quarta-feira, junho 21, 2006

A distância entre Lula e Jiabao

Javier Solana, ministro das Relações Exteriores da União Européia, deixou escapar uma reveladora confidência. Num seminário realizado recentemente na Espanha, Solana contou que o presidente Lula da Silva lhe narrou sua frustrante experiência com as autoridades chinesas. Lula havia ido a Pequim com a expectativa de criar uma espécie de eixo político-econômico, que incluiria a China, a Índia, a África do Sul e o Brasil, mas não encontrou a menor receptividade entre os chineses, a peça-chave desse pólo emergente do Terceiro Mundo que tentava fomentar.

Essa historieta pode ajudar a entender a diferença fundamental entre a visão internacional do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, geólogo e um “aparatchik” veterano, e a de Lula da Silva. O mandatário asiático é um estadista pragmático, mais interessado em continuar com a incrível façanha econômica de seu país do que em se entregar a rivalidades políticas planetárias típicas da guerra fria, ao passo que o presidente latino-americano, apesar de sua relativa e talvez crescente moderação, continua preso a falsos esquemas políticos de antanho que projetavam um mundo hostil em que se enfrentavam o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, países pobres e ricos, um panorama beligerante que, supostamente, exigia que se protegessem sob a abóbada de algum bloco salvador.

Jiabao, tal como seus antecessores, há 15 ou 20 anos já tinha aprendido uma lição que Lula da Silva, como tantos outros políticos latino-americanos de esquerda, não conseguiu entender de todo: é uma grande estupidez pensar que as nações capitalistas do mundo fecham as portas do desenvolvimento aos países mais atrasados. Essa foi uma flagrante mentira propalada pelo marxismo e irresponsavelmente repetida por diversas vozes dessa vasta família de gente amodorrada pela ideologia e pelas diretrizes que os dirigentes da China continental baniram de suas análises.

Como os dirigentes chineses mudaram a sua percepção da economia e das relações internacionais? Muito simples: observando o destino de outros chineses mais afortunados. Em 1976, quando morreu Mao Tsé-tung, os chineses mais bem informados, especialmente os que estavam na cúpula dirigente do Partido Comunista, já se haviam dado conta de uma dolorosa realidade que os afastava dos dogmas defendidos pelo Grande Timoneiro: Hong Kong, Taiwan e Cingapura estavam no caminho da riqueza, da prosperidade e do desenvolvimento popular. Os chineses que acreditavam na propriedade privada e no mercado, os que haviam abraçado a globalização, triunfavam. Em contrapartida, os que continuavam aferrados às superstições do coletivismo e agitavam o Livro Vermelho nas manifestações de massa viviam na miséria e na escassez.

Por isso, Wen Jiabao ignorou desdenhosamente a convocação de Lula. Para que enfrentar os Estados Unidos e outras potências econômicas se, graças às boas relações comerciais, industriais e financeiras com o grande mundo capitalista, a China conseguiu que 300 milhões de pessoas ingressassem na classe média e consumissem como ela? À China - que possui mais de US$ 800 bilhões de reservas, é o segundo maior credor dos Estados Unidos e o primeiro exportador para esse país - o que convém não é o conflito com Washington, muito menos a sua ruína, mas o sucesso crescente da nação americana e da União Européia, para poder manter as taxas anuais de crescimento de 10% a 12%, com o objetivo de poder resgatar da miséria os bilhões de chineses que ainda aguardam na sarjeta uma oportunidade de viver dignamente.

Carlos Alberto Montaner, jornalista e escritor cubano, é co-autor do livro Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano

terça-feira, junho 20, 2006

Balaio de gatos

por Xico Graziano

O processo da reforma agrária brasileira virou uma rosca sem fim: quanto mais assentamentos se realizam, piora a confusão fundiária. Haverá final nessa encrenca?
Os malucos do MLST depredaram a Câmara dos Deputados solicitando acelerar a reforma agrária. Inadmissível o vandalismo. Fica, porém, a dúvida de que tarda a justiça no campo. O governo, repetindo a cantilena petista contra Fernando Henrique, enrola os movimentos sociais.

Lula assumiu e a questão piorou. Não cessam as invasões, cresce a violência. O presidente da República afaga a turma, bota boné na cabeça, libera verbas suspeitas, mas, como que experimentando do próprio veneno, não se livra da crítica feroz.

Noves fora a política, os números desmentem, cabalmente, os céticos. Até o final do ano estarão assentadas em projetos de reforma agrária, desde a redemocratização do País, cerca de 900 mil famílias. Descontando a maquiagem oficial. Para comparação, existem em São Paulo 250 mil agricultores.

Foram distribuídos cerca de 40 milhões de hectares. Uma vastidão. Basta saber que a área cultivada com grãos no Brasil deverá atingir 45 milhões de hectares na próxima safra. A somatória das plantações de cana-de-açúcar, café e cacau mal atinge 10 milhões de hectares.

Afirmar que o Brasil não faz reforma agrária é um bordão mentiroso. Serve ao proselitismo, não ao conhecimento objetivo. Nenhuma nação realizou, pela via democrática, tamanha distribuição fundiária. O problema da reforma agrária brasileira, com certeza, não é de quantidade, mas, sim, de qualidade.

Qualquer governo que se pautasse pelo planejamento racional preferiria consolidar os assentamentos existentes, verdadeiras favelas rurais, a avançar nas desapropriações. Sendo correto, como, então, resolver o drama dos acampados?

A resposta é decepcionante: basta selecioná-los para descobrir que, na grande maioria, se constituem de falsos sem-terra. A solução para eles está no emprego, não na terra. Gente desocupada, trabalhadores urbanos desiludidos, excluídos sociais misturados com oportunistas: assim se recrutam os invasores de terras.

Os alojamentos à beira das estradas representam, afora as exceções, uma farsa. Simplesmente não é verdade que exista 1 milhão de pessoas acampadas. Quem conhece esse jogo da miséria humana sabe que as listas têm mais gente que os barracos. Primeiro, prometem cestas básicas, depois, quem sabe, a terrinha boa. Chove inscrição.

Na década de 1960, estudos patrocinados pela FAO sobre a pobreza dos camponeses latino-americanos sugeriam a reforma agrária para promover o seu desenvolvimento. No caso brasileiro, estimavam-se em 12 milhões de famílias os beneficiários da política fundiária. Pouco se fez.

Com a modernização agrícola e a industrialização, o terrível êxodo rural impôs sua lógica. Milhões de famílias migraram para as cidades entre os anos 60 e 80, principalmente. Surgiram os bóias-frias, assalariados sazonais. Mudou o mundo do trabalho no campo.

Em 1985, já terminada a ditadura militar, o governo Sarney patrocinou a elaboração de um plano fundiário. Seus idealizadores calcularam que havia entre 6 milhões e 7 milhões de "beneficiários potenciais" da reforma agrária. Quem eram?

Uma miscelânea de gente. Para começar, somavam os 2 milhões de pequenos agricultores, chamados minifundiários, com seus agregados. Depois, agregavam os parceiros, os arrendatários e os posseiros, num total de 1,5 milhão de produtores "precários". Por fim, adicionavam dois terços dos assalariados rurais do País. Esse balaio de gatos, ajuntando categorias rurais diferentes, produziu uma excrescência teórica.

Ora, os pequenos agricultores, embora pobres e de subsistência, são trabalhadores "com terra". A solução para o seu drama depende do acesso à tecnologia e a mercados favoráveis. Arrendatários nem sempre desejam ser donos do solo que exploram; posseiros preferem assegurar, juridicamente, seu lote. As demandas são heterogêneas, cada qual alimenta um sonho.

Quanto aos assalariados rurais, certamente podem ser considerados sem-terra, pois vivem da força de trabalho. Imaginar que devessem ser produtores autônomos significa voltar à Idade Média. Afinal, inexiste capitalismo sem assalariados.

Suponhamos, porém, que tal proposta fosse adiante. Com o avanço da eventual reforma, a subtração de mão-de-obra enxugaria a oferta de trabalho, elevando os salários. Logo se tornaria mais atraente permanecer assalariado, com carteira assinada, direitos reconhecidos, que aventurar-se na lide da produção rural. Afinal, não é errado, nem feio, ser operário. Nem na cidade nem no campo.

O site do MST afirma existirem 4,8 milhões de sem-terra. Ninguém sabe direito como isso foi calculado. Representa quase o triplo dos assalariados temporários rurais no País. E, ao contrário do desemprego, há falta de mão-de-obra no campo para certas atividades, principalmente para a colheita. Certo ou errado, pouca gente quer hoje trabalhar na roça. Morar, então, nem pensar.

Conclusão: é impossível calcular a quantidade de pessoas que deveriam ser assentadas no campo. Quer dizer, é indefinido o número de sem-terra existente no País. Qualquer estimativa será chutada. E pode conter você!

Por incrível que pareça, no teatro do absurdo em que se transformou a questão agrária brasileira, os verdadeiros sem-terra representam a minoria. Pior. Servem de massa de manobra, pobres coitados, para os revolucionários de araque.

segunda-feira, junho 19, 2006

A fábula petista e o demônio totalitário

"Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil."
Não é a primeira vez que escrevo sobre a frase que mais me rendeu protestos. Até alguns "conservadores" fizeram um muxoxo: "Cheira a preconceito." E daí? O preconceito também é uma realidade discursiva definida por marés influentes de opinião. Não ter alguns corresponde a reforçar outros. Vejam dom Tomás Balduíno, que trocou a Teologia pela Escatologia da Libertação. Ele acredita que lugar de auto-intitulados sem-terra é quebrando o Parlamento ou tungando propriedade alheia. Opor-se a tal prática seria preconceito.

Um "progressista" tem de estar afinado com os deserdados profissionais dos padres, das ONGs e do Chico Buarque. Os "conservadores" preferem ficar no armário, praticando uma ideologia que não ousa dizer seu nome. Ou vão para a fogueira. A esquerda leva vantagem na guerra de valores. Jornalistas acham normal ter como fonte um ladrão - sobretudo se ele roubar em nome da causa -, mas fogem de um "reacionário" ou "direitista". Supostas maiorias teriam mais direito a preconceitos do que um indivíduo. Com efeito, não existiria totalitarismo sem as massas e suas rebeliões - aprendi com Ortega y Gasset, antes ainda de começar a fazer a barba.

Sou tentado a defender o direito que todos temos de ter alguns "preconceitos". Um sujeito cem por cento tolerante é desprovido de moral pessoal e imprestável para uma ética coletiva. É preciso dizer em certos casos: "Isso não!" Um homem sem preconceitos é um empirista empedernido, uma besta, um monstro amoral.

Há um quarto de século toleramos a ladainha petista sobre "um outro mundo possível". Até há pouco, os petistas nos vendiam um certo "socialismo democrático", binômio antitético que a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) ressuscitou em entrevista ao programa Roda Viva. A propósito: ela afirmou lá que apenas 17% das terras agriculturáveis do País são cultivadas. Seria mentira ainda que Marina Silva derrubasse a floresta amazônica e secasse o pantanal para plantar soja. Não foi contestada em sua logorréia narcotizante. Uma bobagem choca; uma penca delas paralisa os sentidos, especialmente se vêm embaladas naquela cascata de disparates reiterados por sinonímias vertiginosas.

Nunca houve socialismo democrático ou marxismo cristão. Quem acata essas bobagens ou está comprometido com a causa ou procura ser simpático com os "progressistas". Não ambiciono a ração de boa vontade de adversários. O socialismo matou quase 200 milhões para criar o "novo homem", e sua primeira vítima foi a liberdade. Tentam pôr no meu colo os mortos das ditaduras de direita. Dispenso-os. Façam como eu: joguem todas elas no lixo. Esquerdistas, no entanto, não reconhecem em Fidel Castro um facínora e têm num homicida compulsivo como Che Guevara um herói, ainda a render filmes e rococós sentimentais. Entronizam um bufão como Hugo Chávez no posto de futuro mártir das causas populares. "Mártir"? Eu e minhas esperanças...

Que bom se a esquerda light e a social-democracia estivessem certas, e tudo isso cheirasse à naftalina da guerra fria, sepultada sob os escombros do Muro. Mas estão erradas, e a metáfora é óbvia demais. No Brasil, as seduções do demônio totalitário estão ativas e plasmadas no PT, que segue o figurino do Moderno Príncipe gramsciano. É confortável para os covardes a suposição de que a lenda lulo-petista se esgota no clepto-stalinismo dos 40 quadrilheiros. É uma forma de colaboracionismo.

Essa lenda contamina as instituições e busca mudar a natureza da democracia. Leiam isto, que segue em itálico: "O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume."

É como Gramsci queria o "partido" que faria a transição para o socialismo aproveitando-se das fragilidades da democracia. Leninismo e fascismo em pacote único. Ele já havia aposentado as ilusões armadas na Europa, mas não a tara totalitária. O PT também arquivou as ambições socialistas - embora financie tropas de assalto à democracia -, mas não a vocação para submeter a sociedade a um ente de razão partidário.

Os sem-preconceito e liberais de miolo mole vêem o partido de Lula seguindo a bula dos mercados e o supõem convertido. Será? O que antes era "criminoso" passou agora a ser "virtuoso" na medida em que "tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe". Ele é capaz de "subverter todo o sistema de valores intelectuais e morais". E até os juros reais mais altos do mundo se tornam variantes de um "imperativo categórico".

A trama criminosa é só entrecho de narrativa mais ambiciosa. Nem a eventual derrota de Lula poria fim a essa história. Se vitorioso, o PT tentará perpetuar-se no poder mudando as regras do jogo: o caminho é tornar irrelevantes as eleições como meio de alternância de poder. E pode fazê-lo fingindo obediência ao rito democrático. É de sua natureza. Se derrotado, a "Al-Qaeda" - rede presente nos três Poderes, sindicatos, fundos de pensão, igrejas, estatais, imprensa, movimentos sociais e ONGs - tentará emparedar o próximo governo por meio do confronto e da chantagem. O que fazer? Dizer não ao demônio totalitário. Outras divergências são secundárias.

Tudo o que é ruim para o PT é bom para o Brasil.

Reinaldo Azevedo

sábado, junho 17, 2006

Enfim, alguém acordou

Nos anos 60, dois de meus amigos mais estudiosos, José Antônio Adura e Roberto Negrão de Lima, freqüentavam os cursos de Ciências Sociais e Filosofia na célebre escola da Rua Maria Antônia. Diziam que eu deveria fazer o mesmo, e de vez em quando me levavam até lá para eu colher umas amostras do ensino recebido. Ouvi tudo com a maior atenção e, depois de várias experiências, cheguei à conclusão de que ali só havia um professor inteligente: Oliveiros da Silva Ferreira. Logo depois do tiroteio com os alunos do Mackenzie a faculdade mudou para o Butantã e ponderei que não valia a pena atravessar a capital paulista, chacoalhando num ônibus, cheirando sovaco da população sofredora, para ouvir uma só aula interessante depois de horas e horas perdidas em injeções de babaquice marxista (e notem que eu próprio me considerava um marxista na ocasião).

Fiquei em casa, mas continuei acompanhando os artigos de Oliveiros no Estadão, sempre lúcidos e valiosos. Só uma coisa atrapalhava o colunista: aquele ar de solenidade uspiana, carga pesada e inútil que ele colhera do meio social e que se impregnara na sua pessoa, como na dos demais professores da instituição, formando uma espécie de segunda natureza. Impondo entre os alunos um temor reverencial quase eclesiástico, aquele repertório típico de gestos, entonações e trejeitos verbais que assinalava um professor da USP a vários metros de distância contrastava com a índole revolucionária das crenças ali dominantes e, para o observador de fora, tinha um efeito irresistivelmente cômico. A diferença era que em Oliveiros o manto professoral era a vestimenta de um esforço intelectual genuíno, enquanto nos outros era o substitutivo perfeito da atividade cerebral.

Com o tempo, notei que o aplomb uspiano, com sua abundância de ponderações fingidamente inconclusivas, seu uso abusivo de galicismos afetados e suas expressões de exagerada deferência a uma corporação de imbecis, acabou por se espalhar em todas as universidades do Brasil - talvez como efeito do sucesso simultâneo de Fernando Henrique Cardoso e do PT -, erigindo-se em estilo oficial do academismo caipira e tornando-se ainda mais senhorial e atemorizante por meio da adoção geral do vocabulário desconstrucionista que oblitera nos ouvintes o último resíduo de inteligência. Qualquer que fosse o caso, em Oliveiros o estilo, definitivamente, não era o homem - era apenas a sua redução cerimonial à estatura ambiente. Fui e continuo sendo seu leitor e admirador, num país onde as coisas a admirar, no domínio intelectual, já eram poucas e agora se aproximam velozmente da quantidade negativa.

Por isso fiquei muito feliz ao notar, no Estadão do último dia 10, que ele finalmente subscreveu minha tese de que o Brasil se encontra em plena revolução comunista, em avançadíssimo estado de implementação. Fiel às hesitações corporativas de praxe, capazes de desacelerar até uma inteligência inquieta como a sua, ainda em 2001, num amável debate na Casa Paroquial da PUC de São Paulo, e depois em 2002, na inauguração do Instituto de Filosofia e Estudos Interdisciplinares no Rio de Janeiro, ele relutava em me dar razão, preferindo apostar na progressiva dissolução das ambições revolucionárias petistas num mundo de economia globalizada e entusiasmo geral pela democracia.

Lembro-me de ter-lhe objetado, ao menos numa dessas ocasiões, que ele baseava seu diagnóstico integralmente em informações colhidas da mídia, sem o suporte das fontes primárias, sobretudo as Atas das Assembléias do Foro de São Paulo, que comprovavam a longa associação do PT com organizações de terroristas e narcotraficantes, bem como a existência de uma estratégia revolucionária comum entre essas organizações e os partidos oficiais de esquerda, que assim arrancavam sua máscara de legalismo e provavam ser tão criminosos quanto seus parceiros.

A grande mídia, ocultando persistentemente essas fontes, tornava inacessível, mesmo a cérebros privilegiados como o do meu interlocutor, a percepção do maior esquema revolucionário já posto em ação na história humana, destinado a entregar nas mãos dos comunistas um continente inteiro de uma só vez. A ocultação, por seu turno, era demasiado longa e sistemática para poder ser explicada pela mera preguiça ou incompetência, indicando antes uma cumplicidade ao menos passiva de boa parte da classe jornalística e de vários empresários de mídia na consecução do projeto comunista.

Os fatos que comprovavam a minha tese eram mais que abundantes, e nada se podia alegar contra ele exceto convicções gerais baseadas no hábito e na confiança. Eu reconhecia que argumentar contra o hábito e a confiança me dava ares de maluco, mas era melhor parecer maluco do que sê-lo realmente, como acontecia com todos os que continuavam a apostar, sem conhecimento dos fatos, na honorabilidade intrínseca das forças esquerdistas em ascensão.

Não sei se, nesse ínterim, Oliveiros estudou as fontes que lhe recomendei. Mas, no artigo "O ensaio geral" ele mostra ter compreendido que a invasão do Congresso não foi episódio isolado, mas sim etapa da consecução de um plano complexo, abrangente e bem elaborado para a conquista do poder absoluto e a instauração de uma ditadura comunista no Brasil. Uma vez que se entende isso, é impossível não perceber, retroativamente, que todas as demonstrações de lealdade democrática do PT e partidos associados foram apenas manobras diversionistas, de vez que coincidiram, no tempo, com o planejamento da investida revolucionária agora em curso.

Não costumo dar importância à aprovação ou desaprovação das minhas opiniões. A quantidade de aplausos ou vaias é apenas a expressão mais brega do argumentum auctoritatis, de validade cognitiva absolutamente nula. Mas a aprovação diferenciada, vinda de estudioso empenhado seriamente no conhecimento da realidade, é sempre alguma coisa.

Se consegui alertar Oliveiros da Silva Ferreira, isso mostra que ainda há alguns neurônios saudáveis no debilitado cérebro nacional.
Olavo de Carvalho

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O ENSAIO GERAL (8/6/2006) - Por Oliveiros S. Ferreira

Quero ser claro desde o início: a invasão da Câmara dos Deputados no dia 6 de junho de 2006 (início da “Era da Besta”...?) foi o ensaio geral para a tomada do Estado. O filme apreendido pela Polícia Legislativa e exibido na TV no dia seguinte é disso a prova: foi um ato cuidadosamente preparado para a ocupação do Salão Verde, chamado pelo instrutor de “Salão de Baile”.
Se não na cabeça daqueles que depredaram o que encontravam pela frente, o ensaio fez parte do plano do ex-guerrilheiro que é líder do movimento. Este, sabiamente, no momento em que tudo acontecia, estava no interior da Casa, procurando ser recebido pelo presidente Rebelo. Depois, pôde dizer que a violência fora espontânea... E houve quem acreditasse que assim era, ou se esforçasse por interpretar o episódio como mais uma manifestação legítima de quem reclamava a reforma agrária.
Está no Eclesiastes que Deus, quando quer perder os tolos, primeiro tira-lhes a razão. No malfadado dia em que os 6 se encontraram no calendário, prestigiados comentaristas, cientistas políticos de nome, todos se esqueceram de que o assalto fora a um dos Poderes do Estado e deram sua explicação “científica” e “abalizada” do que ocorrera.
O comentarista deitou falação, no seu terno bem cortado: entre os responsáveis pelo fato deveria ser colocado o Congresso, porque não cassara todos os do mensalão; o Judiciário, porque não fizera a reforma da lei de execução penal (como se mudar leis fosse função do Judiciário), e o Executivo, cujo presidente recebe todo mundo e está preocupado com a eleição.
O cientista político foi na mesma direção, só que se limitando a acusar o Congresso: perdeu legitimidade quando deixou de cassar todos do mensalão. Todos aqueles que nós, que estamos do lado de fora da Corporação Legislativa, desejamos que sejam cassados. Ao investir contra um dos Poderes da República, especialmente contra o Congresso, o analista e o cientista político simplesmente coonestaram a invasão e deram a clara demonstração de que haviam perdido o juízo.
A prova de que Deus está com os humildes se mostrou com os comentários que ouvi de dois amigos: um, reproduziu o que sua doméstica lhe dissera: “Ninguém mais respeita ninguém, doutor. Estou com medo. Acho que vai haver uma revolução”. O outro comentou a resposta de um pedreiro que mora na periferia: “lá, mata-se todos os dias e ninguém sabe quem é. O Lula, esse não manda nada.” A resposta da doméstica trouxe-me à memória o que um motorista de táxi me dissera depois que o PCC fez o que queria: “Em 15 anos, vai haver uma revolução”.
Vamos refletir sobre os 15 anos. Nas suas poucas luzes, o motorista traduzia um fino raciocínio sociológico (sem ter ido à escola): para que haja uma revolução, é necessário que o tempo passe para que as pessoas não acreditem mais em uma solução dentro da Lei para seus problemas. Ou como dizia alguém que entendia de fato de revolução: a massa faz a revolução quando tem o amargo sentimento de não suportar mais o status quo. Um e outro teriam razão — mas o raciocínio não se aplica ao Brasil por duas razões simples: uma, que a massa brasileira suporta bem o status quo, na medida em que, como diz a sabedoria popular, em tempo de buriti, cada um cuida de si. Em outras palavras, a sociedade se tornou individualista. Outra, porque a revolução já começou.
Se quisermos fixar uma data — assim como dizemos que o Renascimento começou num dado dia de 1453, quando os turcos tomaram Constantinopla — podemos dizer que a revolução começou em 1979, poucos dias depois da posse do presidente João Batista Figueiredo. O movimento sindical “novo”, então liderado por Luís Inácio da Silva, vulgo Lula, declarou uma grande greve no ABC. Multitudinária! O Tribunal Regional do Trabalho declarou a greve ilegal. O líder do movimento fez que o movimento continuasse em claro desafio a um ramo do Poder Judiciário, portanto, um braço do Estado.
Se para os responsáveis pela democracia que se instaurava (os Atos Institucionais haviam cessado a 1° de janeiro) não seria de bom tom que Lula fosse processado pela lei de Segurança Nacional, ao menos poderia ter sido enquadrado no artigo do Código Penal que dispõe sobre a desobediência à Justiça. Nada feito: na democracia que começava, não seria correto atingir essa liderança que havia criado um novo sindicalismo para derrotar o de Vargas, de pelegos. O ministro do Trabalho do presidente Figueiredo, senhor Murilo Macedo, veio a São Paulo, conferenciou com Lula e a greve terminou. O Poder Judiciário foi desmoralizado, ultrapassado — pela Presidência da República — e entre os mortos e os feridos, ninguém se machucou.
Muito bem, o Poder de Estado fora assaltado. Mas a paz reinou em Santo André e no ABC. Aí começou tudo: o Estado recuou diante da possibilidade de confronto com grevistas e do risco, maior, de ser acusado de ditatorial por todos os que falavam e escreviam. Na cabeça dos grevistas, das lideranças, pelo menos, gravou-se a lição: desde que o Estado fosse ameaçado com a possibilidade de conflitos e de sangue, seriam vitoriosos.
Esse foi o primeiro ato do drama. O segundo foram as ações violentas da CUT. É preciso lembrar que a CUT, quando se constituiu, era uma organização ilegal porque a CLT não considerava a possibilidade de se constituir uma central única de trabalhadores. Pela legislação ordinária datada de 1943, que não sofrera grandes alterações até aquela data, só poderia haver confederações de categorias, que deveriam agir isoladamente. Apesar disso, a CUT se organizou — quando apenas no Governo Sarney é que a modificação da lei permitiria que se constituísse legalmente.
As primeiras ações da CUT foram, como todos nós lembramos, de uma violência nunca vista nas relações trabalhistas. Em São José dos Campos e no ABC, ela deu demonstração de uma nova tática de luta: a ocupação das fábricas. Em muitas ocasiões, as ocupações incluíam atos de violência física contra pessoas e a propriedade: quem quisesse furar a greve sofreria ultrajes maiores ou menores, um dos quais era ser preso naquilo que se chamou de “chiqueirinho”. Em uma das ocasiões, creio que no ABC, os operários da CUT que ocupavam uma montadora, puseram fogo em vários automóveis já prontos.
A reação a esses atos de violência foi mais de parte da sociedade do que do Governo. Afora a reação da sociedade, preocupada com a escalada da violência, houve outro fator que levou a CUT a mudar sua tática: indústrias mudaram-se do ABC e os novos líderes compreenderam que a violência na luta sindical não era produtiva do ponto de vista de ganhos salariais.
É preciso ver que essas ações da CUT configuravam três tipos de violência (sem querer copiar dom Helder Câmara e suas quatro violências): contra as pessoas, contra a propriedade e contra a Lei. A rigor, poder-se-á dizer que as três podem ser resumidas na última, pois a violência contra a pessoa e a propriedade são crimes previstos no Código Penal. Concordo, mas qualifico minha posição: a violência contra a pessoa e a violência contra a propriedade são sentidas emocionalmente — e sublinho o sentidas emocionalmente — por todas as pessoas que dela foram vítimas e pelos que se arrepiam com esse tipo de ação. A violência contra a Lei, essa é feita contra um fato que, para a maioria das pessoas, é mais abstrato do que um desejo de ser multimilionário. Quem não tem idéia de seus direitos — e essa é a posição da maioria dos brasileiros — muito menos sentirá que a Lei foi violada. A reação emocional dá-se contra o ataque à pessoa e à propriedade — não contra a norma jurídica, abstrata como o Estado. O Governo, repitamos à exaustão, esse é concreto para o cidadão (que, com isso, demonstra ser mais súdito do que cidadão); o Estado é uma abstração. É, como diria um teórico do Direito, a comunidade criada pela ordem jurídica. A maioria da população, dos eleitores (semi-alfabetizados ou analfabetos) saberá que significa isto?
Esse fato — a violência contra a Lei — confirmou a revolução que se iniciava. E que foi incentivada, no plano do coração e das mentes, pela propaganda contrária aos Governos de 1964 a 1985, que se acrescentou a uma série de fatos sociais que contribuíram para enfraquecer o tecido social e acovardar os governadores de Estado — que inclusive se recusavam a fazer qualquer coisa para evitar greves nas Policias Militares, pois estavam certos, como me disse o então comandante do IV Exército, que o Exército entraria em força para assegurar a ordem pública.
As ocupações de terra pelo MST foram o ingrediente final para que a idéia de revolução se instalasse no coração e nas mentes das lideranças, de desempregados e daqueles que ainda sonhavam com Che Guevara e o socialismo cubano.
Ponha-se a débito dos Governos Federais o fato de estarem vindo financiando organizações legalmente registradas e controladas pelo MST, que é uma entidade fantasma, pois não tem registro legal – organizações que, reconhecidas como ONGs, mascaram seus objetivos.
Não responsabilizemos o Governo Federal por culpa que não tem em primeira instância. Quem responde pela manutenção da ordem pública é a instância estadual. Esta é quem deveria ter realizado as primeiras ações repressivas contra invasões de terra — os Governos estaduais e a Justiça estadual. Em São Paulo, mesmo, houve caso em que um juiz não concedeu a imissão de posse porque a invasão fora feita apenas em uma porcentagem da fazenda... A maioria dos governadores, se não todos, foi omissa, preferindo jogar a responsabilidade pela inação nos ombros do Governo Federal.
Aquela idéia que acompanhou o fim da greve no ABC em 1979 transformou-se hoje em moeda corrente: as invasões de terra são feitas por mais de 100 pessoas (ou 500). A desocupação da terra por mandado judicial e emprego das PMs levaria a um resultado danoso para a imagem da autoridade. Portanto, nada se faz — ou, perdão: entregaram-se e ainda hoje se entregam cestas básicas para alimentar as famílias que ocupam ilegalmente as terras.
A revolução já foi feita na medida em que a idéia de Lei e a de Estado já não mais faz parte da maneira de pensar dessas pessoas que violam a lei. A doméstica de meu amigo, aquela a que me referi no início, tem razão em ter medo; é que o pedreiro também tem razão, pois Lula nada manda. Nada manda porque os que, na sociedade, poderiam reclamar a imposição da Lei têm receio de serem chamados de reacionários, de fascistas e, ainda não, mas em breve, de gorilas — como em 1963 e 1964.
O ensaio geral para a tomada do Poder foi feito.
Aguardemos, confortavelmente sentados, que apareça, no meio do MST, do MLST ou dos Sem Teto urbanos, alguém com a audácia de Adolf Hitler ou Lênin para que se tome de fato o poder de Estado — contra nós, porque totalitário. Então, o novo Governo, que será dirigido por um partido, traçará suas diretivas e dará suas ordens às Forças Armadas como no III Reich e na URSS.

sexta-feira, junho 16, 2006

Eu não voto em Lula

Em 1982, eu me lembro bem, o recém-fundado Partido dos Trabalhadores lançou Lula - já então bem conhecido pela população de São Paulo por causa das greves no ABC - candidato a governador. Algum intelectual metido a marqueteiro criou o mote da campanha: "Lula, um brasileiro igualzinho a você!" O PT aplaudiu. Todos acharam o apelo irresistível. Para reforçar o tema o candidato só aparecia na TV, mesmo nos debates, de calça jeans e camiseta. As fotos de campanha se valiam da mesma indumentária. E Lula só falava em público utilizando gírias próprias dos trabalhadores humildes.

Ao contrário do que se previa, a campanha foi um estrondoso fracasso. O candidato obteve menos de 6% dos votos. Perdeu feio, principalmente no ABC, seu reduto eleitoral. Uma pesquisa qualitativa foi feita para descobrir as causas da derrota. O povo humilde, em especial as donas de casa, se encarregou de explicar: "A gente quer um governador que seja mais bem preparado do que nós. Se ele é igualzinho à gente, o lugar dele é aqui mesmo, dando duro que nem nós..." Desde então eu admiti, humildemente, que não entendia nada da alma do povo, principalmente das camadas menos favorecidas.

Eles são tão inteligentes como nós, só que a realidades em que vivem é diferente e, portanto, os seus valores são também diferentes. Eu, como jornalista e político, sei me comunicar exclusivamente com as classes média e alta, cujos valores compartilho. Quando me aventurei a ser candidato a prefeito de São Paulo, em 1988, gastei a maior parte do meu tempo discursando na periferia. Fui muito bem tratado - afinal, o nosso povo é sobretudo cordial -, mas não obtive nenhum voto por ali. Todo o meu eleitorado se concentrou nos bairros de classe média. O que quer, realmente, o povo de baixa renda?

Em 2003 recebi outro recado significativo de que o povo humilde tem conceitos muito diferentes dos meus. Como secretário da Comunicação do governo Alckmin, coube-me realizar uma série de pesquisas para procurar saber quais os programas sociais do governo do Estado eram mais bem recebidos pela população. Uma das perguntas era a respeito dos programas de renda para os desempregados. Não me lembro exatamente dos valores, mas o programa da Prefeitura, então dirigida pela dona Marta, pagava a cada cidadão uma renda duas vezes superior a idêntico programa do governo do Estado. Perguntamos aos cidadãos qual dos dois era mais bem aceito. Acreditávamos que a resposta era óbvia: o de maior valor seria o escolhido. Qual o quê! O preferido foi o de valor menor. Explicação do povo: "Ora, eu trabalho duro para ganhar R$ 250 de salário. Por que é que uns vagabundos, que não ralam como eu, hão de ganhar R$ 130 na moleza? R$ 70 está muito bom para eles..."

Tenho a humildade de reconhecer: como jornalista e homem público, meus valores são típicos da classe média. É ela que me lê aqui, no Estadão, é com os valores dela que me identifico e são as suas convicções que eu defendo. Como político, em campanha só sou convidado a dar palestras em associações, escolas e clubes de serviço cujos membros são da classe média. Não me arrisco a falar ao povão. Eu não o compreendo e ele, com certeza também não se sensibiliza com as minhas pregações.

Digo tudo isso para tentar responder a uma pergunta que recebo constantemente, via e-mail, dos meus leitores. É a seguinte: "Já conversei com todos os meus amigos e não encontrei ninguém que vá votar no Lula. Como é possível que ele seja disparadamente o favorito nas pesquisas?" A resposta que dou, invariavelmente, é a mesma: "Os eleitores de Lula estão concentrados nas camadas mais humildes da população e no Nordeste. Trata-se de pessoas que não costumam ler jornais e tampouco se interessam pelos programas noticiosos na TV."

Essa gente pouco ou nada sabe sobre todos os escândalos que marcaram a gestão do atual presidente e, quando sabe, não chega a compreender exatamente a magnitude e a gravidade dos inúmeros crimes cometidos. Não porque o povão seja destituído de valores morais. Ao contrário. Ele cultua uma moralidade por vezes mas rígida que a nossa. O problema é que eles não estão lá muito preocupados com a integridade da democracia e com o caráter sagrado que nós atribuímos às suas instituições. Lula, via Bolsa-Família, eleva o poder aquisitivo de cerca de 30 milhões de cidadãos, em todo o Brasil. A cesta básica de alimentos, por sua vez, está mais barata para os consumidores. E é isso que lhes importa. Roubalheira por roubalheira, isso existe em todos os governos. Se é maior ou menor, isso em nada muda o dia-a-dia das pessoas humildes. E, portanto, não tem a menor relevância.

Isso quer dizer que nós, eleitores mais esclarecidos, nos devemos render ao favoritismo de Lula e considerar a hipótese de sufragá-lo? De forma nenhuma. Eleição e turfe são coisas muito distintas. Na primeira votamos em quem acreditamos, no segundo é que a gente procura apostar em quem parece que vai ganhar. Tenho o máximo respeito pelos valores e convicções do povo humilde, mas me assumo como classe média e não abro mão da moralidade e do senso de valores típicos da minha condição.

Não se trata de optar pela esquerda ou pela direita. O que está em jogo é algo que transcende em muito o espectro ideológico. O PT, no poder, demonstrou ser tudo aquilo que abominamos. É um partido cujos membros escarneceram da democracia, menoscabaram a ética e fizeram do Parlamento um fétido lupanar.

É por isso que eu jamais votarei em Lula. Entendo que os brasileiros merecem um País mais digno que esse. Ainda acredito que um Brasil melhor é possível. E não abro mão do meu direito de votar pela decência. A pior das renúncias, sem dúvida, ainda é a renúncia à esperança.

João Mellão Neto

quinta-feira, junho 15, 2006

Ressaca, Ronaldinho e Ronaldão

Passado o pouco memorável jogo da terça-feira, as cabeças estão esfriando, mas ainda há muita gente por aqui falando como se o Brasil tivesse perdido. Até mesmo os britânicos, pois não só de arruaceiros se compõe a torcida inglesa. Logo depois do jogo, entrando no elevador do hotel em Berlim, me bati com dois cavalheiros ingleses aparentemente sóbrios, ambos vestidos com a camisa da seleção brasileira, que olharam meu crachá de imprensa e viram que sou brasileiro. Um deles em ato bem pouco comum por aqui, apertou meu ombro e, com o ar de quem tinha acabado de chegar da retirada de Dunquerque, lamentou que tivéssemos feito um jogo ruim.

Quase pergunto se eles pertenciam a um desses clubes ingleses exóticos, dedicado no caso a torcer pelo Brasil. Eu imaginava que, na Inglaterra, todo mundo torcesse por ela, mas fiquei com a sensação de que, se eu puxasse, eles cantariam o nosso Hino Nacional inteirinho.

Revelaram-se torcedores radicais da seleção e o que não falou comigo deu a impressão de que não conseguiria dizer nada sem ficar aos prantos. Que acontecera a Ronaldo, que acontecera a Ronaldinho, que calamidade era aquela que tinha se abatido sobre o Brasil? Esta vida vive nos surpreendendo e me vi na estranha situação de confortar dois ingleses abatidíssimos com a performance brasileira.

Na rua, a mesma coisa. Não se podia dizer que os croatas estavam alegres, mas não vi nenhum deles tão desolado quanto esses ingleses. E os brasileiros que se descobriam meus compatriotas deploravam em altos brados o que tinha acontecido em campo. Vergonha, vergonha das vergonhas! Havia até quem duvidasse de que o Brasil chegasse às quartas-de-final. E a julgar pelo que bebiam para esquecer, imagino que a quarta-feira deles tenha sido preenchida por uma ressaca tsunâmica, agravada pela desesperança.

Mas agora o panorama mudou e a conversa gira em torno dos Ronaldos.

Eu, como jornalista, devia saber o que estava acontecendo. Mas claro que eu não sabia e não sei, só ouço palpites e "informações de cocheira" pouco confiáveis. Sei que Ronaldinho saiu do campo de cara amarrada, como já contei, e em comportamento inusitado nele, se negou a conversar. E que o outro Ronaldo, ao que me parece, também não está gordo como dizem, mas com pinta de deprimido, com problemas na cuca. A cara dele, depois que foi substituído, era de fazer dó. E creio que Ronaldinho apenas estava chateado por não ter jogado uma fração do que sabe. Quanto ao Ronaldão, talvez a situação seja pior, porque todo mundo, esquecendo o seu currículo, dá no pé dele e essas coisas de cabeça são meio complicadas de resolver. E é isso que continuo pensando - o resto para mim é fofoca. Sou otimista e espero ainda encontrar os dois ingleses para comemorarmos a conquista da Copa. Pelo Brasil, é claro.
João Ubaldo Ribeiro

terça-feira, junho 13, 2006

O PT e o nazismo

Hitler começou sua maléfica trajetória política, no Partido dos Trabalhadores Alemães, registrado como o sétimo membro do comitê. Dos 25 pontos do programa do partido, cabiam-lhe dois, um dos quais afirmava que "as massas não necessitam de idéias, mas de símbolos que conquistam a fé e atos de violência e terror que, se bem-sucedidos, atraem adeptos". Depois de muitas discussões a analisar propostas, decidiu-se por uma bandeira que tivesse suas raízes no passado distante. A que correspondeu a esse paradigma foi a bandeira que ainda drapejava nos escombros de Pompéia, após sua destruição. Rendeu-se Hitler a optar por um fundo vermelho - que não era da sua preferência -, cujo centro exibia um dístico branco no qual se estampava a suástica preta, cruz gamada, signo existente desde 4 mil anos antes de Cristo.

O PT seria um partido novel, porque todos os da oposição eram "farinha do mesmo saco", sem um ideário subordinado à ética na conduta partidária. Escolheu seu símbolo não na Antiguidade, que lembrasse Pompéia, lugar de recreio que as lavas do Vesúvio soterraram. Deveria ser algo que revivesse a vitória, como a estrela vermelha que identificava o exército com que os bolcheviques, principalmente Trotski, venceram a guerra civil contra "os brancos" de Kolchack, a aliança da contra-revolução que pretendia entregar a Rússia de volta à monarquia depravada e aos mujiques miseravelmente explorados, como Gogol descreveria no romance Almas Mortas. Adotado o símbolo que "conquista a fé", caberia cumprir a missão da "violência e do terror que atraem". Não, igualmente, no estilo das SA e suas tropas de choque no início do nazismo. Começaram as arruaças pela intimidação. Apareceu o "apitaço", no fim dos anos 1980. No Parlamento, deformou o sentido democrático. Era de ver srs. deputados petistas soprando seus apitos, de sorte que o adversário não fosse ouvido ou se exasperasse. A mesma tática foi usada nos comícios. Quando Rachel de Queiroz assistiu pela primeira vez a um ato desses, dirigido pelos comunistas, denominou-os "fascistas vermelhos". Tinha razão, porque essa fora a maneira pela qual os fascistas preferiram a violência ao debate, o que não é de todo diferente da violência que Hitler defendia. Ele acreditava que um bom político só inflamaria as massas se fosse igualmente um bom orador. Por isso suas brigadas de choque desfaziam reuniões ou comícios. Preso por três meses, porque desfez chefiando pessoalmente o grupo de choque que atacou o comício em que falava o respeitado orador bávaro federalista Ballerstedt e o esmurrou, passou só um mês na cadeia. Ao sair, provocou os policiais: "Mas Ballerstedt não falou." Impossível deixar de fazer a analogia com os apitaços.

O que me fez lembrar a similitude foi, inicialmente, Stédile, em constantes elogios aos atos de violência do MST. Mas foi o assalto ao Parlamento na semana passada que me fez ver a semelhança com o nazismo e a frase feliz de Rachel de Queiroz. O assalto, planejou-o um petista do comitê central do partido, "companheiro" várias vezes recebido por Lula em encontros fraternos (de cujo governo recebeu R$ 5,7 milhões) e que também teve a solidariedade e as bênçãos de dom Tomás Balduíno, da Pastoral da Terra. Os que depredaram a Câmara dos Deputados seguiram um planejamento cuidadoso, reconheceram por vários dias os acessos a ela, armaram-se com grandes tacões de pedra, pedaços de madeira e até mesmo de algo suficientemente contundente para quebrar computadores e desfigurar um automóvel, posto de pernas para o ar. O líder, de uma família de donos de usineiros abastados do Nordeste, não tem uma suástica no braço musculoso para identificá-lo, mas é como se a tivesse na cabeça proeminente e no gesto desafiador dirigido aos policiais. Disse não ser responsável pelo estouro da boiada, como se não fosse o bucéfalo que o inspirou. A súcia (mulheres inclusive) não foi à Câmara para impedir nossos licurgos de falar, como usavam fazer os recrutas das SA. Alguns - não surpreende - devem fazer parte da "organização criminosa dos 40" que o bravo procurador-geral da República teve o destemor de denunciar. Baderneiros, nada tinham com reivindicação, tantas são elas numa sociedade injusta, mas para provar que os trogloditas reviveram. No rico Bruno o PT encontrou, afinal, o seu Pancho Villa.

O presidente da Câmara, que se honra de pertencer há 30 anos ao Partido Comunista, incomoda Stalin, no cadáver às margens do Kremlin, quando louva a democracia, a Casa do Povo e desanca a violência. Para não parecer que aderiu à direita, obrigada a defender-se de agressão, preferiu expor a vida dos poucos seguranças (que os assaltantes, no planejamento feito, já sabiam serem poucos) ante a fúria dos baderneiros a solicitar a presença da Polícia Militar, que, ao menos poderia impor, pelo respeito à farda, comedimentos dos brutos herdeiros camisas-marrons das SA do início do nazismo. O "estouro da boiada", a violência de seus comandados estava implícita nas lições de capacitação política. A pedra que perfurou o crânio do servidor levado aos cuidados de UTI prova que o amor à liberdade obriga, a quem dela se serve, a defendê-la, sem medo de ser confundido com o passado de quem Kruchev fez o retrato nefando de um tirano. Como afirmou Fareed Zakaria, as liberdades cresceram e o Estado, antes monopolista das armas, diminuiu e com ele veio o enfraquecimento da democracia.

Lyautey, biografado por André Maurois, disse: "A ordem e a segurança não são, decerto, direitos, mas se tornaram necessidades humanas." Goethe foi mais longe. Embora vitorioso, diante das injustiças no cerco de Mayence disse: "Amo melhor a injustiça que a desordem." Por aqui, neste Brasil, ama-se mais a desordem que a injustiça.

Jarbas Passarinho,ex-presidente da Fundação Milton Campos, foi senador e ministro de Estado

O crime compensa?

Sr. Dirceu Lula Delúbio Valério da Silva

LULA QUER PROVAR que o crime compensa e propôs um desafio debochado: que sejam exibidas as confissões e testemunhos sobre a corrupção do seu governo. E o povo, em vez de penalizar os ladrões, ainda o reelegeria. Sugere que o povo, em vez de condenar os culpados impunes, penalize os que denunciaram e provaram as falcatruas.
Pois está aceito o repto. Veremos se prevalecerá a distração temporária, causada pela maciça propaganda oficial. Veremos se a opinião pública relevará, tanto como Lula, o fato de que 40 petistas e assemelhados, ministros e amigos pessoais do presidente, cometeram crimes e não apenas transgressões éticas. Todos acusados pelo Ministério Público e respondendo a processo no Supremo.
Ou por acaso, tudo é mentira, fruto de confissões e testemunhos obtidos sob tortura?
Então, José Dirceu não deixou a Casa Civil da Presidência (nem foi cassado pela Câmara dos Deputados) por chefiar um sistema que começou a ser revelado com as chantagens de Waldomiro Diniz, seu subchefe para assuntos parlamentares?
Duda Mendonça não confessou ter recebido R$ 10,5 milhões ilegais, em contas no exterior, como pagamento da campanha eleitoral de Lula? Silvinho Pereira, secretário do PT, não recebeu de presente um luxuoso Land Rover de uma empreiteira da Petrobras? Delúbio Soares não montou um sistema de chantagem e suborno executado pelo empresário Marcos Valério para distribuir dinheiro vivo (naturalmente, desviado do Banco do Brasil, via Visanet, e de outras fontes públicas) a deputados, em troca de apoio ao Governo Lula?
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Veremos se a opinião pública relevará o fato de que 40 petistas e assemelhados cometeram crimes e não apenas transgressões éticas
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Palocci jamais freqüentou a residência alugada no Lago Sul, em Brasília, por uma gangue de negocistas?
Okamoto, Presidente do Sebrae, não pagou dívidas pessoais de Lula e sua filha com dinheiro de origem não identificada? Ou o irmão de Genoino nada tinha a ver com a história do portador que escondia dólares na cueca, quando foi apanhado no aeroporto de São Paulo por funcionários do próprio governo na inspeção rotineira dos passageiros que embarcavam para Fortaleza? Será tudo isso uma alucinação coletiva?
Abusando da sua condição de presidente da República e transformando atos oficiais em palanque eleitoral, pretendeu chantagear a oposição.
Quer saber quem ousará lembrar aos eleitores de que ele é um protetor de ladrões públicos e acusados em casos de corrupção, roubo, formação de quadrilha, prevaricação, mentira, falsidade ideológica, crimes eleitorais, remessa ilegal de dólares ao exterior e outros delitos -todos apurados pelas CPIs, Polícia Federal e Ministério Público Federal.
Orientado por seus marqueteiros e sempre à sombra de Duda Mendonça, que é seu onipresente conselheiro, Lula ensaia um velho e eficaz golpe de propaganda. A manobra perversa consiste em repetir mentiras e negar verdades com tal insistência e firmeza que o povo termina acreditando que a mentira é verdade e que a verdade é mentira.
Experimentado no mundo inteiro através dos tempos, desde os romanos, tem funcionado eficazmente, até que o próprio povo, enganado, reage a tão sórdida maquinação. Às vezes tardiamente. Mas que Lula não se fie no retardo da reação à sua pirueta de marketing eleitoral. Confesso que nunca ouvi falar, a não ser como façanhas de ditadores desvairados, de ousadia elevada a tal grau de cinismo.
E já que o presidente se dispõe voluntariamente, como fez em Manuas, a confundir-se com os personagens dos escândalos do seu governo, por que não facilitar-lhe o esforço incorporando-os ao seu nome? Ele mesmo intercalou o apelido à própria assinatura. Portanto, que tal chamá-lo de Lula Delúbio Valério da Silva? Ou Dirceu Okamoto Lula Valério?
Ou...sei lá. São tantas as combinações possíveis! No entanto, não importa com que nome Lula se apresentou para fazer campanha eleitoral no Amazonas no dia 1º de junho, com despesas pagas com dinheiro público.
O importante é que suas imposturas não fiquem sem resposta nem suas mentiras repetidas se tornem verdade por falta do protesto e contestação. Em junho de 2005, a indignação popular com esses crimes do governo Lula -os mesmos que agora serão recordados na campanha- poderiam ter provocado seu impeachment. Pois em outubro de 2006 serão a sua derrota eleitoral. Não resta a menor dúvida.
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JORGE BORNHAUSEN é senador da República por Santa Catarina e presidente nacional do PFL

domingo, junho 11, 2006

ASCO!!!

Não costumo perder o controle das palavras, quando debato. No Senado, jamais agredi ou fui impolido com quem debati, nem recebi o menor agravo verbal ou físico. Defendíamos nossas posições no regime que a oposição, em 1978, ainda chamava de ditadura militar. Estranha ditadura que, já nas eleições de 1965, perdera os governos de Minas Gerais, berço do golpe de Estado preventivo de 64, e do Rio de Janeiro, onde Carlos Lacerda, um dos chefes civis da contra-revolução, perdeu para a oposição a eleição do sucessor. Ditadura que mantinha todas as liberdades civis e políticas, inclusive a da imprensa livre, até que foram restringidas pelo AI-5, por seu turno revogado, e com ele todas as medidas de exceção, pela Emenda Constitucional nº 11, de outubro de 1978.

Mas continuou a oposição a denominar ditatorial, em 1979/80, o governo que defendi como seu líder, quando votamos a anistia. Debati com Paulo Brossard, Pedro Simon, Marcos Freire, Roberto Saturnino, Gilvan Rocha, Franco Montoro e Itamar Franco, entre outros. Defendemos nossos pontos de vista em linguagem civilizada. Não mentíamos; argumentávamos. Cultivávamos a honradez e a probidade. Todos eles ficaram meus amigos e muito contribuíram para a redemocratização do país. Inconformados com a polidez mútua que mantivemos, houve quem, eleito muito posteriormente, dissesse que o Senado “era um sepulcro caiado”, porque não encontrava nos anais os insultos soezes de que já faziam uso.

Quem reproduziu as palavras indignadas de Cristo, profligando os fariseus, jactava-se de pertencer ao PT, um partido ético e moralmente renovador. Não se passou muito tempo, veio a desiludir-se com os desvios de conduta do PT, que um dos seus fundadores históricos disse que procedia como meliante. O partido, confundido com uma República sindical, assaltara o Estado por ele aparelhado. A máscara ética mostrou que apenas escondia meliantes, ou seja, bandidos, em quadrilhas expropriadoras do dinheiro público ou de estranhos empréstimos com aval de Valério.

O governo tudo fez para impedir a instalação de CPI, diante dos escândalos que a imprensa investigativa revelava à farta, trazendo as provas das denúncias de Roberto Jefferson, que não as tinha. Isso foi apelidado de denuncismo. O mesmo governo violou um princípio parlamentar, o de ter em CPI a presidência ou a relatoria de um parlamentar da oposição, pois a CPI é um instrumento da oposição. Todas tiveram presidente e relator governistas. A dignidade deles, ajudada pela pressão popular, impede que a CPI venha a ser pura farsa. Convocou depoentes citados com provas de corrupção. Começou uma peça teatral dedicada ao cinismo mais revoltante.

Repugna ouvir os depoimentos dos convocados pelas CPIs e pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Mentem sordidamente, diante dos fatos, como se esses houvessem sido uma conspiração de falseadores de dados verdadeiros. Usam o caradurismo dos meliantes, que o petista horrorizado assim os denominou. Adotam, como ajuda, o truque de desqualificar as fontes que comprovam o assalto aos cofres da União, falaciosamente confundidos com “recursos não contabillizados” para caixa 2 do partido da ética e da moral. Confusão que obedece à orientação de caríssimos advogados a serviço de esconder a fraude ou deixá-la incidir em crimes de punição menor. Disse a mídia que isso foi orientado por ninguém menos que o ministro da Justiça, famoso penalista que já absolveu acusados de crimes horrendos, mas deve ser engano porque o ministro é autor de uma frase violenta sobre o caixa 2, “uma bandidagem”. Nas acareações, atingem o ápice da simulação. Dizem que não conhecem ninguém, que nunca receberam dinheiro, nada obstante seus nomes figurarem nos extratos bancários. Se não os próprios nomes, os dos intermediários.

Aos dois irmãos do assassinado Celso Daniel, o chefe de gabinete do presidente Lula, com a mais serena fisionomia, sem mexer um músculo da face, diz nunca ter dito o que lhes disse, quando amigos. Ou os irmãos não passariam de paranóicos, ou — mais provável — Carvalho é o mais perfeito êmulo de Tartufo, de Moliére. Há até momentos hilariantes. Um deles se deu com o ex-tesoureiro de um dos partidos venais, a quem a secretária de Marcos Valério, aquela que ficava com os dedos doridos de tanto contar cédulas e entregar a beneficiários, o identificou como um dos que recebiam o “excremento do demônio”. Com a mesma hipocrisia de outros, ele negou. Negar é o verbo mais usado pelos que conjugaram o outro verbo que o padre Vieira preferia para o caso: surrupiar. O deslavado mentiroso afirmou desconhecê-la. Rindo, com ar de deboche, ela de dedo em riste lhe perguntou: “E aquele encontro no hotel Grã Bitar?”. A platéia gargalhou e o mentiroso silenciou.

É a isso que assistimos nesta pobre república da estrela vermelha, na qual José Dirceu, jogado às urtigas pelo palácio, beneficia-se de liminares que o ministro Eros Grau concede, escandalizando os leigos, porque leigos somos, e o ministro está no STF porque tem “notório saber”. Logo... A amizade com Dirceu em nada afetou seu senso de justiça. Dirceu, que tem fôlego de gato, tudo indica que não será cassado neste ano. Quanto a 2006, é prudente não arriscar.

Tudo isso provoca asco, nojo, palavras que nunca usei em política.

Jarbas Passarinho no Correio Brasiliense 1 de novembro de 2005

Comendo e andando

Segurem o queixo para ele não cair, mas o dever do jornalista é contar a verdade duela a quién duela. E eu não participo das conspirações da mídia, destinadas a distorcer, inventar ou negar a existência de fatos que o grande público deveria saber. É assim, com o desassombro que caracteriza minhas atitudes, que revelo a verdade nua e crua: a Alemanha tem fama de adiantada, coisa e tal, mas - pasmem - não tem um programa Fome Zero.

Conto isso depois de cuidadosa investigação e descobri que, até mesmo descrever o que é o Fome Zero para um alemão é difícil, notadamente para quem não fala alemão, como eu e quase toda a brasileirada. Muitos deles acham que, com isso, estamos querendo dizer que no Brasil ninguém passa fome, mas o atraso germânico é brabo mesmo. Não fazem idéia da diferença entre um governo e a realidade. Claro, brasileiro não mente, exceto os investigados em CPIs e semelhantes, de forma que não contamos que não se passa fome no Brasil. Contamos apenas que temos um programa Fome Zero e às vezes suspeito que os alemães até entendem o que é, mas ficam despeitados.

Enfim, como o governo atual deles também não costuma alegar que é o melhor desde Carlos Magno e eles reconhecem que as mães deles todas nasceram analfabetas, não se pode esperar muito. E, afinal, temos de relevar essas pequenas coisas, fazem parte do orgulho nacional de um povo que somente agora ganha renome internacional, por hospedar uma Copa. Não vamos esfregar isso na cara deles, não fica bem para visitas mostrar quão pouco progrediram, desde que D. Pedro I proclamou a independência deles.

Não vou dizer que se passa fome na Alemanha, mas devo ressalvar que não está fora de cogitações eles terem escondido os famintos deles na Chechênia, ou qualquer lugar assim, somente para que não flagremos suas misérias e as mostremos na tevê, com o sensacionalismo que caracteriza a mídia brasileira em geral, pois aqui não é lugar de denuncismo barato. Não se trata, contudo, de denuncismo barato dizer que, em quase toda a Alemanha, se você deixar de comer até as dez horas da noite, é melhor fingir um enfarte e ir para um hospital (o SUS daqui também não vale nada, posso apostar - nem tem SUS, aliás), porque não vai achar nada aberto. A gente sai de noite e se bate com uma porção de alemães alimentados, mas comer mesmo é impossível. E não adianta implorar à porta dos restaurantes já fechando. O gerente diz que não abre e sai para casa, comendo e andando para nós. Sei que isto não é assunto futebolístico, mas faz parte do panorama geral da Copa. Vamos derrubar mitos. Eles são tão mais atrasados que comem na hora certa e nós somos tão adiantados que comemos atrasado. Ou não comemos nada, mas aí ostentamos o Fome Zero nas fuças deles, pras negas deles é que eles são adiantados.

João Ubaldo Ribeiro

sexta-feira, junho 09, 2006

Os números e o milagre

Desde ontem, ecoam por toda parte os belos discursos contra a invasão da Câmara Federal. Com uma ou outra exceção irrelevante, sua tônica é uniforme: dão a impressão de que essa truculência, como todas as anteriores, foi um susto passageiro, um abuso fortuito incapaz de abalar no mais mínimo que seja a tranqüilizante rotina democrática em que vivemos. Está tudo sob controle: temos um presidente amante da ordem, nossas instituições são estáveis e as Forças Armadas, é claro, estão vigilantes.

Não vou discutir com quem diz que acredita nisso. Peço apenas ao leitor que atente para o aspecto aritmético da questão. Some a militância do PT, do MST e MLST, da CUT, do PCC e das demais facções da esquerda revolucionária (assim denomino as que estão afinadas com a estratégia continental do Foro de São Paulo). São uns quarenta milhões de pessoas. Não incluo aí simpatizantes, burros de presépio e meros eleitores. Conto apenas os militantes, gente doutrinada, adestrada, disciplinada, disposta a tudo. São a quarta parte da população brasileira. Nem me pergunto quantos deles estão armados, prontos para matar.

Mesmo que tivessem apenas estilingues, restaria este dado brutal: nunca houve, na história do mundo, uma organização revolucionária dessas dimensões. Muito menos pergunto quanto custou: não consigo somar os lucros do narcotráfico e dos seqüestros, a hemorragia crônica de verbas federais, os dízimos da militância e as contribuições de fundações estrangeiras bilionárias. O total é impensável. Você acha realmente que alguém constrói uma monstruosidade dessas para não fazer nada com ela além de cumprir as leis e ser bom menino? O futuro do Brasil está decidido, de maneira praticamente irreversível, por um fato aritmético de envergadura majestosa e potência avassaladora.

Esses números, aliás, não são uma quantidade informe, distribuída a esmo no espaço. Há entre eles toda uma rede de conexões. Eles formam uma equação bem definida, um mapa, um organograma completo. Sempre que uma das entidades que mencionei acima entra em ação, é em parceria com as outras. O PCC espalha o terror por meio de técnicas que aprendeu com o MST, que as absorveu das Farc, cujos líderes são íntimos da cúpula petista e do sr. presidente da República. O Comando Vermelho, para produzir efeito idêntico no Rio, usou o que aprendeu direto da elite esquerdista que hoje governa o país. Quando um agente das Farc é preso logo depois de declarar que deu dinheiro do narcotráfico ao PT, mais que depressa essa elite se mobiliza para mandá-lo ao exterior. Idêntica iniciativa surge da mesma fonte para libertar os mestres-seqüestradores do MIR chileno que pegaram Abílio Diniz e Washington Olivetto. E, quando o MLST entra na Câmara depredando tudo e esmagando crânios, quem está no seu comando é um membro da Comissão Executiva Nacional do PT. Não há ações isoladas. Distribuídos sob denominações diversas, quarenta milhões de fanáticos estão perfeitamente articulados, solidários, na afinação diabolicamente eficiente de uma orquestra da destruição.

Na época das CPIs, bastava aparecer uma ligação telefônica entre um empreiteiro e algum deputadinho corrupto para o PT sair gritando: “É uma conspiração! É um Estado dentro do Estado!” Diante de indícios imensuravelmente maiores e mais probantes, a nação ainda se recusa a conceber, mesmo de longe, uma hipótese semelhante para explicar o que acontece hoje, embora não haja nenhuma outra explicação plausível, exceto a aposta louca no prodígio das meras coincidências repetidas em série. É que hoje não há um Estado dentro do Estado. Há um Estado acima do Estado, impondo o caos e chamando-o de “ordem”. Nessas circunstâncias, parece sensato abolir a aritmética, a álgebra, a razão inteira, e apegar-se à esperança de um milagre. Mas o único santo milagreiro à disposição é São Lulinha, e o único milagre que ele sabe fazer é precisamente o que já está fazendo.
Olavo de Carvalho

segunda-feira, maio 29, 2006

Relembrar é oportuno!

Resumo: Foram os patriotas de copas que permitiram que a tradicionalmente delinqüente e incorrigível canalha vermelha voltasse a conduzir os destinos da nossa Pátria e chegássemos ao caos ao qual chegamos.

A propósito dos acontecimentos que, recentemente, abalaram a cidade de São Paulo e se estenderam por outros pontos do País, deixando a Nação perplexa e amedrontada, lembrei-me do que, há cerca de seis anos, li As Esquerdas e o Crime Organizado, um belo discurso que se fosse considerado por governantes, educadores e por bem intencionados formadores de opinião e, de um modo geral, pela sociedade, não chegaríamos à situação de calamidade pública com a qual ora nos deparamos. Por oportuno, relembrá-lo é da maior conveniência. Não se trata de profecia visionária de fantasmas inexistentes. Mas de fatos, de verdades que já naquela época saltavam aos olhos.

Nesse seu extenso e muito bem fundamentado grito de alerta, Olavo de Carvalho dissecava e comentava o livro de autoria de Carlos Amorim - “Comando Vermelho. A História Secreta do Crime Organizado”.

Logo no início desse artigo, Olavo de Carvalho, com muita propriedade, assim se manifestava sobre a obra: “é um trabalho de valor excepcional, cuja leitura se recomenda a todos os brasileiros que se preocupem com o futuro deste país. Futuro do qual se pode ter um vislumbre pelas palavras de William Lima da Silva, o “Professor”, fundador e guru do Comando Vermelho... etc”.

Inspirado nesse precursor grito de alerta, corri atrás do livro indicado, percorrendo as principais livrarias da cidade do Rio de Janeiro. Estava esgotado. Por uma dessas ironias do destino fui encontrá-lo em um sebo, perto da minha residência, cuja peculiaridade era a de vender livros usados, com ênfase para as obras de Marx, Lenine, Mao, Regis Debray e assemelhados, de forma a matar dois coelhos com uma só cajadada; adiante explico.

Como sempre gosto de ilustrar meus textos com historinhas correlatas, aqui peço vênia para abrir um parêntesis no assunto acima iniciado, para justificar a citada ironia do destino. Informo aos meus prezados leitores que o dono do sebo, identificando-me como voraz leitor das obras de Marx et caterva e certificando-se da minha fluência no “comunistês”, abriu. A abertura do dono do sebo consistiu em me contar que era o chefe da célula do Partido Comunista do Brasil (PC do B) do bairro e que nos fundos da livraria é que, semanalmente, se realizavam os encontros do grupo que chefiava. Aduziu que, além disto, a venda dos livros fazia caixa para pagar o aluguel da loja que sem despertar suspeitas abrigava os encontros, ao mesmo tempo em que disponibilizava a literatura que convinha ao seu Partido. Como disse-me simpatizante comunista, fui convidado para me alistar no Partido, chegando a receber a ficha de inscrição. Arrotando a famosa ética comunista, fiz questão de pagar o livro (R$ 9,00) que me foi oferecido de graça. Peguei-o e “sumi do mapa”.

Dizia-se que um subversivo “abriu”, quando um militante comunista era preso e, ao ser interrogado, de bom grado confessava sua participação em atividades subversivas, no mais das vezes, para salvar a pele, em delação premiada, “entregava” a sua organização e seus “cumpanheiros”. É claro que era um dito, utilizado por integrantes do Sistema Nacional de Informações (hoje, Inteligência), desde há muito usado por policiais e, também, adotado pelos subversivos, nos anos, ditos “de chumbo”.

Porque vivi intensamente tais anos eu refuto a pecha: nem tanto chumbo quanto dizem, em continuado e cínico trabalho subversivo que visa incutir no senso comum da sociedade que eram santas as criaturas que, “por amor à democracia”, combatiam a ditadura que destruiu as suas vidas. Deslavada mentira, pois quase que a totalidade dos inimigos da Pátria, mesmo professando doutrina alienígena, sobreviveu e, voltando, foi-lhe permitido tomar o governo da República e meter a mão no dinheiro público, para a reedição da frustrada tentativa de transformar o Brasil num país socialista.

Muitos dos que para isso concorreram e agora choram lágrimas de sangue, podem ser enquadrados na categoria daqueles que SÓ se interessam pelo destino do seu País, quando o Brasil disputa a Copa do Mundo. No mais, cuidam das suas conveniências pessoais e o resto que se dane.

Foram esses patriotas de copas, repito, que permitiram que a tradicionalmente delinqüente e incorrigível canalha vermelha voltasse a conduzir os destinos da nossa Pátria e chegássemos ao caos ao qual chegamos. Agora agüentem, raciocinem se conseguirem, tendo em mente só o consolo de que errar é humano. Mas não se esqueçam de que é recomendável a lembrança de que persistir no erro é burrice.

Voltando ao início do assunto, relato que devorei o livro de Carlos Amorim e aproveitei a esclarecedora contribuição do Olavo para difundir no meu círculo a sua preciosa advertência. Então, escrevi um artigo que foi publicado no extinto jornal alternativo Ombro a Ombro e transcrito em dois “sites” da Internet.

A seguir, permito-me, em excerto, relembrar alguns dos seus tópicos, no intuito de mais uma vez mostrar que a omissão das nossas autoridades e a leniência da sociedade são coisa da antiga, portanto, não me causando espanto a recente prisão do festejado “rapper” Colibri, indiciado pelo Ministério Público por cumplicidade com o crime organizado:

“Por uma dessas ironias do destino” ou “mera coincidência”, pouco tempo depois de ler o livro, encontrei, na página oito de O Globo de 24/06/2000, a transcrição da letra de um "rap" do grupo Facção Central que faz parte do terceiro CD desses propagandistas do crime e da violência que vêm invadindo nossos lares, por intermédio de um videoclipe apresentado pela MTV, como lídima e autêntica manifestação artística. O pior é que tem quem disto goste, isto é: tem bobo para tudo. Venderam cerca de 38 mil discos.

Matando a normal curiosidade dos meus leitores e, antecipadamente, me desculpando pela possível provocação da Síndrome do Pânico Coletivo, além de inevitáveis espasmos estomacais que possam advir da sua leitura, atrevo-me a transcrever trechos da composição intitulada:

É UMA GUERRA ONDE SÓ SOBREVIVE QUEM ATIRA

– "Quem enquadra a mansão, quem trafica. Infelizmente o livro não resolve/O Brasil só me respeita com o revólver/ O juiz ajoelha, o executivo chora/ Para não sentir o calibre da pistola/ Se eu quero roupa, comida, alguém tem de sangrar/ Vou enquadrar uma burguesa/ E atirar para matar/ Vou furtar seus bens/ E ficar bem louco/ Seqüestrar alguém no caixa eletrônico/ A minha quinta série só não adianta/ Se eu tivesse um refém com o meu cano na garganta/ Aí não tem gambé para negociar/ Vai se ferrar, é hora de me vingar”.

Se atentarmos para esse amontoado de sandices, aparentemente desconexas, podemos afirmar, sem dúvida de erro, que a fraseologia é eminentemente revolucionária e as cabeças dos seus autores armazenam ódio e desejo de vingança contra toda a sociedade. Por outro lado, nunca é demais assinalar-se que esses "poetas" não nasceram com tais idéias. Essa cantilena incitadora, nossa velha conhecida, está claramente estruturada por princípios da luta de classes. Tem dono e difusores. Acredito que nem preciso dizer quem são e muito menos que bombardeiam, com rara eficácia, o nosso dia-a-dia, seja por insanos, “papagaios", seja pela imprensa escrita, falada ou como nesse caso, pela telinha da TV.

Depois destes concretos exemplos de propaganda político-ideológica, fica claro que os alunos da Ilha Grande tornaram-se também professores para novas gerações e, em cadeia, propagaram-se idéias e ideais que vêm, pela mão do crime organizado, infernizando a vida de toda uma população e estimulando a proliferação do crime desorganizado.

É uma bola de neve rolando montanha abaixo e que, para dissolvê-la, não mais urgem, já rugem, sérias, honestas, demoradas e substanciais ações, principalmente no campo educacional – lato senso - pois paliativos demagógicos como melhoria da iluminação pública e outras baboseiras constantes do Plano Nacional de Segurança Pública, do governo Fernando Henrique, recentemente divulgado como a oitava maravilha, só servem para facilitar o gasto, nem sempre honesto, do dinheiro público, bem como para massagear o ego da turma do “quanto pior, melhor”. E acredite quem quiser: essa gente deve estar dando boas gargalhadas às custas de uma aflição nacional a qual, perversamente, fomentaram.

Jorge Baptista Ribeiro
Coronel R/1 do Exército é bacharel em Ciências Sociais, pela então Universidade do Estado da Guanabara e estudioso da Guerra Revolucionária.

sábado, maio 27, 2006

Moral em concordata

Por levar uma vida muito pobre, Estrela começa a buscar outras formas de ganhar a vida. Com ela mora sua irmã Rosário, que é totalmente diferente: bonita, cercada de admiradores e, segundo seus vizinhos, "uma vigarista que troca a noite pelo dia". Inspirada na irmã, Estrela decide dar uma reviravolta na sua vida. Este é o argumento de uma peça (com o título acima) do grande comediógrafo paulista Abílio Pereira de Almeida - do qual se comemora o centenário de nascimento este ano.

A peça era premonitória do Brasil de hoje. Uma certa Estrela partidária (no caso, vermelha), de tanto ver seus irmãos (de outros partidos) se darem bem ao não ligarem a mínima para os fuxicos dos vizinhos - presos à mania boba da "ética na política" -, resolveu optar de vez pela imoralidade - e nela tem feito o povo eleitoral embarcar. A vantagem da moral em concordata é que ela é temporária e pode evitar a falência definitiva. Trata-se de uma flexibilização de comportamentos destinada a adaptá-los a valores mais pragmáticos. Por exemplo, por que o exagero de se falar em crime eleitoral, se dá para julgá-lo simples caixa 2? Por que empregar a terrível palavra "roubo" para descrever a mera utilização de recursos não contabilizados? Qual a diferença entre enviar recursos por transferências interbancárias ou por meio de dólares na cueca - aí não se trata apenas de tamanho de fundos?

Ao jogar a toalha para o reeleitorável presidencial, oferecendo-lhe como concorrente um candidato reserva, apenas para cumprir tabela e poupar seus titulares para 2010, o Triunvirato Trapalhão (Tritrap) - composto de líderes inteligentes, mas estranhamente desastrados, se reunidos, com bons vinhos, em São Paulo ou Nova York - não agiu sem base. Detectou, por antecipação, a inexorável reeleição. Descobriu que é imbatível uma popularidade presidencial baseada no aumento, em 60%, do poder de compra de quem ganha até cinco salários mínimos e num salário mínimo que, pela valorização da moeda nacional, já superou US$ 150 (quando antes se sonhava chegar a US$ 100). Descobriu, por outro lado, que, enquanto 58% da população se preocupa com o desemprego, 57%, com a violência e 38% com a saúde, apenas 7% se revelam preocupados com a falta de ética.

Mensalão? Quadrilha dos 40 (fora os não contabilizados)? Burla descarada à legislação eleitoral? Emprego despudorado do dinheiro dos contribuintes em campanha não confessada? Ratazanas devoradoras do erário por meio das mais diversificadas maracutaias praticadas em amplos setores do serviço público, "aparelhamento" brutal, desvios de verbas, licitações fraudulentas, "avanços" em recursos de estatais, falcatruas com fundos de pensão, propinas, caixas 3, caixas 4 e o que mais? Quem está preocupado com tudo isso? Apenas 7% dos eleitores. Então, por que dar tanta importância a isso?

Mas não há razão para pessimismos. Essa imoralidade é apenas provisória - como a inadimplência coberta por uma concordata. É verdade que uma certa geração poderá acostumar-se, mais do que o desejável, com certas facilidades na dura luta pela vida. Mas uma propinazinha aqui, um dinheirinho por baixo do pano ali, um suborninho discreto, uma falsificaçãozinha que ninguém percebe acolá - sem ser coisa exagerada, que prejudique muito os outros - não poderão melhorar a vida de tanta gente? Também há aí um sentido de isonomia, de igualdade de tratamento e de oportunidades para todos. Se tantas pessoas na vida política têm sido extremamente bem-sucedidas, cometendo seus delitos (quer dizer, erros, equívocos), mas sendo devidamente absolvidas (perdoadas) por seus companheiros de labuta, por que não ter a humildade de fazer igual, de seguir seus métodos de sucesso? Claro que o importante é aprender a não deixar pistas. Já diz o velho ditado popular: "Feio é roubar e não saber carregar."

Outro aprendizado fundamental é o da aparência de indignação ante um flagrante. O que melhor temos absorvido, na observação da vida política brasileira nos últimos tempos, é o pleno êxito produzido pela pura e enfática negação de responsabilidades, mesmo que isso represente um violento atentado à lógica, à clareza dos indícios, à evidência da ocorrência, à realidade dos fatos. Negar com convicção o inegável já é meio caminho para obter a absolvição. Na verdade, nos dias que correm o melhor treinamento para o sucesso consiste no rápido repúdio às próprias culpas. O melhor para quem rouba é fazer o esforço mental - sincero e transparente - para se lembrar de como e quando adquiriu aquilo que alegam ter ele roubado (e que de fato ele roubou). Alguns podem sentir alguma dificuldade nisso - mas o nosso meio público-político está cheio de demonstrações de que tudo é uma questão de treino.

É preciso entender que para se sair bem na vida público-política brasileira, nos tempos atuais, algum esforço de adaptação se torna necessário. Tem-se que adotar o costume das meias verdades, das meias lealdades. Tem-se que reconhecer o valor dos disfarces construtivos, das insinuações desmentíveis, das belas ambigüidades. Tem-se que assumir a nobre fusão do certo com o errado, do ser com o não ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Tem-se que admitir que o dito pode ser enriquecido, brilhantemente, pelo posterior não dito - e divulgado com o maior prazer pelos profissionais de imprensa, especialmente se estes forem os acusados de culpados pelo mal-entendido em questão.

Enfim, essa moral em concordata ensinará a sociedade brasileira a não ter medo de ser feliz, ante a flexibilização de sua consciência.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e produtor cultural. E-mail: mauro.chaves@attglobal.net

quinta-feira, maio 25, 2006

Força negativa

Talvez o maior dano à democracia que o atual governo causou tenha sido
provocar o descrédito nas instituições públicas e o desânimo, a apatia,
que tomou conta da sociedade diante das graves denúncias de corrupção
surgidas. A partir de sua própria postura de afirmar desconhecer tudo o
que aconteceu à sua volta, Lula deu a senha para que o sorriso idiotizado dos delúbios petistas se tornasse a melhor defesa dos 40 membros da quadrilha que atuava a partir do Palácio do Planalto. Há um consenso de que o governo, a partir do comportamento pessoal do próprio presidente Lula, teve êxito na estratégia de disseminar a idéia de que todos ospolíticos são igualmente corruptos, e de que as denúncias surgidas não passam de reflexos de luta política, pois corrupção sempre houve, a começar pelos oito anos anteriores de governo tucano.

Até que o choque provocado há um ano pelas denúncias do ex-deputado Roberto Jefferson fosse absorvido, a opinião pública reagiu conforme o esperado, e a popularidade do presidente Lula desabou durante alguns meses. Mas aos poucos o trabalho de recuperação da imagem do presidente, às custas da generalização das mazelas dos políticos, especialmente os do PT, conseguiu estabelecer na sociedade a percepção de que política é assim mesmo.

Com atitudes erráticas, que pareciam fruto de uma desorientação genuína,mas hoje se revelam parte de uma estratégia ardilosamente montada, o presidente Lula foi se afastando dos acontecimentos, deixando seus “companheiros” na fogueira, mas ao mesmo tempo instaurando no país um clima propício à impunidade dos acusados do esquema do “mensalão”.
Pudesse o presidente Lula ter assumido a dianteira das ações punitivas aos que inicialmente acusou de traição, o ambiente seria mais saudável hoje.
Para essa hipótese ser verdadeira, no entanto, seria preciso que Lula
realmente desconhecesse o que acontecia à sua volta, o que, a cada dia
fica mais claro, é impossível ter acontecido. O presidente Lula usou seu enorme carisma popular, e os programas assistencialistas, para confundir a opinião pública com atitudes dúbias, auxiliando na criação do álibi do caixa dois para substituir a roubalheira pura e simples. Estabelecida a premissa de que todos são ladrões, Lula sai do episódio isento de culpa pessoal, não se importando que o patrimônio eleitoral do PT tenha se deteriorado pelo caminho.

O líder operário transformou-se no “neo-pai do pobres”, um papel que recusava no início de sua carreira sindical. Para Lula, a CLT é o “AI-5 dos trabalhadores”, e Getúlio Vargas era o “pai dos pobres e mãe dos ricos”, epíteto que hoje é utilizado pelos adversários contra ele. Lula também recusava o populismo getulista, e hoje é acusado do mesmo pecado político, que, no entanto, lhe garante a vasta popularidade que as pesquisas de opinião apontam, devido especialmente ao aumento real do salário-mínimo e a distribuição da Bolsa-Família a 11 milhões de famílias sem uma fiscalização rigorosa das exigências de cuidados médicos e educação.

Hoje, a CLT e a representação sindical, os marcos mais visíveis da Era Vargas, continuam intocados. Mas o sindicato continua cada vez mais atrelado ao Estado, e a reforma sindicalista mantém o imposto sindical, fortalecendo a CUT, entidade que Lula ajudou a fundar. Os sindicalistas se espalham em postos-chave do governo, o número de funcionários públicos contratados, base ideológica e financeira do Partido dos Trabalhadores,cresceu aceleradamente. Mas mudar de opinião sem guardar uma coerência histórica mínima tem sido a tônica do presidente Lula. O “mea-culpa” público que fez diante do ex-presidente José Sarney, a propósito de críticas que teria feito sem saber por que, é apenas o pedágio que paga pelo trabalho de Sarney — a quem um dia chamou de ladrão — de neutralizar a candidatura própria do PMDB.

Quando toda farra eleitoral produzir efeitos plenos, incluindo o
descontrole da Previdência, cujo déficit cresceu 25% em abril e crescerá mais em maio, com o impacto do aumento do salário-mínimo, poderemos ter uma crise fiscal no governo federal de proporções razoáveis. Ao mesmo tempo, temos uma economia mundial que dá sinais de que a crise pode ser mais grave do que se pensava. A persistir, essa mudança de situação pode afetar o ponto central da campanha de reeleição de Lula, que é o sucesso da política econômica. Se o crescimento da economia for menor, se a queda dos juros tiver que ser freada ou, numa hipótese pessimista, o Banco Central tiver que aumentar a taxa durante a campanha eleitoral, e se o dólar voltar a patamares que pressionem a inflação, poderá mudar também o humor do eleitorado.

Com a dificuldade de cumprir o superávit primário de 4,25% do PIB, a variável chave para o equilíbrio das contas públicas seria a velocidade da queda dos juros. Mesmo que nada disso afete as possibilidades de vitória de Lula, estaria em gestação o que, entre tucanos graduados, está sendo classificado de “o sucesso do fracasso”: quanto maior o sucesso eleitoreiro da farra fiscal e do populismo cambial neste ano, pior será o tombo da economia logo em seguida.
Merval Pereira

quarta-feira, maio 24, 2006

Experimento sociológico

A maioria dos cientistas sociais não se dedica a outra coisa senão a explicar os acontecimentos como efeitos de "causas" impessoais e anônimas, como por exemplo a "luta de classes" (com todas as variações aí introduzidas pela moda e pelas conveniências táticas), escamoteando a ação concreta dos indivíduos e grupos que dirigem o processo. Tudo aí parece derivar de estruturas, de leis, de estatísticas, reduzindo-se os agentes reais a meros instrumentos, quase sempre inconscientes, de forças coletivas que os transcendem imensuravelmente. A principal utilidade dessa construção fantasiosa é encobrir sob um manto de invisibilidade a força dos próprios cientistas sociais enquanto "agentes de transformação", bem como a dos grupos e entidades que lhes dão sustentação editorial e financeira.
Os exemplos sucedem-se a cada semana, mas tornam-se mais enfáticos nos momentos de confusão e pânico, quando essas criaturas das trevas emergem de seus sepulcros acadêmicos para vir explicar ao mundo que não há nada de novo sob o Sol, que está tudo sob o controle infalível da ciência que professam. Assim, diante do estado insurrecional triunfante produzido em São Paulo por uma iniciativa estratégica bem articulada entre o governo brasileiro e três organizações milionárias, PCC, MST e FARC, o sociólogo francês Loïc Wacquant, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, foi convocado às pressas pela Folha de S. Paulo do dia 15 para acusar os culpados de sempre e ajudar as vítimas a não enxergar os agentes efetivos por trás do processo.

A principal glória curricular do prof. Wacquant é ser autor de dois livros que explicam a criminalidade como efeito da guerra dos ricos contra os pobrezinhos e ter recebido, em função de suas obras, um prêmio da paupérrima John D. & Catherine T. MacArthur Foundation, badalado como "o prêmio dos gênios".

Felizmente, a ciência social às vezes nos fornece o antídoto à sua própria vigarice. No caso, o antídoto é o "experimento imaginário" sugerido por Max Weber para comparar a importância relativa de vários fatores causais numa dada situação. Trata-se de fazer abstração mental de determinado fator e averiguar se, sem ele, os acontecimentos teriam sido possíveis. Suponhamos a miséria e a desigualdade. Elas estão presentes por igual em sociedades assoladas pela violência criminosa e entre povos mais pacíficos como os indianos e os romenos. Mutatis mutandis , a criminalidade no Brasil não se expandiu nas áreas mais pobres, mas justamente naquelas que, ao longo das últimas décadas, passaram da miséria absoluta a um padrão de vida que, na Índia, seria considerado de classe média, como por exemplo as favelas cariocas. Omitida a comparação, porém, restam dentro de cada área isolada sinais aparentes em quantidade bastante para manter viva a impressão de que o crime é efeito da miséria. Acoplada a outro topos da retórica esquerdista, o de que a miséria é causada pelo imperialismo americano, essa crença tem por efeito despertar o ódio aos EUA e fomentar esperanças messiânicas numa nova ordem internacional paradisíaca, a ser instaurada sob os auspícios da ONU, da China e da Rússia. Para a realização desse objetivo trabalham incansavelmente várias fundações bilionárias, entre as quais Rockefeller, Carnegie, Soros e, é claro, MacArthur. Seus esforços nesse sentido já foram bem documentados meio século atrás por uma comissão do Congresso americano (v. René A. Wormser, Foundations: Their Power and Influence , New York, Devin-Adair, 1958) e desde então não fizeram senão multiplicar-se em abrangência e quantidade de recursos, incluindo dotações de dinheiro do próprio governo de Washington, que essas entidades sugam e utilizam para seus próprios fins (de modo que esse governo acaba aparecendo como o culpado do que fazem contra ele). Premiar uns quantos "gênios" que ajudem a revestir de honorabilidade científica a trapaça essencial em que se assenta a operação é a parte menos dispendiosa do orçamento. O grosso do dinheiro vai para fomentar diretamente movimentos subversivos e organizações pró-terroristas (v. a estrutura da rede em http://www.discoverthenetwork.com ).

Se, de acordo com o experimento weberiano, abstrairmos do quadro presente a atuação dessas fundações, o resultado será simplesmente que a esquerda revolucionária do Terceiro Mundo não teria podido continuar a existir e prosperar depois da queda da URSS e, portanto, a utilização do crime como instrumento da subversão organizada, que é o seu principal modus operandi na última década, se tornaria inviável.

O banditismo, assim, cresceu junto com o prestígio oficial da tese mesma que o explica pela luta de classes. Alegando razões fundadas nessa teoria, o prof. Wacquant prevê um aumento da violência no Brasil. Mas essas razões são desnecessárias. A violência crescerá junto com o número de idiotas que acreditam no prof. Wacquant.

Se os praticantes da ciência wacquântica fossem sérios, estudariam um pouco de lógica da investigação científica e saberiam que nenhuma correlação causal (entre pobreza e crime ou entre qualquer coisa e qualquer outra) pode ser generalizada para um grupo abrangente de casos sem que esteja muito bem provada ao menos em alguns deles individualmente. Ora, na escala individual a pobreza só pode ser justificação direta e determinante do crime em exemplos excepcionais e raros – tão excepcionais e raros, na verdade, que em todo país civilizado a lei os isenta da qualificação mesma de crimes. São os chamados "crimes famélicos" – o desnutrido que rouba um frango, ou o pai sem tostão que furta um remédio para dar ao filho doente. Em todos os demais casos, a pobreza, se está presente, é um elemento motivacional que, para produzir o crime, tem de se combinar com uma multidão de outros, de ordem cultural e psicológica, entre os quais, é claro, a persuasão pessoal de que delinqüir é a coisa mais vantajosa a fazer nas circunstâncias dadas. Quando o hábito da delinqüência se espalha rapidamente numa ampla faixa populacional, é claro que, antes dele, essa persuasão se tornou crença geral nesse meio, reforçando-se à medida que as vantagens esperadas eram confirmadas pela experiência e pelo falatório. Ora, é de conhecimento público que, entre a mesma população pobre, por exemplo das favelas cariocas ou da periferia paulistana, duas crenças opostas se disseminaram concorrentemente nas últimas três décadas: de um lado, o apelo do crime; de outro, a fé evangélica. Numa população uniformemente pobre, o número de evangélicos praticantes que delinqüem é irrisório. Basta esse fato para provar que a correlação entre pobreza e crime é uma fraude, um sofisma estatístico da espécie mais intoleravelmente suína que se pode imaginar. Nenhuma ação humana é determinada diretamente pela situação econômica, mas pela interpretação que o agente faz dela, interpretação que depende de crenças e valores. Estes, por sua vez, vêm da cultura em torno, cujos agentes criadores pertencem maciçamente à camada letrada, como por exemplo os bispos evangélicos e os cientistas sociais. Os bispos ensinam que, mesmo para o pobre, o crime é um pecado. Os cientistas sociais, que os criminosos, agindo em razão da pobreza, são sempre menos condenáveis do que os ricos e capitalistas que (também por uma correlação geral mágica) criaram a pobreza e são por isso os verdadeiros culpados de todos os crimes. Essas duas crenças disputam a alma da população pobre. Não é preciso dizer qual delas estimula à vida honesta, qual à prática do crime. Nos bairros mais miseráveis e desassistidos, qualquer um pode fazer esta observação direta e simples: as pessoas de bem repetem o discurso dos bispos, os meliantes o dos cientistas sociais (do sr. Marcola nem preciso dizer nada, já que ele próprio é meio cientista social). Quando, do alto das cátedras, esses senhores pregam a doutrina de que a pobreza produz o crime, não estão cometendo um inocente erro de diagnóstico. Estão ocultando, com maior ou menor consciência, a colaboração ativa que eles próprios, por meio dessa mesma doutrina, dão ao crescimento irrefreado da criminalidade. E, quando são premiados por uma organização ostensivamente interessada em disseminar a subversão, como é o caso notório da Fundação MacArthur, eu seria o último a negar que mereceram o prêmio.

Se, deixando de lado as generalizações etéreas, nos atemos à seqüência real dos fatos, a ordem temporal de produção dos acontecimentos da semana passada aparece com o seguinte desenho:

1 - Desde a década de 30, atendendo a uma ordem de Stalin, a intelectualidade esquerdista mundial, onde há mais cientistas sociais per capita do que lobos numa alcatéia, se dedicou ativamente a infundir em todas as patologias sociais, como o crime e o racismo, a substância universalmente explicativa da luta de classes. O esforço dos teóricos foi aí secundado por uma multidão inumerável de romances, filmes, peças de teatro e canções populares que faziam a idéia penetrar profundamente no imaginário popular ao ponto de se tornar um dogma inabalável. Nos países do Terceiro Mundo, justamente graças à profusão de patologias sociais existentes, essa doutrina se impregnou com aderência maior ainda, tornando-se o tema dominante, senão único, de várias culturas nacionais, entre as quais a brasileira (dediquei a esse tema uma série de artigos publicados em 1994 sob o título "Bandidos e letrados").

2 - Quando o ambiente cultural estava suficientemente preparado, a transformação do banditismo em instrumento da luta de classes revolucionária passou da teoria à prática. No Brasil, especialmente, o empenho organizado dos militantes de esquerda para arregimentar a serviço da subversão as gangues de delinqüentes já é um fato abundantemente documentado desde a década de 60. Da esquerda o banditismo absorveu não somente a doutrina e o discurso, mas também as técnicas de guerrilha urbana que empregou, por exemplo, no movimento insurrecional da semana passada. O contato entre as gangues e os grupos terroristas intensificou-se ao ponto de tornar-se institucional. A presença de técnicos das FARC e das organizações terroristas islâmicas em vários grupos criminosos do Brasil já se tornou tão freqüente que não suscita mais nenhuma reação de escândalo. Acostumamo-nos a isso como a um dado da natureza.

3 - Quando a esquerda latino-americana, em 1990, passou por um formidável upgrade com a fundação do Foro de São Paulo, as organizações de narcotraficantes, seqüestradores e assaltantes acompanharam-na na sua ascensão social, assentando-se ao lado de partidos legais como o PT e o PC do B nas assembléias do Foro, coordenação estratégica do movimento comunista latino-americano. Desde então, todo empreendimento subversivo de larga escala, no continente, é realizado sob a supervisão ao menos indireta do Foro de São Paulo. Não há mais iniciativas isoladas: o banditismo avulso vai sendo sepultado na memória coletiva como um resíduo de eras extintas. Por toda a parte o que se vê é integração, conexão, unidade ideológica e estratégica.

4 - Como fundador e principal líder do Foro de São Paulo, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva sempre esteve muito bem informado do grau de organização que seus colegas de militância haviam conseguido transmitir aos grupos de delinqüentes, nas cadeias ou fora delas. Mais informado ainda encontrava-se esse cidadão pelo fato de ser presidente da República, tendo sob seu serviço direto os órgãos de inteligência e a Polícia Federal, além, é claro, da figura insubstituível do seu ministro da Justiça, cuja convivência íntima com os líderes maiores do banditismo nacional tem representado, para ele, mais que um estilo de vida, um meio de próspera subsistência.

5 - Em vista disso, é absolutamente impossível que essas duas excelências ignorassem a preparação do mais vasto movimento insurrecional já planejado neste país no último meio século, e que, portanto, fosse com cândida inocência e desconhecimento das conseqüências que a primeira autorizou e a segunda pôs em prática o indulto que colocou na rua, livres, armados e bem articulados, doze mil delinqüentes, entre os quais os autores da carnificina.

6 - Mais impossível ainda é que os excelentíssimos ignorassem o detalhe mais lindamente perverso da situação que geraram. Todo mundo sabe que, neste país, os policiais recebem uma quantidade irrisória de munições, tendo de dispender do próprio bolso para garantir-se em situações de risco de vida. Ao ver-se acossados, nas ruas, nos batalhões e nos postos, por inimigos decididos a tudo e incomparavelmente mais armados e municiados, os policiais paulistas, naturalmente, correram às lojas de armamentos para trocar o leite das crianças por meios elementares de defesa. Com enorme surpresa, descobriram que um determinado item da lei do desarmamento, que até então jazia inerte num papel, tinha acabado de entrar em vigor: não podiam comprar munição nenhuma sem autorização escrita da Polícia Federal. Comerciantes de armas relatam que viram policiais saírem de suas lojas chorando, conscientes de que estavam condenados à morte sem apelação. Se me disserem que o sr. ministro da Justiça ignorava essa armadilha, responderei então que ele é o mais estúpido incompetente que já passou pelo seu cargo, já que a entidade encarregada de fornecer as autorizações repentinamente exigidas e faltantes está sob o seu comando direto. Mas somente um país muito louco, muito alienado, mantém nesse cargo, numa hora dessas, o advogado pessoal do próprio chefe da insurreição. Como defensor de Marcola, o sr. Márcio Thomaz Bastos tem confiabilidade zero até mesmo para dar uma opinião imparcial quanto aos acontecimentos da semana passada, quanto mais para reter em suas mãos, com avareza assassina, os meios de defesa que teriam podido salvar centenas de pessoas.

7 - Aqueles que acima da suspeita racional coloquem a crença dogmática na idoneidade do governo petista podem apostar numa conjunção fortuita de fatores, na santa e pura coincidência. Eu é que não.

P.S.- A situação de total desamparo em que o governo brasileiro deixa os policiais, entregando-os à mercê dos criminosos, já é um fato oficialmente reconhecido pela justiça norte-americana. No fim de abril, um tribunal da Flórida concedeu asilo político a um policial de Minas Gerais por reconhecer que, após matar em tiroteio um importante líder do narcotráfico local, o infeliz estava tão desguarnecido quanto um pato de plástico num estande de tiro. Voltarei ao assunto num próximo artigo. Como a promotoria abdicou de recorrer da sentença, a decisão está incorporada à jurisprudência americana e valerá para os casos subseqüentes. Os policiais brasileiros propositadamente deixados sem munição na hora do aperto já não podem dizer que não têm a quem recorrer: esqueçam o sr. Márcio Thomaz Bastos, peçam socorro à justiça de um país onde existe justiça.
Olavo de Carvalho, de Washington DC