cidadãos, especialmente os mais pobres, que se disponham a acusá-lo.

O cidadão que acompanha a avalancha dos fatos e a degenerescência de conceitos, instituições e personalidades não consegue entender por que a oposição, supostamente tão poderosa, é incapaz de abrir, na forma da lei, o sigilo bancário do ex-sindicalista, hoje empresário, Paulo Okamoto, que pagou contas do Lula não se sabe com dinheiro de quem. Ou do biólogo Fabio Lula da Silva, filho do presidente e hoje também empresário, favorecido por um milionário contrato com a Telemar, empresa da qual participam fundos de pensão, nos quais outros “pelegos” têm considerável influência.

É claro, o cidadão sabe que o STF, atendendo ao PT, impediu a continuação da presença de Francenildo na CPI. E, depois da inacreditável greve dos desembargadores de Minas Gerais, tem também a impressão de que o estilo pelego chegou ao sistema judiciário.

Meio século atrás um dos grandes temores da direita era de que o Brasil viesse a ser uma “república sindicalista”. Chegamos a ela, mas a direita não tem nada a temer. O que temos aí é apenas um governo de “pelegos”. E os “pelegos”, como é da sua natureza e dos seus privilégios, prejudicarão o povo, jamais os grandes interesses que a direita e eles próprios defendem. Se algum dia vier a se interessar pelo Brasil, que dirá Lech Walesa de Lula, se não que também é um “pelegão” e que também fracassou no governo?

FRANCISCO C. WEFFORT foi um dos fundadores do PT.
É decano do Instituto de Estudos de Políticas Econômicas e Sociais e professor visitante de História Comparada do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, março 25, 2006

"Nada sei"

Ver um grupo de amigos do ministro da Fazenda montar uma ''central de negócios'' e festas ''alegres'' é um escândalo que em qualquer país civilizado demoliria o governo na hora, sem prejuízo das sanções penais a que os responsáveis estivessem sujeitos. Ironicamente, menos de 15 anos após o fim da ''República das Alagoas'', quando o PT era ainda uma vestal, defensora implacável dos mores (costumes) e da res publica (coisa pública), surge a ''República de Ribeirão Preto''. A vestal transformou-se numa criatura sem vergonha e sem moral. Convém lembrar que nos tempos romanos as vestais que prevaricavam eram enterradas vivas. Será esse o destino de Palocci & companhia?

O governo do Molusco tornou-se mestre na arte do ''nada sei''. Pratica a verdadeira omertá (a lei do silêncio) da máfia. O problema é que a responsabilidade tem dono quando se trata de poder. Palocci diz que nunca foi à casa e apresenta, para ''prová-lo'', um álibi em ouro maciço: ''nunca dirijo em Brasília''. Mais estapafúrdio é quase impossível.

Mas vamos dar-lhe o benefício da dúvida e admitir que não soubesse da ''central'' montada a poucos minutos de seu ministério. Se nada sabia, é mal informado e não tem competência para ocupar ministério onde informação é tão vital quanto o ar que respiramos. Se o ministro nunca foi à casa, mas sabia de sua existência, o fato é mais grave. E se tivesse ido, poderia ser caracterizado como o chefe da quadrilha e, além disso, participante das alegres celebrações locais que - pelo noticiário - tinham mais a ver com Baco do que com Vesta.

Violação da privacidade!, gritam os acólitos do NeoPT (incluindo os de ''esquerda'') que pararam de criticar a política econômica, representada pelo vice-rei Henrique Meirelles e seu BC independente do Brasil (sem que os brasileiros tenham votado nisso), único poder, funcional e real, da atual república do NeoPT.

Se o ministro celebrava ou não suas dionisíadas não vem ao caso. O que interessa são as atividades econômicas da ''central''. Mas é bom lembrar sempre que o conceito de privacidade para homens públicos não é igual ao existente para o cidadão comum. Se vizinhos e vizinhas adultos se reunirem por conta e consentimento próprio para uma orgia, ninguém tem nada com isso. Mas se houver negócios escusos e mera suspeita de envolvimento de dinheiro público, a coisa muda inteiramente de figura.

Além disso, fica demonstrado que na República do NeoPT existem dois critérios de privacidade. Para Paulo Okamoto, o amigo de Luiz Inácio que generosamente pagava as suas contas, o sigilo bancário é sacrossanto. O STF garante esse ''direito'', como o concedido a Duda Mendonça para repetir ad nauseam ''não vou responder'', num deboche público que mostrou o ponto de avacalhação a que chegou o Brasil.

Desmascarado pelo motorista Francisco das Chagas Costa e pelo caseiro Francenildo Santos, o Nildo, Palocci insiste em mentir (como já mentiu antes). Nildo foi chamado à Polícia Federal para depor na quinta-feira à noite. Entregou os seus documentos, inclusive o cartão bancário. Enquanto depunha, a revista Época (do grupo de O Globo) conseguia uma cópia de seu extrato na Caixa Econômica Federal, mostrando que R$ 38 mil tinham sido depositados em sua conta nos últimos três meses.

A tentativa de desmoralizar a acusação é evidente, mas Francenildo já havia revelado que o depósito fora feito por um empresário piauiense, que seria seu pai. Nildo exigia reconhecimento, o empresário negou, mas mandou-lhe dinheiro. Tanto o empresário como a mãe de Nildo confirmam o fato.

Mas, mesmo que seu depoimento tivesse sido comprado, a pergunta é: quem quebrou o sigilo bancário de Francenildo sem ordem judicial? Foi a PF? De posse do cartão é possível chegar à conta, desde que se tenha equipamento adequado. Foram a PF e a Caixa? Um telefonema permitiria a alguém na Caixa chegar aos dados sem grande dificuldade. Ou foi a CEF? Houve crime escancarado. Se o caseiro estivesse mentindo e tivesse vendido seu depoimento, deveria ser rigorosamente punido, mas através de uma investigação e de acordo com a lei, exatamente com os mesmos direitos dos amigos do Molusco.
Fritz Utzeri

O Estado policial

"O governo do operário ético faz com
o caseiro tudo o que o governo do
corrupto desvariado não ousou fazer
com o motorista"


O ministro Antonio Palocci, ao reaparecer em público na sexta-feira passada, depois de duas semanas escondido, disse que está vivendo um inferno. Dá para imaginar, então, o que deve estar vivendo o caseiro que o denunciou. Afinal, o caseiro resolveu contar o que viu no casarão do Lago Sul em Brasília e, em menos de dez dias, passou a ser investigado pela Polícia Federal sob a acusação de lavagem de dinheiro! Entrou na máquina de moer reputações. Primeiro, calaram-lhe a boca, depois quebraram-lhe o sigilo bancário e, agora, aterrorizam-no com um inquérito. Coisa de Estado policial. Na opinião do presidente da OAB, Roberto Busato, "coisa de gângster, de sindicato do crime".

O governo de Fernando Collor não fez nem um décimo disso contra Eriberto França, o motorista que prestou um depoimento devastador e terminal sobre as traficâncias do presidente e seu ex-tesoureiro de campanha. É preciso, em nome da verdade histórica, que se reconheça: o governo do operário ético faz com o caseiro tudo o que o governo do corrupto desvariado não ousou fazer com o motorista. E repare-se numa diferença: o motorista derrubou o governo literalmente. O caseiro derrubou o governo moralmente.

Na construção de seu inferno, Palocci teve em excesso tudo o que faltou ao caseiro. Examinemos:

A vida pessoal. O ministro jamais teve sua vida pessoal e familiar devassada. A própria imprensa, durante meses a fio, por respeito à privacidade do ministro, limitou-se a divulgar que o casarão era um ponto diurno de lobistas. Só noticiou que era também um ponto noturno de prostitutas quando isso se tornou um dado fundamental para entender o Paloccigate. No caso do caseiro, seu drama pessoal e familiar de filho bastardo foi revelado por inteiro em questão de dias, expondo a vida pregressa de sua mãe, Benta Soares, autora da frase mais reveladora da essência do governo Lula. Disse ela: "Peço ao presidente que não faça nada com meu filho".

O sigilo bancário. As contas do ministro Palocci estão devidamente preservadas, como aliás deve acontecer em qualquer nação civilizada. Nem se pediu que fosse quebrado seu sigilo bancário. Nem mesmo quando Rogério Buratti denunciou à polícia que Palocci retinha parte das propinas pagas por fornecedoras da prefeitura de Ribeirão. No caso do caseiro, sua vida bancária é um livro abertíssimo – ilegalmente abertíssimo. Depois disso, o caseiro decidiu abrir voluntariamente todos os seus sigilos, telefônico e fiscal, inclusive. Pediu que os outros seguissem sua atitude. Paulo Okamotto não se manifestou. Lulinha, o filho, também não.

O direito de falar. Palocci fala quando quiser, onde quiser, embora nos últimos dias tenha reivindicado seu direito de ficar em silêncio e, de preferência, longe dos holofotes. O caseiro não. O governo não deixa que abra a boca numa CPI. Só autoriza, e neste caso alegremente, que abra a boca no inquérito policial, no qual responde a perguntas na condição de acusado. O ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, achou mesmo que o caseiro não devia falar na CPI. Em seu despacho, o ministro explicou que seu depoimento seria inútil devido à "condição cultural" do caseiro. Se a moda pega, pobres e pouco instruídos devem viver calados.

Num Estado policial, a moda é capaz de pegar.
André Petry

sexta-feira, março 24, 2006

Samba da vergonha

"Escândalo, escárnio, deboche, desrespeito, pasmo.

Nenhum destes substantivos parece suficientemente abrangente para classificar a cena grotesca acontecida na madrugada de ontem na Câmara dos Deputados.

Uma deputada federal foi protagonista de uma das cenas mais inacreditáveis jamais acontecidas dentro do prédio do Congresso Nacional.

Ao final da votação que absolveu mais um deputado mensaleiro do PT, a deputada petista Angela Guadagnin pôs-se a dançar de alegria com a absolvição do companheiro.

Ontem, durante o dia inteiro essas imagens dantescas correram o país pela Internet.

Mas o principal sentimento foi mesmo de vergonha.

As mulheres vêm lutando há décadas para conquistar um lugar ao sol. Trabalhando, dando duro, estudando, prestando concursos rigorosíssimos, submetendo-se a eleições, enfim, batalhando para serem levadas a sério.

E aí aparece uma deputada, ex-prefeita de uma importante cidade paulista, portanto não se trata de uma marinheira de primeira viagem.

E a deputada se põe a sambar, enquanto mais uma absolvição estapafúrdia acontecia no plenário da Câmara dos Deputados.

No Conselho de Ética da Câmara, a deputada petista tem votado sistematicamente pela absolvição de seus companheiros. Votou pela cassação só dos ex-deputados Roberto Jefferson e Pedro Correia. Para todos os outros, pediu absolvição.

OK, faz parte do jogo. A deputada está no seu direito. E é digno de respeito o fato de ela se expor, pronunciar seu voto em voz alta e não ter nenhum problema em apoiar companheiros envolvidos nos escândalo do mensalão.

Mas o plenário da Câmara não é lugar para danças. Talvez numa churrascaria, num pagode ou num salão de baile, a deputada pudesse dar vazão a seus sentimentos de alegria com a absolvição do companheiro.

Mas nunca no plenário da Câmara.

O que vai acontecer no dia em que a deputada estiver muito triste? Vai atear fogo às vestes ou cortar os pulsos dentro do plenário da Câmara?

Francamente, certas pessoas, sobretudo certas autoridades, perderam inteiramente a compostura, perderam inteiramente o pudor.

Aliás, fica aqui a pergunta: este tipo de comportamento não configura quebra do decoro parlamentar?

Por essas e outras, cresce a campanha pelo voto nulo ou pela renovação total da Câmara dos Deputados.

É uma pena."
Lucia Hippolito

Inaceitável!

Políticos e jornalistas perguntaram ao ministro Antonio Palocci se ele processaria o seu ex-assessor Rogério Buratti. Sua resposta foi que jamais processaria alguém enquanto fosse ministro, porque não usaria o poder do cargo que ocupa contra um cidadão ou um jornalista. No caso Francenildo, o governo Lula faz muito pior: está usando todo o poder do Estado contra o cidadão. Isso é inadmissível na democracia, mas previsível no governo Lula.

O que está se passando com o caseiro, que acusa o ministro Palocci de mentir quando diz que não esteve na casa do lobby, é o uso grosseiro, abusivo e inconstitucional do aparelho do Estado pelo governo para servir a seus propósitos de obstruir a apuração dos fatos.

Ontem o governo escalou e emitiu sinais de que está usando a Caixa, o Coaf e a Polícia Federal para acuar a testemunha. O Coaf investiga as grandes movimentações financeiras. É informado automaticamente apenas de saques acima de R$ 100 mil. Os valores da conta de Francenildo são abaixo disso.

Encurralado, o governo primeiro pôs em prática a manobra protelatória, mentindo sobre a agilidade da Caixa Econômica Federal de encontrar os dados que permitirão o rastreamento do crime. Os bancos brasileiros fizeram grandes investimentos em informática. Todos os bancos, mesmo os estatais, que foram mais lentos nesse processo. Só com pesados investimentos em tecnologia de informação um banco sobrevive no mercado financeiro sofisticado de hoje. Portanto a hipótese levantada inicialmente, hoje totalmente desmascarada, de que precisava de tempo para buscar a informação é falsa. Visava a dar tempo à Caixa, onde o presidente, Jorge Mattoso, arrumava tranqüilamente as malas, certo da impunidade, para ir ao Japão. Quando o tempo fechou em Brasília, ele decidiu não decolar.

O segundo passo da tentativa de escapar ileso do crime cometido é o governo entregar uma “cabeça” aos políticos e à opinião pública. Não ajuda muito. O caso revela a sem-cerimônia com que o governo Lula se apossou do Estado, como se fosse seu protetorado e capitania. O governo do PT tem mostrado uma crônica incapacidade de enxergar a fronteira entre público e privado; entre Estado e governo.

O filho do presidente convida os amigos para férias por conta do erário. Os amigos viajam em avião da FAB e usam o Palácio Alvorada como resort. Quando o governo foi questionado pela imprensa, o presidente determinou que ninguém falasse sobre o assunto, nem mesmo a FAB, e reagiu indignado como se sua privacidade estivesse sendo invadida.

Os limites da privacidade de uma pessoa que ocupa um cargo público são diferentes de uma que não está a serviço do governo. Interessa saber, não os segredos pessoais, mas até que ponto o interesse público foi atingido. O ministro Palocci não pode reclamar de privacidade para proteger a informação sobre se ele foi ou não à casa do lobby montada por seus ex-assessores e amigos. Como ministro da Fazenda, com os poderes que tem, ele não pode ir a uma casa suspeita como aquela; qualquer que tenha sido a sua motivação. Não há como separar o público e o privado no caso. Simplesmente um ministro não pode freqüentar local onde secretamente se faz lobby.

Quando aparelhou todos os órgãos públicos, indicando pessoas sem qualquer capacidade para grande parte dos cargos da máquina pública; quando permitiu que dirigentes do PT usassem as instalações do Palácio do Planalto como se fossem propriedade petista; quando transformou a auto-suficiência de petróleo, conquistada por cinco séculos de esforço nacional, em campanha da atual gestão e em ano eleitoral, o governo Lula estava mostrando que não sabe diferenciar Estado de governo.

O governo Lula foi um retrocesso em inúmeros processos de aperfeiçoamento que o país vinha conquistando nos últimos tempos. O uso das agências como cabide de emprego de políticos sem mandato representou um enorme prejuízo em termos de avanço regulatório. No caso do petróleo, em que uma empresa é praticamente detentora de monopólio, a independência da ANP era fundamental para que a regulação fosse cumprida. Hoje, que poder teria a agência para impor qualquer limitação à poderosa estatal?

O caso Francenildo é o mais grave, o mais grosseiro, dos desrespeitos às fronteiras institucionais. Mas, quando era oposição, como bem lembrou ontem Tereza Cruvinel, o PT se aproveitava de informações que certos militantes dentro dos bancos passavam para o partido.

Certa vez, numa coluna que jamais esqueci, o nosso mestre Castelinho usou a expressão “imprecisos limites éticos” para se referir à equipe econômica do governo Collor, naquela época, sob denúncias de uso do dinheiro de PC Farias. Esta mesma imprecisão se alastrou no atual governo, contaminou a base partidária e deteriora as instituições brasileiras como a máxima do “fiz, mas quem não faz?” que parece imperar no governo.

Os deputados mensaleiros estão escapando desta ilesos, bastando, para isso, dizer que o dinheiro foi usado para o pagamento de contas de campanha. Isso é uma descarada forma de legalizar o caixa dois, aquilo que Lula afirma ser feito sistematicamente no país. Um político que recebe dinheiro em espécie, sem origem conhecida, de uma empresa de publicidade que presta serviços ao governo, e, além disso, não declarava o valor recebido à Justiça Eleitoral, é perdoado se usou o dinheiro para pagar dívidas de campanha. Isso cria então a lavanderia oficial do dinheiro sujo.

O que está acontecendo com o caseiro Nildo é uma perturbação inaceitável do estado de direito, um desrespeito aos direitos individuais. Não é mero evento da campanha eleitoral, como os petistas afirmam. É o governo usando o Estado para ameaçar um cidadão. A democracia não tolera um fato assim.
Miriam Leitão

quinta-feira, março 23, 2006

A gênese da violação

Não, não foi o presidente da Caixa Econômica Federal ou algum gerente o responsável pela violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Um ou outro pode até ter sido o agente operacional, mas o mandante do crime é a mentalidade que tomou conta do PT e, por extensão, do governo Lula.
Vejamos qual é essa mentalidade, na descrição de Oded Grajew, ex-assessor especial de Lula, ainda seu amigo, velho e leal companheiro de viagem do lulo-petismo, hoje desencantado com os companheiros:
"Quando falo de concessões éticas, me refiro à cúpula do partido e ao pessoal do aparelho burocrático, para quem a política é um modo de vida, sua maneira de ganhar a vida", diz Oded em "No Olho do Furacão", coletânea de depoimentos de gente de esquerda, preparada por duas jornalistas britânicas também de esquerda, sobre o colapso do PT.
Completa Oded: "Quando alguém se converte em prefeito ou em senador, o cargo passa a ser sua carreira. Quer ser reeleito, porque necessita dinheiro para viver".
Bingo. Oded poderia acrescentar a prefeito e senador toda a vastíssima gama de funcionários nomeados para os gabinetes dos vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores do PT, bem como a massa de contratados para postos nas prefeituras, governos estaduais e governo federal.
Ah, não esquecer dos cargos na máquina partidária. Se ser secretário-geral do PT rende um Land Rover, dado por uma empresa que faz negócios com o governo, imagine a perspectiva de ganhos que surge de ocupar um cargo no próprio governo, como, digamos, Waldomiro Diniz.
Essa gente toda pisaria no pescoço da própria mãe para poder manter a "boquinha". Violar o sigilo de um caseiro, então, é fichinha.
Hoje, o "modo de vida" descrito por Oded é majoritário no PT. A militância autêntica e idealista ou acredita no conto do vigário da conspiração contra o lulo-petismo ou sai.
CLÓVIS ROSSI

Auto-engano petista

O PT contabilizou que 5.418 filiados deixaram a legenda em 2005, o ano do "mensalão". Outras 29.583 pessoas decidiram se filiar no mesmo período. O partido vende a idéia de que saiu mais forte da crise do que entrou. Bom exemplo de auto-engano, e não o único.
Números dizem o que quisermos, desde que bem torturados. Pode-se dizer que 5.418 pessoas deixaram o PT indignadas com a falta de sintonia entre o discurso ético e sua prática e que 29.583 novos filiados viram possibilidade de ascensão profissional ao tentar iniciar uma carreira de Delúbio. Querem enriquecer.
O PT tem acumulado exemplos de desconexão com o mundo real. Seu Diretório Nacional aprovou, no sábado, um texto de análise política que se aproxima do devaneio. Fala que PSDB e PFL foram "surpreendidos" pela "capacidade de reação" petista. Que reação? Desde a crise do "mensalão", o PT se enrolou cada vez mais e está desmilingüindo nos movimentos sociais que lhe deram origem.
Prosseguem os marcianos -só podem ser de outro mundo- que escreveram a análise petista: "Por isso, (PSDB e PFL) retomaram a fúria denuncista, tentando levar novamente as atenções para esse campo, pois avaliam que perdem no campo programático e na comparação de governos", diz o texto.
Denuncismo, não! Esse sempre foi um bordão de corruptos e corruptores. Hoje está impregnando os antes apenas chatos documentos internos do PT. O caixa dois petista é fruto de denuncismo? E o dinheiro desviado de contratos públicos? E os carros importados e depósitos no exterior?
O PT precisa de um choque de realidade. Mas é cada vez mais difícil esperar que isso ocorra, como mostra o exemplo do presidente Lula. Num dia, aparece tocando tambor, noutro coloca um cocar na cabeça, como se vivesse na ilha da fantasia. Falta a Lula um indicador que lhe mostre o caminho para escapar da lama que cerca o Planalto.

PLÍNIO FRAGA para a Folha

terça-feira, março 21, 2006

A DEGRADAÇÃO DOS PODERES DA REPÚBLICA

...E A VITÓRIA DO “CORRUPTISMO”

“Nossa massa encefálica é muito mais inteligente do que vocês pensam”: extrato filosófico do pensamento de um Apedeuta.

O Brasil está apresentando sucessivos exemplos de uma devassidão política, executiva e jurídica do poder público que está nos rotulando como cidadãos covardes ou omissos, pois estamos admitindo a imposição de uma autocracia fascista populista que agride frontalmente o Estado de Direito no país. Este degradante rótulo decorre de nossa aceitação da relativização da honestidade, da moral e da ética nas relações públicas-privadas, provocada pelo “corruptismo” que se transformou, de desvios de condutas de canalhas localizados, numa ideologia predominante e fundamentalista daqueles que querem se perpetuar no poder.

O caseiro que teve seu depoimento interrompido na CPI, por uma limitar do PT aceita pelo STF, experimentou o gosto da autocracia petista ao ter sua conta bancária devassada com sua privacidade de movimentação financeira invadida às 20h58m21s – hora registrada de emissão do seu extrato – no mesmo dia e no mesmo momento em que prestava declarações e fornecia informações pessoais dentro da Polícia Federal, conforme noticiado pela mídia.

O Sr. Francenildo Costa sentiu na pele a arbitrariedade jurídica corporativista que tem escandalizado o país.Estranhamente ninguém consegue quebrar o sigilo bancário de Paulo Okamotto, o fervoroso amigo e pagador de dívidas pessoais do presidente Lulla. Sabemos que não é difícil avaliar o porquê desta diferença de tratamento legal, melhor dizendo ilegal, imoral e aético.

A gentalha da política para se perpetuar no poder revela não ter mais limites em suas atitudes, demonstrando claramente seu potencial autocrático e autoritário, transformando a Polícia Federal ou qualquer outro órgão do Poder Judiciário, em um instrumento de um Estado Policial comandado por um presidente que deveria ter a dignidade de providenciar pelos meios legais adequados, a antecipação das eleições presidenciais e voltar para casa, pois já demonstrou não ter nenhuma das competências necessárias para dirigir o país, além de ter cometido graves crimes de prevaricação por ter permitido que o Estado fosse tomado por uma incontrolável onda de imoralidade, falta de ética e corrupção.

O corporativismo espúrio que está colocando servidores públicos e “empresários” acima da lei, humilha o povo brasileiro e envergonha o Brasil perante o mundo civilizado. É a destruição do Estado de Direito, ação que antecede a destruição de nossa democracia de mentirinha onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres ficam cada vez mais pobres e dependentes do assistencialismo fascista-populista de um governo mergulhado em um mar de denúncias de corrupção.

Personalidades tidas como impolutas e de alta credibilidade são acusadas de freqüentar bacanais da prostituição política para participar da distribuição do dinheiro dos dutos da corrupção, e curtir os amores passageiros das “Nailas”, das “Renatas” e das “Julianas”, entre outras possibilidades de nomes fantasia fictícios de assessoras especializadas em técnicas sexuais. Qualquer semelhança com nomes reais de profissionais do ramo será uma infeliz coincidência que deverá ser desconsiderada, com todo o respeito àquelas que cometem a infelicidade de se “doarem” aos vermes meliantes de nossa prostituída política, que devem dizer para suas famílias, que estão participando de reuniões executivas importantes com seus pares, enquanto se encontram para abrir as malas de dinheiro roubado do povo nos seus locais privativos de encontros furtivos com garotas de programa.

No rastro das marcas de lama da corrupção impregnada nos sapatos dos impuros “chefes de família” servidores públicos, nos quartos dos amores proibidos, são recolhidas por caseiros as camisinhas utilizadas, que protegem os sequazes da prostituição da política das doenças sexualmente transmissíveis, mas contaminam e degradam a imagem de “executivos” públicos que se apresentam sem a mínima qualificação moral e ética para ocupar um cargo público com seu salário e suas mordomias pagos pelo povo.

Apesar das evidências das denúncias, ficamos estarrecidos e demoramos a acreditar que nosso país virou um verdadeiro bacanal da política em que a hipocrisia, a leviandade, a desfaçatez, a falta de vergonha, a mentira deslavada, e o absoluto desrespeito aos Códigos Legais com a cumplicidade de um corporativismo fétido que nos enoja, se tornaram um lugar comum nas relações públicas-privadas.

Que tipo de credibilidade moral e ética pode ter qualquer pesquisa sobre intenção de votos com um governo que subverte de forma escandalosa e sistematica a sociedade com seu espúrio corporativismo e suas ações fascistas-populistas na cidade e no campo, com o apoio explícito da maior rede de televisão do país, credora de favores financeiros do poder público conforme freqüentemente divulgado em meios de comunicação alternativos?

Devemos questionar seriamente se as pesquisas de opinião conseguem refletir de alguma forma uma escolha consciente a partir de uma real avaliação crítica do desgoverno Lulla feita pelas amostras do povo pesquisado, ou simplesmente refletem os efetivos resultados de uma grotesca manipulação da opinião pública por força do escandaloso assistencialismo clientelista que substituiu as promessas de campanha do estelionato eleitoral de 2002.

A sociedade se transformou em uma amostra viciada pela ação incontrolável do fascismo-populista petista, aliado de um comunismo decadente autocrático e ditatorial, espelho do modelo político venezuelano-cubano, e promovido pela “inteligência” de marqueteiros adoradores de briga de galos, “profissionais” que recebem ilegalmente dinheiro do PT em contas abertas no exterior e que continuam impunes pelos crimes cometidos contra o povo. Bom mesmo é ser brasileiro: o que não pensa, diz o bordão da ignorância nacional.

Depois do estelionato eleitoral de 2002, para assumir o controle do Estado, a continuidade da meliância está sendo conseqüência da queda da máscara de um grupo de militantes petistas, que têm trazido à tona do mar de corrupção em que estão imersas as instituições públicas, suas verdadeiras intenções de perpetuação no poder para a destruição gradual de nossa frágil democracia enquanto promovem a quase irreversível captura e aparelhamento do Estado.

O certo é que estamos vivenciando a “qualidade” dos sonhos de poder de representantes de uma classe emergente de sindicalistas que trocaram as calçadas das fábricas pelo submundo prostituído da política, esquecendo rapidamente seus compromissos com o povo e com as mentirosas causas socialistas que defendiam sob a bandeira de uma moral e uma ética inexistentes nas suas ações depois que tomaram o poder e capturaram o Estado. O desastrado e incompetente segundo mandato de FHC se tornou irrelevante diante da grandeza da prostituição política, do corporativismo e da corrupção que tomaram conta das relações públicas-privadas no desgoverno Lulla, conforme as sistemáticas e repetidas denúncias retransmitidas pelos veículos de comunicação.

As táticas do “corruptismo” fascista-populista-autocrático para amordaçar o povo e comprar o apoio das elites dirigentes para a sua perpetuação no poder ficam claras e óbvias ao lermos as evidências contidas nas inúmeras reportagens feitas pela mídia em relação aos quase quatro anos do desgoverno Lulla:
– tentativa de censura à imprensa e à produção cultural do país;
– tentativa de desarmar a sociedade sem oferecer qualquer tipo de iniciativa que resolvesse o problema do contrabando de armas, do narcotráfico, e da guerrilha urbana que toma conta dos guetos residenciais onde os pobres e os menos favorecidos são confinados pelas elites dirigentes do país;
– transformação de mais de 30 milhões de pessoas em dependentes permanentes do Estado com seus programas bolsa-manutenção-da-pobreza, promovendo o assistencialismo clientelista catador de votos nas lixeiras de um processo educacional falido, para a reeleição do Apedeuta, sem precisar gerar os empregos necessários para a promoção da justiça social que todos almejam, nem uma política de desenvolvimento que possibilite o acesso do povo a uma renda justa para lutar por uma vida digna por seus próprios meios;
– promoção de inúmeras políticas de inclusão social para estudantes, sem qualquer atitude para combater as causas da falência do ensino público não universitário, transformando as universidades públicas federais e estaduais de centros de excelência acadêmica, em centros de tratamento da ignorância e da incompetência educacional. O resultado dessa estupidez não é difícil de prever: será o nivelamento por baixo do ensino universitário público, comprometendo a formação de profissionais em todas as áreas de pesquisas científicas e generalizando o processo de obtenção de um “canudo universitário” para conseguir uma vaga no mercado de trabalho, ou simplesmente adquirir o conhecimento necessário para passar em um concurso público e pendurar um diploma na parede de uma das salas dos centros de prostituição moral e ética espalhados pelo país;
– cooptação do apoio político de sindicatos, da UNE, de ONG´s e muitas outras organizações sociais com o poder do “convencimento” das verbas públicas;
– transformação do MST, de um movimento legítimo, em um movimento fora-da-lei para a promoção de invasão de propriedades privadas ou a destruição do patrimônio público;
– agravamento de forma criminosa de um corporativismo imoral e aético que provocou a ruptura de todos os princípios que devem fundamentar a independência entre os poderes da República fazendo do Poder Judiciário um “sócio” na luta pela perpetuação do PT no poder e do Legislativo um parceiro comprado pelos “mensalões” e pelas maracutais gestadas no laboratório na prostituição da política no submundo das negociações para o aliciamento do apoio de parlamentares para os projetos do desgoverno Lulla;
– compra do apoio dos donos do capital remunerando seus investimentos com a maior taxa de juros do mundo, fazendo da formação do superávit primário, para pagar os juros de uma dívida que já ultrapassou um trilhão de reais, uma prioridade cada vez maior do que os investimentos estruturais para o desenvolvimento sócio-econômico do país;
– captura da burocracia do Estado com centenas de militantes, tendo como meta uma massificação no poder público da ideologia do pensamento único e autocrático no comando de suas instituições, que devem ser escravas do fascismo populista do PT;

Diante de tais fatos e evidências que escancaram as intenções autocráticas e ditatoriais no meio da devassidão política, moral, ética e jurídica que toma conta do país, o silêncio do povo diante do corporativismo traidor do País é um solene e estúpido atestado de aceitação de um novo regime político para o país, o nacional fascismo populista com seus fundamentos de sobrevivência nos dogmas nas ideologias do “corruptismo”.

Aos historiadores sérios, honestos e imparciais – não aqueles “aprendizes” fabricantes de memórias para o engrandecimento de traidores do país – caberá a triste tarefa de retratar para o mundo a podridão das biografias de todos os irresponsáveis e inconseqüentes que fizeram do nosso país a partir dos governos FHC, o paraíso definitivo da corrupção e do corporativismo fétido, que conseguiu unir o Executivo, o Legislativo e o Judiciário nas mesmas salas privativas da prostituição da política para a formalização do aniquilamento da independência entre os poderes de nossa falida República, da queda do Estado de Direito e da implantação do Estado Policial para a perseguição implacável dos inimigos políticos do Apedeuta e para dar garantia da impunidade para os ideólogos praticantes do “corruptismo”.
Geraldo Almendra

sábado, março 18, 2006

A lei da mordaça do PT

Era uma vez um partido que empunhou a bandeira da ética para seduzir a "burguesia" brasileira, avessa às suas atávicas tendências carbonárias, simbolizadas pela então façanhuda figura do seu líder máximo, o Lula "hoje não tô bom". O estratagema funcionou: enquanto, como se viria a saber, o PT agia à semelhança de "tudo que está aí", conforme o seu jargão, nos governos municipais e estaduais que vinha conquistando, mais se excediam suas lideranças na invocação da moralidade pública como arma eleitoral para ascender ao comando do País.

E era uma vez um presidente da República que, diante das evidências incontestáveis de que um certo Waldomiro Diniz, braço direito do seu segundo no Planalto, José Dirceu, era no mínimo um extorsionário, jurou aos brasileiros que todos os eventuais ilícitos do assessor parlamentar do ministro da Casa Civil seriam apurados às últimas conseqüências. Enquanto isso, com a conivência do então presidente do Senado, José Sarney, o Planalto conseguia impedir o funcionamento da CPI dos Bingos, pedida pela oposição para apurar o escândalo em todas as suas ramificações. Só depois de mais de um ano, graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ela pôde ser instalada.

A essa altura, o mesmo presidente decerto já tinha perdido a conta das vezes em que prometera que os sinais de corrupção na administração federal direta e indireta - trazidos à luz no flagrante de suborno de um funcionário de segundo escalão dos Correios - e o pagamento sistemático de propinas a deputados, denunciado pelo petebista Roberto Jefferson, também seriam investigados em toda a sua extensão, "doa a quem doer". Enquanto isso, em perfeita sintonia com o Planalto, o PT e os seus igualmente inescrupulosos companheiros de viagem faziam o que sabiam e mais alguma coisa para matar no nascedouro a CPI dos Correios, ou ao menos emasculá-la para que não destampasse o lodo do governo que "não rouba, nem deixa roubar".

Numa frente da batalha pelo abafa e a impunidade, o governo se saiu bem. Outra CPI, a do Mensalão, morreu em surdina, sem produzir nem sequer o devido relatório de suas investigações. Em contrapartida, a comissão dos bingos, na qual a oposição prevalece, partiu do fato determinado que lhe deu origem para buscar outras peças que a ele se ligavam no vasto quebra-cabeça da corrupção petista. Passou a ser chamada, por isso, a CPI do fim do mundo. E foi ela que, inicialmente pisando em ovos, incluiu entre os seus objetivos o de apurar os ilícitos de que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, era acusado, remontando aos seus tempos de prefeito em Ribeirão Preto e de coletor-sênior de fundos para a campanha presidencial de Lula.

A barragem rebentou com a entrevista ao Estado de Francenildo Santos Costa, caseiro do clube privé da cupinchada amiga do chefe, como ele fazia questão de ser chamado ali. O moço relatou - e reafirmou numa entrevista coletiva - o que obravam naquela mansão do Lago Sul os Burattis, Poletos e Barquetes, entre um repasse e outro de dinheiro vivo e entre um congraçamento e outro com as atendentes de madame Jeany Mary Corner. Anteontem, por fim, nos 55 minutos que teve para falar à CPI dos Bingos, antes que fosse amordaçado por uma liminar impetrada no STF por um senador petista, a mando pessoal do presidente Lula, ele reiterou "até morrer" tudo o que dissera da presença de Palocci na sede da República de Ribeirão.

Ao pulverizar com superabundante fartura de detalhes as negativas do ministro, o comprometeu irremediavelmente - nem tanto pelo que fez ou deixou de fazer no casarão, mas porque mentiu à CPI - como mentira antes sobre o avião "alugado pelo PT" e sobre os contratos do lixo. Seria o caso de dizer que, ao pedir ao Supremo - por intermédio do PT - que amordaçasse o caseiro Francenildo, o presidente Lula também deixou escancarado o seu comprometimento com a mentira, o engodo e a corrupção - qualquer o sentido que se dê à palavra.

Dolorosa é a descoberta da existência de dois Paloccis - o dr. Jekyll e o mr. Hyde. O primeiro é uma cabeça privilegiada, um ministro da Fazenda como poucos o Brasil teve - e que se cercou no ministério de uma equipe de excepcional qualidade. O segundo, um político municipal que se fez cercar por uma máfia de desqualificados, a cujas bandalheiras nunca terá estado alheio - para dizer o menos.
Estadão